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A identidade e a cidade

Por Daniel A. Bell, Avner de-Shalit, Professor na Universidade Jiao Tong, Xangai, e na Universidade de Tsinghua, Pequim

“Qual é o grande acontecimento da nossa época? Depende do dia, mas se contarmos por séculos, então de certeza que a urbanização da humanidade é um forte candidato. Hoje, mais de metade da população mundial vive em cidades, em comparação com os menos de 3% em 1800. Em 2025, só a China deverá ter 15 “mega-cidades”, cada uma com uma população de pelo menos 25 milhões de habitantes. Estão os críticos sociais preocupados com a solidão atomizada da vida nas grandes cidades?

É certo que as cidades não podem fornecer o sentido rico de comunidade que muitas vezes caracteriza as aldeias e as pequenas cidades. Mas uma forma diferente de comunidade evolui nas cidades. As pessoas têm muitas vezes orgulho das suas cidades e procuram sustentar as suas culturas cívicas distintivas.

Ter orgulho da nossa cidade tem uma longa história. No mundo antigo, os atenienses eram identificados pelo etos democrático da sua cidade, enquanto os espartanos orgulhavam-se da reputação que a sua cidade tinha de disciplina militar e de força. É claro que as actuais áreas urbanas são enormes, diversificadas e pluralistas, por isso pode parecer estranho dizer que uma cidade moderna tem um etos que transmite a vida colectiva dos seus moradores.

No entanto, as diferenças entre, digamos, Pequim e Jerusalém, sugerem que as cidades têm tal etos. Ambas são construídas com um núcleo cercado por círculos concêntricos, mas o núcleo de Jerusalém exprime valores espirituais, enquanto o de Pequim representa o poder político. E o etos de uma cidade não molda somente os seus líderes. Pequim atrai os principais críticos políticos da China, enquanto os críticos sociais de Jerusalém defendem uma interpretação da religião que mantém as pessoas, em vez dos objectos inanimados, sagrados. Em ambos os casos, apesar das objecções aos princípios específicos da ideologia dominante, poucos rejeitam o etos.

Ou veja-se o caso de Montreal, cujos moradores têm de navegar na complexa política linguística da cidade. Montreal é um exemplo relativamente bem-sucedido de uma cidade onde tanto os anglófonos como os francófonos se sentem em casa, mas onde os debates linguísticos dominam, contudo, o cenário político – e constrói um etos para os residentes da cidade.

Hong Kong é um caso especial, onde o modo de vida capitalista é tão central que está consagrado na Constituição (a Lei Básica). Ainda assim, o capitalismo de Hong Kong não se fundamenta simplesmente na procura de ganhos materiais. É sustentada por uma ética confucionista que dá prioridade ao cuidado de outras pessoas acima dos próprios interesses, o que ajuda a explicar o porquê de Hong Kong ter a maior taxa de doações no leste da Ásia.

Paris, por outro lado, tem um etos romântico. Mas os parisienses rejeitam o conceito banal de Hollywood do amor como sendo uma história que tem sempre um final feliz. A ideia que eles têm de romance centra-se na sua oposição aos valores sóbrios e à previsibilidade da vida burguesa.

Na verdade, muitas cidades têm identidades distintivas das quais os seus residentes se orgulham. O orgulho urbano – ao qual chamamos “civicismo” – é uma característica fundamental das nossas identidades nos dias de hoje. Isto é importante, em parte, porque as cidades que têm um etos claro podem resistir melhor às tendências homogeneizantes da globalização. É preocupante quando os países proclamam os seus ideais intemporais e orgânicos, mas afirmar a particularidade de uma cidade pode ser um sinal de saúde.

As cidades chinesas procuram contrariar a uniformidade através de campanhas para recuperarem o seu “espírito” único. Harbin, por exemplo, orgulha-se do seu historial de tolerância e de abertura aos estrangeiros. Noutros lugares, o site oficial de Telavive celebra, entre outras atracções, o papel progressista da cidade como sendo um centro mundial para a comunidade gay.

O orgulho urbano pode também evitar o nacionalismo extremo. A maioria das pessoas necessita de uma identidade comunitária, mas pode ser melhor encontrá-la através da ligação a uma cidade do que através da ligação a um país que está armado e disposto a envolver-se em conflitos com os inimigos. Os indivíduos que têm um forte sentido de “civicismo” podem tomar decisões baseadas em algo mais do que o simples patriotismo, quando se trata de compromissos nacionais.

As cidades que têm um forte etos também podem cumprir os objectivos políticos que são difíceis de alcançar a nível nacional. A China, os Estados Unidos e até mesmo o Canadá podem demorar anos até implementarem planos sérios para enfrentarem as alterações climáticas. No entanto, cidades como Hangzhou, Portland e Vancouver orgulham-se dos seus etos “verdes” e vão muito além dos requisitos nacionais em termos de protecção ambiental.A urbanização é responsável por uma grande variedade de males sociais modernos, que vão desde o crime e a indelicadeza até à alienação e à anomia. Mas, ao macerar-nos com os seus espíritos únicos e com as suas identidades, as nossas cidades podem, de facto, ajudar a fortalecer a humanidade para enfrentar os desafios mais difíceis do século XXI.”

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