Tag Archives: Terrorismo

mesmo no anûs

Activistas em todo o mundo defendem a abolição da pena de morte nos países em que o código penal ainda a contempla.

Anders Breivik ceifou a vida a 86 jovens. No Texas, já teria sido electrocutado ou já estaria no chamado corredor da morte.

Em Oslo, Breivik pediu ou para ser absolvido ou para morrer à moda do Alabama.

E depois estendeu o braço melhor que o McCain, nesta pose que deve ser considerada como “power rangers, chamem o mega zord”

foto: Odd Andersen

Todo o “caso Breivik” é recheado de pormenores macabros. Os vídeos na internet em que Breivik explicava os passos para o horror. A defesa, a insistir o internamento numa ala psiquiátria e o réu a contrariar a defesa na medida em que não queria ir para a ala psiquiátrica, preferindo antes morrer. A observação dos métodos de ataques terroristas executados pela Al-Qaeda e as motivações relacionadas com o movimento nacionalista sérvio, sem esquecer o elogio ao Nazismo Alemão: “Os Nazis eram expansionistas, eu sou isolacionista” – a cada sessão de julgamento, Breivik e a sua defesa, para além de constantemente proferirem afirmações contrárias, trazem uma nova para contar.

A institucionalização é um termo criado nas prisões americanas para criminosos que, ou já não querem sair da cadeia depois de cumpridas longas penas porque já não se conseguem adaptar à vida em sociedade ou que saem da cadeia completamente reabilitados para a sociedade. A institucionalização é portanto um dos objectivos pretendidos pela justiça norte-americana, sendo que o principal é e sempre será a prevenção do crime por via de sanções duras que dêem o aviso à sociedade que a prática de certos comportamentos terão certas consequências.

No caso de Breivik, dúvido que a sua loucura seja o impedimento para se reabilitar, para se institucionalizar. Mantenho portanto o meu cepticismo quanto a este sujeito.

Não sou nem posso ser defensor da pena de morte. Ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém visto que esse é o direito mais primário do ser humano. No entanto, o castigo para Breivik deverá ser exemplar. Um sujeito deste calíbre é um perigo para a sociedade e deveria ser obrigado a cumprir aquela que acho a mais dura das penas para um ser humano: ajudar o próximo, sem limites, sem precedentes. Quero com isto dizer que caso fosse o juiz do caso Breivik, obrigaria Breivik a ajudar o próximo e a prestar serviço à comunidade até ao fim dos seus dias em troca da sua própria alimentação. Creio que não haverá um castigo duro tão humano para uma criatura tão feia como Anders Breivik.

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Suavização das relações entre a Índia e o Paquistão?

Por Shashi Tharoor, Ex-ministro de Estado indiano para os Assuntos Externos e subsecretário geral da Nações Unidas

A Índia e o Paquistão estão a desfrutar de um dos melhores períodos na sua relação atribulada. Nos últimos meses não se registaram incidentes terroristas, não houve escaladas retóricas nem focos de conflito diplomático. O presidente paquistanês, Asif Ali Zardari acaba de fazer uma breve e bem-sucedida visita pessoal à Índia (principalmente para visitar um santuário famoso, mas que incluiu um almoço com o primeiro-ministro Manmohan Singh). Dezasseis anos depois da Índia conceder ao Paquistão o estatuto comercial de nação mais favorecida (NMF), o Paquistão está prestes a retribuir. O processo de paz está a recomeçar e as duas partes estão a dialogar de forma cordial, a todos os níveis.

E no entanto, é importante compreender que os problemas que há muito afligem a relação bilateral não serão resolvidos de um dia para o outro. Mesmo se, por algum milagre, o aparelho civil e militar paquistanês de repente tivesse um rasgo de iluminação, concluísse que o terrorismo era prejudicial e decidisse seguir pelo mesmo caminho que Índia na sua erradicação, a tarefa não se conseguiria realizar num estalar de dedos. O extremismo não é uma torneira que se possa fechar arbitrariamente. A proliferação de ideologias extremistas, as organizações militantes e os campos de treino adquiriram uma dinâmica própria. Como refere Satyabrata Pal, antigo alto-comissário indiano para o Paquistão: “Estes grupos da jihad fazem os seus recrutamentos a partir dos milhões de jovens paquistaneses que emergem das escolas vernáculas e madrassas, imbuídos de um ódio pelo mundo moderno, no qual não têm competências para trabalhar. Assim, enquanto os jovens indianos vão para o Vale do Silício e fazem eles próprios as bombas, os jovens paquistaneses vão para o Vale do Swat e fazem de si próprios a bomba, a mesquinhez das suas vidas justifica o fim. O Paquistão traiu a sua juventude, que é a sua tragédia.”

Este conselho não é de desespero. Em vez disso, é um argumento para oferecer ajuda. Um país vizinho repleto de jovens desesperados, sem esperança ou perspectivas, liderado por um militar mal-intencionado e que se auto-engrandece, é uma ameaça permanente para a Índia. Se a Índia conseguir ajudar o Paquistão a ultrapassar estas circunstâncias e a desenvolver uma aposta num progresso mutuamente benéfico, estará ajudando-se a si própria também. É aí que reside a esperança de persuadir o Paquistão de que o sucesso da Índia pode beneficiá-lo também – que, ao invés de tentar prejudicar a Índia e impedir o seu crescimento, o Paquistão deve reconhecer as vantagens que podem advir de uma parceria com uma Índia cada vez mais próspera.

A Índia pode apoiar-se na generosidade que já demonstrou várias vezes – por exemplo, com a atribuição unilateral do estatuto de NMF ao Paquistão -, oferecendo um mercado aos comerciantes e industriais paquistaneses, uma égide criativa para os seus artistas e cantores e um lar longe de casa para aqueles que procuram um refúgio face às realidades da vida paquistanesa. A criação de mais pontos de contacto – diplomacia de bastidores conduzida por enviados especiais (uma fórmula usada de forma eficaz por Singh e pelo ex-presidente paquistanês Pervez Musharraf), contacto directo entre as duas forças armadas (que é escasso) e um contacto abrangente entre as pessoas – é indispensável para o esforço de paz.

Infelizmente, a Índia respondeu aos ataques de Bombaim em Novembro de 2008 e a outras provocações do Paquistão, tornando mais rígidas as restrições de vistos e restringindo outras possibilidades de contacto cultural e social. Esta pode ser uma área na qual vale a pena correr riscos, uma vez que as vantagens de aumentar as oportunidades para os paquistaneses na Índia superam os perigos, afinal, os terroristas de Bombaim não solicitaram vistos indianos antes de se infiltrarem no país com as suas armas e bombas.

Sou fortemente a favor de um regime de vistos liberal, o que exigiria que a Índia levantasse as actuais restrições relativamente aos pontos de entrada e saída que podem ser utilizados pelos titulares de vistos de origem paquistanesa, ao número de locais que podem ser visitados e às exigências onerosas em matéria de apresentação de relatórios de polícia. Para começar, os paquistaneses proeminentes no mundo dos negócios, entretenimento e meios de comunicação poderiam ser elegíveis para obter um processamento mais rápido de vistos e para a emissão de vistos de entradas múltiplas.

Haveria quem argumentasse que o Paquistão não iria retribuir uma tal generosidade unilateral. Até pode ser verdade, mas a Índia não deveria preocupar-se. A paridade com o Paquistão iria reduzir os padrões da Índia. A Índia deve mostrar uma generosidade de espírito que consiga convencer os paquistaneses a repensar a sua atitude face aos indianos.Também se podem fazer concessões em questões que não envolvam interesses nacionais vitais. Problemas específicos como o comércio, o impasse militar no Glaciar de Siachen, o limite territorial de Sir Creek, a disputa pela água na barragem Wullar e muitas outras divergências são passíveis de resolução através do diálogo. Parece absurdo o facto dos furores públicos no Paquistão estarem a ser agitados por falsas alegações de que a Índia está a desviar água do rio Indo; um diálogo sincero e aberto com o público paquistanês por parte das autoridades indianas iria ajudar a dissipar estas suspeitas.

A Índia devia aproveitar, de forma mais imediata, a disposição recente do Paquistão para retribuir a concessão da Índia do estatuto de NMF, tomando medidas concretas para reduzir as barreiras não pautais, tais como inspecções de segurança e permissões, que têm limitado as exportações do Paquistão para a Índia. A indústria de serviços financeiros da Índia e os seus profissionais de software podiam oferecer as suas competências aos clientes paquistaneses. Ganhariam um mercado vizinho, enquanto prestavam serviços que o Paquistão poderia usar para desenvolver a sua própria economia. Tudo isto são “vitórias fáceis” à espera de serem conquistadas.

As grandes questões – o conflito da Caxemira e o recurso ao terrorismo por parte do Paquistão como instrumento de política – exigirão muito mais trabalho de base e uma acção gradual para se poderem realizar progressos. Ao adoptar uma posição de acolhimento, sensibilidade e generosidade pragmática, a Índia poderá ser capaz de alterar uma relação bilateral que conta com 65 anos de uma lógica de hostilidades intratável.

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Homicídio em nome individual

Por Ian Buruma, especialista em política e religião e professor no Bard College em Nova Iorque

“O que terá levado o jovem muçulmano de nacionalidade francesa, Mohammed Merah, a assassinar três estudantes judeus, um rabino, e três soldados, sendo dois deles seus correligionários? O que terá levado outro homem, Anders Breivik, a abater a tiro mais de 60 adolescentes num acampamento de verão da Noruega no ano passado? Esta vaga de assassinatos é tão incomum que as pessoas exigem explicações.

Qualificar estes assassinos como “monstros”, como alguns se apressaram a fazer, pouco esclarece o problema. Eles não eram monstros, eram jovens. E descartá-los como loucos é igualmente evasivo. Se o seu estado fosse de insanidade mental, nada mais precisaria ser explicado.

Destacam-se duas explicações, ambas de carácter amplamente sociopolítico. Uma foi apresentada pelo polémico activista muçulmano Tariq Ramadan. Ele responsabiliza a sociedade francesa. Mais especificamente culpa o facto dos jovens franceses de origem muçulmana serem marginalizados por causa da sua fé e da cor da sua pele.

Mesmo tendo passaportes franceses, são tratados como estrangeiros indesejáveis. Quando o presidente francês, Nicolas Sarkozy, ele próprio filho de imigrantes, afirma que há demasiados estrangeiros em França, coloca os jovens como Merah num impasse ainda maAior. Uma pequena minoria de homens nesta situação poderia atacar movida pelo desespero.

A outra explicação, apresentada por Sarkozy, toma à letra as palavras de Merah. Afirmou que estava a protestar contra as operações militares francesas em países muçulmanos e a vingar a morte de crianças palestinas. Queria deitar a baixo o estado francês como um guerreiro sagrado islâmico. Foi inspirado pela Al-Qaeda. Então por que não acreditar nele? Daí a decisão de Sarkozy prender outros muçulmanos suspeitos de actos de extremismo islâmico e impedir alguns imãs de assistir a uma conferência religiosa em França.

Aqueles que consideram o extremismo islâmico como sendo o problema também têm tendência a apontar jovens assassinos como Merah como exemplos de integração falhada. Eles nunca se tornaram suficientemente franceses. Os imigrantes devem ser forçados a partilhar os “valores ocidentais”.

Embora ninguém negasse que Anders Breivik não é suficientemente norueguês, também se poderia ter acreditado na sua palavra. O discurso dos demagogos xenófobos parece tê-lo convencido de que tinha que matar os filhos das elites social-democratas, a fim de proteger a civilização ocidental contra os perigos do multiculturalismo e do Islão. Os seus crimes foram o resultado extremo de ideias perigosas.

Nenhuma das explicações está totalmente errada. Muitos jovens muçulmanos sentem-se indesejados nos seus países de nascimento e a linguagem extrema, quer seja utilizada por islamitas ou pelos seus opositores, ajuda a criar um ambiente propício à violência.

Mas tanto Ramadan como Sarkozy são demasiado simplistas, pois reduzem assassinatos invulgares a explicações simples. Mesmo quando são confrontados com a rejeição, a maioria dos jovens muçulmanos não se tornam assassinos em massa. Merah é demasiado anómalo para servir como um exemplo típico do que quer que seja, incluindo a discriminação racial ou religiosa.

Longe de ser um fanático religioso, Merah cresceu como um pequeno delinquente, sem qualquer interesse na religião. O apelo do extremismo islâmico pode ter constituído a sua glorificação da violência mais do que qualquer conteúdo religioso. Ele gostava de ver vídeos jihadistas de decapitações. Também tentou entrar para o exército francês e para a Legião Estrangeira. O exército recusou-o devido aos seus antecedentes criminais. Se os franceses não o quisessem, iria juntar-se aos guerreiros santos: qualquer coisa que lhe desse uma sensação de poder e um pretexto para saciar os seus impulsos violentos.

Muitos jovens são atraídos para a fantasia de violência; muito menos são aqueles que sentem a necessidade de a colocar em prática. A ideologia pode servir como uma desculpa ou justificação, mas raramente é a principal fonte de actos individuais de brutalidade. Na maioria das vezes as vagas de homicídios são uma forma de vingança pessoal – indivíduos falhados que pretendem fazer explodir o mundo que os rodeia, porque se sentem humilhados ou rejeitados, quer seja a nível social, profissional, ou sexual.

Por vezes, os assassinos parecem não ter qualquer desculpa, como no caso de Eric Harris e Dylan Klebold, que em 1999 dispararam sobre 12 colegas e um professor na sua escola em Columbine, no Colorado. Neste caso, as pessoas culparam os jogos de vídeo e filmes sádicos que os assassinos tinham estado a ver. Ainda assim, a maioria dos entusiastas deste tipo de entretenimento não sai por aí a matar pessoas.Breivik tinha fantasias de ser um cavaleiro em luta contra os inimigos do Ocidente. Merah imaginava que era um jihadista. Quem sabe o que os assassinos de Columbine pensavam que estavam a fazer. Mas as razões pelas quais cometeram os crimes só eles as sabem e não podem ser atribuídas principalmente ao entretenimento ou a outros materiais que eles tenham consumido.

Proibir esses materiais tem um apelo estético, com certeza, e as figuras públicas que pregam a violência devem ser sempre condenadas. O discurso do ódio e a ideologia violenta não são irrelevantes. Mas atribuir-lhes uma grande importância em casos como os de Merah ou Breivik pode ser erróneo.

É pouco provável que a censura resolva o problema. Proibir o Mein Kamp de Hitler ou proibir a exibição de símbolos nazis não impediu os neonazis na Alemanha de assassinar os imigrantes. Suprimir a pornografia violenta não nos livrará dos violadores ou dos homicídios cometidos por jovens adolescentes. Impedir os demagogos de fazer discursos inflamados sobre os muçulmanos ou multiculturalistas não irá impedir um futuro Anders Breivik. E bloquear a entrada de imãs na França não vai impedir outro Merah de entrar em fúria assassina.

De facto, comparar os actos selváticos de Merah aos assassinatos do 11 de Setembro de 2001, como Sarkozy fez, é dar demasiado crédito ao assassino. Não existem provas de que ele faça parte de algum grupo organizado, ou que esteja na vanguarda de um movimento revolucionário. Utilizar este caso para instigar o medo de uma ameaça islâmica para a sociedade pode fazer sentido a nível eleitoral para Sarkozy. Mas provocar o medo raramente é a melhor receita para evitar mais violência. Pelo contrário, é mais provável que a alimente.”

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“Terroristas” em casa

Por Naomi Wolff, activista e defensora da “terceira via” no feminismo.

Na semana passada, apresentei um depoimento de apoio a um processo importante movido pelo repórter Chris Hedges e outros, incluindo Daniel Ellsberg e Noam Chomsky, contra o presidente dos EUA, Barack Obama e o seu secretário de Defesa, Leon Panetta.

O processo visa impedir a implementação da nova e horrenda Lei de Autorização de Defesa Nacional, também conhecida como “Homeland Battlefield Bill”, que Obama aprovou em Dezembro. Como resultado, a “guerra ao terror” do governo dos Estados Unidos bateu-nos à porta: qualquer americano pode agora ser detido indefinidamente, sem acusação ou julgamento, em qualquer lugar, em qualquer momento, para sempre.

Como Hedges escreveu recentemente numa explicação arrepiante da razão pela qual moveu o processo, as frases cruciais da Lei de Autorização de Defesa Nacional são “substancialmente apoiada” “e” forças associadas”. Estas duas frases, argumenta, permitem ao governo expandir a definição de terrorismo para nela incluir grupos que não estiveram envolvidos nos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001 e que podiam mesmo nem sequer existir quando os referidos ataques aconteceram. Segundo Hedges, “a lei pode ser usada para deter pessoas que não são membros de organizações terroristas, mas que tenham fornecido, nos termos do projecto de lei, apoio substancial até mesmo a forças associadas”.

Como Hedges aponta, nenhum destes termos está correctamente especificado; nem a lei define o que é um acto de terrorismo, ou quais as actividades daqueles que estão alegadamente “envolvidos em hostilidades contra os Estados Unidos.” Como Hedges refere, “é por isso que, especialmente com a proliferação dos actos de desobediência civil, a Lei de Autorização de Defesa Nacional é tão aterradora.”

Ele tem toda a razão e o seu depoimento explica pormenorizadamente a forma como a Lei de Autorização de Defesa Nacional e legislações semelhantes estão a ser usadas para obstruir as suas investigações e para intimidá-lo pessoalmente. Relata que foi detido por agentes da autoridade norte-americanos enquanto fazia um trabalho de reportagem no exterior e foi informado de que estava numa lista de observação. Hedges também tem consciência, tal como poucos jornalistas americanos têm, de que foi utilizada legislação semelhante para aterrorizar e intimidar jornalistas noutros países.

Hedges, ex-jornalista do The New York Times foi testemunha disso em El Salvador. Mas leis quase idênticas foram utilizadas para impedir a comunicação e a publicação de notícias e para perseguir, intimidar e até mesmo prender jornalistas, na Itália fascista, no início da Alemanha nazi, na ex-União Soviética e nos regimes militares do Chile, Argentina e Equador.

Em 29 de Março, juntei-me aos apoiantes da ação judicial num tribunal de Nova Iorque, para determinar se seria concedida aos queixosos legitimidade para contestar as acções previstas pelo governo. Katherine O’Brien, também jornalista, descreveu a forma como foi intimidada por alguém que se identificou como agente Federal e a cofundadora do movimento Occupy London, Kai Wargalla, conta que num memorando da polícia de Londres os membros do seu grupo eram qualificados como “terroristas”.

O decorrer da audiência foi duro com o interrogatório da Juíza Federal Katherine B. Forrest aos advogados do governo. Pediu-lhes várias vezes que definissem os termos “substancialmente apoiada” e “forças associadas”, mas não obteve resposta, apesar de repetir a pergunta sete ou oito vezes.

Forrest também pediu reiteradamente – pelo menos cinco vezes – garantias de que a Lei de Autorização de Defesa Nacional não iria abranger pessoas nas mesmas condições dos demandantes: jornalistas envolvidos em trabalho de jornalismo e cidadãos envolvidos em protesto pacífico. Novamente, os advogados de Obama e Panetta disseram sempre que não lhe poderiam fornecer tais garantias. No final do mês de Abril, as duas partes irão apresentar novos dados a juíza irá anunciar a próxima etapa do processo, após deliberar sobre a nova matéria.

Agora sabemo-lo através dos próprios advogados do governo dos EUA: esta lei pode colocar em risco os jornalistas, ou pelo menos os advogados recusam-se explicitamente a excluir esta opção para o seu cliente – e, tal como Forrest refere, eles têm “um cliente de peso”.Os termos definidos de forma vaga são uma parte integrante do conjunto de ferramentas totalitário e começam sempre, como observa Hedges, com legislação que subverte o Estado de direito, permitindo o exercício arbitrário do poder. Esses termos ludibriam sempre, no início, jornalistas, editores e editores de jornais com ameaças de que estão colocar em risco “a segurança nacional” ou, através de relatórios que afirmam que eles estão a “apoiar” forças ilegais e funestas.

O meu próprio depoimento está de acordo com o argumento de Hedges de que os jornalistas norte-americanos já estão a modificar o seu comportamento em resposta a tais leis – e aos recentes e assustadores exemplos que têm sido feitos de editores controversos como Julian Assange da WikiLeaks. Descrevo exemplos de histórias que eu própria não explorei, devido à intimidação oficial que essas leis representam: a decisão de não me encontrar em Londres com os prisioneiros libertados de Guantánamo, ou de divulgar uma angariação de fundos para um documentário importante sobre o bombardeamento de civis em Gaza. Houve também uma decisão recente que foi bastante penosa – legalmente inevitável, mas que, como jornalista, me fez sentir desonesta e envergonhada – não concretizar um encontro pessoal proposto com Assange, enquanto este se encontrava em prisão domiciliária perto de Cambridge.

Eu sei que muitos outros jornalistas norte-americanos estão a tomar decisões semelhantes como resultado da Lei de Autorização de Defesa Nacional e espero que se unam a este processo, quer seja através dos seus próprios depoimentos ou enquanto requerentes. Tais leis fazem como que os jornalistas conscienciosos hesitem em fazer o que é correcto do ponto de vista profissional.

Não é apenas o jornalismo norte-americano que sofre quando uma lei como a de Autorização de Defesa Nacional ameaça jornalistas e editores. Com a legislação dos EUA e as reivindicações da autoridade executiva a dar cada vez mais poder aos presidentes dos Estados Unidos para fazer guerras, declarar toda a América como um campo de batalha, assassinar cidadãos americanos e não americanos por todo o mundo, manter presos cidadãos afegãos, iraquianos e paquistaneses indefinidamente, sem acusação ou julgamento e acusar editores australianos de espionagem, o resto do mundo necessita de jornalismo americano destemido e rigoroso. Este é o primeiro passo para responsabilizar os líderes dos EUA à luz da legislação nacional e internacional. Infelizmente, tal responsabilização é necessária agora mais do que nunca.

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Mato, logo existo

Por Dominique Moisi, autor do livro Geopolitics of Emotion

“É preciso lutar contra os terroristas e contra as causas do terrorismo com a mesma determinação”. Essa fórmula, inventada há dez anos, no rescaldo dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, por líderes tão diversos como Javier Solana, então secretário-geral da NATO, e o então presidente dos EUA, George W. Bush, continua da mesma forma válida no rescaldo do recente massacre em França.

O Estado francês conseguiu identificar e “neutralizar” o terrorista em pouco tempo, apesar de persistirem duas questões cruciais: Ele deveria ter sido preso muito antes? Poderia ter sido capturado vivo? Agora, o Estado francês precisa de ir mais longe. O presidente francês, Nicolas Sarkozy estava certo ao chamar Mohammed Merah um “monstro”. Mas Merah foi o nosso monstro. Ele nasceu, foi criado e foi distorcido em França, tal como os terroristas que atacaram o metro de Londres, em Julho de 2005, foram produtos da sociedade britânica.

É imperativo, não só para a França mas para o mundo inteiro, entender como é que um único e solitário homem foi capaz de ter um país inteiro como refém, durante quase uma semana. A única forma que Merah encontrou para dar sentido à sua vida parece ter sido assassinar soldados e crianças judias. Matar – e da maneira mais fria que se possa imaginar – era para existir.

Muitos franceses inicialmente, e no seu íntimo, esperavam que o que tinha acontecido em Toulouse fosse provar ser uma repetição dos ataques em Oslo, em 2011 – que o terrorista se revelasse ser o produto da extrema-direita. Merah alegou estar a agir em nome do fundamentalismo islâmico; na realidade, ele era o produto de uma seita sangrenta e pervertida. Como pode um insignificante delinquente, uma criança perdida da nação francesa, cair nas mãos do ódio terrorista de qualquer tipo?

Os assassinatos no sudoeste de França reflectem três factores principais. Primeiro, há o campo de batalha do Médio Oriente, alargado de modo a incluir o Afeganistão e o Paquistão. Esses problemas não foram a causa directa dos ataques, mas também não eram um mero pretexto. Os problemas dessa região incivilizada agem como uma caixa-de-ressonância particularmente perigosa, para a juventude muçulmana alienada em França.

Segundo, a alienação é a realidade para muitos franceses muçulmanos, agravada por uma crise económica que resultou na elevada taxa de desemprego entre os jovens – e que atinge a juventude muçulmana de forma particularmente intensa, retardando a sua integração na República francesa.

Finalmente, um desvio de identidade em França pode atingir uma dimensão mais séria. É pura coincidência o facto de Merah, que era de ascendência argelina, ter optado agir no preciso momento em que a França e a Argélia estavam a comemorar os 50 anos da independência argelina?

Merah provavelmente não se sentiu nem francês nem argelino. Escolheu o que para ele seria uma identidade muçulmana. Mas foi uma versão perversa, extrema e sectária do islamismo. Questões pessoais – a ausência de um pai ou uma estrutura familiar coesa – provavelmente precipitaram o seu desvio de identidade. Ele estava à procura de um modelo que pudesse impor algumas regras na sua vida e não conseguiu descobri-lo até encontrar o terrorismo.

Confrontada com o horror das acções de Merah, a nação francesa tem demonstrado a sua união. Ao escolher como seus alvos soldados muçulmanos e cristãos, bem como crianças judias, Merah reforçou a solidariedade de um país que queria dividir. Mas esta união é instável. A República francesa tem que recapturar seus territórios perdidos mais importantes: jovens alienados e frágeis de origem imigrante.

A tragédia favoreceu, inegavelmente, a campanha de Sarkozy para vencer o segundo mandato das eleições presidenciais em Abril. Ele estava no comando e agiu de forma decisiva e responsável. A agenda política, pelo menos a curto prazo, desviou-se para a segurança, onde Sarkozy tem uma vantagem estrutural comparado com o seu rival socialista, François Hollande. Mas, tal como o ex-primeiro-ministro britânico Harold Wilson disse a famosa frase: “Uma semana é muito tempo na política”.

Muita coisa pode mudar antes da primeira volta das eleições. O que preocupará mais os eleitores franceses quando votarem? Será que os receios económicos voltarão a prevalecer sobre a agenda de segurança? Ou será que os factores pessoais dominarão, com o reflexo de um “mais ninguém para além de Sarkozy”, de um lado, e uma falta de confiança no não carismático – e, possivelmente, não preparado – Hollande?Os ataques selvagens de Merah são um lembrete amargo de que o terrorismo ainda assombra muitas sociedades. A segurança deve ser reforçada, enquanto as suas causas precisam de ser abordadas. E descobriremos brevemente se este espasmo de terror foi apenas um trágico parêntese ou um ponto de viragem.

anotamento meu: o autor, apesar do texto brilhante, podia ter acrescentado à sua lista de argumentos (não deixa de ser uma teia argumentativa muito boa) que Merah foi a voz de uma imigração “francesa” cada vez mais apertada pelas declarações dos candidatos presidenciais e que também poderá ter sido o espelho do recrudescimento das tensões diplomáticas entre os países do Magreb e o Estado Israelita, assim como da própria França com o referido estado.

Tanto Marine Le Pen como Nicolás Sarkozy tem pautado as suas intervenções de campanha com um ataque declarado à imigração em França. Estas intervenções, como é de esperar num país multicultural como a França, têm causado muita inquietação em todas as comunidades imigrantes radicadas em França.

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Blame Cocaine

Um GI Joe estava numa base em Kandahar sem receber a dose há 2 dias.

Então, sacou da sua G3 e foi para as aldeias vizinhas matar cidadãos afegãos.

Preocupado, Hamid Karzai classificou o acto como “assassínio” e como “extermínio de indefesos inaceitável”.

Hamid Karzai deveria ler melhor os planos de defesa e segurança que os americanos lhe dão a comer.

Se precisarem de uma ajudinha, até porque gostamos de manter a malta informada sobre tudo o que se passa, há aqui um brilhante texto de James S. Robbins, um dos melhores agentes de inteligência do mundo que troca por miúdos o texto de cima.

Se precisarem de uma nova ajuda para compreender o contexto, há aqui um bom texto que fala sobre o futuro da presença militar dos Americanos em terras afegãs.


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Pois falharam…

Trechos da entrevista de Hamid Karzai em video.

Hamid Karzai afirmou em entrevista à BBC que a segurança falhou no país nos últimos 10 anos e não se coibiu de apontar as culpas ao seu governo, aos Estados Unidos e restantes parceiros da NATO que estiveram presentes no país e ao vizinho Paquistão por alimentar a presença da rede talibã.

O que Karzai não enunciou na sua entrevista foi o tremendo falhanço do conteúdo que é enunciado nestes dois documentos que abaixo disponibilizo, um deles com vinculação jurídica entre os dois países e que nem de perto nem de longe está a ser cumprido por um e pelo outro governo.

EUA Afeganistão (2008)

USAfghanistan Declaration of Statal Partnership.

Do último documento, temos o discurso de Karzai em primeira voz como a prova do falhanço dos objectivos a que se propuseram em 2005 os governos dos dois países no que toca a segurança.

No entanto, os objectivos não falharam apenas nas questões de segurança. A BBC não explorou, talvez porque não fosse de interesse escutar o discurso de Karzai em relação a outro dos celeumas principais do acordo expresso com o governo norte-americano: o tráfico de droga.

A história e as estatísticas confirmam que este interesse sofreu um retrocesso histórico da situação da passagem e venda de droga no país desde a situação que se verificava no país antes da entrada dos talibans no poder.

Antes dos talibans subirem ao poder, o Afeganistão tinha uma incipiente produção de ópio tendo em conta a predisposição dos seus solos e do clima para o seu cultivo. A produção efectuada no país situava-se nos 3% da produção mundial.

Os talibans, com todo o conservadorismo que detinham em relação a esta questão, mandaram arrasar por completo grande parte das plantações nos meses seguintes após a sua elevação ao poder.

O acordo é assinado em 2005. A Administração Bush compromete-se a ajudar os programas Afegãos de luta contra o narcotráfico em todas as suas variantes. Actualmente, o Afeganistão é o maior produtor de ópio mundial, com cerca de 95% da produção mundial. Irónico, ou talvez não, os dados do governo americano que versam sobre a entrada de estupefacientes pelo país, pelos quais passei os olhos há uns meses atrás revelam que pela fronteira do México (a principal entrada de droga em território Norte-Americano) o volume de entrada de droga no país tem diminuído ano após ano depois da assinatura deste acordo de cooperação, e consequentemente, também tem diminuído a entrada de imigrantes ilegais mexicanos no país.

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O insurgente

Não percebo porque é que os delegados ocidentais saíram a meio do discurso de Mahmoud Ahmadinejad nas Nações Unidas. 

O presidente do Irão não é o único no mundo que acredita que o 11 foi um “misterioso incidente”. E atenção, isto não é conversa de comunistas e anarquistas anti-capitalistas e anti-americanos. É conversa lançada a público pelos próprios americanos. 


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11

Em memória dos 3000 inocentes que neste dia há 10 anos atrás faleceram às mãos da injustiça da existência humana.

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Cimeira da NATO 2010 – Lisboa

Acordo histórico, dizem eles…

A nova ratificação do Conselho Estratégico da Organização, o novo acordo com os Russos, a palavra de honra de Rasmussen quanto à retirada das tropas da NATO no Afeganistão e o combate ao terrorismo como o principal plano de operações estratégicas da Organização soam como históricas aos olhos do mundo…

Históricas! Históricas para legitimar ainda mais a política externa Norte-Americana. Histórica! Para tentar controlar a esfera de influência dos Russos e como tal, controlar em certa parte a crescente influência da BRIC no cenário geopolítico mundial actual.

Ainda não é desta vez que a máquina de guerra é destruída. É sim, legitimada por todos como a máquina de execução dos desejos sangrentos do maior capitalista do mundo, do maior vendedor de armas do mundo: Barak Obama, nem mais. Pela forma indirecta, usando free-lancers em nome do escudo Norte-Americano da democracia perfeita e da pressuposta ajuda aos coitadinhos que vivem sob o jugo da tirania.

No Afeganistão, a democracia é tosca. No Iraque, a democracia é ultra tosca. 10 anos depois, a NATO apercebeu-se que o povo Afegão é pobre e não pode servir de qualquer forma que seja a ganância dos seus membros mais poderosos.

Na nova democracia Iraquiana, ainda existe petróleo para ser desviado. Interessa, pois!

Ao nível das operações, a NATO vira-se agora para o inimigo terrorista. O inimigo sem rosto. O inimigo feito e contrafeito pelo Senado e Congresso Norte-Americano. Atacar por atacar. Prender por ter cão e por não ter. Depois existem erros, logo, existem desculpas que se deviam evitar caso houvesse bom senso por parte das pessoas que deixam laborar esta perigosa máquina obsoleta.

Só para que saibam, mais valia que a ONU fizesse o mínimo esforço para reformular de vez o modo de funcionamento e as competências do Conselho de Segurança da ONU, dotando-o de um exercito próprio, regular e exercido sob um sigma da sensatez por parte de Nova Iorque.

E os Tugas, no meio disto tudo andam todos orgulhosos. Não é todos os dias que o menino bonito da NATO recebe o maior vendedor de armas do mundo no seu território. Com a parolagem a acenar. A paga? Manda mais tropas, manda mais GNR, manda mais formadores.

 

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Que venham dias melhores

A busca incessante por uma brilhante fotografia num cenário de guerra, acarreta sempre o perigo e por vezes faz com que o fotógrafo seja obrigado a pagar um determinado preço.

O fotógrafo Português João Silva, pagou o preço pelo risco hoje, às portas da cidade de Kandahar no Afeganistão, o irredutível reduto dos Talibãs quando  junto de uma patrulha composta por soldados Norte-Americanos pisou uma mina artesanal…

João Silva foi levado de imediato para a base áerea de assistência da NATO em Kandahar, tendo sido operado. Da operação resultou a amputação (até ao joelho) das duas pernas. O seu estado é estável, sendo que nos próximos dias será transportado para um hospital Norte-Americano na Alemanha.

Este acontecimento dá-se de forma irónica no dia em que se afirmou publicamente que os soldados Portugueses deveriam ser imediatamente retirados do território Afegão…

Ao João Silva só me resta desejar as melhoras e transmitir-lhe um forte sentimento de esperança e energia para o futuro. Ainda existem muitas fotos por ser capturadas.

Um bom fotógrafo nunca desiste!

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911

É impossível não associar este dia ao ataque mais violento perpetrado pelo homem neste início de século.

9 anos passaram desde então. Quase 3 mil pessoas perderam a vida. O então presidente George W. Bush lançou uma autêntica caça ao homem. Os soldados Norte-Americanos entraram pelo Afeganistão para por fim ao regime Talibã e capturar Osama Bin Laden, o temível líder da Al-Qaeda que nunca chegou a ser capturado e cujo estado actual e paradeiro é totalmente desconhecido do mundo ocidental.

Anos mais tarde, o mesmo presidente convenceu os seus aliados a intervir no Iraque para derrubar a figura do ditador Sadaam Hussein com base numa ameaça que se veio a provar como irreal. Sadaam foi derrubado, condenado à pena de morte e executado sem dó nem piedade.

9 anos passaram desde então. O objectivo de criar democracias estáveis nestes dois países, em certa medida, falhou… O Afeganistão continuou um país muito fragmentado em pequenas e médias esferas de influência política vindas das tribos que constituem a massa popular do país. Essas pequenas e médias esferas de influência criaram um clima insustentável para a construção de uma democracia no país. O grande responsável desse facto é o próprio Presidente Ahmid Karzai que desde que chegou ao poder sempre promoveu o desenvolvimento de uma oligarquia escolhida a dedo para tomar controlo de todas as operações realizadas no país.

No Iraque, a presença dos soldados ocidentais depois da queda do regime só deram azo ao aparecimento de uma instabilidade política movida essencialmente pelos bastiões fundamentalistas Islâmicos que ainda resistem no país.

Por cada fundamentalista islâmico que morre, 10 novos fundamentalistas se levantam. A luta contra o terrorismo Islâmico está longe de terminar para as potências ocidentais… ainda mais quando no Ocidente, determinadas entidades ligadas ao institucionalismo Cristão praticam actos que só semeiam mais ódio entre as células terroristas.

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