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da Síria e das amizades russas

“Para nosso grande lamento, assistimos a elementos de chantagem.Consideramos que essa abordagem é absolutamente contraproducente e perigosa, uma vez que é inaceitável utilizar os observadores como moeda de troca. Ouvimos comentários segundo os quais a chave para uma solução para a Síria está em Moscovo, mas quando pedimos explicações dizem-nos que isso significa que deveríamos convencer Assad a deixar o poder ” – Serguei Lavrov, Ministro dos Negócios Estrangeiros Russo.

1. Consta-se que 17 mil pessoas já morreram desde o início do conflito. A escala internacional determina que um conflito assume o estatuto de guerra após a morte de mil pessoas. E os Russos não parecem interessados em resolver o problema. Preferem adoptar a estratégia errada: convencer o regime a cair por si, quando todos sabemos que essa estratégia não demove um ditador.

2. O grau de democraticidade do regime sírio é nulo. Isto porque Bashar Al-Assad não permite eleições livres por sufrágio directo e universal, não permite nem respeita direitos, liberdades e garantias fundamentais a cidadãos, e recentemente alterou a Constituição do país para poder continuar a governar até ao dia da sua morte.

3. O regime de Bashar Al-Assad recusa-se diariamente a negociar com o prestigiado negociador enviado pela ONU, nada mais nada menos que Kofi Annan, antigo secretário-geral da organização.

4. Ao nível interno, todos os dias, a comunidade internacional é blindada com reportagens e relatos de bombardeamentos a cidades, massacres a civis, e desrespeitos pelos Direitos Humanos cometidos pelo governo sírio.

5. Ao nível de política externa, o governo sírio pressionou o governo turco através de uma violação de espaço aéreo do vizinho.

6. A Rússia, grande parceira comercial do governo sirio, parceria comercial que está estabelecida de grosso modo no fornecimento de armamento ao regime (a contrapartida deste fornecido é óbvia dada a importância estratégica do território sírio na região) tem-se recusado a ceder no Conselho de Segurança da ONU a resoluções que visem ora constituir medidas de embargo internacional ao regime de Bashar Al-Assad, ora uma resolução do conflito por via da entrada de tropas para fins de manutenção da paz e da segurança dos cidadãos. Estranhamente, no caso Líbio (com proporções muito menos ao nível de escalada de violência aquando da intervenção internacional) a Rússia não se manifestou quanto a uma missão de semelhante objectivo.

7. O regime Sírio tem posto em prática um esquema que visa condicionar o trabalho dos observadores internacionais no país e tem violado por completo as leis internacionais com os condicionamentos que tem colocado à entrada de ajuda humanitária.

8. Posto isto, mais uma vez se denota a obsoletidade do Conselho de Segurança da ONU, principalmente no toca ao modus operandi do Conselho de Segurança. A Rússia tem bloqueado sistematicamente com o seu direito de veto todas as possibilidades que a comunidade internacional tem de dar uma resposta imediata ao problema acima citado. Pior que um país bloquear aquilo que é tido como necessidade urgência de actuação de toda a comunidade internacional no problema em questão, suscita outro problema maior pelo meio: não será vital para a sobrevivência da ONU enquanto instituição (que precisa de manter um certo controlo sobre o cenário internacional) que se avance com uma nova proposta de reforma institucional?

O que temos vindo a assistir desde há uns anos para cá é a pura ineficiência das suas acções. No caso do Sudão e da Somália, apesar de um primeiro veto chinês à resolução do conflito, a ONU queria actuar decisivamente na resolução do conflito mas nenhum dos Estados-membros mais poderosos tinha interesse em constituir uma missão que pudesse dar um fim a esse objectivo. Optou-se na altura pelo envio de tropas muito mal preparadas de estados como a Nigéria numa operação comandada pelas Nações Africanas, que, obviamente redundou num enorme fracasso. No caso da Líbia, mesmo apesar da ONU ter accionado um mecanismo de resposta que visava uma operação de manutenção de paz e segurança dos cidadãos, rapidamente, toda essa operação passou para as mãos da NATO por via da influência norte-americana e de facto, a operação tornou-se uma operação que visou derrubar Khadafi. No caso do Iraque, os Norte-Americanos atropelaram a próprio ONU, numa intervenção que arruinou o pouco poder de controlo que a organização tinha sobre os estados-membros. No caso Sírio, existe interesse na resolução do conflito mas é a Russia quem bloqueia qualquer tipo de operação no terreno.

9. No fim de contas pensamos: quem é que está a chantagear quem?

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A auto-intitulada esquerda que nem merece ser ouvida…

Texto publicado na Revista Rubra (revista tendencialmente ligada a militantes de um partido de esquerda) que apareceu em Coimbra na forma de flyer.

Depois de lerem o texto que se segue, tenho quase a certeza que se irão perguntar se é esta esquerda que merece credibilidade por parte dos cidadãos ou uma esquerda mais pura, mais racional, mais terra-a-terra com os cidadãos e com a realidade existente.

Por outros motivos, este texto choca em muito com a minha opinião sobre a NATO que pode ser lida aqui. Não na parte em que ambos consideramos que a NATO está obsoleta como organização e ao nível do seu plano de operações estratégico mas na medida em que a NATO deve ser combatida com vias à sua extinção enquanto organização.

Transcrenvendo:

“Pela derrota da NATO. Pela vitória militar da Resistência Islâmica!

Aqueles que no terreno estão a morrer a combater a NATO são hoje maioritariamente resistentes que reinvindicam o Islamismo ou são militantes de organizações Islâmicas. O trauma do 11 de Setembro de 20o1 e a vaga islamofóbica (ANOTAÇÃO MINHA: não sabia que essa fobia existia!) que não pára de crescer desde então. e que é parte da estratégia da NATO, levou o movimento contra o Império (???) para a encruzilhada. Como defender a derrota de um império (???) recusando defender a vitória de quem lhes faz frente?

Sempre se defenderam povos e movimentos independentemente dos seus perfis religiosos. Martin Luther King era um fervoroso pastor evangélico. Malcolm X, um islâmico radical, Ximenes Belo, um alto quadro da Igreja Católica. Na verdade, e infelizmente, uma boa parte das sublevações populares mundiais são dirigidas por religiosos e não por ateus conscientes.

Como somos ateus, não cremos que haja uma superioridade moral de umas religiões relativamente a outras. (Nietzsche como ateu consciente que era pensava exactamente o contrário). Todos os movimentos de libertação dirigidos por religiosos, islâmicos, católicos, protestantes, professam os mais reaccionários credos, e todos eles merecem o apoio da esquerda laica e socialista na defesa dua sua autodeterminação e independência, na sua vitória militar contra os países imperiais.

Toda a esquerda europeia e norte-americana, intelectuais, trabalhadores que defenderam os povos ocupados não invocaram o carácter retrógrado que os seus credos advogavam para ficarem à sua margem. Por exemplo, na forma como tratavam as mulheres. A esquerda europeia nunca pôs como condição para apoiar uma luta de libertação o respeito pelas mulheres. Denunciamos qualquer desrespeito pela igualdade humana, mas não deixamos de tomar posição numa guerra por causa desse facto.

Quando há uma luta entre David e Golias, o nosso lado só pode ser um: David. Estamos do lado da vitória militar da ditadura ocupada contra a “democracia” ocupante. Estamos do lado da vitória militar da ditadura resistente contra o império “democrático”. A maior ameaça à paz mundial é o imperialismo e os seus exércitos. Não há ninguém que tenha espalhado mais terror pelo Mundo que a aliança militar dos países ocidentais, a NATO.

O nosso apoio à resistência islâmica não significa um apoio político às direcções islâmicas. Não temos nenhum respeito pela brutalidade sobre as mulheres, não acarinhamos o atraso, não defendemos uma ditadura. Sobretudo, não deixamos de denunciar o pior destas direcções islâmicas que são burguesas e por isso um obstáculo à emancipação dos trabalhadores destes países (contrasenso ideológico?). Podemos e devemos lutar pela construção de uma resistência anticapitalista entre os povos árabes. Mas enquanto esta é débil, não podemos ficar agarrados ao vazio das declarações solidárias mas inconsequentes. Defendemos a unidade táctica em conflitos onde é claro para todos quem é a vítima e quem é o agressor. A defesa da autodeterminação dos povos implica isso mesmo: que se respeitem as suas determinações e a sua forma de serem livres.

O Governo Português comanda as tropas da NATO na Somália, um país onde estão a ser despejados todos os anos toneladas de lixo tóxico e cujos chamados piratas defendem as suas águas territoriais da rapina e poluição dos países centrais (Não será que os Somalis criaram a pirataria exclusivamente para roubar barcos internacionais de modo a contrabandear de forma a sustentar as actividades das guerrilhas?). Portugal fora da NATO, Fora da Somália Já!

É urgente defender a retirada de Portugal da NATO e é urgente que os nossos impostos deixem de servir para matar no Iraque, no Afeganistão, na Somália, na Palestina. Os actos de guerra contra as tropas invasoras ou os mercenários ao seu serviço devem ser considerados actos de resistência, de autodefesa (e quiça na realidade, actos que deverão ter como o objectivo a tomada do poder para poderem enriquecer!)

Revista Rubra, 20 de Novembro de 2010.”


Como sabem, eu sou de esquerda. De uma esquerda pura, reaccionária. Mas depois de ler isto, não compro este argumento. Não compro deturpações sem o mínimo senso de racionalidade.

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