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Cromos da bola #7 – A despedida do animal

O animal despediu-se de São Januário.

O futebol tem destas coisas. Em 2008, depois de passagens por Vasco da Gama (4), Palmeiras (3), Flamengo, Corinthians, Fiorentina, Napoli, Santos, Cruzeiro, Tokyo Verdi, Urawa Red Diamonds, Fluminense, Nova Iguaçu e Figueirense e depois de 14 títulos, 39 internacionalizações pelo escrete e muita vida boémia, Edmundo Alves de Sousa Neto tinha uma dívida a pagar ao Vasco da Gama, clube do seu coração.

Se repararem, de todos os clubes históricos brasileiros, Edmundo só não actuou no São Paulo, Internacional de Porto Alegre e Grémio.

Em 2008, na última passagem de Edmundo pelo Vasco, o último jogo daquele que tinha o cognome de “o animal” ficou marcado por um dos períodos mais tristes da história do histórico emblema carioca gerido por portugueses: Edmundo despedia-se dos “gramados” com o seu clube do coração a descer pela 1ª vez na sua história à série B do Brasileirão.

“O Animal” viveu segundo palavras próprias com um sentimento de amargura durante 4 anos e não descansou enquanto não convenceu os responsáveis de São Januário a montar um jogo de despedida no emblemático estádio carioca. O mítico presidente Vascaíno Robert Dinamite (antigo internacional pela canarinha) fez-lhe o favor e convidou os equatorianos do Barcelona de Guayaquil para a despedida do atleta aos 41 anos numa re-edição da final da Libertadores de 1998 onde o Vasco se iria sagrar campeão sul-americano.

A história de Edmundo no futebol brasileiro é uma história de altos e baixos. “O Animal” não era feroz apenas dentro das 4 linhas. O seu estilo de jogo não se coadunava com a de um típico avançado da canarinha. Edmundo não era um goleador nato, apesar dos 180 golos que marcou em 17 temporadas a altíssimo nível. No entanto, Edmundo fazia do ponto forte uma imensa garra.

Quando as emoções sobressaiem à racionalidade:

Pontapés voadores na cara de adversários, envolvência nos escândalos de jogo do bicho, socos em adversários na libertadores que acabariam em autênticas batalhas campais entre brasileiros e argentinos, alcoolismo e vários acidentes de carro – eis uma panóplia do que foi a vida extra futebolistica de Edmundo.

Depois a Europa:

Edmundo passou pela Fiorentina onde fez uma grande tripla de ataque com Gabriel Omar Batistuta e Rui Costa na época 1998\1999, a época em que a equipa viola esteve muito próxima do título, acabando por conseguir o 3º lugar. Em 1999, após desentendimento com Batistuta num treino da equipa, Edmundo foi autorizado pela direcção da ACF a ir ao carnaval do Rio e só regressaria meses depois para jogar por empréstimo no Nápoles.

Para quem estiver interessado, a página da Wikipédia do Atleta é recheada destas polémicas.

Para finalizar, a despedida do “animal”

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História do Futebol #5

Carnaval de Veneza no dia em que tudo esperava um carnaval no Rio.

De um lado, a Itália daquela caixa fechada do Catenaccio puro e duro (mais fechada que a Caixa de Dahl na Ciência Política) onde pontuavam jogadores como Dino Zoff, Baresi, Giuseppe Bergomi (os dois centrais mais elegantes que tive o prazer de ver jogar, se bem, já no final das suas carreiras) Gentile, Scirea, Vierchwood (ainda o vi jogar pela Juventus) Tardelli, Massaro, Altobelli, Galli e está claro, do imortal Paolo Rossi.

Do outro lado, samba no pé. Mais que samba no pé: uma história de bom futebol. Aquele escrete que nem o mais belo dos poetas de então, Chico Buarque de Hollanda, por mais magnificiência dos seus poemas, se atraveria a escrever uma quadra descritiva tão linda. O Brasil de Zico, Sócrates, Luizinho (passaria no final da carreira pelo Sporting) Júnior, Falcão, Batista, Roberto Dinamite e Dirceu.

De um lado, uma Itália matreira que tinha feito algo extraordinário em Espanha que hoje é quase impensável acontecer num campeonato do mundo: passar a1ª  fase de grupos (a segunda ronda era uma 2ª fase de grupos a 3) com 3 empates e com um score de 2 golos marcados e 2 sofridos. Do outro lado, um Brasil dominador: 3 vitórias na fase-de-grupos com um score de 10 marcados e 2 sofridos (grupo: União Soviética, Escócia de Souness e Nova Zelândia).

Estamos então no jogo decisivo da 2ª fase. Depois da Itália vencer a Argentina por 2-1 e do Brasil ter feito o mesmo por 3-1 decidia-se quem iria passar às meias-finais da prova.

Ao Brasil bastava um empate para o conseguir. Até que Paolo Rossi apareceu vindo do nada (na altura era um modestíssimo avançado que cumpria a sua primeira época a sério na Juventus depois de ter passado por empréstimos a clubes modestos como o Como, o Perugia e o Lanerossi Vicenza. Curiosamente seria no último onde marcaria mais golos). Paolo Rossi nunca atingiria o estatuto de grande matador em Itália: de 81 a 86 cumpriu 83 jogos pela Juventus tendo marcado 24 golos. No ano seguinte seria dispensado para o Milan, onde iria actuar em 20 partidas e marcar apenas 2 golos.

Mas Rossi haveria de ficar para a eternidade. Não só por ter sido o obreiro desta inigualável vitória contra o Brasil, mas por ter sido o principal obreiro de um título quase impossível para a Itália.

Este jogo é portanto algo completamente inacreditável: perante um Brasil que tinha tudo para se sagrar campeão do mundo, Paolo Rossi mascarou-se daquilo que nunca foi e gelou os adeptos canarinhos.

Isto no dia, em que o futebol brasileiro ficou claramente mais pobre com a morte de um dos seus principais artistas: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, mais conhecido no mundo como o Doutor.

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