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Memórias do Tour (Lance Armstrong)

Vencedor por 7 vezes do Tour. Até hoje, o ciclista com mais vitórias, num registo que demorará decerto muitas décadas a ser batido.

Há um antes e um depois na vida de Lance Armstrong.

Por um lado, quando Armstrong surgiu para o ciclismo profissional na extinta Motorola, ninguém jamais tinha em crença que o Norte-Americano viria a fazer a história que fez na prova francesa.

Lance era desde cedo um ciclista talhado para conseguir algumas vitórias (tanto que foi campeão do mundo de estrada em 1993 aos 22 anos) sendo indubitavelmente um bom finalizador, um contra-relogista interessante e um corredor que se aguentava na médiaalta montanha mas que jamais teria a hipótese de lutar com os melhores da altura (Indurain, Riis, Zulle, Rominger).

Em 1996, uma inflamação na virilha seria diagnóstico de cancro nos testículos e de dois tumores gravíssimos  no pulmão e no cérebro. Lance estava condenado mas sempre se mostrou capaz de lutar contra a doença, que viria a ultrapassar num grande exemplo de luta pela vida. Em 1997 voltaria à estrada pela Francesa Cofidis num acto de puro amor pela sua profissão.

O cancro fortaleceu Armstrong. As longas sessões de quimioterapia deram-lhe uma resistência à dor e ao sofrimento que seria importante nas vitórias do Tour enquanto o peso que perdeu durante a fase da doença deram-lhe a desenvoltura necessária para se tornar num excelente trepador.

Um estudo realizado à sua capacidade aérobica (há quem afirme que Ullrich tinha ainda mais capacidades aeróbicas que Lance) provava que Armstrong tinha uma capacidade de 83,8 mLkgmin (VO2 Max) ou seja, superior à de uma pessoa normal (40-50) e ao nível de outros grandes ciclistas do passado como Indurain (88) e Greg LeMond (92,5).

Até que veio a fase da US PostalDiscovery Channel. 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005. Lance Armstrong e a US Postal contra tudo e todos. Disputas espectaculares contra Jan Ullrich, Iban Mayo, Joseba Beloki, Tyler Hamilton (que seria um dos seus gregários nas primeiras vitórias do Tour) e mais tarde contra Iban Basso e Alberto Contador (que seria seu rival na mesma equipa após o regresso à competição em 2009).

Por outro lado, as suspeitas de doping que recaíram sempre sobre Armstrong e a sua equipa nunca se vieram a confirmar. Nem mesmo quando descobriram seringas e substâncias dopantes num frigorífico da casa de Armstrong em Granada (Espanha). Relacionado com as suspeitas de doping, a sua página da Wikipédia é bastante esclarecedora, contendo relatos e links sobre todo o historial de acusações, testes e peritagens realizadas aos sítios onde treinava e às suas casas no Texas, em França e Espanha. Contudo qualquer das acusações lançadas não foi provada.

Individualmente, Lance era um fenómeno. Lembro-me do Tour de 2001 (o menos concorrido para Armstrong) em que este na terrível subida para o Alpe D´Huez atacou cedo e fazia uma média de 115 pedaladas por minuto, facto extraordinário para um trepador perante a dureza da montanha dos Alpes.

Porém também é certo dizer que a preparação de Lance era criteriosa: para o Tour, preparava-se na Volta à Suiça, no Tour da Romandia e no Critério Dauphiné-Libère. Neste último algumas das contagens de montanha são as mesmas da Volta à França. A sua época competitiva começava em Março e terminava no Tour, ou seja, era um ciclista que se dedicava apenas a uma grande prova por etapas por época. Também é certo afirmar que tanto na US Postal como na Discovery Channel, Lance era secundado por uma equipa de gregários constituída à sua volta: Rubiera, Beltran, Heras (passou de chefe-de-fila a ajudante de Armstrong) Tyler Hamilton, George Hincapie, Popovych, José Azevedo: todos eles tiveram uma quota parte no sucesso do Norte-Americano. A US Postal funcionava na perfeição nas etapas de montanha: comandavam muito bem as operações e iniciavam um trabalho desgastante para os adversários que a pouco e pouco iam gerando grupos muito reduzidos onde ficava o Americano e HamiltonAzevedo e dois ou três adversários, pura e simplesmente, os melhores (Ullrich, Kloden, Mayo, Basso, Beloki).

O Tour mais difícil seria o de 2003, quando Ullrich decidiu mudar de equipa para a Team Bianchi. A vitória de Lance esteve presa por um fio, não fosse o Alemão cair no contra-relógio final. Foi a diferença mais escassa nos duelos entre ambos: 1 minuto e 1 segundo. Foi também o Tour, onde Ullrich esperou por Lance após este ter caído numa etapa de montanha devido à interferência de uma bandeira de um espectador na sua roda.

Neste capítulo Lance teve imensa sorte: o respeito que imperava sobre o seu poder no pelotão internacional fazia com que os adversários esperassem por si quando tinha que sair da bicicleta para urinar ou quando caía. Todo o pelotão desejava bater Armstrong mas em situações de corrida sem incidentes. Já o Americano nunca se importou de vencer a todo o custo: o célebre caso da descida em que ia com Beloki (também no Tour de 2003)  em que os dois  saíram fora da estrada e o espanhol ficou gravemente ferido provou um Lance Armstrong que nem sequer olhou para trás para saber do estado do colega de profissão. Beloki jamais iria recuperar os seus dotes de trepador.

2005 marcaria a sua retirada do ciclismo profissional. Os anos seguintes seriam bastante conturbados no Tour: Lance Armstrong e Ullrich estavam fora e uma nova fornada de ciclistas entrava no panorama mundial (Llandis, Contador, Basso, os irmãos Schleck, Valverde). Haviam tantos candidatos a suceder ao Americano em Paris como escândalos de doping no Tour. O caso de Llandis em 2006 foi prova disso. No entanto, jamais algum destes ciclistas (mesmo Contador que já soma 3 triunfos) deverá chegar ao palmarés de 7 vitórias na geral e 22 etapas no Tour do ciclista Norte-Americano.

Voltaria à competição em 2009 para atacar novamente o Tour, depois de ter passado por experiências na maratona e no Triatlo. Incluído primeiro na Astana com Alberto Contador, teve problemas com o Espanhol no primeiro Tour chegando mesmo a pedir aos colegas que não apoiassem o Espanhol nas etapas de montanha, que de resto, este venceria com toda a classe. Decidiu fundar a Team Radioshack, uma equipa voltada para si mas a participação no Tour de 2010 seria um desastre por completo e Armstrong anunciava em Outubro passado a sua retirada definitiva da estrada.

O seu estilo era completamente inigualável. Mal a equipa preparava o seu grupinho para o resto da subida, era extremamente controlador: ora respondia a quem atacava, ora controlava a corrida deixando ir quem não lhe interessava responder. Nos momentos cruciais, lançava o seu ataque demolidor, sendo um primor no contra-relógio. Creio que foram mais as vezes que bateu Ullrich no contra-relógio do que o contrário, se bem que Ullrich era substancialmente melhor nessa variante da modalidade.

Para finalizar, aqui fica o video daquela que é considerada a melhor corrida feita pelo Norte-Americano no Tour, em 2001 no Alpe D´Huez (se clicarem no video poderão ver as 5 partes que compõem a integra da subida):

Esta subida para Alpe D´Huez foi onde Armstrong deu baile a toda a concorrência.

Outro dos momentos míticos foi em 20o3 na subida para LuzArdiden, a célebre subida em que Armstrong caiu devido à interferência de um espectador e em que Ullrich e os restantes esperaram pelo regresso do Norte-Americano:

A queda de Joseba Beloki, também no Tour de 2003:

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