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Exortação

Em nome do teu nome,
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade
— Homem, lembra-te bem!
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;
Leva, dourado,
O sol da consciência
As íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar,

Exortação

Miguel Torga, “Poemas Ibéricos”, 1965

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Maria Bethânia – Jeito estúpido de te amar

Maria Bethânia – “Jeito estúpido de te amar” — Álbum: Pássaro da manhã (1977)

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Já me podem atirar pedras…

Solta-se o que me pretende deste infortuno infinito
Desenlaça-se o predador que me agarra
Sou um reboliço complicado
Neste laço, onde eu sou o luto e o enlutado
Acordo. Penso. Revolto-me.
Mas a teia
A teia da memória
Não me deixa terminar uma história
Em que estou seco e defunto

Acordo. Penso. Revolto-me
Vem as imagens ao segundo
Nesta teia de um vazio profundo
Prende-me, mata-me, cega-me
Faz-me esquecer a realidade do mundo
Vil
Acordo. Penso. Já desisti. Já me passei
Já estou frustrado e parto tudo. Recomeço
A revolução passou a ser
Escrita numa tinta que não escreve
Na teia
Sou o único que não se apercebe
Que não posso sobreviver.
Acordo. Mato-me. Drogo-me e sobrevivo.

Monta-se o cerco
As armas estão preparadas no canto
Aguarda-se o momento
Em que os tiros das espingardas
Colocarão a senha para o ataque
O fogo lá fora
Arde na minha mente
Acordo. Revolto-me. Estou cego.
O gás faz chorar os meus olhos
De uma hipocrisia impar
O gás
Torna o meu corpo completamente dormente

As trincheiras estão esburacadas
Os olhos esbugalhados
As sirenes, são de pânico
Soam nas caladas
Monta-se o cerco
Atiram-se os cães à frente
Sem piedade
O que hoje é mentira
Amanhã é verdade
Mudam-se os tempos
Continuo a dormir, inerte, Morto
Cego pelo gás
Saiu das trincheiras a amizade
Aliam-se os opostos
Fazem-se as pazes sobre a maldade
E a hipocrisia perdura
Atira ao relento
Nem peças satisfações
Aproveita que estás a favor do vento
E cria a ocasião
Atira
Atira sem perdão.

João Branco – escrito no TAGV a 13 de Outubro de 2010.

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