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Saúde pública versus liberdade privada?

Por Peter Singer, sociólogo, Professor de bioética na Universidade de Princeton e professor Laureado na Universidade de Melbourne

“Duas decisões contrastantes tiveram lugar no mês passado: um tribunal de recurso dos Estados Unidos decidiu contra a exigência da Food and Drug Administration (FDA) norte-americana de que os cigarros fossem vendidos em embalagens com imagens de advertência dos perigos para a saúde, enquanto o Supremo Tribunal da Austrália apoiou uma lei que vai muito mais além. A lei australiana exige que nos maços de tabaco figurem advertências dos perigos para a saúde e imagens dos danos físicos causados pelo tabagismo. Exige também que os próprios maços sejam simples, com os nomes das marcas a figurarem em ponto pequeno numa fonte padrão, sem logótipos e sem qualquer outra cor a não ser verde-azeitona.

A decisão dos EUA teve por base a protecção constitucional da América relativamente à liberdade de expressão. O tribunal aceitou que o governo possa exigir advertências factuais exactas dos perigos para a saúde, mas a maioria, numa decisão dividida, considerou que o governo não podia chegar ao ponto de exigir imagens. Na Austrália, a questão era se a lei implicava a expropriação sem a devida compensação – neste caso, dos direitos de propriedade intelectual nas marcas das empresas tabaqueiras. O Supremo Tribunal decidiu que não.

No entanto, subjacente a estas diferenças, está a grande questão: quem decide qual é o equilíbrio adequado entre saúde pública e liberdade de expressão? Nos EUA, os tribunais tomam essa decisão, essencialmente, com base na interpretação de um texto com 225 anos e se esse facto privar o governo de utilizar algumas técnicas que ajudem a reduzir o número de mortes causadas pelo tabagismo – actualmente estimado em 443.000 americanos por ano – assim o será. Na Austrália, onde à liberdade de expressão não é dada protecção constitucional explícita, os tribunais têm uma tendência muito maior para respeitar o direito dos governos democraticamente eleitos de encontrar o equilíbrio adequado.

Existe um consenso generalizado de que os governos devem proibir a venda de, pelo menos, alguns produtos perigosos. Muitos aditivos alimentares são proibidos ou permitidos apenas em quantidades limitadas e o mesmo acontece em relação aos brinquedos para crianças pintados com substâncias que podem ser prejudiciais se ingeridas. A cidade de Nova Iorque proibiu as gorduras trans em restaurantes e está actualmente a limitar a dose permitida de bebidas açucaradas. Muitos países proíbem a venda de ferramentas perigosas, tais como serras eléctricas sem protecções de segurança.

Embora haja argumentos para se proibir uma multiplicidade de produtos perigosos, os cigarros são únicos, porque nenhum outro produto, legal ou ilegal, está perto de causar o mesmo número de mortes – mais do que os acidentes de viação, a malária e a sida, em conjunto. Os cigarros são também altamente viciantes. Além disso, onde quer que os custos de saúde sejam pagos por todos – incluindo os EUA, com os seus programas de saúde pública para os mais desfavorecidos e para os idosos – todos pagam o custo dos esforços para tratar as doenças causadas pelo tabagismo.

Proibir totalmente os cigarros é uma outra questão, porque esse facto iria, sem dúvida, criar uma nova fonte de receita para o crime organizado. Parece estranho, no entanto, considerar que o Estado possa, em princípio, proibir a venda de um produto, mas não possa permitir que o mesmo seja vendido apenas em embalagens onde figurem imagens gráficas dos danos que causa à saúde humana.

A indústria tabaqueira levará agora a sua batalha contra a legislação australiana até à Organização Mundial do Comércio. A indústria teme que a lei possa ser imitada em mercados muito maiores, como o da Índia e o da China. Ou seja, onde essa legislação é mais necessária.

Na verdade, apenas cerca de 15% dos australianos e 20% dos americanos são fumadores, mas em 14 países de baixo e médio rendimento abrangidos numa sondagem, cujos resultados foram recentemente publicados na revista The Lancet, cerca de 41% dos homens eram fumadores, registando-se um aumento do número de jovens mulheres que adquiriram o hábito de fumar. A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 100 milhões de pessoas morreram em consequência do tabagismo no século XX, mas o tabaco irá matar até um bilhão de pessoas no século XXI.

As discussões sobre até que ponto o Estado pode ir na promoção da saúde da sua população começam, muitas vezes, com o princípio de John Stuart Mill de limitar o poder coercivo do Estado a actos que impeçam danos a terceiros. Mill poderia ter aceitado as advertências sobre os perigos para a saúde nos maços de tabaco e até mesmo as imagens gráficas de doenças pulmonares se esse facto ajudasse as pessoas a entender a escolha que estão a fazer, mas teria rejeitado uma proibição.A defesa de Mill a respeito da liberdade individual, no entanto, presume que os indivíduos são os melhores juízes e guardiões dos seus próprios interesses – uma ideia que actualmente raia a ingenuidade. O desenvolvimento de técnicas de publicidade modernas marca uma importante diferença entre a época de Mill e a era actual. As empresas aprenderam a arte de nos vender produtos não saudáveis, apelando aos nossos desejos inconscientes de estatuto, atractividade e aceitação social. Como resultado, sentimo-nos atraídos por um produto sem saber muito bem porquê. E os fabricantes de cigarros têm aprendido a manipular as propriedades do seu produto de forma torná-lo o mais viciante possível.

As imagens gráficas dos danos que o tabaco causa podem contrabalançar o poder desses apelos ao inconsciente, facilitando assim uma tomada de decisão mais determinada e tornando mais fácil a resolução de deixar de fumar. Assim, em vez de rejeitarmos estas leis por serem limitativas da liberdade, devemos defendê-las como forma de promover regras de homogeneidade entre indivíduos e empresas gigantes que não têm qualquer pretensão em apelar à nossa capacidade de raciocínio e de reflexão. Exigir que os cigarros sejam vendidos em maços simples, com advertências sobre os perigos para a saúde e imagens gráficas é uma legislação de igualdade de oportunidades para a parte racional que existe dentro de nós.”

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A verdadeira tragédia do aborto

Por Peter Singer, Professor de bioética na Universidade de Princeton e professor Laureado na Universidade de Melbourne

“Na República Dominicana, no mês passado, uma adolescente grávida que sofria de leucemia viu adiada a sua quimioterapia, porque os médicos receavam que o tratamento pudesse terminar a gravidez e assim violar a rígida lei antiaborto do país. Depois de conversações entre médicos, advogados e a família da rapariga, a quimioterapia foi iniciada, mas não antes de ter sido mais uma vez dada atenção à rigidez das leis do aborto em muitos países em desenvolvimento.

O aborto recebe cobertura extensiva dos meios de comunicação nos países desenvolvidos, especialmente nos Estados Unidos, onde os republicanos têm usado a sua oposição ao tema para reunir votantes. Recentemente, a campanha para a reeleição do Presidente Barack Obama contra-atacou, lançando um anúncio televisivo onde uma mulher diz que é “um tempo assustador para se ser mulher”, porque Mitt Romney disse que apoia a criminalização do aborto.

Mas muito menos atenção é dada aos 86% de todos os abortos, que acontecem no mundo em desenvolvimento. Embora uma maioria de países em África e na América Latina tenha leis proibindo o aborto na maioria das circunstâncias, as proibições oficiais não impedem elevadas taxas de aborto.

Em África, há 29 abortos por cada mil mulheres, e 32 por mil na América Latina. O número homólogo para a Europa Ocidental, onde o aborto é geralmente permitido na maioria das circunstâncias, é de 12. De acordo com um recente relatório da Organização Mundial de Saúde, o aborto clandestino originou a morte de 47 mil mulheres por ano, sendo que quase todas estas mortes ocorreram em países em desenvolvimento. Mais cinco milhões de mulheres sofrem ferimentos todos os anos, por vezes a título permanente.

Quase todas estas mortes e ferimentos poderiam ser prevenidos, segundo a OMS, se se respeitassem as necessidades de educação sexual e de informação sobre planeamento familiar e contracepção, e se se fornecesse o aborto induzido seguro e legal, bem como os cuidados continuados para prevenir ou tratar complicações médicas. Uns estimados 220 milhões de mulheres no mundo em desenvolvimento dizem que querem prevenir a gravidez, mas têm falta de informação sobre, ou acesso a, contracepção eficaz.

Essa é uma grande tragédia para as pessoas físicas e para o futuro do nosso planeta, já tão povoado. No mês passado, a Cimeira de Londres sobre o Planeamento Familiar, organizada pelo Departamento do governo Britânico para o Desenvolvimento Internacional e pela Fundação Gates, anunciou compromissos para chegar a 120 milhões destas mulheres até 2020.

O jornal do Vaticano respondeu criticando Melinda Gates, cujos esforços em organizar e financiar parcialmente esta iniciativa levarão, estima-se, a quase menos três milhões de bebés a morrer no seu primeiro ano de vida, e a menos 50 milhões de abortos. Poder-se-ia pensar que os católicos romanos veriam estes resultados como desejáveis. (Gates é ela própria uma católica praticante que viu o que acontece quando as mulheres não conseguem alimentar os seus filhos, ou são mutiladas por abortos efectuados em condições perigosas.)

Restringir o acesso ao aborto legal leva muitas mulheres pobres a procurar o aborto praticado de forma insegura. A legalização na África do Sul do aborto a pedido fez decrescer em 91% as mortes relacionadas com abortos. E o desenvolvimento dos medicamentos misoprostol e mifepristona, que podem ser fornecidos por farmacêuticos, torna possível o aborto relativamente seguro e barato nos países em desenvolvimento.

Os opositores responderão que o aborto é, pela sua própria natureza, inseguro – para o feto. Salientam que o aborto mata um indivíduo único e vivente. Esse argumento é difícil de negar, pelo menos se por “humano” queremos significar “membro da espécie Homo sapiens”.

É também verdade que não podemos simplesmente invocar o “direito à escolha” de uma mulher para evitar a questão ética do estatuto moral do feto. Se o feto realmente tivesse o estatuto moral de qualquer outro ser humano, seria difícil argumentar que o direito à escolha de uma mulher grávida inclui o direito de provocar a morte do feto, excepto talvez quando a vida da mulher está em perigo.

A falácia no argumento antiaborto reside no salto conceptual da afirmação cientificamente rigorosa de que o feto é um indivíduo vivente da espécie Homo sapiens para a afirmação ética que o feto tem por essa razão o mesmo direito à vida que qualquer outro ser humano. A pertença à espécie Homo sapiens não é suficiente para conferir a um ser o direito à vida. Nem pode algo como a consciência de si ou a racionalidade garantir maior protecção ao feto que, digamos, a uma vaca, porque o feto tem capacidades mentais que são inferiores às das vacas. Contudo os grupos “pró-vida” que fazem piquetes junto das clínicas de aborto são raramente vistos a fazer piquetes junto de matadouros.Podemos argumentar, de modo plausível, que não devemos matar, contra a sua vontade, seres conscientes de si que querem continuar a viver. Podemos encarar isto como uma violação da sua autonomia, ou como uma frustração das suas preferências. Mas porque deveria o potencial de um ser de se tornar racionalmente consciente de si fazer com que fosse errado terminar a sua vida, antes de ter a capacidade para a racionalidade ou para a consciência de si?

Não temos a obrigação de permitir que todos os seres com o potencial de se tornarem seres racionais realizem esse potencial. Se houver um choque entre os supostos interesses de seres potencialmente racionais mas ainda não conscientes, e os interesses vitais de mulheres realmente racionais, devemos dar sempre preferência às mulheres.”

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estou um bocado desapontado, são 5 da manhã e a saúde em Coimbra está a morrer lentamente com este tipo de artistas

“Além da transcendência social e económica, a saúde mental é uma das principais dimensões da saúde e bem-estar(OMS), em sentido inverso os mais recentes dados epidemiológicos mostram serem os problemas de saúde mental a principal causa de incapacidades.

A OMS baseando-se em estudos de efectividade e custos dos serviços de saúde mental (SSM), defende que estes devem garantir a acessibilidade a todas as pessoas, assegurando estes cuidados sem que as pessoas se tenham de afastar significativamente do seu local de residência, e integrando um conjunto diversificado de unidades e programas, incluindo o internamento em hospital geral.

Nesta resposta devem ser respeitados os Direitos Humanos: pessoas com perturbações mentais devem ver respeitados todos os seus direitos, incluindo o direito a cuidados adequados… assim como protecção contra todos os tipos de discriminação.

Há quem procure minorar a importância da Psiquiatria, tentando afastá-la da estrutura próxima do Hospital, e existem sectores que olham para cada Hospital como tradutor apenas de virtudes, esquecendo as limitações.

A manutenção do internamento de doentes com patologia psiquiátrica aguda no Hospital Geral já é hoje uma realidade e constituiria um acto de discriminação a sua retirada da estrutura física, não aceite por nenhum profissional de saúde mental e muito menos pela população.

Urge incrementar as unidades de saúde mental comunitária, permitindo uma melhoria da acessibilidade e qualidade dos cuidados, com respostas mais próximas das populações, numa maior articulação com centros de saúde e outras estruturas da comunidade, reduzindo riscos de descompensação dos casos de patologia mais severa, por um melhor e regular seguimento desses utentes e evitando o recurso à Urgência e diminuindo substancialmente, a necessidade de camas hospitalares de agudos.

Estas estruturas devem ser constituídas por equipas multidisciplinares: psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social e outros profissionais não médicos.

Numa senda de progresso é importante desenvolver projectos que granjearam prestígio: Gerontopsiquiatria, Psicoterapia, Stress, Distúrbios Alimentares, Violência Doméstica, Prevenção de Suicídio, Sexologia, Estimulação Cerebral… a manutenção do serviço regional de internamento para doentes inimputáveis e a criação de unidades de internamento para os casos de patologia mental grave.

Depois de se terem dado passos importantes na reorganização prévia dos Hospitais Psiquiátricos (Sobral Cid, Lorvão e Arnes), a grande maioria dos psiquiatras está de acordo que é agora a altura de promover a transferência progressiva dos cuidados dos utentes, ainda internados no Lorvão e Arnes, para unidades que possam prestar cuidados continuados de Psiquiatria (Dec-lei n.º 8/2010).

Dado as características dos utentes que ainda aí se encontram, numa larga maioria terão de se enquadrar em residências de apoio máximo, localizadas na comunidade, destinada a pessoas clinicamente estabilizadas com elevado grau de incapacidade psicossocial, impossibilitadas de serem tratadas no domicílio por ausência de suporte familiar ou social adequado.

Todos os que conhecem as instalações do Lorvão terão de reconhecer que se tratam de hospitais obsoletos sem condições adequadas, pois grades nas janelas, más condições climática… numa acumulação de pessoas sem as tentarem reabilitar, não possam ser consideradas como o pressuposto de atendimento médico com condições humanas adequadas.

Esta inserção em unidades mais pequenas, apoiados por técnicos diferenciados numa procura de reabilitação e integração no meio social contribuirá para a solidificação dos princípios dos Direitos Humanos a que anteriormente aludíamos.

Aos profissionais das diversas unidades espera-se: manutenção da qualidade assistencial; melhoria respostas integradas aos doentes e famílias; continuação do ensino aos estudantes e colegas mais novos; incremento da investigação numa contínua manifestação de se quererem (re)afirmar, não só no país, como internacionalmente como centro de excelência.”

Publicado pelo Diário As Beiras no dia 12 de Maio de 2012

Eu João Branco me confesso:

1. Sempre tive aversão a hospitais. Desde pequeno que morro de medo sempre que entro num e fico meio hipocondríaco sempre que me vêm às narinas aquele cheiro a líxivia tão característico dos hospitais.

2. Dado o primeiro ponto, assumo humildemente que nada percebo de psiquiatria e nada quero perceber. Muito menos depois da leitura deste curioso texto publicado nesse pasquinzeco desta cidade.

3. Vamos por partes:

3.1 Horácio Firmino, o brilhante autor deste churro à espanhola em língua dita portuguesa, é antes de mais um médico psiquiatra licenciado pela Universidade de Coimbra, actual coordenador da Unidade de Gerontopsiquiatria do Serviço de Psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra (que não é unidade nenhuma graças às explicações que me foram dadas por uma fonte no serviço mas antes uma Consulta Externa na área de psiquiatria para idosos) e presidente de uma Associação que também me foi dita como inexistente (ou como quem diz para inglês ver) chamada Associação Europeia de Psiquiatria Geriátrica. 

3.2 Como podemos depreender do texto, existem partes do mesmo em que qualquer leitor leigo na matéria se pode regozijar por nada ter aprendido com o mesmo.

Começamos pela frase inicial: “Além da transcendência social e económica, a saúde mental é uma das principais dimensões da saúde e bem-estar.”

Afinal de contas o que é que é transcendente para a saude e bem-estar? A palavra transcendência significa “estar acima de”; “ir para além de um limite”, “ir para além de”;  a religião considera Deus transcendente aos homens. A primeira frase aparece-nos desde logo algo confusa e contraditória: à transcendência social e económica, expressão que é utilizada de forma vaga, supera a saúde mental como uma das principais dimensões. Se o social e o económico é transcendente, não existem outras dimensões nem principais nem secundárias, digo eu…

“A OMS baseando-se em estudos de efectividade e custos dos serviços de saúde menta” – Sr. Doutor, não deveria escrever que a “OMS” baseando-se em estudos custo\efectividade…”

MUST or MUST SEE:

“Há quem procure minorar a importância da Psiquiatria, tentando afastá-la da estrutura próxima do Hospital, e existem sectores que olham para cada Hospital como tradutor apenas de virtudes, esquecendo as limitações.

A manutenção do internamento de doentes com patologia psiquiátrica aguda no Hospital Geral já é hoje uma realidade e constituiria um acto de discriminação a sua retirada da estrutura física, não aceite por nenhum profissional de saúde mental e muito menos pela população.

Urge incrementar as unidades de saúde mental comunitária, permitindo uma melhoria da acessibilidade e qualidade dos cuidados, com respostas mais próximas das populações, numa maior articulação com centros de saúde e outras estruturas da comunidade, reduzindo riscos de descompensação dos casos de patologia mais severa, por um melhor e regular seguimento desses utentes e evitando o recurso à Urgência e diminuindo substancialmente, a necessidade de camas hospitalares de agudos.”

Primeiro afirma como prejudiciais aqueles que tentam afastar a Psiquiatria dos Hospitais e assim acentuar discriminações e depois afirma que é necessário incrementar unidades de saúde mental comunitária com a implantação de psiquiatras nos centros de saúde, ou seja, promovendo uma maior descentralização das unidades de psiquiatria. Mais uma vez, o Sr. Dr. contradiz-se com uma profundidade no mínimo “severa”.

para depois nos brindar com mais uma pérola…

“Estas estruturas devem ser constituídas por equipas multidisciplinares: psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social e outros profissionais não médicos.”

Os psicólogos formam-se na faculdade de medicina ou na faculdade de psicologia? E os técnicos de serviço social? Que outro tipo de pessoal não-médico incluiria? Palhaços, canalizadores, pedintes profissionais?

“Numa senda de progresso é importante desenvolver projectos que granjearam prestígio: Gerontopsiquiatria, Psicoterapia, Stress, Distúrbios Alimentares, Violência Doméstica, Prevenção de Suicídio, Sexologia, Estimulação Cerebral… a manutenção do serviço regional de internamento para doentes inimputáveis e a criação de unidades de internamento para os casos de patologia mental grave.”

Haja dinheiro no Ministério da Saúde para tanto projecto caramba!!! Gerontopsiquiatria, 1 projecto. Psicoterapia, 2 projectos. Stress, 3 projectos, Violência Doméstica, 4 projectos….

Soma e Segue

“Depois de se terem dado passos importantes na reorganização prévia dos Hospitais Psiquiátricos (Sobral Cid, Lorvão e Arnes), a grande maioria dos psiquiatras está de acordo que é agora a altura de promover a transferência progressiva dos cuidados dos utentes, ainda internados no Lorvão e Arnes, para unidades que possam prestar cuidados continuados de Psiquiatria (Dec-lei n.º 8/2010).

Dado as características dos utentes que ainda aí se encontram, numa larga maioria terão de se enquadrar em residências de apoio máximo, localizadas na comunidade, destinada a pessoas clinicamente estabilizadas com elevado grau de incapacidade psicossocial, impossibilitadas de serem tratadas no domicílio por ausência de suporte familiar ou social adequado.”

O que são maioria dos casos!!! Vai entregá-los a quem? À Santa Casa da Misericórdia? Ao clube dos Unidos do Barreiro? À CP? À Refer? Como irão prover ao seu sustento se praticamente todos estarão incapacitados de gozo de direitos pela lei ou impedidos à recepção de ajudas sociais por parte do Estado? Quem é que irá sustentar esses doentes? Quantas são as famílias neste momento pré-dispostas (ao nível de formação; ao nível material; ao nível pessoal) para receber nos seus lares aqueles que muitas vezes acabaram por depositar no Hospital Psiquiátrico?

“Todos os que conhecem as instalações do Lorvão terão de reconhecer que se tratam de hospitais obsoletos sem condições adequadas”

Mentira.

” numa acumulação de pessoas sem as tentarem reabilitar, não possam ser consideradas como o pressuposto de atendimento médico com condições humanas adequadas.”

Mentira. Agora se me falasse que algum do pessoal auxiliar não respeita a ética e a deontologia da profissão no tratamento destes doentes até acreditava em si…

“Esta inserção em unidades mais pequenas, apoiados por técnicos diferenciados numa procura de reabilitação e integração no meio social contribuirá para a solidificação dos princípios dos Direitos Humanos a que anteriormente aludíamos.”

“Aludia” Sr. Dr., diz-se “aludia” – primeira pessoa. Sem acento. Do verbo “aludir”. 

4. Como puderam ler, o tratamento da língua de camões por parte deste Dr, é uma coisa que roça a excelência. No início deste texto fui bem expresso ao ponto de admitir que nada percebo de psiquiatria e nada fiquei a perceber depois da leitura deste texto. Depois da leitura deste texto alicercei ainda mais a crença de que a Universidade de Coimbra dá canudos a quem não domina os assuntos da linguística, da semiótica e da sintaxe. Passam-me pela cabeça outros termos, uns ligeiramente ácidos, outros a roçar a linguagem de imberbe, algo que não me apetece escarrapachar aqui sob pena de me encontrar com este dito senhor numa situação desconfortável… no banco da psiquiatria está claro…

5. A página online onde se encontra este testemunho clínico de craveira tyranossaurica tem algumas respostas que são bastantes interessantes e que passo a transcrever:

RIP – “com certeza este senhor só foi visitar o lorvão uma vez, pois se tivesse por lá permanecido mais dias, teria a oportunidade de verificar que as equipas multidisciplinares nesta instituição, há muito que são uma realidade!!
ao tentarem deslocar estas pessoas que vivem aqui há mais de trinta anos, é retirá-las de sua casa e das pessoas que sempre conviveram com eles, os funcionários e os habitantes da vila, estes sim a sua verdadeira família!!!”

Joana Seco: “Sem as tentarem reabilitar??????? Sr dr Horácio…..nota-se, pelo seu discurso…..que de facto não conhece o Hospital do Lorvão……Enfermeira Joana Seco”

José Cunha-Oliveira: “Tenho muita dificuldade em compreender em que diferiam as condições de alojamento, de clima, de reabilitação e dignidade humana do hospital de Lorvão, relativamente às condições do hospital de Sobral Cid ou do Centro de Arnes ou, até, de certos Departamentos de Psiquiatria e Saúde Mental, designadamente da Zona Centro e, mesmo, das existentes nas impecáveis e amplas instalações do HUC.
Tenho também muita dificuldade em compreender em que diferem as respetivas equipas multidisciplinares, e as coisas que fazem, das que são feitas em setting universitário.
Pois, mas a questão não é essa, obviamente. A questão é de hegemonia, de toma dos lugares de direção e de fuga às filas de excedentários e da mobilidade anunciada. Tudo o mais são sofismas e coisas que se dizem por dizer.
É claro que o futuro será dirigido por quem tem mais estatuto e títulos do que propriamente diferenças de fazer. E está certo, sempre assim foi e há de ser. Pelo menos, têm mais entrada nos centros decisórios.
Porém, do muito que se tem dito sobre o tema, não houve ainda uma única referência ao que se fará de diferente. Apenas se promete, vagamente, que se fará melhor, ou se calha com mais “ciência”, o que sempre se tem feito.
Unidades de Cuidados Continuados de Psiquiatria, isso é o quê: asilos velhos com nome novo? Aonde vai o tempo em que se falava de residências comunitárias, reabilitação cívica (“empowerment”), formação profissional, emprego protegido, enfim, essas coisas diferentes. E, é claro, aonde vai a Psiquiatria Comunitária, agora transformada em Consultas de psiquiatria nos Centros de Saúde…
Acabar com os velhos hospitais psiquiátricos, sim, concerteza. Mas se apenas mudamos os doentes, internados ou ambulatórios, de serviços velhos, onde estão adaptados, para serviços novos, onde terão de se adaptar, e transferi-los de uns sítios para os outros, muito pouco mudará efetivamente no modelo de abordagem da doença mental e menos ainda na dignidade humana dos doentes.
Acrescentarei, para terminar, que mais do que o genuíno interesse pelo bem estar dos doentes nesta transferência dos hospitais psiquiátricos públicos para instituições privadas, estão prioritariamente em causa interesses de natureza orçamental, já que sai muito mais barato tê-los internados em instituições privadas. E que, por sua vez, sai muito mais barato manter o mesmo modelo de intervenção, agora dirigido pelo hospital universitário, do que por em marcha uma reforma profunda dos serviços de psiquiatria e saúde mental.”

6. Para finalizar, cumpre-me escrever Directamente para o Doutor:

6.1 Sr. Doutor, com todo o respeito, uma professora primária decente fazia-lhe jeito. Sei que é de outros tempos assim como de outros tempos são os meus pais por exemplo. O meu pai fala-me que nos vossos tempos, as professoras primárias usavam as ditas “meninas de 5 olhos” para castigar os meninos que não escreviam bem os ditados… Essa tal menina não deverá ter feito milagres na sua escrita.

6.2 Para o pessoal do pasquim: Se o artigo de opinião não vem bem escrito, ao menos, que cumpra aos redactores ou aos editores a função de lhe dar um toque de português com conta, peso e medida. Até nestes pequenos pormenores se denota um mau profissionalismo do jornal para quem os sustenta: os seus clientes.

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