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Os maus ventos do Ocidente

Por Jaswant Singh, Ex-ministro das Finanças, dos Negócios Estrangeiros e da Defesa indianos

“Há quatro anos, no nadir da crise financeira, muitos governos asiáticos acreditaram que o seu crescimento robusto levara a uma quase-“dissociação” das suas economias relativamente ao Ocidente e aos seus problemas persistentes. Mas agora, à medida que a zona euro vacila e a recuperação da América enfraquece, também a Ásia mostra sinais de fraqueza.

Alguns políticos asiáticos culparão, convenientemente, o Ocidente por quaisquer abrandamentos do crescimento. Mas o seu falhanço em concretizar as necessárias reformas estruturais e oportunidades económicas é igualmente responsável, se não mais, pelas crescentes dificuldades da região.

Consideremos a Índia. De acordo com o boletim International Market Assessment (Avaliação Internacional de Mercados – NdT), “os fluxos de capital que secaram não são… um reflexo das condições de mercado globais”, mas de uma perda de confiança entre investidores, decorrente principalmente da má gestão fiscal, que levou a “instabilidade de preços, investimentos em queda e eventualmente a um declínio no… crescimento”. Com o “governo em dormência”, conclui o IMA, “A Índia está rapidamente a perder o rumo”.

A situação da Índia é deveras preocupante. A inflação de dois dígitos no preço dos produtos alimentares tem sido acompanhada pelo debate sobre a parte de indianos que vive abaixo da linha de pobreza e, até, sobre onde a linha da pobreza deveria ser traçada. As estatísticas oficiais usam um rendimento diário médio de 32 rupias (0,57 dólares) para separar os meramente pobres dos desesperadamente empobrecidos.

Em vez de abordar o paradoxo central da sociedade indiana contemporânea – pobreza no meio da abundância – o governo da Índia enterrou a cabeça na areia. Proclama reformas ousadas, que depois repudia antes de a tinta secar. Ainda pior, a crescente corrupção oficial está a minar o dinamismo do sector privado.

Mas a Índia não é a única em dificuldades. A China também teme um abrandamento do crescimento e uma inflação salarial crescente. Em resposta, o banco central da China está a diminuir as taxas de juro para incentivar o investimento interno, e a resultante desvalorização da taxa de câmbio do renminbi tem ajudado a manter o nível das exportações. Mas os números das importações chinesas para a primeira metade deste ano chegaram a um patamar, sugerindo que as empresas chinesas não estão a investir em novos equipamentos – e que a economia da China pode estagnar em breve.

Embora os seus sistemas políticos sejam opostos especulares, há paralelos marcantes em alguns dos mais profundos problemas estruturais da China e da Índia. Ambos os países encetaram reformas – a China na década de 1980 e a Índia na década de 1990 – que descentralizaram a tomada de decisão, e ambos progrediram rapidamente. A Índia foi compelida pela sua democracia a perseguir uma rota politicamente descentralizadora, enquanto muita da autoridade de tomada de decisão económica permaneceu implantada na burocracia ossificada de Nova Deli, atrasando o crescimento. Em contraste, a China conseguiu a descentralização económica, mas preservou o poder político centralizado, transferindo as responsabilidades da gestão económica em grande medida para funcionários provinciais, o que criou os seus próprios desequilíbrios.

Portanto, mesmo quando a China é compelida a reorientar-se das exportações para o consumo interno de modo a sustentar o crescimento, a Índia continua a depender no investimento interno, exportação de serviços e matérias-primas e menores défices fiscais e de contas correntes para manter o seu crescimento. Mas o seu défice mais danoso reside no governo, tal como no caso da China, onde o escândalo de Bo Xilai expôs a patológica face obscura da apregoada liderança tecnocrática da China.

No resto da Ásia, os problemas estruturais também estão a crescer. No Vietname, a inflação tem pairado pelos 20% ou mais, com o governo aparentemente relutante a abraçar reformas mais profundas. O interminável imbróglio político da Tailândia deixou a sua economia em velocidade zero; o zelo reformista do Presidente indonésio Susilo Bambang Yudhoyono tem vindo a desaparecer no seu segundo mandato, após a partida do ministro das Finanças Sri Mulyani Indrawati; e o Japão parece continuar num estado de animação suspensa.

O mal-estar da Europa, e o resultante aumento de políticas populistas, sugere que os governos da Ásia não se possam dar ao luxo de aproveitar os louros do seu crescimento. Na verdade, deviam atentar num recente comentário de Pavlos Eleftheriadis, da Universidade de Oxford, sobre um eleitorado grego “lívido por ser conduzido por aqueles que desonestamente causaram o problema”. Na verdade, de acordo com Eleftheriadis, os cobradores de impostos na Grécia deparam-se hoje com cidadãos armados de chicotes. Essa situação é parecida com a que se vive hoje na Índia.Há ideias usadas a circular pela Ásia que poderiam sustentar e promover o crescimento. A decisão recente dos líderes da China, do Japão e da Coreia do Sul para iniciar conversações num acordo trilateral de comércio livre entre, respectivamente, a segunda, a terceira e a décima-segunda maiores economias mundiais é certamente audacioso, embora conseguir um acordo entre duas das grandes democracias da Ásia e a China certamente fará parecerem simples as conversações falhadas da Ronda de Doha sobre o comércio global.

Mas a Índia não é vista em nenhum destes cenários. Na verdade, com a economia da Birmânia a abrir-se ao mundo, a Índia devia estar a tomar a dianteira na procura do estímulo do crescimento e da integração económica da Ásia Meridional, pois apenas fazendo isso poderá ancorar o seu vizinho na região. Contudo, quando o primeiro-ministro Manmohan Singh visitou recentemente a Birmânia, tinha pouco a oferecer para além das propostas de investimento usuais. Uma iniciativa ousada na direcção do Bangladesh também provocaria um impacto fortemente positivo no crescimento, e no entanto também nada está a acontecer aí.

Com os maiores países emergentes, especialmente a China e a Índia, já em apuros, a Ásia pode esperar ser duramente atingida se o euro afundar. Antes de isso acontecer, os governos devem tomar a iniciativa política, fortalecendo assim a confiança dos mercados financeiros globais na capacidade da Ásia em suportar os maus ventos do Ocidente.”

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O Declínio do Ocidente Revisitado

Por Shlomo Ben-Ami, ex-ministro dos negócios estrangeiros Israelita e Vice-presidente do Centro de Paz de Toledo.

“Desde a publicação em 1918 do primeiro volume de O Declínio do Ocidente, de Oswald Spengler, as profecias sobre a inexorável destruição do que apelidou de “civilização faustiana” têm sido um tópico recorrente para pensadores e intelectuais públicos. As crises actuais nos Estados Unidos e na Europa – resultantes essencialmente das falhas éticas inerentes ao capitalismo dos EUA, e da disfunção europeia – podem ser vistas como fornecendo credibilidade à visão de Spengler quanto à inadequação da democracia, e à sua rejeição da civilização ocidental como sendo essencialmente impelida por uma corruptora cobiça pelo dinheiro.

Mas o determinismo histórico tem sido sempre derrotado pelas forças imprevisíveis da vontade humana e, neste caso, pela extraordinária capacidade de renovação do Ocidente, mesmo após derrotas cataclísmicas. É verdade que o Ocidente já não está sozinho na definição da agenda global, e que os seus valores estão limitados a ser crescentemente desafiados por potências emergentes, mas o seu declínio não é um processo linear ou irreversível.

Não pode haver dúvidas de que a mestria militar e a vantagem económica do Ocidente têm sido severamente diminuídas recentemente. Em 2000, o PIB da América era oito vezes maior que o da China; hoje é apenas duas vezes maior. Para piorar a situação, desigualdades espantosas de rendimento, uma classe média espremida e provas de uma grande difusão de lapsos éticos e de impunidade estão a fomentar um desencanto perigoso com a democracia e uma crescente perda de confiança num sistema que traiu o sonho americano de progresso e melhoria constantes.

Esta não seria, no entanto, a primeira vez que os valores da América prevaleceram sobre a ameaça do populismo em épocas de crise económica. Uma variação da agenda fascista apareceu outrora na América, com a investida populista do padre Charles Coughlin na década de 1930 sobre a “aliança com os banqueiros” de Franklin Roosevelt. A União Nacional para a Justiça Social de Coughlin, que conseguiu angariar milhões de membros, acabou por ser derrotada pelos poderosos anticorpos democráticos do sistema americano.

Quanto à Europa, a crise da zona euro expôs as fraquezas da democracia em lidar com emergências económicas importantes, bem como as debilidades no projecto da União Europeia. Na Grécia e em Itália, Governos tecnocratas sobrepuseram-se a políticos falhados. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán tem feito pressão a favor de um autoritário “restabelecimento do Estado.” Estes casos parecem apontar para um passado europeu no qual os falhanços da democracia deram lugar a formas mais “expeditas” de governo.

E, no entanto, enquanto a Europa permanece um ponto de interrogação, o crescimento económico e a criação de empregos, embora frágeis, voltaram à América. Além disso, mesmo que a China se tornasse a maior economia global em, digamos, 2018, os americanos ainda seriam muito mais ricos do que os chineses, com um PIB per capita quatro vezes maior na América do que na China.

Na verdade, a desigualdade de rendimentos e a injustiça social são concomitantes à cultura capitalista em todo o Ocidente. Mas potências emergentes como a China e a Índia não estão em posiçãode dar o exemplo. Comparado com o capitalismo indiano, os falhanços éticos do capitalismo noutras paragens parecem especialmente benignos. Uma centena de oligarcas na Índia detém activos equivalentes a 25% do PIB, enquanto 800 milhões dos seus compatriotas sobrevivem com menos de um dólar por dia. Políticos e juízes são comprados, e recursos naturais no valor de biliões de dólares são vendidos a empresas poderosas por uma insignificância.

Ter a maior economia é vital para uma potência que aspire a manter a superioridade militar e a capacidade de definir a ordem internacional. Consequentemente, o poder cada vez menor do Ocidente significa uma luta mais dura para apoiar a relevância de componentes vitais do seu sistema de valores, como a democracia e os direitos universais.

A Europa, com a sua mentalidade quase pós-histórica, abandonou há muito a pretensão de ser uma potência militar. O mesmo não pode ser dito dos EUA. Mas, em vez de reflectir um declínio na sua superioridade militar, os reveses da América no Iraque e no Afeganistão são o resultado de políticas obstinadas que procuraram utilizar a força bruta para resolver conflitos que simplesmente não poderiam ser resolvidos desse modo.

Os cortes recentes e profundos no orçamento militar dos EUA não assinalam necessariamente um declínio; podem indiciar uma era de defesa mais inteligente, que assente em ideias inovadores, alianças fortes e construção de capacidade dos seus parceiros. A mudança das prioridades militares dos EUA para a região Ásia-Pacífico é um reequilíbrio estratégico compreensível, dado o excessivo foco da América no Médio Oriente e a manutenção de uma presença militar desnecessária na Europa.Mitigado pela fadiga do público dos Estados Unidos com aventuras ultramarinas, o zelo missionário da América em salvar o mundo da maldade de autocratas longínquos será substancialmente reduzido. Mas isto não significa necessariamente que a China ocupe automaticamente a posição que a América deixar vaga. Apesar dos cortes recentes, o orçamento para a defesa da América é ainda cinco vezes maior do que o da China. Mais significativamente, a estratégia de longo prazo da China requer que se focalize, no curto prazo, em satisfazer o seu vasto apetite por energia e matérias-primas.

Não nos iludamos: o eurocentrismo e o orgulho ocidental receberam golpes severos nos anos recentes. Mas, para aqueles que no Ocidente estão assoberbados pelo fatalismo e pela dúvida, emana agora uma mensagem de esperança proveniente da Primavera Árabe, e da retoma na Rússia da revolução inacabada que terminou com o comunismo. Nem foi ainda resolvida a inconsistência entre o capitalismo da China e a sua falta de liberdades civis. Não se pode excluir de antemão uma Primavera Chinesa.

O Ocidente enfrenta sérios desafios – como sempre tem enfrentado. Mas os valores da liberdade humana e da dignidade que guiam a civilização ocidental permanecem o sonho da vasta maioria da humanidade.”

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