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Irão confronta a realidade

Por Javier Solana, Ex-Alto Representante dos Negócios Estrangeiros da UE e ex-secretário-geral da NATO

“Quem é que nunca viu aquela espécie de miragem, que parece água na estrada, num dia quente de Verão? Ou uma imagem tridimensional que na verdade era uma figura numa superfície plana? A natureza da ilusão leva-nos a confundir o que percebemos com a realidade.

Isso é verdade caso a ilusão seja cognitiva ou política. Dependendo de como um determinado evento se desenvolve, pode levar-nos a formular interpretações erróneas sobre o que está realmente a acontecer.

Tais percepções são muitas vezes mediadas por ideias e experiências anteriores. E, tal como Robert Jervis argumentou em Perception and Misperception in International Politics, publicado durante a Guerra Fria, as ilusões que criamos têm uma enorme influência na tomada de decisões – tornando-se até mesmo numa causa fundamental de conflito.

Até certo ponto, isto foi o que aconteceu com a análise da recente 16.ª Cimeira do Movimento dos Países Não-Alinhados (MNA), realizada no final de Agosto em Teerão – a primeira vez que o Irão organizou o encontro. A cimeira realizou-se num contexto de pouco progresso nas negociações com o Irão, em relação ao seu programa nuclear, e com a crescente pressão de Israel para a comunidade internacional estabelecer um “gatilho” – uma linha que a República Islâmica não deva transpor.

Além disso, as tensões regionais aumentaram a percepção da importância da cimeira do MNA e do seu anfitrião. No Médio Oriente, apenas o Irão e Hezbollah apoiam o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, numa guerra civil que está a chegar a uma situação de não retorno e a desestabilizar o Líbano e a Jordânia.

O MNA desempenhou um papel importante durante a Guerra Fria. A sua visão foi moldada pelas recentes lutas pela independência, de muitos dos seus países membros, e a sua agenda promoveu a soberania nacional, a não-interferência, um reequilíbrio nas relações Norte-Sul e o apoio aos movimentos de libertação nacional.

Mas a realidade que uniu o MNA no passado mudou. As estruturas do governo bipolar da Guerra Fria e o período seguinte de unilateralismo norte-americano – no qual os Estados não-alinhados tentaram agir como um contrapeso – deram lugar a um mundo multipolar muito mais complexo e interdependente. Enquanto os Estados Unidos e a Europa ainda lutam para superarem uma grave crise económica, muitos membros do MNA, nomeadamente a Índia, Chile e Singapura, mantiveram um forte crescimento proporcional e fazem parte das novas estruturas de governação mundial, como o G-20.

Da mesma forma, muitos dos problemas que hoje enfrentamos – a alteração climática, a crise financeira, os desafios do desenvolvimento, o terrorismo ou a proliferação nuclear – reflectem a crescente interdependência mundial. Administrá-los de forma eficaz obriga-nos a repensar o conceito de soberania.

Estas mudanças transformaram não só as estruturas tradicionais de poder, mas também o leitmotiv do MNA e o destino dos seus membros. A globalização tem impulsionado, de uma forma cada vez mais ampla, as disparidades entre os seus membros – basta comparar a Colômbia com o Afeganistão ou o Chile com o Sudão – que têm dificuldade em transformar os números absolutos em influência coerente.

O impacto da cimeira de Teerão, e a quem possa ter beneficiado, não está totalmente claro. O Irão certamente considerou o encontro como uma oportunidade de propaganda, prometendo uma vasta cobertura dos media, numa altura em que estava no centro de um furacão diplomático. Mas a incapacidade dos participantes chegarem a uma posição comum, em relação ao programa nuclear do país anfitrião ou à violência na Síria – duas das questões fundamentais que confrontaram a cimeira –, obviamente prejudicou o esforço do Irão para demonstrar que, apesar de enfrentar severas sanções económicas e diplomáticas, permanece um interveniente internacional eficaz.

De facto, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, criticou o Irão por não assegurar ao mundo que não está à procura de armas nucleares, na altura em que a Agência Internacional de Energia Atómica publicou um novo relatório, a sugerir que está. E, num discurso de grande intensidade, Mohamed Morsi, o primeiro presidente egípcio a visitar o Irão desde o nascimento da República Islâmica em 1979, rejeitou firmemente o regime sírio, tal como fez numa intervenção posterior na Liga Árabe. Além disso, Morsi recomendou ao Irão a juntar-se ao Egipto, à Turquia e à Arábia Saudita – todos os países de maioria sunita – para pressionar o processo da transição política na Síria (um papel que a oposição síria rejeitou, antes mesmo de o Irão poder dizer não).

Por outras palavras, a realidade traiu a percepção que o Irão procurou criar ao organizar a cimeira MNA. Em vez disso, o discurso de Morsi proporcionou o momento mais memorável da cimeira. E a busca nuclear do Irão continua a ser uma realidade que não deve ser ignorada durante os próximos três anos chave, quando a República Islâmica comandar o MNA, ao mesmo tempo que continua a ser um dos problemas mais graves da agenda internacional.”

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da Síria e das amizades russas

“Para nosso grande lamento, assistimos a elementos de chantagem.Consideramos que essa abordagem é absolutamente contraproducente e perigosa, uma vez que é inaceitável utilizar os observadores como moeda de troca. Ouvimos comentários segundo os quais a chave para uma solução para a Síria está em Moscovo, mas quando pedimos explicações dizem-nos que isso significa que deveríamos convencer Assad a deixar o poder ” – Serguei Lavrov, Ministro dos Negócios Estrangeiros Russo.

1. Consta-se que 17 mil pessoas já morreram desde o início do conflito. A escala internacional determina que um conflito assume o estatuto de guerra após a morte de mil pessoas. E os Russos não parecem interessados em resolver o problema. Preferem adoptar a estratégia errada: convencer o regime a cair por si, quando todos sabemos que essa estratégia não demove um ditador.

2. O grau de democraticidade do regime sírio é nulo. Isto porque Bashar Al-Assad não permite eleições livres por sufrágio directo e universal, não permite nem respeita direitos, liberdades e garantias fundamentais a cidadãos, e recentemente alterou a Constituição do país para poder continuar a governar até ao dia da sua morte.

3. O regime de Bashar Al-Assad recusa-se diariamente a negociar com o prestigiado negociador enviado pela ONU, nada mais nada menos que Kofi Annan, antigo secretário-geral da organização.

4. Ao nível interno, todos os dias, a comunidade internacional é blindada com reportagens e relatos de bombardeamentos a cidades, massacres a civis, e desrespeitos pelos Direitos Humanos cometidos pelo governo sírio.

5. Ao nível de política externa, o governo sírio pressionou o governo turco através de uma violação de espaço aéreo do vizinho.

6. A Rússia, grande parceira comercial do governo sirio, parceria comercial que está estabelecida de grosso modo no fornecimento de armamento ao regime (a contrapartida deste fornecido é óbvia dada a importância estratégica do território sírio na região) tem-se recusado a ceder no Conselho de Segurança da ONU a resoluções que visem ora constituir medidas de embargo internacional ao regime de Bashar Al-Assad, ora uma resolução do conflito por via da entrada de tropas para fins de manutenção da paz e da segurança dos cidadãos. Estranhamente, no caso Líbio (com proporções muito menos ao nível de escalada de violência aquando da intervenção internacional) a Rússia não se manifestou quanto a uma missão de semelhante objectivo.

7. O regime Sírio tem posto em prática um esquema que visa condicionar o trabalho dos observadores internacionais no país e tem violado por completo as leis internacionais com os condicionamentos que tem colocado à entrada de ajuda humanitária.

8. Posto isto, mais uma vez se denota a obsoletidade do Conselho de Segurança da ONU, principalmente no toca ao modus operandi do Conselho de Segurança. A Rússia tem bloqueado sistematicamente com o seu direito de veto todas as possibilidades que a comunidade internacional tem de dar uma resposta imediata ao problema acima citado. Pior que um país bloquear aquilo que é tido como necessidade urgência de actuação de toda a comunidade internacional no problema em questão, suscita outro problema maior pelo meio: não será vital para a sobrevivência da ONU enquanto instituição (que precisa de manter um certo controlo sobre o cenário internacional) que se avance com uma nova proposta de reforma institucional?

O que temos vindo a assistir desde há uns anos para cá é a pura ineficiência das suas acções. No caso do Sudão e da Somália, apesar de um primeiro veto chinês à resolução do conflito, a ONU queria actuar decisivamente na resolução do conflito mas nenhum dos Estados-membros mais poderosos tinha interesse em constituir uma missão que pudesse dar um fim a esse objectivo. Optou-se na altura pelo envio de tropas muito mal preparadas de estados como a Nigéria numa operação comandada pelas Nações Africanas, que, obviamente redundou num enorme fracasso. No caso da Líbia, mesmo apesar da ONU ter accionado um mecanismo de resposta que visava uma operação de manutenção de paz e segurança dos cidadãos, rapidamente, toda essa operação passou para as mãos da NATO por via da influência norte-americana e de facto, a operação tornou-se uma operação que visou derrubar Khadafi. No caso do Iraque, os Norte-Americanos atropelaram a próprio ONU, numa intervenção que arruinou o pouco poder de controlo que a organização tinha sobre os estados-membros. No caso Sírio, existe interesse na resolução do conflito mas é a Russia quem bloqueia qualquer tipo de operação no terreno.

9. No fim de contas pensamos: quem é que está a chantagear quem?

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O nó persa

Por Joschka Fischer, Líder do Partido Verde, foi ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha e vice-chanceler

As negociações entre o Irão e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mais a Alemanha, sobre o programa nuclear iraniano entraram agora numa nova, e provavelmente decisiva, fase. Estas negociações decorrem há quase uma década, pautadas por longas interrupções e ninguém pode adivinhar se desta vez haverá desenvolvimentos. Mas a situação nunca foi tão séria como agora e a paz está em jogo.

Após a recente visita do primeiro-ministro israelita Binyamin Netanyahu a Washington DC e a do primeiro-ministro Turco Recep Tayyip Erdogan a Teerão, uma situação pouco clara começa a tornar-se mais nítida. Parece que o presidente norte-americano Barack Obama conseguiu ganhar tempo definindo uma meta – o início de um programa explícito de armamento nuclear iraniano – e garantido a Israel a sua prontidão para a acção militar caso as negociações falhem.

Além disso, tendo em conta o perigo de um confronto militar, os Estado Unidos, em conjunto com a Europa e outros parceiros, implementaram novas sanções “inteligentes” e rígidas visando as exportações petrolíferas iranianas – a sua principal fonte de rendimento – e isolaram em grande parte a República Islâmica do sistema de pagamento internacional. O Irão precisa urgentemente da sua fonte de rendimento petrolífera e, sem poder participar no sistema de pagamentos, o seu comércio internacional está a ficar paralisado. As transacções por meio de géneros e malas cheias de dinheiro não são uma alternativa viável. Desta forma, a economia iraniana está a ser abalada até ao âmago.

Além disso, os EUA parecem ter transmitido a gravidade da situação e as suas intenções de forma credível aos líderes iranianos através de vários canais. Por isso, caso esta ronda de negociações também não seja bem-sucedida, poderá ter início uma grande – e completamente previsível – tragédia.

A boa notícia reside no facto de que todos os intervenientes parecerem ter consciência desta situação, o que deverá fazer com que os envolvidos se concentrem num processo de negociações sério e numa solução diplomática. Deverá tornar-se evidente em breve se desta vez o Irão está seriamente disposto a assumir um compromisso, pois existem inúmeras referências para o medir.

O conteúdo desse compromisso é mais ou menos claro: a aceitação por parte do Irão de urânio pouco enriquecido para utilização não militar e salvaguardas melhoradas e verificáveis, tais como a exportação de urânio pouco enriquecido para processamento adicional e direitos de fiscalização mais fortes e abrangentes para a Agência Internacional de Energia Atómica em território iraniano. Por exemplo, a AIEA teria acesso a instalações iranianas vedadas.

É claro que um compromisso não iria abordar a questão do comportamento interno do regime iraniano e as suas ambições regionais – uma fonte de ansiedade partilhada por Israel e pelos estados árabes do Golfo, principalmente a Arábia Saudita. Mas, sem ninguém com vontade de entrar em guerra para obter uma mudança de regime no Irão, especialmente após a desventura no Iraque que durou uma década, não haverá obstáculos às negociações motivados por aspirações fúteis.

Isto aplica-se igualmente ao Irão, onde algumas pessoas influentes ainda pensam que os EUA podem ser expulsos do Médio Oriente, e que o status quo pode ser alterado de forma a instalar o Irão como o poder hegemónico da região. Esta ilusão, não inferior à esperança do Ocidente numa mudança de regime no Irão, só poderá ser seriamente levada por diante correndo o risco inadmissivelmente elevado de guerra e caos regional.

Outros factores significativos irão ter um papel importante no desfecho destas negociações. O primeiro prende-se com a política interna do Irão no que diz respeito à luta pelo poder no seio do regime – uma luta que já antes inviabilizou uma solução diplomática, devido ao facto de nem conservadores nem reformistas estarem dispostos a ceder um triunfo diplomático ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. Resta-nos esperar que, à luz da gravidade da situação, esta via para o insucesso esteja vedada.

É provável que os desenvolvimentos na Síria, o último aliado do Irão na região, também venham a ter o seu papel. A queda do regime do presidente Bashar al-Assad seria um fracasso estratégico para o Irão, que se defrontaria com uma frente unida de estados árabes, apoiados pela Turquia, pelos EUA e, de certa forma, por Israel. O Irão teria então dificuldade em manter a sua presença no Líbano e a sua posição tornar-se-ia mais complicada mesmo no Iraque, independentemente da maioria Xiita. Resumindo, a sua procura por um domínio regional iria desabar.Devido à complexidade de factores externos, será importante não sobrecarregar as negociações nucleares com questões para cuja resolução as mesmas não estão preparadas. Os problemas da Síria, do futuro do regime iraniano, da situação no Golfo Pérsico e zona circundante deverão ser abordados a outro nível e noutro momento caso se pretenda conter ou evitar o risco de guerra devido ao programa nuclear do Irão.

Desde o tempo em que Alexandre o Grande resolveu de forma memorável o enigma do nó górdio com apenas um golpe da sua espada, sonha-se com soluções militares simples para resolver problemas complexos. Mas, na maioria das vezes, a aplicação de força militar para resolver um problema origina ainda mais problemas. No Iraque, George W. Bush, Dick Cheney, e Donald Rumsfeld demonstraram que a utilização do poder militar apenas como último recurso é não só um imperativo ético e moral, como também um imperativo baseado numa Realpolitik.

Existem momentos em que a utilização do poder militar se torna inevitável, mas nunca deverá ser uma opção alternativa à diplomacia. Esta constatação é decididamente verdadeira no que respeita o “Nó Persa” actual. No entanto essa escolha – guerra ou diplomacia – confronta agora ambos os lados.

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Mais relatos chocantes de Damasco

A Crueldade sem limites do governo de Al-Assad.

Já bati demasiado nesta tecla no que toca à falta de operância das Nações Unidas e do seu des(conselho) de Segurança quanto ao caso sírio.

De que está Luis Moreno-Ocampo à espera para tomar providências quanto ao ditador Sírio no seio do Tribunal Penal Internacional?

De que está à espera a NATO para por fim a esta barbarie? A NATO, essa organização “tão interventiva, tão democrática e tão respeitadora do Direito Internacional” ainda não se pronunciou sobre o caso Sírio.

No caso de Mohammar Khadafi e da Líbia, as Nações Unidas foram rápidas a pronunciar-se acerca das sanções e das intervenções a executar no país, a NATO passou por cima de uma resolução que ia de encontro à manutenção de paz e segurança entre os civis e acabou por executar uma intervenção militar com o objectivo de derrubar Khadafi e Luis Moreno-Ocampo tratou de abrir investigação ao regime sirio quando se começou a suspeitar que o mesmo torturava e atacava civis.

Homs e Damasco continuam a ferro e fogo sem que a comunidade internacional tenha interesse em resolver a situação.

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A Síria, Ban Ki-Moon e as eleições russas

Voltamos ao tempo dos senhores da guerra.

Na viragem do século XIX para o século XX, Kofi Annan, apercebendo-se do monstro burocrático que se tinha tornado a organização que dirigia e apercebendo-se da óbvia perda de influência da dita organização entre as nações e no controlo da estabilidade e da paz do cenário internacional, fez publicar no seu relatório enquanto secretário-geral da ONU uma tentativa de mudança do paradigma de actuação das Nações Unidas.

De entre os vários items da agenda criada por Annan, tomando em conta os lapsos presentes na orgânica do Conselho de Segurança e a sua clara ineficácia (também provocada pelo facto da ONU não ter meios capazes de executar actos militares) na actuação rápida perante problemas, nomeadamente, perante tensões armadas ou conflitos bélicos emergentes, efectivou-se a necessidade de reforma do próprio Conselho, tendo em vista uma actuação mais rápida e mais eficaz perante os dados problemas.

A revolução que Annan pretendia para o Conselho (assim como para quase toda a instituição) acabou por redundar num enorme fracasso. O Conselho de Segurança cresceu para 15 países-membros, mantendo-se a tomada de resoluções pelos 5 gigantes, aumentando-se apenas a esfera de influência no órgão pelo acréscimo de um secretariado não-permanente composto por 10 países, entre os quais actualmente Portugal.

Ban Ki-Moon, sapiente que a alteração produzida voltou a não ter resultados no nível que se esperava, veio ontem mais uma vez a público denunciar aquilo que se sabe sobre a repressão e clima de terror que o regime Sírio de Bashar Al-Assad está a por em marcha em Damasco e em Homs e pedir para que se tomem decisões urgentes capazes de por fim ao dito clima de terror.

É certo que o regime de Al-Assad, tem, como se diz na gíria popular, as costas quentes. Isto porque há algumas semanas atrás uma proposta de resolução para o problema do regime sírio esbarrou com o veto russo no Conselho de Segurança. Mais uma vez as Nações Unidas, reunidas democraticamente para a resolução de um conflito que já matou 7500 cidadãos sírios, sucumbiu de forma ineficaz e propositada aos interesses económicos de uma nação, neste caso a Russia.

Por falar em Russia, amanhã haverão eleições. Eleições? Eleições só se podem considerar como tal quando o povo se pronunciar nas urnas. Nas eleições de amanhã, já se sabe de antemão (como os mídia internacionais já anunciam faz mais de uma semana) que o Kremlin será de novo ocupado por Vladimir Putin, em mais uma das suas trocas pelo poder.

Vladimir Putin, para os mais atentos, mudou há alguns anos atrás a constituição russa de modo a permanecer no poder como Presidente da República. Para isso, fez alterar as competências do primeiro-ministro Dimitri Medvedev para subalternar novamente no poder executivo com o Presidente da República, Vladimir Putin, himself.

Expirado o mandato enquanto presidente da república, Vladimir Putin voltou a reordenar as regras do jogo para poder continuar a mandar. Toques de tirania?

Esses toques de tirania assim como o vício presente nestas eleições adquirem vida a partir do momento em que é a Duma Russa (Parlamento) e os partidos nela presentes que nomeiam os candidatos. Imediatamente surge-nos a ideia de um sufrágio pouco universal e uma violação clara dos direitos de 1ª geração.

Eleições à parte.

As modificações incutidas por Putin no plano interno estão a ter resultados. Vamos ao plano externo.

Da URSS fracturada pelo fim da era bipolar assistimos ao desmembramento nas novas repúblicas. No caso Russo, a Perestroika levou a uma onda de privatizações do outrora sistema de sovietes pelos chamados “novos oligarcas” num processo que a muitos se revelou feito às três pancadas. Nos anos 90, a nível militar, geopolítico e internacional, a Russia, no seu caso específico não só desmilitarizou-se como com Yeltsin se verificou uma aproximação gradual aos interesses das Nações Unidas e à NATO. A Russia, perdeu de facto a sua hegemonia mundial e está com Putin a tentar reconquistá-la.

Com Putin, apoiado pelo sucesso económico desta década dos BRIC, assistimos à tentativa (que decerto será concretizada) de reactivar um estado neoeslavo, apoiado pela tentativa de crescimento hegemónico na região, tanto a nível económico como geopolítico. Para isso Putin, apontou como bandeiras o apoio incondicional aos planos da BRIC, a monitorização dos planos nucleares do Irão, a tentativa de conquista da região através de acordos comerciais (como é o caso da Síria) e da hostilidade a antigas repúblicas (Geórgia; Ucrânia) em determinados casos desta década, a partir de um crescente rearmamento e a partir da  tentativa de com os países da BRIC instaurar um novo mercado de transacção de petroleo com sede em Moscovo.

Será que Ban Ki-Moon pretende que seja o regime russo a mudar amanhã de modo a que a Russia finalmente apoie um pacote de sanções ou uma intervenção ao regime de Bashar Al-Assad?

Creio que a primeira premissa será como veremos amanhã algo difícil. A 2ª dependerá de Putin. Exclusivamente.

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A Austeridade contra a Europa

Por Javier Solana, antigo secretário-geral da NATO, antigo Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum (PESC-UE) da União Europeia, antigo Alto Representante dos Negócios Estrangeiros da UE, antigo secretário-geral do Conselho da União, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, antigo líder do PSOE Espanhol

“É agora cada vez mais claro que o que se iniciou no fim de 2008 não é uma crise económica normal. Quase quatro anos depois do início da crise, as economias desenvolvidas ainda não conseguiram uma recuperação sustentável, e mesmo os países em melhores condições revelam sinais de fraqueza. Confrontada com a certeza de uma recessão após a recuperação, as dificuldades da Europa são assustadoras.

A Europa não corre só o risco de danos económicos duradouros; o elevado desemprego prolongado e o descontentamento popular ameaçam enfraquecer permanentemente a coesão do seu tecido social. E, politicamente, existe um perigo real de que os cidadãos deixem de confiar nas instituições, tanto nacionais como europeias, e sejam tentados por apelos populistas, como no passado.

A Europa deve evitar este cenário a todo o custo. O crescimento económico deve ser a prioridade, pois apenas o crescimento levará as pessoas a trabalhar e a pagar as dívidas da Europa.

Compreensivelmente, existe um debate sobre como se conseguir a recuperação. Os defensores da austeridade argumentam que a dívida tem um impacto negativo no crescimento; os proponentes de estímulo adicional contrapõem que é o baixo crescimento que gera a dívida pública, não o contrário, e que a austeridade em tempo de recessão só piora as coisas.

Mas os europeus não têm de concordar em tudo para encontrar uma rota comum. Podemos discordar sobre os efeitos a longo prazo das injecções de liquidez, mas podemos todos concordar que não é correcto permitir que empresas lucrativas entrem em falência porque os mercados de crédito não funcionam. Não precisamos de ter políticas fiscais idênticas para compreender que faz mais sentido promover o investimento do que ver a nossa estrutura produtiva definhar. E todos sabemos que é mais eficaz em termos de custos investir na formação de desempregados do que permitir o desemprego de longo prazo.

Em qualquer caso, as dúvidas sobre o impacto negativo da austeridade estão a tornar-se impossíveis de ignorar. A História mostra que, numa recessão profunda, retirar o estímulo económico cedo demais é muito mais perigoso que retirá-lo tarde demais.

Um corte excessivo nos gastos públicos nas circunstâncias actuais pode levar a uma contracção no crescimento, que já está a acontecer: o Fundo Monetário Internacional prevê agora que a zona euro encolha 0,5% em 2012. As reformas estruturais são importantes para garantir o crescimento sustentável futuro, mas não geram crescimento no curto prazo, que é o que a Europa precisa. Ao invés, em contrapartida de um magro progresso na redução da dívida, a Europa arrisca provocar danos duradouros ao seu potencial de crescimento.

Comparado com uma nova recessão, o custo das políticas de estímulo no longo prazo é insignificante. Em muitos países, os défices orçamentais actuais são resultado não de gastos públicos imprudentes, mas de medidas temporárias de lidar com a crise. Com as taxas de juro já em níveis baixos e com o sector privado a descapitalizar, há pouco risco de que as políticas expansionistas causem inflação ou afastem o investimento privado. Ao contrário, as reduções na despesa poderão enfraquecer a actividade económica e aumentar, em vez de diminuir, o fardo da dívida pública.

A dívida pública, aliás, não deveria ser demonizada. Faz sentido do ponto de vista financeiro que os estados partilhem o custo dos investimentos públicos, como projectos de infra-estruturas ou os serviços públicos, com as gerações futuras, que também beneficiarão deles. A dívida é o mecanismo com o qual institucionalizamos a solidariedade inter-geracional. O problema não é a dívida, mas garantir que esta financia investimento produtivo, que é mantida dentro de limites razoáveis e que pode ser honrada com pouca dificuldade.

Contudo, e de modo agoirento, os mesmos argumentos que transformaram a crise financeira de 1929 na Grande Depressão são utilizados hoje a favor da austeridade a todo o custo. Não podemos deixar que a história se repita. Os líderes políticos devem tomar a iniciativa de impedir uma crise social provocada pela economia. São urgentemente necessárias duas acções.

Ao nível global, deve ser feito mais para resolver os desequilíbrios macroeconómicos e para gerar procura nos países excedentários, incluindo em economias desenvolvidas como a Alemanha. As economias excedentárias emergentes deverão compreender que uma contracção prolongada no mundo desenvolvido cria um perigo real de uma recessão global, num momento onde já não possuem o espaço de manobra que tinham há quatro anos.No seio da zona euro, reformas estruturais e gastos públicos mais eficientes, essenciais para o crescimento e níveis de endividamento sustentáveis no longo prazo, deverão ser combinados com políticas para apoiar a procura e a recuperação no curto prazo. Os passos dados nesta direcção pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy, são bem-vindos mas insuficientes. O que é preciso é um grande acordo, com os países a quem falta credibilidade nas políticas a iniciar reformas estruturais sem demora, por contrapartida de mais espaço no seio da UE para medidas promotoras do crescimento, mesmo ao custo de maiores défices no curto prazo.

O mundo enfrenta desafios sem precedentes. Nunca antes na história recente uma recessão profunda coincidiu com mudanças geopolíticas sísmicas. A tentação de favorecer prioridades nacionais mal orientadas poderá levar ao desastre para todos.

Apenas a liderança política iluminada poderá impedir este resultado. Os líderes europeus devem compreender que os programas de ajuste têm tanto um lado social como um lado financeiro, e que serão insustentáveis se os afectados enfrentarem um panorama de anos de sacrifícios sem luz ao fundo do túnel.

A austeridade a qualquer custo é uma estratégia imperfeita e não funcionará. Não podemos permitir que uma noção enviesada de “disciplina” provoque danos duradouros às nossas economias e um terrível preço humano nas nossas sociedades. Toda a Europa deve concordar numa estratégia de crescimento no curto prazo – e implementá-la rapidamente.”

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Pois falharam…

Trechos da entrevista de Hamid Karzai em video.

Hamid Karzai afirmou em entrevista à BBC que a segurança falhou no país nos últimos 10 anos e não se coibiu de apontar as culpas ao seu governo, aos Estados Unidos e restantes parceiros da NATO que estiveram presentes no país e ao vizinho Paquistão por alimentar a presença da rede talibã.

O que Karzai não enunciou na sua entrevista foi o tremendo falhanço do conteúdo que é enunciado nestes dois documentos que abaixo disponibilizo, um deles com vinculação jurídica entre os dois países e que nem de perto nem de longe está a ser cumprido por um e pelo outro governo.

EUA Afeganistão (2008)

USAfghanistan Declaration of Statal Partnership.

Do último documento, temos o discurso de Karzai em primeira voz como a prova do falhanço dos objectivos a que se propuseram em 2005 os governos dos dois países no que toca a segurança.

No entanto, os objectivos não falharam apenas nas questões de segurança. A BBC não explorou, talvez porque não fosse de interesse escutar o discurso de Karzai em relação a outro dos celeumas principais do acordo expresso com o governo norte-americano: o tráfico de droga.

A história e as estatísticas confirmam que este interesse sofreu um retrocesso histórico da situação da passagem e venda de droga no país desde a situação que se verificava no país antes da entrada dos talibans no poder.

Antes dos talibans subirem ao poder, o Afeganistão tinha uma incipiente produção de ópio tendo em conta a predisposição dos seus solos e do clima para o seu cultivo. A produção efectuada no país situava-se nos 3% da produção mundial.

Os talibans, com todo o conservadorismo que detinham em relação a esta questão, mandaram arrasar por completo grande parte das plantações nos meses seguintes após a sua elevação ao poder.

O acordo é assinado em 2005. A Administração Bush compromete-se a ajudar os programas Afegãos de luta contra o narcotráfico em todas as suas variantes. Actualmente, o Afeganistão é o maior produtor de ópio mundial, com cerca de 95% da produção mundial. Irónico, ou talvez não, os dados do governo americano que versam sobre a entrada de estupefacientes pelo país, pelos quais passei os olhos há uns meses atrás revelam que pela fronteira do México (a principal entrada de droga em território Norte-Americano) o volume de entrada de droga no país tem diminuído ano após ano depois da assinatura deste acordo de cooperação, e consequentemente, também tem diminuído a entrada de imigrantes ilegais mexicanos no país.

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The end

Em Tripoli, o instrumento primordial da política norte-americana e dos seus aliados ocidentais a NATO, conseguiu por mais uma vez ultrapassar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

O fim do regime de Khadafi não põe em causa o excelente móbil que levou a organização a derrubar o regime. A democracia é de salutar. O que não é de salutar é obviamente o imperialismo económico que os norte-americanos e os seus aliados irão executar nos próximos anos em mais um país do mundo. Estrategica e economicamente muito valioso para uma potência claramente em crise.

O que fica na retina e acaba por estar mesmo em causa é a ilegalidade que subjaz nesta acção da NATO. A invasão ilegal do Iraque por parte dos Estados Unidos à margem de um consentimento por parte da maior organização internacional não serviu de aprendizagem aos americanos. Apenas camuflou o método com que fazem as grandes coisas: passando o dossier para a sua máquina de guerra, que subtilmente, foi levando a água ao seu moínho.

De que serve então a ONU e o Conselho de Segurança? Se aos olhos americanos não serve de nada, que se dissolva está claro!

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O julgamento de Hosni Mubarak

Hosni Mubarak e os seus dois filhos começaram a ser julgados hoje no Cairo por crimes de corrupção e de ordem de assassinato de 800 pessoas nos confrontos da Praça Tahrir no passado mês de Fevereiro.

Como se pode ver pelas imagens deste vídeo, o julgamento do antigo ditador egípcio foi preparado na mais alta escala de segurança. Caça bombardeiros do exército egípcio sobrevoavam os céus do Cairo, Mubarak chegou de maca numa ambulância e permaneceu todo o julgamento deitado na maca, com os seus dois filhos ao lado, todos dentro de uma enorme jaula de ferro.

Nas alegações iniciais promovidas pelo tribunal, o antigo ditador refutou todas as acusações que pendem sobre si. Se as acusações forem provadas pela justiça, o ditador e os seus filhos poderão ser condenados à morte.

Dado estranho para o mundo ocidental, foi a transmissão em directo por parte da televisão egípcia desta primeira sessão do julgamento.

Na capital Egípcia, a Praça Tahrir encheu-se de gente e o exército foi novamente obrigado a intervir. Durante o dia, registaram-se várias escaramuças na capital entre os apoiantes do ditador e os revoltosos da revolução. Uma das quais, fora do edíficio onde se realizava o julgamento como se pode ver no video em baixo, entre os opositores de Mubarak e a polícia.

É um sério aviso para Mohammar Khadafy e para Bashar Al-Assad da Síria.

Ao verem as imagens deste julgamento, ficaram com a noção que se não defenderem a sua posição, terão o mesmo fim trágico do ditador egípcio. Claro que este sentimento irá dar mais força aos dois regimes para conseguirem dominar o seu território, se bem que no caso Líbio, a NATO já está no terreno.

Como sabem, não defendo qualquer intervenção da NATO. Muito menos intervenções que não respeitam os trâmites decididos pelo Conselho de Segurança da ONU. Por outro lado, pelo fim da violência, pela democracia e pela liberdade nos países árabes espero que os conflitosmassacres acabem o mais rapidamente possível. Que o povo Líbio e o povo Sírio não precise de ajuda de terceiros para sacudir opressores.


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Na Líbia

As forças da NATO continuam os bombardeamentos na capital Tripoli.

Definitivamente, o que começou a partir de uma missão de manutenção de paz no conflito e manutenção de segurança dos cidadãos Líbios rapidamente passou para o campo de uma missão com o intuito de derrubar um regime e fazer ingerências nos assuntos internos de uma Nação. 

Mohammar Khadafi voltou a fazer uma aparição na televisão Líbia, mantendo o mesmo discurso: “os bombardeamentos não me irão atingir (…) lutaremos até ao final”

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Era uma missão de manutenção da segurança dos cidadãos…

Era. Digo-o bem.

A História pós-2ª Guerra Mundial fez-me crer que existe um ditado muito bem adequado a todas as missões em que a NATO se mete: “um olho no burro, outro no cigano”

As sucessivas missões que passam para o plano estratégico da NATO, cujas resoluções são tomadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, começam com um objectivo propriamente dito mas rapidamente resvalam para um objectivo que não é contido na resolução. Exemplo disso, foi o ataque perpetrado ao local onde se encontrava Mohammar Khadafi e a sua família, que vitimou um dos seus filhos e 3 netos.

A resolução tomada na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU em Março autorizava o envio de forças internacionais de maneira a apenas (escrevo apenas) manter a segurança dos cidadãos Líbios no conflito que opõe as forças leais a Khadafi e os rebeldes. A mesma resolução não admitia a ingerência em assuntos internos do Estado Líbio, ou seja, não admitia que as forças internacionais pendessem a favor dos rebeldes com vista à deposição do ditador Líbio por qualquer das formas previstas.

Não foi o que se passou ontem. O ataque ao edifício onde se presumia que estivesse o ditador e que acabou por vitimar 4 familiares que em nada desempenham funções importantes na hierarquia do regime liderado pelo ditador, foi um claro ataque que tinha em vista a morte do ditador, facto não previsto na resolução do CS. Qual o motivo? Simples. A força Líbia na produção petrolífera é um dote que gera bastante interesse ao domínio do principal rosto político da NATO: os Estados Unidos da América.

Creio que perante este facto, não se devem tirar outras conclusões que não esta. Foi uma atitude imperialista por parte de um país que levou a tamanha violação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

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Operações de manutenção de segurança dos cidadãos

Na Líbia, as tropas da NATO voltaram a encrencar, atirando directamente sobre 13 rebeldes.

Na Costa do Marfim, está difícil a deposição de Gbagbo.

E na Síria?

E no Bahrein?

E na faixa de gaza, onde o Estado de Israel continua a atacar quem bem lhe apetece?

Cada vez mais defendo uma reforma a sério nas Nações Unidas. Para que se constitua uma força capaz de não só instituir uma nova ordem política mundial assim como se tornar eficaz para resolver tensões políticas, diplomáticas ou bélicas que surjam por esse mundo fora.

Não fazem muitos dias que vi um documentário num canal de televisão por cabo que retratava a geopolítica mundial no intervalo entre as duas guerras mundiais. Está claro que os mesmos debateram a problemática resultante do falhanço total da Sociedade das Nações. Desde a sua fundação (sugestão Norte-Americana que não viria a culminar em assinatura do Tratado de Versalhes) à sua queda em 1945. Quer-me bem parecer que o modelo da Carta das Nações Unidas está hoje tão obsoleta e tão ineficaz para resolver tais tensões como a “errática” Sociedade das Nações estava quando Hitler ensaiou a sua força aérea na ajuda à vitória de Franco na guerra civil espanhola.

E tal facto tem um fim, fim esse que está bom de ver: o mundo está em chamas e o que se têm evitado desde 1945 poderá voltar a acontecer.

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Sinais de imperialismo

Actuando de acordo com a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os Estados Unidos e seus aliados iniciaram a “Operação Amanhecer” de acordo com os propósitos enunciados pela resolução: proteger os cidadãos Líbios contra os abusos de Mohammar Khadafi.

Há uns dias atrás, confesso que pela primeira vez ousei afirmar que os Estados Unidos e os seus aliados da NATO tinham finalmente cumprido uma resolução do Conselho de Segurança desde o ano em que o modelo da Carta das Nações Unidas tinha sido assinado. A “Operação Amanhecer” teve início com o ataque directo às tropas do regime, sem no entanto, ter como objectivo base a deposição do líder Líbio.

Todavia, pela lógica dada na rapidez da resposta dos aliados à problemática em causa, achei demasiada oferta por parte dos meninos bonitos da NATO. Rapidez na resposta que por exemplo os mesmos países e o mesmo Conselho de Segurança não conseguiram dar nem de perto nem de longe a um flagelo humanitário ainda maior que foi o caso do Darfur.

A pergunta que se põe é: O que é que a Líbia tem a mais que o Darfur? Esta pergunta remete-nos para outra questão mais metafísica: A vida de um cidadão Líbio é dotada de protecção especial e a de um Sudanês não? Esta pergunta remete-nos ainda para outra questão mais complexa do ponto de vista orgânico e institucional das Nações Unidas: Porque é que a ONU foi célere a resolver a questão Líbia e nunca chegou a resolver a questão do Sudão?

Começo pela base essencial para dar resposta às minhas próprias perguntas. Todos sabemos da importância estratégica que a Líbia tem na produção de petróleo e os acordos comerciais que detêm com países da União Europeia e todos sabemos que o Sudão é um dos países com menos recursos naturais por explorar e como tal, um dos países mais sub-desenvolvidos do mundo.

Também creio que todos sabemos a importância vital que interessa aos maiores exportadores de armas do mundo que o clima de massacre humanitário continue no Sudão. Entre os maiores vendedores de armas do mundo encontram-se nomes como Barack Obama ou David Cameron – a única diferença é que se encontram camuflados na pele de intermediários.

Do ponto de vista da asserção imperialista das políticas das grandes potências mundiais, o Sudão é um país que não interessa e a Líbia é um país não só importantíssimo do ponto de vista económico como no futuro se pode tornar um aliado da NATO para a implantação de bases militares de modo a controlar o mediterrâneo, pretensão essa que há muito é um objectivo político da NATO, como tal, objectivo primordial das políticas externas dos Estados Unidos da América.

Terminada a primeira fase da “Operação Amanhecer” os aliados passaram o controlo das operações estratégicas do conflito para a NATO, os rebeldes saíram do sufoco do cerco das tropas de Khadafi, mas o grande ditador continua no poder. A ameaça de intervenção militar com outros propósitos continua pendente sobre a cabeça de Khadafi e à semelhança da rapidez com que foi decretada uma primeira intervenção com o propósito de manter a segurança entre os cidadãos nada me espantaria que tão rapidamente fosse decretada uma intervenção militar com outros propósitos na Líbia.

Como disse ontem Lula da Silva, é necessária a construção de uma nova ordem mundial que começará com uma reforma no modelo das Nações Unidas. Tomando como exemplo as disparidades de decisões e indecisões tomadas nos estudos de caso do Sudão e da Líbia, não é perceptível, digamos compreensível, o facto das instituições das Nações Unidas tomarem opções tão díspares em situações análogas.

Ainda mais quando hoje surgem notícias em toda a Comunidade Internacional que dão conta que a pressão que Mr. Obama e Mr. Cameron estão a fazer ao regime Líbio inclui a venda de armas aos rebeldes. Tudo me leva a concluir que alimentar uma guerra é profícuo para os Estados Unidos da América e seus aliados, para no fim vencê-la e tornar o país outro dos seus protectorados.

Onde há fumo há fogo, diz o ditado. Esse caso Líbio já começa a cheirar mal, dado o decrépito da atitude dos países envolvidos na intervenção militar que foi feita à Líbia. São sinais de imperialismo. Claros sinais de imperialismo.

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NATO disposta a intervir na Líbia

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O Secretário-Geral da NATO Anders Fogh Rasmussen reiterou a disposição por parte da Organização em intervir no conflito que assola a Líbia e assim derrubar o regime de Mohammar Kadafy caso as Nações Unidas assim o desejem.

Rasmussen afirmou hoje que é hora de terminar com a carnificina que o ditador Líbio está a perpetrar contra o seu próprio povo: “Deixem-me sublinhar que a NATO não tem intenções de intervir, mas obviamente como organização de segurança e aliança de defesa pedimos aos nossos militares para levarem a cabo todo o planeamento necessário, para que estejamos preparados num curto espaço de tempo…
(…) “Se Kadhafi e as suas tropas continuarem o ataque a população líbia sistematicamente, eu não consigo imaginar que a comunidade internacional e as Nações Unidas assistam a isso passivamente”

A NATO está disposta a intervir, se bem, que apenas numa eventual chamada por parte das Nações Unidas. Rasmussen não é concreto. Põe a hipótese, mas não dá o sim à sua efectivação num futuro próximo.

Apesar desta boa notícia, continuo a torcer o nariz em relação à legitimidade internacional da NATO neste tipo de situações. Preferia, e neste aspecto creio não ser o único a partilhar desta opinião, que em caso de invasão a um determinado país, a invasão fosse ordenada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, dotado para tais efeitos de um exército próprio e de competências e atribuições juridico-institucionais

No entanto e à falta de um meio mais legítimo de intervenção, é urgente que se pare com o “derrame de sangue” que está actualmente a acontecer naquele país Africano.

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A auto-intitulada esquerda que nem merece ser ouvida…

Texto publicado na Revista Rubra (revista tendencialmente ligada a militantes de um partido de esquerda) que apareceu em Coimbra na forma de flyer.

Depois de lerem o texto que se segue, tenho quase a certeza que se irão perguntar se é esta esquerda que merece credibilidade por parte dos cidadãos ou uma esquerda mais pura, mais racional, mais terra-a-terra com os cidadãos e com a realidade existente.

Por outros motivos, este texto choca em muito com a minha opinião sobre a NATO que pode ser lida aqui. Não na parte em que ambos consideramos que a NATO está obsoleta como organização e ao nível do seu plano de operações estratégico mas na medida em que a NATO deve ser combatida com vias à sua extinção enquanto organização.

Transcrenvendo:

“Pela derrota da NATO. Pela vitória militar da Resistência Islâmica!

Aqueles que no terreno estão a morrer a combater a NATO são hoje maioritariamente resistentes que reinvindicam o Islamismo ou são militantes de organizações Islâmicas. O trauma do 11 de Setembro de 20o1 e a vaga islamofóbica (ANOTAÇÃO MINHA: não sabia que essa fobia existia!) que não pára de crescer desde então. e que é parte da estratégia da NATO, levou o movimento contra o Império (???) para a encruzilhada. Como defender a derrota de um império (???) recusando defender a vitória de quem lhes faz frente?

Sempre se defenderam povos e movimentos independentemente dos seus perfis religiosos. Martin Luther King era um fervoroso pastor evangélico. Malcolm X, um islâmico radical, Ximenes Belo, um alto quadro da Igreja Católica. Na verdade, e infelizmente, uma boa parte das sublevações populares mundiais são dirigidas por religiosos e não por ateus conscientes.

Como somos ateus, não cremos que haja uma superioridade moral de umas religiões relativamente a outras. (Nietzsche como ateu consciente que era pensava exactamente o contrário). Todos os movimentos de libertação dirigidos por religiosos, islâmicos, católicos, protestantes, professam os mais reaccionários credos, e todos eles merecem o apoio da esquerda laica e socialista na defesa dua sua autodeterminação e independência, na sua vitória militar contra os países imperiais.

Toda a esquerda europeia e norte-americana, intelectuais, trabalhadores que defenderam os povos ocupados não invocaram o carácter retrógrado que os seus credos advogavam para ficarem à sua margem. Por exemplo, na forma como tratavam as mulheres. A esquerda europeia nunca pôs como condição para apoiar uma luta de libertação o respeito pelas mulheres. Denunciamos qualquer desrespeito pela igualdade humana, mas não deixamos de tomar posição numa guerra por causa desse facto.

Quando há uma luta entre David e Golias, o nosso lado só pode ser um: David. Estamos do lado da vitória militar da ditadura ocupada contra a “democracia” ocupante. Estamos do lado da vitória militar da ditadura resistente contra o império “democrático”. A maior ameaça à paz mundial é o imperialismo e os seus exércitos. Não há ninguém que tenha espalhado mais terror pelo Mundo que a aliança militar dos países ocidentais, a NATO.

O nosso apoio à resistência islâmica não significa um apoio político às direcções islâmicas. Não temos nenhum respeito pela brutalidade sobre as mulheres, não acarinhamos o atraso, não defendemos uma ditadura. Sobretudo, não deixamos de denunciar o pior destas direcções islâmicas que são burguesas e por isso um obstáculo à emancipação dos trabalhadores destes países (contrasenso ideológico?). Podemos e devemos lutar pela construção de uma resistência anticapitalista entre os povos árabes. Mas enquanto esta é débil, não podemos ficar agarrados ao vazio das declarações solidárias mas inconsequentes. Defendemos a unidade táctica em conflitos onde é claro para todos quem é a vítima e quem é o agressor. A defesa da autodeterminação dos povos implica isso mesmo: que se respeitem as suas determinações e a sua forma de serem livres.

O Governo Português comanda as tropas da NATO na Somália, um país onde estão a ser despejados todos os anos toneladas de lixo tóxico e cujos chamados piratas defendem as suas águas territoriais da rapina e poluição dos países centrais (Não será que os Somalis criaram a pirataria exclusivamente para roubar barcos internacionais de modo a contrabandear de forma a sustentar as actividades das guerrilhas?). Portugal fora da NATO, Fora da Somália Já!

É urgente defender a retirada de Portugal da NATO e é urgente que os nossos impostos deixem de servir para matar no Iraque, no Afeganistão, na Somália, na Palestina. Os actos de guerra contra as tropas invasoras ou os mercenários ao seu serviço devem ser considerados actos de resistência, de autodefesa (e quiça na realidade, actos que deverão ter como o objectivo a tomada do poder para poderem enriquecer!)

Revista Rubra, 20 de Novembro de 2010.”


Como sabem, eu sou de esquerda. De uma esquerda pura, reaccionária. Mas depois de ler isto, não compro este argumento. Não compro deturpações sem o mínimo senso de racionalidade.

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Cimeira da NATO 2010 – Lisboa

Acordo histórico, dizem eles…

A nova ratificação do Conselho Estratégico da Organização, o novo acordo com os Russos, a palavra de honra de Rasmussen quanto à retirada das tropas da NATO no Afeganistão e o combate ao terrorismo como o principal plano de operações estratégicas da Organização soam como históricas aos olhos do mundo…

Históricas! Históricas para legitimar ainda mais a política externa Norte-Americana. Histórica! Para tentar controlar a esfera de influência dos Russos e como tal, controlar em certa parte a crescente influência da BRIC no cenário geopolítico mundial actual.

Ainda não é desta vez que a máquina de guerra é destruída. É sim, legitimada por todos como a máquina de execução dos desejos sangrentos do maior capitalista do mundo, do maior vendedor de armas do mundo: Barak Obama, nem mais. Pela forma indirecta, usando free-lancers em nome do escudo Norte-Americano da democracia perfeita e da pressuposta ajuda aos coitadinhos que vivem sob o jugo da tirania.

No Afeganistão, a democracia é tosca. No Iraque, a democracia é ultra tosca. 10 anos depois, a NATO apercebeu-se que o povo Afegão é pobre e não pode servir de qualquer forma que seja a ganância dos seus membros mais poderosos.

Na nova democracia Iraquiana, ainda existe petróleo para ser desviado. Interessa, pois!

Ao nível das operações, a NATO vira-se agora para o inimigo terrorista. O inimigo sem rosto. O inimigo feito e contrafeito pelo Senado e Congresso Norte-Americano. Atacar por atacar. Prender por ter cão e por não ter. Depois existem erros, logo, existem desculpas que se deviam evitar caso houvesse bom senso por parte das pessoas que deixam laborar esta perigosa máquina obsoleta.

Só para que saibam, mais valia que a ONU fizesse o mínimo esforço para reformular de vez o modo de funcionamento e as competências do Conselho de Segurança da ONU, dotando-o de um exercito próprio, regular e exercido sob um sigma da sensatez por parte de Nova Iorque.

E os Tugas, no meio disto tudo andam todos orgulhosos. Não é todos os dias que o menino bonito da NATO recebe o maior vendedor de armas do mundo no seu território. Com a parolagem a acenar. A paga? Manda mais tropas, manda mais GNR, manda mais formadores.

 

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Que venham dias melhores

A busca incessante por uma brilhante fotografia num cenário de guerra, acarreta sempre o perigo e por vezes faz com que o fotógrafo seja obrigado a pagar um determinado preço.

O fotógrafo Português João Silva, pagou o preço pelo risco hoje, às portas da cidade de Kandahar no Afeganistão, o irredutível reduto dos Talibãs quando  junto de uma patrulha composta por soldados Norte-Americanos pisou uma mina artesanal…

João Silva foi levado de imediato para a base áerea de assistência da NATO em Kandahar, tendo sido operado. Da operação resultou a amputação (até ao joelho) das duas pernas. O seu estado é estável, sendo que nos próximos dias será transportado para um hospital Norte-Americano na Alemanha.

Este acontecimento dá-se de forma irónica no dia em que se afirmou publicamente que os soldados Portugueses deveriam ser imediatamente retirados do território Afegão…

Ao João Silva só me resta desejar as melhoras e transmitir-lhe um forte sentimento de esperança e energia para o futuro. Ainda existem muitas fotos por ser capturadas.

Um bom fotógrafo nunca desiste!

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