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A auto-intitulada esquerda que nem merece ser ouvida…

Texto publicado na Revista Rubra (revista tendencialmente ligada a militantes de um partido de esquerda) que apareceu em Coimbra na forma de flyer.

Depois de lerem o texto que se segue, tenho quase a certeza que se irão perguntar se é esta esquerda que merece credibilidade por parte dos cidadãos ou uma esquerda mais pura, mais racional, mais terra-a-terra com os cidadãos e com a realidade existente.

Por outros motivos, este texto choca em muito com a minha opinião sobre a NATO que pode ser lida aqui. Não na parte em que ambos consideramos que a NATO está obsoleta como organização e ao nível do seu plano de operações estratégico mas na medida em que a NATO deve ser combatida com vias à sua extinção enquanto organização.

Transcrenvendo:

“Pela derrota da NATO. Pela vitória militar da Resistência Islâmica!

Aqueles que no terreno estão a morrer a combater a NATO são hoje maioritariamente resistentes que reinvindicam o Islamismo ou são militantes de organizações Islâmicas. O trauma do 11 de Setembro de 20o1 e a vaga islamofóbica (ANOTAÇÃO MINHA: não sabia que essa fobia existia!) que não pára de crescer desde então. e que é parte da estratégia da NATO, levou o movimento contra o Império (???) para a encruzilhada. Como defender a derrota de um império (???) recusando defender a vitória de quem lhes faz frente?

Sempre se defenderam povos e movimentos independentemente dos seus perfis religiosos. Martin Luther King era um fervoroso pastor evangélico. Malcolm X, um islâmico radical, Ximenes Belo, um alto quadro da Igreja Católica. Na verdade, e infelizmente, uma boa parte das sublevações populares mundiais são dirigidas por religiosos e não por ateus conscientes.

Como somos ateus, não cremos que haja uma superioridade moral de umas religiões relativamente a outras. (Nietzsche como ateu consciente que era pensava exactamente o contrário). Todos os movimentos de libertação dirigidos por religiosos, islâmicos, católicos, protestantes, professam os mais reaccionários credos, e todos eles merecem o apoio da esquerda laica e socialista na defesa dua sua autodeterminação e independência, na sua vitória militar contra os países imperiais.

Toda a esquerda europeia e norte-americana, intelectuais, trabalhadores que defenderam os povos ocupados não invocaram o carácter retrógrado que os seus credos advogavam para ficarem à sua margem. Por exemplo, na forma como tratavam as mulheres. A esquerda europeia nunca pôs como condição para apoiar uma luta de libertação o respeito pelas mulheres. Denunciamos qualquer desrespeito pela igualdade humana, mas não deixamos de tomar posição numa guerra por causa desse facto.

Quando há uma luta entre David e Golias, o nosso lado só pode ser um: David. Estamos do lado da vitória militar da ditadura ocupada contra a “democracia” ocupante. Estamos do lado da vitória militar da ditadura resistente contra o império “democrático”. A maior ameaça à paz mundial é o imperialismo e os seus exércitos. Não há ninguém que tenha espalhado mais terror pelo Mundo que a aliança militar dos países ocidentais, a NATO.

O nosso apoio à resistência islâmica não significa um apoio político às direcções islâmicas. Não temos nenhum respeito pela brutalidade sobre as mulheres, não acarinhamos o atraso, não defendemos uma ditadura. Sobretudo, não deixamos de denunciar o pior destas direcções islâmicas que são burguesas e por isso um obstáculo à emancipação dos trabalhadores destes países (contrasenso ideológico?). Podemos e devemos lutar pela construção de uma resistência anticapitalista entre os povos árabes. Mas enquanto esta é débil, não podemos ficar agarrados ao vazio das declarações solidárias mas inconsequentes. Defendemos a unidade táctica em conflitos onde é claro para todos quem é a vítima e quem é o agressor. A defesa da autodeterminação dos povos implica isso mesmo: que se respeitem as suas determinações e a sua forma de serem livres.

O Governo Português comanda as tropas da NATO na Somália, um país onde estão a ser despejados todos os anos toneladas de lixo tóxico e cujos chamados piratas defendem as suas águas territoriais da rapina e poluição dos países centrais (Não será que os Somalis criaram a pirataria exclusivamente para roubar barcos internacionais de modo a contrabandear de forma a sustentar as actividades das guerrilhas?). Portugal fora da NATO, Fora da Somália Já!

É urgente defender a retirada de Portugal da NATO e é urgente que os nossos impostos deixem de servir para matar no Iraque, no Afeganistão, na Somália, na Palestina. Os actos de guerra contra as tropas invasoras ou os mercenários ao seu serviço devem ser considerados actos de resistência, de autodefesa (e quiça na realidade, actos que deverão ter como o objectivo a tomada do poder para poderem enriquecer!)

Revista Rubra, 20 de Novembro de 2010.”


Como sabem, eu sou de esquerda. De uma esquerda pura, reaccionária. Mas depois de ler isto, não compro este argumento. Não compro deturpações sem o mínimo senso de racionalidade.

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