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notas e memórias

Lembro-me perfeitamente desta etapa como se fosse hoje.

Lance Armstrong e Joseba Beloki estavam isolados a um grupo que compunha Mayo, Hamilton, Ulrich, Azevedo e mais uns quantos. Joseba Beloki, apesar de ser um excelente trepador, tinha medo de descer.

Beloki e Ulrich estavam em grande forma e ameaçavam o reinado  de Armstrong.

Armstrong viu Beloki a cair com gravidade e nem sequer parou para ver se o colega de profissão estava vivo. Beloki foi imediatamente transportado para um hospital da região, tendo sido operado 3 vezes numa semana a múltiplas fracturas. O então ciclista da Once tinha 30 anos e era sem dúvida o melhor trepador de então em conjunto com Iban Mayo da Euskatel. Foi precisamente o basco que parou a bicicleta para se acercar que o antigo colega de equipa na Euskatel em 98 e 99 estava vivo.

Para Armstrong não interessavam valores de camaradagem. O pelotão tinha-lhe respeito. Sempre que Armstrong parava para urinar, para comer ou para ser assistido por um carro médico, pelotão e fugitivos se os houvessem abrandavam a marcha até que o Norte-Americano entrasse no pelotão. Mas Armstrong não tinha qualquer respeito pelo pelotão.

Prova disso foi o tour de 2003. Não só no episódio Beloki. Etapas depois deste incidente, nos Alpes, Armstrong teve uma queda quando atacava numa contagem de montanha a finalizar a etapa. Mayo e Ulrich, apercebendo-se da queda do camisola amarela, continuaram a correr mas negociaram (contra a vontade do espanhol e a pedido do alemão; relembre-se que Ulrich seria o maior beneficiado desta queda) parar para esperar pela reentrada no grupo do norte-americano. Este viria a reentrar, sendo as imagens esclarecedoras do que fez a seguir à sua reentrada.

Em 2003, Ullrich haveria de perder o Tour com uma queda no contra-relógio final, num contra-relógio disputado num dia chuvoso onde o alemão evaporava o minuto e cinquenta que o separava do americano nos quase 60 km que ligavam Pornic a Nantes. Era o dia anterior a Paris.

Será isto possível sem doping? Na altura a resposta já me soava como não.

Não é possível. Estamos a falar do Mont Ventoux, subida de cerca de 22 km de comprimento a uma pendente média de 7,43% durante toda a subida e com vários locais onde as rampas ascendem aos 14%. Estamos a falar de uma subida onde Merckx venceu duas vezes, uma das quais, tendo que receber oxigénio no final da etapa por intermédio de uma mascara depois de desmaiar. Falamos de uma subida onde o britânico Tom Simpson morreu em 1967 devido ao consumo de anfetaminas com álcool, estamos a falar de uma subida que chega aos 1911 metros de altitude e onde o ar mais rarefeito impede os ciclistas de ter um rendimento metabólico regular.

Como podemos ver no vídeo, Armstrong atacou e segundo os dados da época, fez 115 pedaladas completas ao carreto por minuto, algo que nem Hinault, Merckx ou Indurein tinham alguma vez feito na mesma ascenção.

Pelo meio Armstrong apanha Pantani. Marco Pantani era o melhor trepador da altura. Pantari foi (para mim) o melhor trepador de sempre. A história no ciclismo de Pantani acabou com o suicídio do italiano, cansado de sucessivas investigações e processos judiciais que pendiam sobre falsas acusações de doping que nunca se chegaram a provar. Pantani foi inúmeras vezes castigado e a sua carreira foi estragada por completo. Pantani entrou em sucessivas depressões e em sucessivos programas de reabilitação derivado ao seu consumo de cocaína. Acabou por se suicidar, algo previsível na altura.

Quando no outro lado,

Armstrong fazia 135 pedaladas por minuto em Plateau de Beille, num ritmo que nem o melhor trepador da sua equipa (Roberto Heras) aguentava:

Doping? Não tenho dúvidas. É certo que a luta que Armstrong travou contra o cancro fortaleceu-lhe o espírito de sofrimento e a capacidade de resistência à dor. É certo que a quimioterapia deu-lhe a possibilidade de ter a fisionomia ideal para ser um excelente trepador. Mas como é que se explica o facto de Armstrong, mesmo apesar das suas características, ser também um excelente contra-relogista quando a maioria dos grandes trepadores perdem imenso tempo no contra-relógio? Como é que Ullrich e Santiago Botero, os melhores contrarelogistas da altura, perdiam para o Americano na sua especialidade?

Armstrong sabe que não tem a mínima hipotese de provar a sua inocência neste caso visto que todas as provas o incriminam. A casa de Granada, os métodos utilizados, os sucessivos controlos positivos de Floyd Llandis e as declarações deste, as declarações de Vinokourov, de Hincapie, de Tyler Hamilton, Rubiera, Beltrán, Zubeldia acerca dos conteúdos apreendidos na casa que servia de base aos treinos de preparação para o tour do americano.

Todavia, este escandalo não me serve de contentamento. Foram 7 anos a desejar que alguém vencesse Armstrong, dopado ou não. Acreditei em Pantani, em Mayo, em Ullrich, em Virenque, Jalabert, Beloki, Hamilton, Menchov e em muitos outros. Só queria mesmo que alguém se superiorizasse ao americano e à US Postal. Esta verdade desportiva tardia sabe a muito pouco.

 

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Cavendish e Evans vencem em Paris

E assim terminou a edição deste ano da Grand Boucle. Nos campos elísios em Paris, Mark Cavendish somou a sua 5ª vitória em etapas na edição deste ano e Cadel Evans da BMC logrou sagrar-se o primeiro australiano a vencer a maior prova da época ciclista internacional, obrigando a primeiro-ministro Australiano Julia Gilliard a cumprir o que tinha prometido ontem: conceder feriado nacional no dia 23 de Julho de todos os anos aos cidadãos Australianos pelo feito nacional do seu compatriota em França.

No dia da consagração dos dois atletas, os nossos portugueses em competição Sérgio Paulinho e Rui Costa tentaram a vitória na etapa e consequente ida ao pódio final da Volta à França mas sem sucesso: a HTC-Columbia lá atrás não dava hipótese a qualquer tentativa de fuga na tirada de 95 km que ligou Cretéil (sim, a pequena cidade nos arredores de Paris que é cheia de Portugueses e serve de abrigo à antiga equipa lusa em terras gaulesas dos Lusitanos de Saint-Maur que actualmente se chama Cretéil-Lusitanos) até Paris.

Depois das habituais voltas ao circuito habitual de Paris, Evans superiorizou-se no Sprint a Fabien Cancellara (saiu do Tour sem aparecer na corrida) Edvald Boasson Hagen, André Greipel e Tyler Farrar.

Depois do sensacional contra-relógio ontem em Grenoble, em que Cadel Evans voou para a vitória no Tour. Antes dos comentários finais sobre a classificação-geral, esta ficou assim ordenada na chegada a Paris:

1º Cadel Evans (AustráliaBMC)
2º Andy Schleck (LuxemburgoLeopard-Trek) a 1.34m
3º Frank Schleck (LuxemburgoLeopard-Trek) a 2.30m
4º Thomas Voeckler (FrançaEuropcar) a 3.20m
5º Alberto Contador (EspanhaSaxo Bank) a 3.57m
6º Samuel Sanchez (EspanhaEuskatel) a 4.55m
7º Damiano Cunego (ItáliaLiquigás) a 6.05m
8º Ivan Basso (ItáliaLampre) a 7.23m
9º Tom Danielson (EUAGarmin) a 8.15m
10º Jean-Christophe Perraud (AG2RFrança) a 10.15m
11º Pierre Roland (FrançaEuropcar) a 10.43m
12º Rein Taaramae (EstóniaCofidis) a 11.29m
13º Kevin De Weert (BélgicaQuickstep) a 16.29m
14º Jerome Coppel (FrançaSAUR) a 18.36m
15º Arnold Jeanesson (FrançaFDJ) a 21.20m

Há quantos anos é que a França não metia tantos no top-15 na geral final da prova?

Na classificação dos pontos, classificação muito renhida este ano devido às mudanças no sistema de pontuação, Mark Cavendish confirmou o favoritismo que lhe previa no meu post de previsão do Tour ao vencer esta categoria “categoricamente” com 5 vitórias em etapas. Todavia, a prova ficou marcada pela “ausência” de sprinters como Boonen ou Petacchi: estiveram em pouca evidência na prova.

Cavendish venceu com 334 pontos contra os 272 de José Joaquim Rojas da Movistar, 236 de Phillipe Gilbert da Omega Pharma-Lotto (esta equipa animou tanto a corrida que acabou por chegar a Paris sem um lugar no pódio final) 208 para Cadel Evans e 195 de Thor Hushovd.

Samuel Sanchez festeja a vitória da camisola da montanha em Paris. Um bom prémio para a atitude do atleta da Euskatel nas etapas de montanha. Sanchez, leva a camisola das bolinhas e a vitória em LuzArdiden numa prova onde não fosse uma 1ª semana de loucos poderia ter lutado pelo pódio.

Na montanha, Samuel Sanchez confirmou em Alpe D´Huez a vitória na classificação do melhor trepador do Grand Boucle.

Sanchez pontuou 108 pontos contra os 98 de Andy Schleck, os 74 de Jelle Vanendert da Omega Pharma-Lotto, os 58 de Cadel Evans e 56 de Frank Schleck numa categoria que este ano não teve grande interesse devido às mudanças executadas pela organização e mesmo pelo traçado da prova que não privilegiou a montanha como tem privilegiado.

Na habitual foto dos vencedores antes da partida para a última etapa, Pierre Roland mostrou a camisola branca com o símbolo da Europcar como vencedor do prémio da juventude. Se o principal candidato a esta camisola era naturalmente Robert Gesink, tendo como principal rival Roman Kreuziger da Astana, esta classificação acabou por ficar marcada pela intensa luta entre 4 ciclistas que vão dar bastantes cartas no futuro: Pierre Roland (vè o seu esforço e dedicação à preservação da amarela de Voeckler durante 11 dias premiado com a vitória na juventude) Rein Taaramae da Cofidis, Rigoberto Uran e Arnold Jeanesson. Todos poderão ser ciclistas com carreiras bastante interessantes.

Pierre Roland venceu a classificação com 46 segundos de vantagem para o Estoniano Rein Taaramae, 7 minutos e 53 para Jerome Coppel da SAUR e 10 minutos e 37 para Arnold Jeanesson da Française des Jeux.

Tal como tinha afirmado no post de preview, a Garmin apresentava-se nesta volta como a equipa mais completa entre as presentes. Completa porque tinha homens para tudo: Farrar e Hushovd para os sprints e fugas, Vandeveld e Danielson para a montanha. Se Christian Vandeveld desiludiu na alta montanha, Danielson foi destemido e assumiu os gastos da casa ficando no top-10 da prova. Farrar venceu uma etapa e para ele muito trabalhou Hushovd, que à sua conta também lucrou vencer duas etapas com a especialidade de uma delas ter sido em Lourdes depois da difícil passagem pelo Col D´Aubisque onde Hushovd provou ser um ciclista que passa muito bem as montanhas apesar de ser um sprinter, atacando sem dó nem piedade.

Colectivamente, a GarminCervélo, logo no primeiro ano da fusão entre as duas equipas venceu com 11 minutos e 4 segundos de vantagem sobre a Leopard-Trek e 11.20 sobre a AG2R.

Passando à minha opinião geral sobre a Volta:

– Ao nível de traçado o Tour ficou um pouco além das expectativas que desejava para esta edição. Muitas etapas planas acidentadas que desde cedo começaram a tirar candidatosanimadores das etapas de montanha de prova e que começaram a cavar fossos para os principais candidatos como Contador e Samuel Sanchez. Pelo mesmo raciocínio, se a montanha chegou tarde, chegou em força. 4 grandes etapas, 2 etapas de média dificuldade. Por uma questão de competitividade, deveriam ser mais as etapas de montanha, havendo espaçamento entre os pirinéus e os Alpes como se fazia antigamente.

Na geral:

– Muitos dissabores, muitas surpresas. Começando por Contador, acabando em Gesink. Começando pela vitória de Evans acabando no azarado Wiggins. Prefiro personalizaragrupar este comentário:

Abraço colectivo da BMC. Bem podem estar felizes. Evans é o abono de família para esta jovem equipa, da qual o Australiano não precisou para vencer o Tour. Mesmo que precisasse, eles não estariam lá.

Cadel Evans – Tem aqui o seu prémio de carreira. Não foi de todo o ciclista que mais fez para merecer a vitória, porque nesse campeonato quem acabaria por vencer seria um dos Schleck. Pelos menos foram os Luxemburgueses aqueles que mais tentaram a vitória e que mais jogaram ao ataque. No entanto, Evans aproveitou-se da regularidade para fazer forte o que por si e pela sua equipa (BMC) o fazia fraco. Sem equipa e sem argumentos para pedalar nos intensos ataques dos homens da Leopard-Trek geriu muito bem as diferenças que ia tendo para estes e para Alberto Contador. Em Grenoble não perdoou concretizar aquilo que já vinha tentando nos últimos 56 anos.

Andy SchleckFrank Schleck – Saem novamente do Tour como derrotados, ou moralmente, como os primeiros dos últimos. Mais uma vitória moral para os Luxemburgueses que teimam em executar na perfeição o seu jogo de corrida na montanha mas continuam a falhar de forma redundante nos contra-relógios. O treino pelo qual tem passado para melhorar a sua condição nesta variante assim como os seus resultados está a fazer efeito de ano para ano mas continua a ser escasso para vencer a Grand Boucle.

Alberto Contador – Ano difícil para Contador no ano da mudança da Astana para a Saxo Bank. Os intermináveis escândalos de doping que ainda o terão de levar à barra dos tribunais, a dúvida quanto à participação na Volta à França, a vitória folgorosa no Giro que lhe causou algum cansaço na preparação para o Tour, a mudança de equipa que se veio a provar que diminuiu em muito as chances do italiano revalidar o título visto que a sua nova equipa foi uma sombra daquilo que a poderosa Astana lhe oferecia nos últimos anos e sem dúvida a penosa lesão no joelho que o impedia de pedalar no seu estilo cómodo e veloz foram vários dos factores essenciais para a primeira grande derrota do Espanhol no Tour.

Contador nunca esteve ao seu nível, nunca atacou e nunca pode mostrar o seu enorme potencial enquanto ciclista. O 5º lugar é penoso para o Espanhol. E a Saxo Bank terá que pensar em contratar alguém que consiga estar com o homem na montanha, visto que Navarro e Porte falharam redondamente. 

Samuel Sanchez – Não fosse uma primeira semana azarada e o campeão olímpico de Pequim seria pódio com toda a certeza. Acordou na hora certa em LuzArdiden e nunca mais saiu da companhia dos grandes do pelotão internacional. Apanha a camisola da montanha como bónus e dá à Euskatel aquelas vitórias que continuam a moralizar a agora mais antiga equipa em actividade do pelotão internacional em continuar na sua política de investimento em ciclistas da casa.

Ivan BassoDamiano Cunego – O que escrevo para um serve para o outro. São corredores iguais. Sem tirar nem por. A única diferença é a da idade. Enorme potencial na montanha. Não atacam. Parecem não ter ambição e são ambos péssimos no contra-relógio. Não têm equipa que os leve lá acima e endureça o ritmo. Tem uma grande carreira que ficará para sempre recordada como aqueles que nunca levantaram uma palha para vencer um Tour.

Thomas Voekcler- No início da prova quem acreditava em Voeckler para o top-10? Ou se calhar para o top-20? Para a 4ª posição alguém? Não. Voeckler é um excelente ciclista e já tinha andado de amarela, mas, ninguém acreditava que o líder da Europcar voltaria a vestir a amarela e a resistir com ela envergada durante 11 longos dias com enormes etapas de montanha pelo meio. O espírito de sacríficio deste Francês para dar uma alegria aos seus compatriotas foi algo inacreditável e para isso muito contou com a ajuda do seu fiel escudeiro Pierre Roland. As etapas de montanha em que esteve na defesa intransigente da sua camisola elevaram-no ao nível de Virenque. Merecia o pódio.

Peter VeltisTony Martin – São bons ciclistas, ambos ainda muito roladores e muito frescos para atacar os primeiros lugares desta volta. Precisam de amadurecer e treinar em alta montanha para se afirmarem nas grandes voltas.

Vladimir Karpets – Mais uma decepção. Volta a confirmar que é um ciclista que passa ao lado de uma grande carreira.

Levi Leipheimer – O espelho da Radioshack durante a prova. Azarada, escondida, em baixo de forma, sem uma liderança firme após a saída de Brajkovic. Saisaem pela porta do cavalo e é melhor que preparem muito bem a Vuelta senão será uma época para esquecer tendo em conta o investimento feito.

Robert Gesink – Sempre admitiu que não era candidato e acabou mesmo por não o ser. Está a recuperar de lesão e usou o Tour para preparar a Vuelta, prova onde costuma estar forte. Creio que este ano não fugiu à regra. A Rabobank teve um Tour para esquecer – provavelmente um dos piores de sempre dos Holandeses.

Sandy CasarDavid MoncoutieSylvain Chavanel – Quantos mais velhos, estes Franceses não mudam o seu estilo de sempre. O único contra é que estão claramente piores ao nível de performances. Praticam a luta do gato e do rato, limitando-se a escapar e a tentar fazer a diferença vencendo uma ou outra etapa. Serão claramente engolidos pela nova geração do ciclismo Francês constituída por Jeanesson, Roland, Gadret, Riblon ou Perraud. No fim de contas, a sua tarefa também já está cumprida: aparar as pontas e fazer honras à casa na ligação de duas gerações que prometem ser mais importantes que a sua, ou como quem diz, ligar Virenque, Brochard, Jalabert e Moreau à nova geração talentosa que está a emergir no ciclismo Francês.

Luis León Sanchez – Quer andar na montanha mas não tem pernas. Corre bem colinas e devia dedicar-se mesmo a isso: clássicas! Jamais será um corredor da geral e devido a essa consciencialização é que homens como Bettini ou Bartoli nunca correram grandes provas.

Jens Voigt – Não é um homem importante para a geral, mas acaba por ser um homem importante para a geral. Contraditório mas explicável: não é homem de vencer, é homem de ajudar a vencer. 40 anos bem medidos no corpo de um ciclista que até tem umas vitórias muito interessantes como a própria geral da Volta à Alemanha. Até mete pena ver este homem sair, porque no fundo todos gostaríamos que fosse eterno.

Roman Kreuziger – Fez uma única aparição na montanha envolvido numa fuga. Não parece o mesmo corredor dos tempos da Liquigás. Também sofreu da patologia que está a afectar o desempenho da Astana. Deverá fazer melhor na Vuelta, ou pelo, esperemos que sim.

Andreas Kloden – Viu que não estava em forma, desistiu. A Vuelta será objectivo para o Alemão.

– Vinokourov, Wiggins, Brajkovic, Van der Broeck,  – Não chegaram a conhecer o sabor da prova por infelicidade nas primeiras etapas. Com os 4 em prova, a montanha seria bem mais animada, o top-10 diferente e a classificação da montanha ganharia mais vivacidade. Disso estou seguro.

Rui Costa – Cumpriu objectivos para a equipa, cumpriu objectivos para o país, cumpriu o seu objectivo. Venceu a sua etapa, atacou na montanha e ainda tentou a gracinha em Paris. Mais um corredor talhadinho para clássicas e cá entre nós, menino para seguir as pisadas de Paulinho nos Olímpicos e quiçá tentar a sua sorte nos mundiais, nas clássicas de colinas na Bélgica, pavé Francês ou em São Remo e San Sebastien. Ele já ameaçou nos últimos jogos olímpicos.

– Sérgio Paulinho: Muito apagado, cumprindo de certa maneira a espécie de fado que foi talhado para a sua equipa neste Tour após a perda dos seus líderes.

Na luta pela verde:

– Mark Cavendish – Palavras para quê? Se realmente a HTC não arranjar um patrocinador para o ano, não faltarão convites ao Britânico.

– José Joaquin Rojas – Uma agradável surpresa. Pode ser um nome interessante para os campeonatos do mundo.

– Phillipe Gilbert – Começou com a corda toda mas perdeu a pica quando começou a subir e rapidamente desistiu da ideia louca de apostar na geral. Não conseguiu a verde mas fica na história desta edição com uma excelente prestação. Também deverá atacar os campeonatos do mundo.

Thor Hushovd – É uma classe de ciclista, como já tinha referido num dos posts que escrevi sobre as suas vitórias em etapa.

Tyler Farrar – Venceu uma etapa, mas teve muito apagado no resto da prova. Nem com a ajuda de Hushovd conseguiu parar o furacão Cavendish.

André Greipel – O mesmo de Farrar, exceptuando o facto do Alemão ter vencido o seu rival e antigo colega de equipa por uma vez, facto que festejou como se de uma Volta se tratasse. Ficou muito tapado pelo protagonismo de Gilbert. 

Edvald Boasson Hagen – Cumpriu o que tinha a fazer. Certinho que nem um motor, tem um futuro enorme e brilhante pela frente. Candidato a campeão do mundo e quem sabe olímpico na companhia de Hushovd, está mais que visto.

Alessandro Petacchi, Stuart O´Grady e Tom Boonen – Estiveram em França nestas últimas duas semanas? Petacchi foi avistado uma vez. Na alta montanha, por mais estúpido que pareça!

Na montanha:

– Jelle Vanendert – O homem que surpreendeu meio mundo ao vencer na montanha e ser segundo noutra etapa atrás de Samuel Sanchez. Aproveitou o protagonismo que lhe foi concedido pela equipa após o abandono de Van der Broeck.

– Jeremy Roy – O mais combativo do Tour. Disso não tenho dúvida. Faltou apenas a vitória numa etapa. Leva 10 mil euros para casa por ter passado no Alto do Tourmalet e do Aubisque. Isto é, se não tiver que dividir os prémios com toda a equipa Française des Jeux.

Para terminar, aqui ficam em vídeo, os highlights da etapa de hoje assim como algumas opiniões expressas por membros da corrida à mesma. Para o ano há mais:

Cavendish fala da vitória em Paris:

Cadel Evans, visivelmente emocionado na chegada a Paris:

Andy Schleck cai de pé no Tour onde novamente se portou como um grande campeão:

Passagem de testemunho entre Contador e Evans:

Momentos felizes: a valente murraçada de Contador no “doutor” como sinal de amizade com o homem que lhe queria fornecer o doping:

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Memórias do Tour (Richard Virenque)

Tour de 1996 – Col De la Madeleine (Pirinéus) – Ullrich na frente, Bjarne Riis atrás, Virenque na 3ª posição. O homem da Saeco que vêm atrás creio ser Ivan Gotti.

Esta é uma das imagens mais características de Richard Virenque. Um combativo na montanha. Um trepador de excelência que não fosse o facto de ser um péssimo contra-relogista poderia bem ter sido vencedor de um Tour de France. Outras das imagens possíveis seria a imagem de Virenque como o rei da montanha.

Virenque surge em 1991 num cenário de viragem no ciclismo Francês. Saídos de uma geração de luxo, em que as estrelas principais eram Bernard Hinault e Laurent Fignon, Virenque em conjunto com nomes como Christophe Moreau e Laurent Jalabert seriam os grandes ícones do ciclismo Francês na década de 90 e nos primeiros 5 anos do século XXI. Virenque, um trepador nato. Moreau, um ciclista que se safava bastante bem na média e alta montanha e um excelente contra-relogista. Jalabert, o caso mais estranho: ao início era um ciclista muito completo; depois do acidente que sofreu passou a ser um bom corredor para fugas. Os três não conseguiram dar a desejada vitória aos franceses na sua prova, facto que escapa desde 1985.

Virenque no que a ele dizia respeito, era um temível trepador. 7 vezes o líder da classificação da montanha, seria 2º na prova em 1997 e 3º em 1996.Em 1998 foi apanhado no primeiro grande escândalo de doping na prova: na altura Virenque pertencia à equipa da Festina em que todos os ciclistas acusaram positivo nos testes anti-dopagem. A excelente equipa seria excluída no decorrer da prova.

Virenque haveria de voltar após o cumprimento de uma suspensão. E voltaria para vencer novamente o prémio da montanha em 2003 e 2004 já pela Quickstep Davitamon (sucessora da Mapei) depois de passagens frustrantes pela Polti e pela Domo-Farm Frittes. Era um prazer ver Virenque na montanha: o seu estilo inconfundível de ataque e contra-ataque partia grupos, causava grandes incómodos aos candidatos à vitória. Na montanha, era uma espécie de joker: como sabia que dificilmente poderia vencer provas por etapas, limitava-se a lutar pela classificação de rei da montanha e pela vitória nas etapas de montanha, onde chegou a vencer no sempre difícil Mont Ventoux, em Luz Ardiden, Courchevel e Morzine por duas vezes. Estamos a falar de etapas com elevadíssimo grau de dificuldade. 

Ao nível de carreira, Virenque haveria de ter algumas vitórias interessantes como o Paris-Tours em 2001, uma vitória em etapa no Giro de Itália em 1999, 4 etapas no critério Dauphiné-Libère (usado como rampa de treino para o Tour no que toca a alta montanha visto que existem etapas bastante semelhantes ao nível de traçado), foi 2º nos campeonatos nacionais de estrada de França em 2003 e 3º em 1998 e 3º nos campeonatos do mundo de estrada em 1994.

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Memórias do Tour (Miguel Indurein)

Faz parte das minhas memórias de criança ouvir falar o meu pai e o meu avô sobre as maravilhosas lutas do Tour dos anos 60, 70 e 80.

Inúmeras vezes contaram-me histórias sobre um tal de Joaquim Agostinho que venceu o Alpe D´Huez (etapa raínha dos Alpes) sobre  Eddie Merckx, Bernard Hinault, Jacques Anquetil, Luis Ocaña e Laurent Fignon e Greg LeMond.

Sobre o último, lembro-me perfeitamente de me terem contado quem em 1989 este bateu Fignon na última etapa, quebrando as regras informais do protocolo que manda que nem que seja por 1 segundo de vantagem, o Tour termina no contra-relógio antes da consagração em Paris. Na altura, os 8 segundos que davam vantagem a Fignon não foram suficientes para impedir a vitória do Norte-Americano.

Todavia, o meu interesse pelo Tour surgiu quando vi em 1993 partir para a estrada no prólogo o homem da imagem: Miguel Indurein. Um campeão e tanto que se destacava por ser um temido trepador e um contra-relogista nato.

Até Armstrong, Indurein pertencia ao grupo restrito daqueles que por 5 vezes tinham conquistado a prova juntamente com Eddie Merckx, Bernard Hinault e Jacques Anquetil. No entanto, todos os outros não conquistaram a prova 5 vezes consecutivas ao contrário daquilo que fez o ciclista espanhol.

Os tempos de Indurein marcaram uma viragem entre o ciclismo antigo e o ciclismo moderno. Primeiro, desapareciam de cena as grandes batalhas dos anos 80 protagonizadas entre Fignon, Hinault, LeMond, Stephen Roche e Pedro Delgado. Por outro lado, aparecia uma geração muito talentosa no ciclismo mundial que contemplava nomes como Alex Zulle, Laurent Jalabert, Marco Pantani, Tony Rominger, Bjarne Riis e Pavel Tonkov.

Indurein teve batalhas épicas contra todos eles. Na alta montanha era temível: por mais avanço que concedesse no início das subidas, Indurein controlava a sua corrida e no final era ele quem fazia a festa no alto. No contra-relógio, apenas Zulle era capaz de assumir algum talento para acompanhar a sua pedalada vertiginosa. Por detrás, a máquina da Banesto (equipa para a qual fiquei sempre fã até à sua extinção definitiva em 2002) estava completamente oleada para acompanhar o seu líder até onde ele desejasse ser largado.

Lembro-me em 1995 de uma batalha épica no Col de La Madeleine nos Pirinéus entre Indurein e Riis (venceria o Tour no ano seguinte em que Indurein quebrou e nem conseguiu um lugar nos 10 primeiros mas tal vitória seria posteriormente anulada em 2009 porque o Dinamarques assumiu publicamente que se tinha dopado durante essa edição) em que os dois protagonizaram uma subida épica, numa índole de parada e resposta que o espanhol acabaria por triunfar.

Em 1996 viria o ano em que Indurein haveria de quebrar. Numa subida dos Pirinéus, Indurein ficou para trás muito cedo e nunca mais viria a recuperar. Na altura falou-se que o espanhol tinha sofrido uma intoxicação alimentar no dia anterior à corrida. No entanto, Indurein estava enfraquecido e o seu poderio ultrapassado. O Espanhol haveria de abandonar a alta competição, deixando a Banesto orfã de líderes durante alguns anos. Nem o falecido José Maria Jimenez (era um trepador de excelência que me agradava bastante) nem Zulle, nem Abraham Olano seriam capazes nos anos seguintes de dar vitórias nas maiores provas por etapas à equipa Espanhola que inevitavelmente como muito muitas outras no ciclismo haveria de mudar de nome e patrocinador e posteriormente acabar.

Mais recentemente, no início da sua carreira pensei que Alejandro Valverde poderia ser o novo Indurein. No início, as suas características pareciam ser similares ao do grande corredor, exceptuando o facto que Valverde é um excelente Sprinter e um excelente corredor para clássicas (mantendo mesmo assim as qualidades de trepador) mas é um péssimo contra-relogista. O tempo veio-me a confirmar que Valverde deverá ter sido um dos maiores flops do ciclismo do século XXI.

Outra das recordações que tenho foi esta bicicleta desenhada e desenvolvida pela Pinarello para Indurein. Com o intuito de melhorar a performance do Espanhol no contra-relógio foi baptizada como “A Cabra” do Espanhol. Era para ser utilizada nos contra-relógios do Tour em 1995, numa tentativa do Espanhol (que deteve o record da hora durante 1 mês em 1994, perdendo para Tony Rominger) voltar a deter o record da hora e para a prova individual de contra-relógio dos Jogos Olímpicos de Atlanta. A bicicleta seria usada apenas no record da hora e mesmo assim, Indurein não conseguiria bater Rominger (seria o temível contra-relogista e antigo velocista Chris Boardman a bater o record em 1996 e a detê-lo por 2 anos) sendo completamente rejeitada a utilização no Tour e nos Jogos Olímpicos pelas novas regras impostas pela Federação Internacional quanto ao peso das bicicletas.

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