Tag Archives: Juan Ignácio Corleto

RWC (4)

Depois de alguns dias de ausência destas crónicas, volto a escrever sobre aquilo que se tem passado no mundial de Rugby.

Já para a 2ª jornada da fase de grupos, enquanto estivemos ausentes, o Canadá facturou uma interessante vitória sobre Tonga (25-20) a Escócia teve grandes dificuldades em bater a Geórgia (mostra que as selecções emergentes estão cada vez mais próximas de competir com as grandes selecções; a Escócia não conseguiu lograr um único ensaio), Samoa entrou a vencer no Mundial depois de derrotar a Namíbia por 49-12 e a Nova Zelândia, numa noite em que a organização homenageou todas as vítimas das catástrofes que abalaram o Japão neste ano de 2011, bateu a selecção nipónica com bastante facilidade (83-7).

Nesta madrugada, a história foi diferente:

A Irlanda bateu a Austrália no jogo grande do grupo C. Com a vitória frente aos Australianos, a Irlanda assegurou praticamente a passagem no 1º lugar do grupo.

15 – 6 espelha bem aquilo que foi o jogo. Demasiado fechado, demasiado táctico, demasiado aberto à luta corporal e à vontade de não ceder barata a vitória. Os Irlandeses, com o vigor do costume, executaram bem a táctica planeada para a partida e anularam por completo os Wallabies.

No primeiro test-match a doer para a selecção comandada por Robbie Deans, denotou-se a falta de um criativo. Denotou-se a falta de um jogador “abre-latas”. E esse jogador estou seguro que era Giteau. Por mais que jogadores como o formação Will Genia, o abertura Quade Cooper e o ponta Kurtley Beale tentassem mexer o jogo para os 34 Australianos, o resultado acaba por ser o esbarramento contra a forte muralha defensiva Irlandesa. Foi na acutilância e agressividade defensiva que resultou o sucesso da selecção europeia: os avançados irlandeses não deram espaço para o jogo dos avançados australianos (Ben Alexander, James Horwill e Rocky Elson costumam ser avançados que gostam de penetrar com a bola nas mãos) e da exibição dos 34 australianos pouco ou nada se viu de destaque. Mesmo com uma posse de bola dividida (51% para os Irlandeses49% para os Australianos e um domínio territorial Australiano (54%, sendo que os Australianos tiveram um tempo de 10,34m dentro da área de 22 metros irlandesa) nada acabou por sair bem aos Wallabies perante a agressividade defensiva Irlandesa. Os números são rosto desse facto.

O 3ª linha James Horwill foi peremptório ao afirmar na zona mista instalada dentro do Eden Park em Auckland a frustração do colectivo Australiano: “Ireland did well and we played some dumb rugby. We were not good enough” – e de facto, vimos uma selecção Australiana muito atípica. Sem grande energia e criatividade no ataque, os Irlandeses aproveitaram todos os erros defensivos dos Australianos e como é seu tímbre pela dádiva de terem excelentes executantes de penalidades (no caso deste mundial, do abertura Jonathan Sexton e do mítico veterano Ronan O´Gara) com o jovem abertura a efectivar duas penalidades e um drop e o experiente veterano a fechar a vitória irlandesa.

A Austrália terá que reforçar as suas bases caso queira discutir a vitória. A Irlanda agradou-me bastante depois de uma primeira partida pouco conseguida frente aos Estados Unidos.

– No grupo D, depois de uma vitória muito sofrida perante Gales, a carreira da Selecção Sul-Africana está claramente em ascendente neste ano de 2011. Os Sul-Africanos confirmaram as minhas palavras e aquilo que é de conhecimento público: em campeonato do mundo são crónicos candidatos ao título mundial e mesmo com poucas credenciais exibidas nos test-matches efectuados no último ano, não há tempo nem espaço para contemplações.

49-3 com a marcação de 6 ensaios, ponto de bónus ofensivo, carimbo do 1º lugar do grupo (a nada que algo de supra excepcional possa acontecer nos restantes jogos) e muito indolor para as aspirações das Fiji no grupo.

Num jogo bem disputado em que os Springboks não foram de meias medidas e ao intervalo já venciam por 23-3 com dois pontapés e duas conversões executadas por Morne Steyn e dois ensaios por intermédio do primeira linha Steenkamp e do centro Jacque Fourie, as Fiji bateram-se com honra mas foram completamente impedidas que usar o seu rugby de velocidade e força pela defesa Sul-Africana, que hoje, não permitiu veleidades aos fortes centros e pontas da selecção do Pacífico.

Na 2ª parte, num ritmo de cruzeiro, a África do Sul não tirou o pé do acelerador (como de resto não poderia tirar frente a uma selecção do calíbre da Fijiana) e obteve mais quatro ensaios por intermédio do centro François Steyn (na imagem) do médio de abertura Morne Steyn (que jogador fenomenal) do pilar Mtwarrira e do 3ª linha centro Danie Roussouw, que apesar das 21! (sim, 21!!!) placagens efectuadas pelo seu colega de sector Henrich Brussow, acabou por ser eleito o homem da partida. As Fiji acabaram por sair da partida com um tímido pontapé de penalidade do seu médio de abertura Serenaia Bai, e como Gales conseguiu um ponto defensivo perante a África do Sul, Fiji vê-se obrigada a vencer os Gales ou empatar com ponto de bónus ofensivo para anular a desvantagem pontual provocada pelas partidas contra os Springboks. Isto, se nada de extraordinário acontecer nos jogos de Gales e da selecção Fiji contra a Selecção de Samoa, que perante tais resultados também poderá tentar dar uma perninha pela qualificação num grupo que de resto nota-se ser o mais forte e equilibrado da prova. No entanto, sou da opinião que Gales irá passar como 2º classificado deste grupo, porque é de facto muito mais selecção que Fiji ou Samoa.


– No grupo B, depois da nada desprestigiante derrota no jogo inaugural contra os Ingleses, a Argentina não permitiu veleidades à Roménia do género das que os Escoceses tinham permitido no jogo inaugural do grupo e cilindraram os Romenos por 43-8, dando sinal à Escócia (a jogar bastante mal) que os Argentinos irão colocar os Escoceses fora da fase final sem esforços de maior.

Ao bom estilo de Nani Corleto, o defesa do Leicester Tigers Lucas González Amorosino (na imagem) foi o jogador em destaque no lado Argentino.

As premissas que explicam a vitória dos Argentinos são fáceis de evidenciar e explicar:

1. Com a coragem e o sangue quente do costume, os Argentinos entraram mandões na partida e com vontade de resolver o problema cedo de modo a que os Romenos, pela proximidade do marcador não ganhassem alento à semelhança daquele que tiveram no jogo contra a Escócia. Madrugadores, os Pumas abriram rapidamente as hostilidades com dois ensaios: Santiago Fernandez aos 5″ e Juan Leguizámon aos 9. Mais dois se seguiriam ainda dentro do 1º tempo com Juan Figallo e Amorosino. Os Romenos respondiam com uma penalidade de Dimofte e um ensaio de Ionel Cazan. Na 2ª parte, Juan Imhoff e Genaro Fessia haveriam de chegar ao ensaio nos minutos finais quando o seleccionador Santiago Phelan já optava por fazer descansar os seus principais jogadores e rodar os menos experientes de modo a prepará-los para qualquer eventualidade que surja durante a prova.

2. Os Argentinos anularam por completo o forte Romeno, ou seja, o poder de penetração dos seus avançados no pick and go. Quando alguém o consegue fazer, bloqueia por completo as soluções de jogo dos Romenos. Eventualmente, o leitor mais atento e interessado pergunta-se porque é que Portugal não monta soluções para parar as investidas de jogo dos avançados romenos e bloquear as soluções de jogo dos Romenos. A resposta é simples: não desprezando por completo a qualidade e o notório esforço e luta que os avançados portugueses entregam ao jogo, estes estão a anos luz da vivacidade e da virilidade de homens como Leguizámon, Ledesma, Fernandez Lobbe, Juan Figallo, Patricio Albacete, Rodrigo Roncero ou Martín Scelzo. Se os Romenos são duros de roer, os avançados Argentinos ainda mais duros são. Aqui está o segredo do rugby argentino.

Com as etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Los Pumas

Anúncio comercial feito pela Peugeot (patrocinador oficial) para a Selecção Argentina de Rugby, após o brilhante 3º lugar conseguido pelos Pumas no Campeonato do Mundo de Rugby de 2007.

Há 3 anos atrás nada fazia prever que os Pumas (alcunha pela qual é conhecida a Selecção Argentina de Rugby) pudesse conseguir um 3º lugar no Campeonato do Mundo que foi disputado em França.

À entrada para a William Webb Ellis Cup, a Argentina não estava incluída entre os candidatos à vitória. De um lado, apareciam os candidatos principais: as 3 super potências do hemisfério Sul (Nova Zelândia, Austrália e África do Sul) acompanhadas pela Inglaterra que depositava todas as esperanças no brilhantismo do seu médio-de-abertura Johnny Wilkinson, que 4 anos antes tinha calado o público Australiano no Estádio Olímpico de Sydney no prolongamento da final do RWC 2003 frente à selecção da casa com um brilhante pontapé de ressalto que acabaria por dar o título mundial aos Ingleses.
Como outsiders, apareciam a França (a jogar em casa), o País de Gales e a Irlanda de Ronnie O´Gara.

Apresentando-se em França com a sua geração de ouro em estado de plena maturidade: falo de jogadores como Juan Martin Hernandez, Agustin Pichot (o melhor médio-de-formação que alguma vez vi jogar) Juan Leguizámon, MarioLedesma, Ignácio Corleto, Filippo Contepomi, Manuel Contepomi, Horacio Agulla, Juan Fernandez Lobbe, PatricioAlbacete ou Rodrigo Roncero, a Argentina não só não constava da lista principal de favoritos, como eram poucos os analistas que acreditavam que a Argentina poderia passar a fase de grupos num grupo tão terrível onde tinha como adversários a França, a Irlanda, a Geórgia e a Namíbia.
Tudo começou com uma grande vitória no jogo inaugural do torneio contra a equipa da casa, onde Juan Ignácio Corleto (entretanto retirado devido a sucessivas lesões) fez este maravilhoso ensaio:

Vencendo a Namíbia e a Geórgia com ponto de bónus, a Argentina (mesmo perdendo com a Irlanda) beneficiou da vitória dos Franceses frente aos Irlandeses e venceu o grupo avançando para os quartos-de-final onde defrontou e bateu a Escócia.

Todo este sucesso dos Pumas não tinha caído do céu. Com uma boa massa humana, o seleccionador Santiago Phélan apareceu em França com o trabalho de casa bem feito. A Argentina era mortífera no ataque. Demasiado louca quando se balanceava no ataque. Toda esta loucura no ataque era bem compensada por uma agressividade fenomenal nos processos defensivos. Fruto de muito coração (como diz o anúncio) por parte dos avançados Argentinos.
O ataque todo ele assentava numa matriz: Pichot e Hernandez eram os cérebros criativos do ataque. O médio-de-abertura (agora no Leicester de Inglaterra) tanto é capaz de atacar os espaços sabendo que vão cair rapidamente 4 adversários naquela zona (o que usualmente se apelida de se atirar contra os adversários) como era capaz de brindar o público com brilhantes combinações ora de finta de passe, ora de finta de passe seguida de um passe para o avançado mais perto ou para os centros (os irmãos Contepomi) ou para a dupla das pontas AgullaCorleto que em velocidade eram simplesmente fantásticos. Um dos irmãos Contepomi (Filippo) também era importante no jogo ao pé. Para além de jogar muito bem ao pé, era uma das opções de Phélan para a cobrança de pontapés de penalidade, tentativas de pontapé de ressalto e cobranças de conversões de ensaio.
Os avançados Argentinos também tinham um papel importante no ataque. Homens como Roncero, Ledesma, Leguizamon eram fenomenais a executar a táctica do pick-and-go (táctica que no rugby significa um montar de sucessivas fases por parte dos avançados de modo a avançar no terreno através da luta corporal no ruck; no chão) mas era na defesa que tinham a sua principal preponderância, executando uma defesa aguerrida e raramente permeável. Sem qualquer medo de placar, os avançados Argentinos defendiam de forma apaixonada. Como se estivessem a defender o castelo, não se fazendo rogados a placar e a virar adversários roçando os limites da falta.

Era portanto a versão mais exacta da paixão do Tango Argentino no Rugby: um rugby viril mas ao mesmo tempo sensual, que cativava os espectadores.

Nas meias-finais da prova Francesa, acabaria por vir a África do Sul, selecção que se iria sagrar campeã do mundo dias depois no Stade de France contra a Inglaterra de Wilkinson. No jogo das meias-finais, os Pumas acusaram a pressão e perderam. Cometendo muitos erros no ataque e na defesa, os Sul-Africanos recuperaram muitas bolas e na hora exacta capitalizaram todas as falhas crassas do jogo argentino. Os Argentinos não baixaram os braços e no último jogo para muitos com a camisola da Selecção (ver vídeo em baixo com as palavras de incentivo de Pichot aos colegas de selecção antes dessa partida) voltaram a encontrar a França no jogo de atribuição do 3º e 4º lugar, tendo feito (na minha opinião) o melhor jogo de sempre da sua história.

Para concluir, faço minhas as palavras deste sensacional “formação”: O Rugby é mais que um jogo. É um modo de vida, é os amigos, é o clube, é o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. É motivação, é companheirismo, é bravura, é cavalheirismo, é fair-play, é distinção, é o meu mundo.

Com as etiquetas , , , , , , , , , , ,