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Mato, logo existo

Por Dominique Moisi, autor do livro Geopolitics of Emotion

“É preciso lutar contra os terroristas e contra as causas do terrorismo com a mesma determinação”. Essa fórmula, inventada há dez anos, no rescaldo dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, por líderes tão diversos como Javier Solana, então secretário-geral da NATO, e o então presidente dos EUA, George W. Bush, continua da mesma forma válida no rescaldo do recente massacre em França.

O Estado francês conseguiu identificar e “neutralizar” o terrorista em pouco tempo, apesar de persistirem duas questões cruciais: Ele deveria ter sido preso muito antes? Poderia ter sido capturado vivo? Agora, o Estado francês precisa de ir mais longe. O presidente francês, Nicolas Sarkozy estava certo ao chamar Mohammed Merah um “monstro”. Mas Merah foi o nosso monstro. Ele nasceu, foi criado e foi distorcido em França, tal como os terroristas que atacaram o metro de Londres, em Julho de 2005, foram produtos da sociedade britânica.

É imperativo, não só para a França mas para o mundo inteiro, entender como é que um único e solitário homem foi capaz de ter um país inteiro como refém, durante quase uma semana. A única forma que Merah encontrou para dar sentido à sua vida parece ter sido assassinar soldados e crianças judias. Matar – e da maneira mais fria que se possa imaginar – era para existir.

Muitos franceses inicialmente, e no seu íntimo, esperavam que o que tinha acontecido em Toulouse fosse provar ser uma repetição dos ataques em Oslo, em 2011 – que o terrorista se revelasse ser o produto da extrema-direita. Merah alegou estar a agir em nome do fundamentalismo islâmico; na realidade, ele era o produto de uma seita sangrenta e pervertida. Como pode um insignificante delinquente, uma criança perdida da nação francesa, cair nas mãos do ódio terrorista de qualquer tipo?

Os assassinatos no sudoeste de França reflectem três factores principais. Primeiro, há o campo de batalha do Médio Oriente, alargado de modo a incluir o Afeganistão e o Paquistão. Esses problemas não foram a causa directa dos ataques, mas também não eram um mero pretexto. Os problemas dessa região incivilizada agem como uma caixa-de-ressonância particularmente perigosa, para a juventude muçulmana alienada em França.

Segundo, a alienação é a realidade para muitos franceses muçulmanos, agravada por uma crise económica que resultou na elevada taxa de desemprego entre os jovens – e que atinge a juventude muçulmana de forma particularmente intensa, retardando a sua integração na República francesa.

Finalmente, um desvio de identidade em França pode atingir uma dimensão mais séria. É pura coincidência o facto de Merah, que era de ascendência argelina, ter optado agir no preciso momento em que a França e a Argélia estavam a comemorar os 50 anos da independência argelina?

Merah provavelmente não se sentiu nem francês nem argelino. Escolheu o que para ele seria uma identidade muçulmana. Mas foi uma versão perversa, extrema e sectária do islamismo. Questões pessoais – a ausência de um pai ou uma estrutura familiar coesa – provavelmente precipitaram o seu desvio de identidade. Ele estava à procura de um modelo que pudesse impor algumas regras na sua vida e não conseguiu descobri-lo até encontrar o terrorismo.

Confrontada com o horror das acções de Merah, a nação francesa tem demonstrado a sua união. Ao escolher como seus alvos soldados muçulmanos e cristãos, bem como crianças judias, Merah reforçou a solidariedade de um país que queria dividir. Mas esta união é instável. A República francesa tem que recapturar seus territórios perdidos mais importantes: jovens alienados e frágeis de origem imigrante.

A tragédia favoreceu, inegavelmente, a campanha de Sarkozy para vencer o segundo mandato das eleições presidenciais em Abril. Ele estava no comando e agiu de forma decisiva e responsável. A agenda política, pelo menos a curto prazo, desviou-se para a segurança, onde Sarkozy tem uma vantagem estrutural comparado com o seu rival socialista, François Hollande. Mas, tal como o ex-primeiro-ministro britânico Harold Wilson disse a famosa frase: “Uma semana é muito tempo na política”.

Muita coisa pode mudar antes da primeira volta das eleições. O que preocupará mais os eleitores franceses quando votarem? Será que os receios económicos voltarão a prevalecer sobre a agenda de segurança? Ou será que os factores pessoais dominarão, com o reflexo de um “mais ninguém para além de Sarkozy”, de um lado, e uma falta de confiança no não carismático – e, possivelmente, não preparado – Hollande?Os ataques selvagens de Merah são um lembrete amargo de que o terrorismo ainda assombra muitas sociedades. A segurança deve ser reforçada, enquanto as suas causas precisam de ser abordadas. E descobriremos brevemente se este espasmo de terror foi apenas um trágico parêntese ou um ponto de viragem.

anotamento meu: o autor, apesar do texto brilhante, podia ter acrescentado à sua lista de argumentos (não deixa de ser uma teia argumentativa muito boa) que Merah foi a voz de uma imigração “francesa” cada vez mais apertada pelas declarações dos candidatos presidenciais e que também poderá ter sido o espelho do recrudescimento das tensões diplomáticas entre os países do Magreb e o Estado Israelita, assim como da própria França com o referido estado.

Tanto Marine Le Pen como Nicolás Sarkozy tem pautado as suas intervenções de campanha com um ataque declarado à imigração em França. Estas intervenções, como é de esperar num país multicultural como a França, têm causado muita inquietação em todas as comunidades imigrantes radicadas em França.

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Os Imigrantes

Como demonstra a caricata imagem, em 1979, um grupo de cidadãos Mexicanos jogaram um jogo de Voleibol junto a um muro que marca a fronteira entre os Estados Unidos da América e o México. Uns do lado Americano e outros do lado Mexicano, sendo o referido muro a rede do jogo.

Há uma regra no Voleibol que penaliza quem tocar na rede ou quem ultrapassar com qualquer parte do corpo para o lado adversário. Fazendo analogia ao actual panorama das leis de imigração dos Estados Unidos da América, há quem esteja super interessado em pura e simplesmente restringir a imigração para o país. É o caso do Xerife Joe Arpaio, xerife de Phoenix que lançou uma autêntica cruzada à imigração ilegal nos Estados Unidos da América.

A imigração para o país é um dado que remonta há mais de 3 séculos quando os peregrinos Ingleses chegaram ao território Norte-Americano a bordo do “Mayflower”. Décadas depois (devido à existência de possessão territorial por outras potências Europeias) começaram a chegar os primeiros espanhóis e os primeiros Franceses junto com os escravos africanos que estes usavam para a mão-de-obra necessária para desenvolver a exploração que era feita nos territórios.
Com o advento do capitalismo e com a progressiva descoberta e ocupação da totalidade do actual território Norte-Americano, os sucessivos Governos do país começaram a precisar de pessoas não só para ocupar território como para o explorar. Abriram-se caças ao Oeste, onde o Governo incentivava a que novos emigrantes escolhessem livremente um sitio para se fixarem. Com o advento industrial dos Estados Unidos no final do século XIX, começaram a chegar ao país milhares de emigrantes dos mais variados destinos: Italianos principalmente, Sul-Americanos, alguns Portugueses, Chineses, Espanhóis, Cubanos, Mexicanos… Com a chegada destes, a cultura Norte-Americana passou a ser um autêntico “melting pot”, uma autêntica miscenização étnico-cultural: dezenas de povos diferentes, com culturas e tradições diferentes no mesmo território. Não descurando a ideia do patriotismo Norte-Americano, a ideia de identidade nacional nos EUA não existe. Existe sim, uma cultura composta pelas práticas, comportamentos e tradições de vários povos, de várias raças, de vários credos, de vários valores…

Muitos desses povos chegaram à América de forma ilegal, e de forma ilegal gerações trabalharam de modo a enriquecer e a aumentar a grandiosidade do lema do “sonho americano”…

Dado essencial em tudo isto é o facto de ainda hoje, ser benéfico para a economia paralela que é desenvolvida no país o factor da imigração ilegal. Nos Estados Unidos, há milhares senão milhões de imigrantes ilegais que tem uma profissão e que ajudam ao crescimento (actualmente à retoma) da economia Norte-Americana, sem que nada ou ninguém os impeça de o fazer. Os serviços de estrangeiros e fronteiras, sabem quem são os imigrantes ilegais, onde vivem, onde trabalham e em milhares de casos nem sequer põem uma única objecção quanto à prestação de cuidados de saúde e educação aos imigrantes e aos seus filhos. Estamos portanto numa situação em que a imigração ilegal é algo completamente consentida pelas autoridades Norte-Americas e tida como altamente benéfica para o país.

Por outro lado não se deve descurar dizer que entre as pequenas comunidades de imigrantes (como noutros sectores da sociedade Norte-Americana) existem aqueles que vivem sem quaisquer tipos de regras, usando e abusando de formas ilícitas de actuação como ganha-pão. É o caso da Máfia. Engane-se quem pensa que o fenómeno da Máfia é um fenómeno intrinsecamente ligado à cultura Italiana. As formas e os esquemas mafiosos estão em todo o lugar e no caso específico dos Estados Unidos também existem organizações mafiosas de Cubanos, de Mexicanos, de Chineses e até de Judeus. Dúvido até que entre os Portugueses não exista qualquer tipo de Máfia.

Dos sectores altamente conservadores do país aparecem homens como Joe Arpaio. Xerife em Phoenix, 78 anos. Altamente conservador. Crente que são os imigrantes no país a causa da grossa fatia da taxa de criminalidade.
Arpaio é totalmente contra a imigração. Nos Estados Unidos é idolatrado por todos os conservadores e por todos os nacionalistas. Do outro lado, o sector da esquerda Norte-Americana não se cansa de divulgar os métodos pouco ortodoxos de conduta profissional do senhor que chegam a roçar o sádismo, violando assim os Direitos do Homem. Tudo, porque o Xerife Arpaio “pensa que pode livrar a América de todos os males que a afectam. Exclusivamente causados por imigrantes!”

A lei de imigração SB1070 no Estado do Arizona, uma lei que restringe ainda mais a imigração para o referido Estado foi bloqueada na semana passada pela juíza Susan Bolton, um dia antes de entrar em vigor. Para descontentamento de Arpaio e do sector conservador do país.
Jurídicamente esta pode ser uma manobra incipiente. A criação legislativa nos Estados Unidos é o que vulgarmente se chama de “pau de dois bicos”. Por um lado temos as emendas da constituição. Por outro lado, para a mesma matéria, os 50 Estados poderão ter dentro do seu território diferentes legislações em vigor. Qual delas deverão os Norte-Americanos respeitar? A federal ou a estatal?
Arpaio manifestou a sua indignação perante as camaras de TV. Disse que continuaria a trabalhar com o mesmo método, lançando uma autêntica caça à imigração no seu condado.

Os Estados Unidos estão a apertar o cerco à imigração. Seja ela de índole legal ou ilegal. Os Norte-Americanos pura e simplesmente não irão querer mais imigração não-qualificada. Progressivamente, as políticas de imigração Norte-Americanas estão a desenvolver acções que visam sobretudo um encerramento total de brechas existentes na fronteira com o México. Como uma das maiores comunidades enraizadas no país, qualquer Mexicano que tente entrar de forma legal ou ilegal no país será considerado de forma preconceituosa (diria irracional) como mais um que deverá querer entrar no país para estabelecer uma ponte maior para o tráfico de estupefacientes.  Daí que os Estados Unidos estejam a pressionar o governo Mexicano a encetar uma verdadeira luta contra os barões dos cartéis de droga. Como se não os houvesse entre os nacionais Norte-Americanos e Como se por exemplo, o Presidente dos Estados Unidos não fosse só por acaso o maior vendedor de armas do planeta. Não directamente, mas através de intermediários…

Daí que esteja a ser construído o maior muro fronteiriço desde o Muro de Berlim na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Um muro ao estilo de Berlim e da Faixa de Gaza. Para que ninguém jamais tente passar a fronteira do México para os Estados Unidos.

A pergunta que vos deixo hoje é esta: se a população Norte-Americana é constituída por um fenómeno de miscenização e convivência de várias culturas, vindas de fenómenos de imigração, que moral têm os americanos para impedir que cidadãos de outros países tentem procurar a fortuna e a felicidade no seu país? Não será isto racismo e xenofobia?

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