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A carta Chinesa de Obama?

Por Malcolm Frazer, antigo primeiro-ministro Australiano

“De acordo com a Reserva Federal dos Estados Unidos, o valor líquido dos norte-americanos caiu 40% desde 2007, voltando ao seu nível de 1992. O progresso até à recuperação será lento e difícil, e a economia dos EUA estará fraca durante a corrida presidencial de Novembro e as eleições para o Congresso. Poderá qualquer presidente em exercício – e especialmente o Presidente Barack Obama – assegurar a reeleição em tais condições?

Na verdade, a culpa do mal-estar norte-americano cabe directamente aos antecessores de Obama: Bill Clinton, por encorajar o Fed a descurar a supervisão e regulação dos mercados financeiros, e George W. Bush, pelas suas guerras caras, que aumentaram massivamente a dívida governamental dos EUA. Mas, ao chegar o Dia da Eleição, muitos (se não a maioria dos) norte-americanos provavelmente ignorarão a história recente e votarão contra o presidente em exercício.

Dado isto, não surpreenderia se Obama e outros na sua administração procurassem questões não-económicas para reforçar a sua campanha. Os problemas da segurança nacional em geral, e o desafio colocado pela China em particular, podem estar a tornar-se nessas questões.

A política externa e de defesa de Obama tem sido no mínimo assertiva, especialmente no Médio Oriente e no Pacífico. Sancionou muito mais ataques não-tripulados que Bush; estendeu a intrusão dos serviços de segurança à privacidade dos norte-americanos; permitiu à CIA continuar o seu programa de rendições; aprovou julgamentos de terroristas acusados por tribunais militares irregulares; e não encerrou a Baía de Guantánamo.

Além disso, os EUA estão a aumentar a sua presença militar no Pacífico numa altura em que já têm mais força militar na região do que todos os outros países juntos. Seis porta-aviões, com as respectivas embarcações de apoio – na verdade, 60% de toda a marinha de guerra norte-americana – estão agora estacionados no Pacífico.

Adicionalmente, o governo de Obama tem conduzido conversações com as Filipinas para aumentar e reforçar a cooperação naval. E Singapura tem sido persuadida a albergar quatro navios de guerra avançados. A Austrália estabeleceu uma base para fuzileiros em Darwin e outra para aviões-espião não-tripulados nas Ilhas Cocos.

Isso não é tudo. Num episódio que recebeu pouca ou nenhuma publicidade, os republicanos do Congresso adicionaram uma cláusula à Lei do Orçamento da Defesa para o próximo ano requerendo que o governo Obama consulte os países no Pacífico Ocidental acerca da instalação de ainda mais forças – incluindo armas nucleares tácticas – na região. O Senador Richard Lugar referiu-me que havendo pouca ou nenhuma objecção à emenda por parte da Casa Branca, não vê razão por que a mesma não passe no Senado.

Numa recente conferência de segurança em Singapura, o secretário da Defesa dos EUA, Leon Panetta, enfatizou o reforço militar norte-americano na região. Depois, foi ao Vietname, alegadamente para discussões sobre o uso pela Marinha dos EUA da Baía de Cam Ranh, uma base norte-americana importante durante a Guerra do Vietname.

Os EUA, como a Austrália, negam que tudo isto somado represente alguma política de contenção dirigida à China. Mas poucos no Pacífico Ocidental o vêem desse modo.

A visita de Panetta ao Vietname seguiu de perto a visita da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, a Pequim para conversações estratégicas e económicas. Essas conversações parecem ter corrido bem, mas está a tornar-se cada vez mais claro que os EUA perseguem uma política de duas vias: conversações, sim, mas crescimento e reposicionamento do poderio militar dos EUA no Pacífico, por via das dúvidas.

Tudo isto acontece numa altura em que a China se prepara para uma mudança de liderança. Eu acredito que a transição política ocorra suavemente. Outros sugerem que será – e já seja – um período difícil de turbulência e incerteza.

A administração Obama pode acreditar que a dureza dirigida à China gerará apoio eleitoral nos EUA. Durante os incidentes ou crises internacionais mais importantes, a América raramente votou contra um presidente em exercício. Mas terá ele considerado adequadamente quão provocatórias são as suas políticas para a China?

Nada disto quer sugerir que a região do Pacífico não precisa da América. Mas, enquanto a América tem obviamente de desempenhar um papel significativo na região, os EUA já deviam ter aprendido que será improvável conseguirem os seus objectivos políticos através de meios militares.Os próprios chineses não querem que os norte-americanos abandonem o Pacífico Ocidental, porque isso aumentaria o nervosismo dos países mais pequenos na periferia da China quanto ao poder chinês. A China é suficientemente madura para entender isto; todavia, um crescimento militar importante dos EUA na região é outro assunto.

Estes são dias perigosos, não só economicamente, mas também estrategicamente. Precisamos realmente de perguntar se Obama está a tentar jogar uma carta chinesa para mudar a balança eleitoral a seu favor. Se for essa a sua intenção, é uma acção que comporta grande perigo.

A Austrália devia dizer aos EUA que não aceitará este cenário. Eu mais depressa anularia o Tratado ANZUS com a Nova Zelândia e os EUA – isto é, eu mais depressa terminaria a cooperação para a defesa com os EUA – do que permitiria a colocação de mísseis nucleares em território australiano.

O actual governo australiano não tomaria tal atitude, e a oposição provavelmente também não o faria. Mas cada vez mais australianos começam a questionar a proximidade e a sensatez dos laços estratégicos com os EUA. Talvez a melhor esperança para estabilidade e paz resida na recusa da China em ser provocada. Os chineses entendem o jogo que está a ser jogado. Suspeito que fiquem de fora durante a campanha eleitoral dos EUA.”

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O nó persa

Por Joschka Fischer, Líder do Partido Verde, foi ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha e vice-chanceler

As negociações entre o Irão e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mais a Alemanha, sobre o programa nuclear iraniano entraram agora numa nova, e provavelmente decisiva, fase. Estas negociações decorrem há quase uma década, pautadas por longas interrupções e ninguém pode adivinhar se desta vez haverá desenvolvimentos. Mas a situação nunca foi tão séria como agora e a paz está em jogo.

Após a recente visita do primeiro-ministro israelita Binyamin Netanyahu a Washington DC e a do primeiro-ministro Turco Recep Tayyip Erdogan a Teerão, uma situação pouco clara começa a tornar-se mais nítida. Parece que o presidente norte-americano Barack Obama conseguiu ganhar tempo definindo uma meta – o início de um programa explícito de armamento nuclear iraniano – e garantido a Israel a sua prontidão para a acção militar caso as negociações falhem.

Além disso, tendo em conta o perigo de um confronto militar, os Estado Unidos, em conjunto com a Europa e outros parceiros, implementaram novas sanções “inteligentes” e rígidas visando as exportações petrolíferas iranianas – a sua principal fonte de rendimento – e isolaram em grande parte a República Islâmica do sistema de pagamento internacional. O Irão precisa urgentemente da sua fonte de rendimento petrolífera e, sem poder participar no sistema de pagamentos, o seu comércio internacional está a ficar paralisado. As transacções por meio de géneros e malas cheias de dinheiro não são uma alternativa viável. Desta forma, a economia iraniana está a ser abalada até ao âmago.

Além disso, os EUA parecem ter transmitido a gravidade da situação e as suas intenções de forma credível aos líderes iranianos através de vários canais. Por isso, caso esta ronda de negociações também não seja bem-sucedida, poderá ter início uma grande – e completamente previsível – tragédia.

A boa notícia reside no facto de que todos os intervenientes parecerem ter consciência desta situação, o que deverá fazer com que os envolvidos se concentrem num processo de negociações sério e numa solução diplomática. Deverá tornar-se evidente em breve se desta vez o Irão está seriamente disposto a assumir um compromisso, pois existem inúmeras referências para o medir.

O conteúdo desse compromisso é mais ou menos claro: a aceitação por parte do Irão de urânio pouco enriquecido para utilização não militar e salvaguardas melhoradas e verificáveis, tais como a exportação de urânio pouco enriquecido para processamento adicional e direitos de fiscalização mais fortes e abrangentes para a Agência Internacional de Energia Atómica em território iraniano. Por exemplo, a AIEA teria acesso a instalações iranianas vedadas.

É claro que um compromisso não iria abordar a questão do comportamento interno do regime iraniano e as suas ambições regionais – uma fonte de ansiedade partilhada por Israel e pelos estados árabes do Golfo, principalmente a Arábia Saudita. Mas, sem ninguém com vontade de entrar em guerra para obter uma mudança de regime no Irão, especialmente após a desventura no Iraque que durou uma década, não haverá obstáculos às negociações motivados por aspirações fúteis.

Isto aplica-se igualmente ao Irão, onde algumas pessoas influentes ainda pensam que os EUA podem ser expulsos do Médio Oriente, e que o status quo pode ser alterado de forma a instalar o Irão como o poder hegemónico da região. Esta ilusão, não inferior à esperança do Ocidente numa mudança de regime no Irão, só poderá ser seriamente levada por diante correndo o risco inadmissivelmente elevado de guerra e caos regional.

Outros factores significativos irão ter um papel importante no desfecho destas negociações. O primeiro prende-se com a política interna do Irão no que diz respeito à luta pelo poder no seio do regime – uma luta que já antes inviabilizou uma solução diplomática, devido ao facto de nem conservadores nem reformistas estarem dispostos a ceder um triunfo diplomático ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. Resta-nos esperar que, à luz da gravidade da situação, esta via para o insucesso esteja vedada.

É provável que os desenvolvimentos na Síria, o último aliado do Irão na região, também venham a ter o seu papel. A queda do regime do presidente Bashar al-Assad seria um fracasso estratégico para o Irão, que se defrontaria com uma frente unida de estados árabes, apoiados pela Turquia, pelos EUA e, de certa forma, por Israel. O Irão teria então dificuldade em manter a sua presença no Líbano e a sua posição tornar-se-ia mais complicada mesmo no Iraque, independentemente da maioria Xiita. Resumindo, a sua procura por um domínio regional iria desabar.Devido à complexidade de factores externos, será importante não sobrecarregar as negociações nucleares com questões para cuja resolução as mesmas não estão preparadas. Os problemas da Síria, do futuro do regime iraniano, da situação no Golfo Pérsico e zona circundante deverão ser abordados a outro nível e noutro momento caso se pretenda conter ou evitar o risco de guerra devido ao programa nuclear do Irão.

Desde o tempo em que Alexandre o Grande resolveu de forma memorável o enigma do nó górdio com apenas um golpe da sua espada, sonha-se com soluções militares simples para resolver problemas complexos. Mas, na maioria das vezes, a aplicação de força militar para resolver um problema origina ainda mais problemas. No Iraque, George W. Bush, Dick Cheney, e Donald Rumsfeld demonstraram que a utilização do poder militar apenas como último recurso é não só um imperativo ético e moral, como também um imperativo baseado numa Realpolitik.

Existem momentos em que a utilização do poder militar se torna inevitável, mas nunca deverá ser uma opção alternativa à diplomacia. Esta constatação é decididamente verdadeira no que respeita o “Nó Persa” actual. No entanto essa escolha – guerra ou diplomacia – confronta agora ambos os lados.

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A Cimeira das intenções silenciosas

Por Jorge Castañeda, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros do México (2000-2003) e Professor  de Política e Estudos Latino-Americanos na Universidade de Nova Iorque.

A Cimeira das Américas, que se realiza sensivelmente todos os três anos, pode ser vista como o tipo de extravagância Latino-Americana que reúne chefes de estado por alguns dias, tanto a sul como a norte do Rio Grande, para fazer discursos intermináveis que não levam a lado algum. Mas de vez em quando, a Cimeira – uma iniciativa Americana lançada pelo Presidente Americano Bill Clinton em 1994 – efectivamente ajuda a colocar assuntos essenciais na mesa hemisférica.

Um desses assuntos foi a chamada Área de Comércio Livre das Américas, que foi proposta pelo antigo Presidente Americano George H. W. Bush em 1990, e que depois se desmoronou na cimeira de Mar del Plata na Argentina em 2005. Irritado pela presença do filho de Bush pai, o Presidente George W. Bush, o Presidente Venezuelano Hugo Chávez reuniu milhares de manifestantes anti-Americanos para protestar contra o acordo.

A Cimeira das Américas serve assim como um indicador das relações Estados Unidos – América Latina, mesmo quando não consegue resultados de grande significado.

A cimeira deste ano, que tomará lugar em Cartagena, na Colômbia, em meados de Abril, já gerou controvérsia. Dois assuntos tradicionalmente polémicos dominarão as discussões: Cuba e droga.

Cuba nunca foi convidada para a Cimeira das Américas, porque a reunião foi desenhada para incluir apenas membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e presidentes democraticamente eleitos (embora o então presidente do Peru, Alberto Fujimori, tenha participado em 1998, apesar de ter suspendido a constituição do país num “auto-golpe” em 1992).

Em Fevereiro, o presidente do Equador, Rafael Correa, declarou que se o Presidente Cubano Raúl Castro não fosse convidado para a Cimeira, os países ALBA (Cuba, Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia, e algumas das ilhas das Caraíbas) não participariam. Isto foi uma clara intenção de provocar os EUA, Canadá, e um punhado de outros países que se opunham à sua presença.

Vários líderes e comentadores Latino-Americanos recomendaram que o Presidente dos EUA Barack Obama participasse, não obstante a presença de Castro, para confrontá-lo com o défice democrático em Cuba. Obama não mordeu o isco: uma oportunidade fotográfica acidental ou um debate público com Raúl Castro no meio de uma campanha eleitoral não ajudam um presidente dos EUA a vencer um segundo mandato.

O Presidente Colombiano Juan Manuel Santos tentou desarmar o assunto confirmando primeiro se os Cubanos queriam realmente ser convidados. Ao enviar o seu ministro a Havana para esse efeito, recebeu uma resposta surpreendente: Cuba queria participar, apesar de ter rejeitado em 2009 um convite para voltar à OEA.

Era claro para Santos que, se Castro participasse, a cimeira de Cartagena tomaria lugar sem Obama, o Primeiro-Ministro Canadiano Stephen Harper, e talvez alguns outros chefes de estado. Se, por outro lado, Castro não participasse, alguns dos membros da ALBA, incluindo dois vizinhos com os quais a Colômbia espera melhorar relações – Equador e Venezuela – poderiam também não aparecer.

No final, Santos, como os seus predecessores em anteriores organizações da Cimeira, não teve escolha para além de informar os Cubanos pessoalmente que não eram bem-vindos, por “não haver consenso relativamente à sua participação.” Apesar de falarem da crescente independência Latino-Americana e das recentes reformas de Castro, a maior parte dos países, quando forçados a escolher entre Cuba e os EUA, escolhem os últimos. Na verdade, até os supostos aliados de Cuba na região se abstiveram de instigar Santos a convidar Castro.

Portanto Castro não participará, Obama sim, e os líderes da ALBA estarão provavelmente divididos. Os participantes tentarão garantir que Cuba seja convidada para a próxima cimeira em 2015, mas é difícil prever o que acontecerá. Cuba permanece por agora a ovelha negra da América Latina.

Porque Obama estará presente, outros líderes poderão aproveitar a oportunidade para partilhar com ele as suas opiniões sobre o que é cada vez mais chamada de “guerra falhada contra a droga,” o programa anti-droga originalmente lançado pelo Presidente Americano Richard Nixon em 1971. O recentemente empossado Presidente Guatemalteco Otto Pérez Molina, juntamente com Santos e outros chefes de estado, questiona a abordagem actual, devido aos seus enormes custos e magros resultados, e propõe uma estratégia diferente: a legalização.Obama enviou o Vice Presidente Joe Biden ao México e à América Central há algumas semanas atrás para dar conhecimento desta tendência, e pode tê-lo conseguido parcialmente. Contudo, enquanto apenas um punhado de líderes políticos e de intelectuais advogaram a legalização no passado, hoje em dia funcionários saem “do armário” aos magotes relativamente à questão da droga. Os que diziam antes que preferiam um debate sobre o assunto apoiam agora a legalização; aqueles que se lhe opunham aceitam agora a necessidade para um debate; e aqueles que continuam a opor-se à legalização fazem-no por fundamentos morais em vez de racionais.

Mas Obama tem outras prioridades. Os seus desafios de política externa, com a excepção do programa Iraniano de enriquecimento nuclear e da reacção de Israel ao mesmo, estão em segundo lugar relativamente à saúde económica dos EUA, e do impacto que esta tem na sua reeleição. A América Latina – ou mesmo o México – não estão neste momento no ecrã do seu radar.

Não obstante, Obama irá a Cartagena, como deveria. Os EUA já aprenderam que os melhores interesses da nação incluem uma atenção cuidadosa aos seus vizinhos meridionais.

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Mato, logo existo

Por Dominique Moisi, autor do livro Geopolitics of Emotion

“É preciso lutar contra os terroristas e contra as causas do terrorismo com a mesma determinação”. Essa fórmula, inventada há dez anos, no rescaldo dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, por líderes tão diversos como Javier Solana, então secretário-geral da NATO, e o então presidente dos EUA, George W. Bush, continua da mesma forma válida no rescaldo do recente massacre em França.

O Estado francês conseguiu identificar e “neutralizar” o terrorista em pouco tempo, apesar de persistirem duas questões cruciais: Ele deveria ter sido preso muito antes? Poderia ter sido capturado vivo? Agora, o Estado francês precisa de ir mais longe. O presidente francês, Nicolas Sarkozy estava certo ao chamar Mohammed Merah um “monstro”. Mas Merah foi o nosso monstro. Ele nasceu, foi criado e foi distorcido em França, tal como os terroristas que atacaram o metro de Londres, em Julho de 2005, foram produtos da sociedade britânica.

É imperativo, não só para a França mas para o mundo inteiro, entender como é que um único e solitário homem foi capaz de ter um país inteiro como refém, durante quase uma semana. A única forma que Merah encontrou para dar sentido à sua vida parece ter sido assassinar soldados e crianças judias. Matar – e da maneira mais fria que se possa imaginar – era para existir.

Muitos franceses inicialmente, e no seu íntimo, esperavam que o que tinha acontecido em Toulouse fosse provar ser uma repetição dos ataques em Oslo, em 2011 – que o terrorista se revelasse ser o produto da extrema-direita. Merah alegou estar a agir em nome do fundamentalismo islâmico; na realidade, ele era o produto de uma seita sangrenta e pervertida. Como pode um insignificante delinquente, uma criança perdida da nação francesa, cair nas mãos do ódio terrorista de qualquer tipo?

Os assassinatos no sudoeste de França reflectem três factores principais. Primeiro, há o campo de batalha do Médio Oriente, alargado de modo a incluir o Afeganistão e o Paquistão. Esses problemas não foram a causa directa dos ataques, mas também não eram um mero pretexto. Os problemas dessa região incivilizada agem como uma caixa-de-ressonância particularmente perigosa, para a juventude muçulmana alienada em França.

Segundo, a alienação é a realidade para muitos franceses muçulmanos, agravada por uma crise económica que resultou na elevada taxa de desemprego entre os jovens – e que atinge a juventude muçulmana de forma particularmente intensa, retardando a sua integração na República francesa.

Finalmente, um desvio de identidade em França pode atingir uma dimensão mais séria. É pura coincidência o facto de Merah, que era de ascendência argelina, ter optado agir no preciso momento em que a França e a Argélia estavam a comemorar os 50 anos da independência argelina?

Merah provavelmente não se sentiu nem francês nem argelino. Escolheu o que para ele seria uma identidade muçulmana. Mas foi uma versão perversa, extrema e sectária do islamismo. Questões pessoais – a ausência de um pai ou uma estrutura familiar coesa – provavelmente precipitaram o seu desvio de identidade. Ele estava à procura de um modelo que pudesse impor algumas regras na sua vida e não conseguiu descobri-lo até encontrar o terrorismo.

Confrontada com o horror das acções de Merah, a nação francesa tem demonstrado a sua união. Ao escolher como seus alvos soldados muçulmanos e cristãos, bem como crianças judias, Merah reforçou a solidariedade de um país que queria dividir. Mas esta união é instável. A República francesa tem que recapturar seus territórios perdidos mais importantes: jovens alienados e frágeis de origem imigrante.

A tragédia favoreceu, inegavelmente, a campanha de Sarkozy para vencer o segundo mandato das eleições presidenciais em Abril. Ele estava no comando e agiu de forma decisiva e responsável. A agenda política, pelo menos a curto prazo, desviou-se para a segurança, onde Sarkozy tem uma vantagem estrutural comparado com o seu rival socialista, François Hollande. Mas, tal como o ex-primeiro-ministro britânico Harold Wilson disse a famosa frase: “Uma semana é muito tempo na política”.

Muita coisa pode mudar antes da primeira volta das eleições. O que preocupará mais os eleitores franceses quando votarem? Será que os receios económicos voltarão a prevalecer sobre a agenda de segurança? Ou será que os factores pessoais dominarão, com o reflexo de um “mais ninguém para além de Sarkozy”, de um lado, e uma falta de confiança no não carismático – e, possivelmente, não preparado – Hollande?Os ataques selvagens de Merah são um lembrete amargo de que o terrorismo ainda assombra muitas sociedades. A segurança deve ser reforçada, enquanto as suas causas precisam de ser abordadas. E descobriremos brevemente se este espasmo de terror foi apenas um trágico parêntese ou um ponto de viragem.

anotamento meu: o autor, apesar do texto brilhante, podia ter acrescentado à sua lista de argumentos (não deixa de ser uma teia argumentativa muito boa) que Merah foi a voz de uma imigração “francesa” cada vez mais apertada pelas declarações dos candidatos presidenciais e que também poderá ter sido o espelho do recrudescimento das tensões diplomáticas entre os países do Magreb e o Estado Israelita, assim como da própria França com o referido estado.

Tanto Marine Le Pen como Nicolás Sarkozy tem pautado as suas intervenções de campanha com um ataque declarado à imigração em França. Estas intervenções, como é de esperar num país multicultural como a França, têm causado muita inquietação em todas as comunidades imigrantes radicadas em França.

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Rick Perry é o candidato repúblicano à Casa Branca

James Richard “Rick” Perry, 61 anos, governador do Texas, ultra-conservador assumido e inserid na alta roda da política e do Estado Norte-Americano pela linha da família Bush.

Terry desempenha as funções de governador do Estado há 11 anos, tendo sucedido George W. Bush aquando do anúncio da sua candidatura à Casa Branca. Entrou para a história do país como o governador com mais tempo de mandato, tendo sido re-eleito por 3 vezes.

Enquanto governador do Texas ficou conhecido por ser um cristão evangélico muito ligado à religião, defensor do livre uso de porte de armas, da causa de secessão dos estados do sul, da pena de morte e do combate à fraude fiscal e à entrada de emigrantes ilegais (principalmente pelas fronteiras com o México) no país.

Por outro lado, também foi o responsável por projectos de desenvolvimento na área da educação e da saúde, tendo reformado a rede escolar texana e criado protocolos que facilitaram às populações mais desfavorecidas do seu estado terem capacidades de obter um seguro de saúde.

No seu discurso de apresentação, Terry deixou o mote ao que pretende para o país:

    1. . “Com a minha fé em Deus, o apoio da minha família e uma fé inabalável nas virtudes da América, sou candidato à presidência dos EUA.”
    2. . “o lugar da América no mundo está em perigo”
    3. “para renovar um país, é preciso um novo Presidente
    4. “Não podemos, e não devemos, aguentar mais quatro anos de aumento do desemprego, aumento de impostos, aumento da dívida e aumento da nossa dependência energética de países que nos querem mal.

Temos portanto um defensor do imperialismo económico, da hegemonia norte-americana no mundo e da realpolitik.

Depois de alguma pesquisa descobri alguns sites que ajudam a compreender quem é e o que defende Rick Perry:

Os 10 podres de Rick Perry.

Um site de apoio a Rick Perry.

A página biográfica do Texas Tribune.

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911

É impossível não associar este dia ao ataque mais violento perpetrado pelo homem neste início de século.

9 anos passaram desde então. Quase 3 mil pessoas perderam a vida. O então presidente George W. Bush lançou uma autêntica caça ao homem. Os soldados Norte-Americanos entraram pelo Afeganistão para por fim ao regime Talibã e capturar Osama Bin Laden, o temível líder da Al-Qaeda que nunca chegou a ser capturado e cujo estado actual e paradeiro é totalmente desconhecido do mundo ocidental.

Anos mais tarde, o mesmo presidente convenceu os seus aliados a intervir no Iraque para derrubar a figura do ditador Sadaam Hussein com base numa ameaça que se veio a provar como irreal. Sadaam foi derrubado, condenado à pena de morte e executado sem dó nem piedade.

9 anos passaram desde então. O objectivo de criar democracias estáveis nestes dois países, em certa medida, falhou… O Afeganistão continuou um país muito fragmentado em pequenas e médias esferas de influência política vindas das tribos que constituem a massa popular do país. Essas pequenas e médias esferas de influência criaram um clima insustentável para a construção de uma democracia no país. O grande responsável desse facto é o próprio Presidente Ahmid Karzai que desde que chegou ao poder sempre promoveu o desenvolvimento de uma oligarquia escolhida a dedo para tomar controlo de todas as operações realizadas no país.

No Iraque, a presença dos soldados ocidentais depois da queda do regime só deram azo ao aparecimento de uma instabilidade política movida essencialmente pelos bastiões fundamentalistas Islâmicos que ainda resistem no país.

Por cada fundamentalista islâmico que morre, 10 novos fundamentalistas se levantam. A luta contra o terrorismo Islâmico está longe de terminar para as potências ocidentais… ainda mais quando no Ocidente, determinadas entidades ligadas ao institucionalismo Cristão praticam actos que só semeiam mais ódio entre as células terroristas.

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