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Ainda estou demasiado em choque para escrever.

Começarei talvez pelas primeiras palavras de Sá Pinto na conferência de imprensa: “Ganhamos o respeito de toda a Europa”. Sá Pinto não poderia ter sido mais assertivo.

Para ser sincero, nenhuma equipa que vai ao City de Manchester marcar 2 golos, melhor, iniciar-se a ganhar por 2-0 na partida, merece perder a mesma. Para ser ainda mais sincero, a eliminar, qualquer que seja a equipa que vá fazer o que o Sporting foi fazer a Manchester (acrescentando aquilo que tinha feito em Alvalade) não merece ser eliminada.

A dimensão do City assustava-me. Quando são os outros clubes a jogar contra o City damos a vitória do City como garantida. Não nos toca, não nos fere. Pensamos que o City é uma máquina de jogar futebol. O problema dá-se quando essa máquina nos calha na rifa. Mete medo olhar para o seu plantel e ver todas as individualidades que o compõem. Existe de tudo: laterais rápidos, centrais fortes a todos os níveis, um trinco que é um dos melhores da actualidade, outro que já foi titular da selecção inglesa, um box-to-box de luxo, um 10 de luxo, 4 pontas-de-lança de enorme craveira, dois mais técnicos, um mais finalizador e outro que nem sequer é convocado.

Coisa fantástica. A máquina ligava o turbo e massacrava. À falta de um colectivo consolidado, as individualidades chegavam e bastavam para fazer a diferença. Até aparecer o Sporting. Falamos do Sporting que esta noite eliminou um adversário que há bem poucos meses atrás humilhou sem dó nem piedade o rival por 6 para o campeonato. Falamos da equipa que tinha eliminado o Porto com um score de 6-1. Não falamos de uma equipa qualquer. Falamos da equipa que tinha eliminado a equipa detentora do troféu e por arraste a equipa que lidera a liga da qual o Sporting faz parte.

Falou-se muito sobre este embate. O Sporting aparecia sempre em letras pequeninas, apelidado por muitos à priori como bombo da festa para os homens de Manchester. Recordavam-se os 7-1 de Munique (e os 5-0 de Lisboa nessa olvidável eliminatória contra o Bayern de Munique em 2009) e sem apelo nem agrado, dizia-se à boca cheia que o Sporting, à boa maneira da giria popular ia ser “comido de cebolada” pela vontade de comer de Balotelli e Cia. No futebol não há factos consumados. Se algumas vezes os houve, apenas Gary Lineker acertou.

Em Lisboa, foi o que foi. Em Manchester já todos os não-sportinguistas adivinhos de Cristal teciam que a equipa de Sá Pinto ia ser dizimada. Entrou melhor na partida de Manchester. Repetiu a dose de Alvalade ao nível defensivo (até aos 60″) com uma dupla de centrais completamente compenetrada na anulação do jogo de Aguero e Balotelli. Com um lateral direito (embora acusado de ser demasiado pequeno para aguentar com o cavalão do Super Mario) que não acusou a presença do italiano constantemente no seu flanco para explorar o gap físico existente entre os dois e fez um bom jogo a nível defensivo e um excelente jogo a nível ofensivo. Com um lateral esquerdo que esteve completamente insuperável. Com um Schaars no meio campo a pautar o ritmo de jogo e sem dúvida a fazer o melhor jogo desta época. Com um Matias irrequieto que não parou nos dois jogos e se o Sporting passou deve-o a Matias. Com um Capel em forma, esguio a furar, a procurar levar a equipa para frente e a procurar a linha (e até o contacto para sacar aquelas faltitas que tão bem se lhe conhece). Até o Ricky V. apareceu no sitio certo à hora certa para encostar a passe de Izmailov que no fundo é uma pena de tantas lesões terem estragado a carreira de um futebolista de topo mundial.

É certo que depois vi muito do City. Vi raiva. Vi muito flanqueamento de jogo e muito kick a rush para a área de Patrício que acabaria por redundar num golo merecido para Aguero, num penalty inexistente (fora da área e sem falta; ao contrário do penalty que ficou para assinalar a favor do Sporting na 1ª parte) e noutro golo de cabeça. Por duas vezes o City poderia ter passado: quando Balotelli errou o alvo por escassos centímetros e quando Hart em desespero subiu à area e foi travado pela defesa do século de Rui Patrício. Nesse período, vi o Sporting a recuar muito no terreno. Talvez em demasia. Quem recua subitamente faz avançar as tropas e a moral do adversário. O City aproveitou-se e quase ia causando a “surpresa” dentro da “surpresa”. No entanto, como referi no início de post, seria injusto que tal acontecesse. O Sporting fez melhor que Bolton´s, Stoke´s e Queens Park Rangers deste mundo. Foi a Manchester dar o peito às balas e jogar de peito aberto. E deu-se bem por isso. Vergou o City a uma enorme vergonha. Fez cair o #1 contender a esta prova.

Depois de toda a agitação, vêm as perguntas racionais que qualquer adepto do Sporting deverá fazer: Onde é que andou este futebol durante toda a época? Melhor, onde é que andou toda a raça que foi transposta para esta eliminatória durante os 30 e tal jogos que já leva a época?

Adiante. Vamos ver quem é que nos calha amanhã na rifa. Nos quartos-de-final, venha quem vier. Estou contente. Andei 3 anos a chorar pelos cantos e a dizer mal da minha vida sempre que o Sporting empatava ou perdia. Se a cada 3 anos de choro vierem 18o minutos destas alegrias, Sporting estás perdoado. Repito: venha quem vier. O campeonato está irremediavelmente perdido. A Champions será novamente uma miragem. Mas se vierem as taças lá para Maio, a malta irá agradecer.

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