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pela porta do cavalo

os chineses aproveitam-se da confusão teórica destes neoliberais da tanga e sabem perfeitamente que o sector em questão jamais será liberalizado. por isso, toca a investir no que jamais deveria ser privatizado para pagar contas atrasadas do estado, perdão, do sócrates. juro que tento perceber a cartilha neoliberal em Portugal mas confesso que tenho dificuldades: privatiza-se o indevido, não se liberalizam os monopólios. cartilha neoliberal decente será aquela que aplicar a receita da liberalização para que haja concorrência. no entanto, sabendo que a cartilha friedminiana também prevê que neoliberal que se preze, tenderá a baixar os impostos face à posição redutora do estado na economia, está tudo, a bom ver, desregulado. não só nos mercados como nas cabeças pensantes dos ministérios das finanças e da economia.

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O meio-dia serve é para bocejar em frente ao monitor

O Governador do Banco Central Cipriota Panicos Demetriades fez juz ao seu nome e lançou mais o “Panicos” na Zona Euro ao afirmar numa entrevista ao Financial Times que o Chipre estará segundo palavras do mesmo “próximo de pedir um resgate financeiro”  à Europa.

Se há coisa que tenho aprendido nos últimos anos é que os mercados não dormem perante este tipo de afirmações.

Em primeiro lugar porque os líderes europeus tem a estranha mania em serem desbocados sempre que se tratam de assuntos soberanos ao nível orçamental e financeiro como é o caso deste caso específico e de outras centenas de afirmações ditas ao longo deste período de crise por outros chefes de estado e agentes com responsabilidades na área estatal dos países da zona euro.

Em segundo lugar, porque os líderes  europeus (caso de Sócrates e Teixeira dos Santos no anterior governo português; caso actual de Rajoy no governo espanhol) tendem por outro lado a tentar segurar a panelinha tendo em conta o atraso de um resgate que para Bretton Woods e para Bruxelas já é dado como um facto consumado que só necessita da assinatura dos visados para se por em marcha.

E por panelinha entenda-se algo que Portugal não terá acesso até setembro de 2013 que é o acesso aos mercados. Isto é,  o acesso livre aos mercados de emissão de dívida, facto que Portugal tem acesso de facto, mas de forma faseada e mediada pela União Europeia como aconteceu no passado mês de Abril. Um dos grandes problemas factuais da dupla Teixeira dos Santos\José Sócrates foi de facto o recurso aos mercados de forma sistemática no final do seu mandato, forma que devemos considerar como errónea tendo em conta o desfecho que já era como disse facto consumado entre aqueles que nos resgataram financeiramente.

Para corroborar a ideia de que os mercados não dormem, vem-me à memória uma analogia futebolistica. A 22 de Março de 1982, António Oliveira (ex-seleccionador nacional) em vésperas de mais um derby contra o Benfica haveria de tecer uma das frases mais marcantes da história do Sporting: “Por cada leão que cair outro se levantará” – Os mercados operam de forma semelhante: por cada especulador que adormeça antes da afirmação de ruína num país da zona euro, 10 se levantarão para especular contra a ruína desse mesmo país, capitalizando os erros dos seus governantes ou dos seus agentes reguladores.

Panicos “Panicou” e o Chipre segundo começam a rezar internacionalmente estará próximo de levar uma injecção de capital nunca inferior a 42 mil milhões de euros, que servirá não só para regular o excessivo défice das contas públicas gerado pelos anteriores executivos cipriotas como será para regularizar as contas dos principais bancos do país que só este ano já deverão ter perdido de forma irremediável algo como 3 a 4 mil milhões de euros entre crédito mal parado e investimentos não sucedidos.

Em Espanha, o cenário também não está famoso. A Espanha de Rajoy enfrenta uma das mais perigosas taxas de desemprego a que o ocidente assiste desde o crash de 1929: 22% da população activa está no desemprego (cerca de 5,5 milhões de pessoas) não tendo Rajoy dados indicativos (mesmo apesar de ter feito algumas reformas a nível fiscal e de ter feito os já indispensáveis cortes orçamentais) que lhe permitam sonhar com uma redução do número de desempregados  e com a respectiva bitola de crescimento económico\aumento de coesão social visto que para além do excessivo défice herdado de Zapatero, da falta de crescimento e do aumento a olhos vistos da taxa de desemprego, terá que lidar agora com uma falência massiva dos seus principais bancos motivados pelo buraco financeiro de 8 a 12 mil milhões descoberto no Bankia.

Quando o nosso principal parceiro comercial está na situação em que está, precisamos de rezar para que não caia o carmo e a trindade neste país nos proximos meses.

E Portugal segue a toque de caixa da troika e do medo que é cada vez mais evidente do estoiro de uma multiplicidade de factores: da saída descontrolada do euro cada vez mais eminente no caso grego (provavelmente já para o final do mês), de um resgate aos cipriotas, de um resgate aos espanhóis, das fragilidades pelas quais também passam o estado italiano e o estado francês e da incapacidade da Alemanha (que tanto fez sonhar Frau Merkel na busca do desejo de país hegémon da europa) em gerar uma solução que alivie toda esta europa vendida ao défice das contas públicas e ao saque desmedido dos mercados e dos sanguessugas que dele se alimentam.

Portugal atravessa neste momento uma frase crítica.

Faz daqui a uns dias um ano em que o povo português confiou a sua governação na mão de meia dúzia de liberais mascarados da social-democracia ali do eixo Avenida de Roma-Restauradores-Massamá. O preço a pagar em ter colocado na liderança de um país na europa num queque de Massamá cujo livro que mais adorou em vida foi o inexistente “Metafísica dos Costumes” de Hegel (palavras do próprio) quando qualquer acéfalo com dois palminhos de testa sabe perfeitamente que a obra é de Kant está à vista…

Na “Metafísica dos Costumes” Kant afirma que a razão deverá ser a base de todos os actos morais, ou seja, a causa maior que guia a acção humana a um estado de moralidade para que esta justifique não só a acção humana mas a própria dignidade dos homens.

É na Metafísica dos Costumes que Kant insere aquele que é talvez um dos seus maiores conceitos:  o imperativo categórico. Um imperativo é uma ordem, é algo que impera sobre todas as vontades ou sobre todos os comportamentos, desde que tenha consigo uma mensagem expressa que deverá ser acatada por todos. Um imperativo categórico segundo o pensamento Kantiano deverá ser entendido como uma ordem racional, ordenada como boa em si, não-hipotético e não-deduzido de forma artificial, que perante dado problema deverá ser aplicada com severidade para que se atinja uma determinada finalidade e só essa finalidade.

Pedrito (o Passos Coelho) é o governante oposto da “Metafísica dos Costumes”, algo que realmente me coloca a dúvida se o primeiro-ministro leu ou não o tal livro que não é de Hegel mas sim de Immanuel Kant.

Primeiro porque é o líder que não justifica moralmente as suas decisões.

Segundo porque é o líder que não justifica moralmente as suas decisões e não respeita a dignidade humana do seu povo na sua tomada de decisões.

Terceiro porque é o líder que não sabe os limites que devem servir de balizas às suas tomadas de decisão. Ir ao parlamento dizer que o seu governo é o reflexo da “ética social da austeridade” é a mesma coisa que ir comprar um cavalo à feira da golegã e o bicho cair ali de morto para os lados de Vila Franca meia-hora depois. É portanto um discurso morto e sem objectivos práticos senão entreter a sua bancada e a bancada dos hipócritas pertencentes ao partido que com o seu partido faz coligação.

O Imperativo Categórico que é lançado a Passos Coelho é simples: ou obedeces ao Memorando de Entendimento ou então és posto fora da carruagem. Nada mais nada menos que um argumento ad-hominem que é tão falso e tão cínico como aquele mito que existe na praxe coimbrã de que “caloiro que não se submete à praxe não poderá usar capa e batina”.

Passos Coelho, o seu sombra frankenstein (sim, o primo direito do Louçã) e o Alvarinho-que-suou-todo-quando-lhe-fiz-uma-pergunta sobre austeridade no ensino superior, conseguiram cometer uma proeza fenomenal que foi ir para além do Memorando de Entendimento em matéria de desflexibilização laboral.

Proeza fenomenal, digo eu. Despedir em Portugal tornou-se mais barato e nem nos tempos da velha senhora em que patronato e trabalhadores eram obrigados a praticar uma velha prática anti-comunista que se chamava alinhamento em coligação nas corporações de forma a evitar o choque de interesses e por conseguinte a luta de classes, o patronato em Portugal sonhou estar melhor ao nível de leis laborais em 2012 do que alguma vez esteve no regime salazarista.

Para acentuar um código do trabalho que extrapolou as páginas do memorando, resta mencionar que o acordo de Concentração Social que o Alvarinho-Vancouveriano lá arranjou teve a mácula de um sindicato ter virado as costas à defesa dos seus ideais e de outro (mais ligado ao Partido Socialista) ter virado o cú para o Ministro em troca de 5 tostões e de um chuto, acto criminoso que ainda hoje deverá envergonhar publicamente João Proença e os seus sindicatos afiliados.

A falar em Partido Socialista, faz também um ano do desaparecimento desse grande charlatão que dava pelo nome de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa para Paris, onde hoje estuda dívidas que não se pagam de uma vez mas gerem-se e onde hoje vive à grande e à francesa (literalmente) com a choruda pensão que os portugueses lhe pagam pelos seus exímios serviços enquanto governante.

Desde o seu desaparecimento, o Partido Socialista mais se assemelha a um corso funebre. Não se motiva apenas pelo olhar tristonho de António José Seguro nas suas aparições e declarações públicas, mas também pelo facto da vergonha ser tão grande que o partido (principal partido da oposição) só é capaz de participar na morte do país dizendo amén a todas as facadas que o governo vai dando no defunto.

Dr. Frankenstein veio hoje falar em sucesso no 1º ano de implementação do Memorando. O défice baixou, as previsões afinal não eram tão baixas como se esperavam, Portugal vê um furinho para o crescimento económico e a reposição dos rácios de capital de alguns bancos levarão a que o Estado tenha que lhes depositar mais 7 mil milhões, valor esse que fica abaixo daquilo que a troika previa numa fase inicial… o bla bla bla bla do costume, a vitória moral do governo… a vitoria moral de sempre.

Victor Hugo afirmava num dos seus escritos uma frase que me pareceu talhada de uma inteligência que só pertence aos melhores desta espécie: “Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo”.

Um ano passou e nada mudou neste país.

A coesão social foi ameaçada com desemprego, com cortes nos apoios sociais, com cortes severos no provimento dos bens sociais que em larga escala são usufruídos por aqueles cuja carga tributária é a maior e a mais atacada neste país por este governo: o rendimento dos trabalhadores.

Existe fome declarada neste país que não aparece transporta em numeros no Ministério das Finanças.

O desinvestimento é de larga escala e em vários sectores: saúde, educação, segurança social, três sectores fundamentais onde o estado não pode fugir às responsabilidades que lhe são exigidas ao nível de correcção dos desiquilíbrios naturais provocados pela acção dos mercados no rendimento dos cidadãos.

Na relação banca\trabalho, o código laboral não se ficou apenas por um mecanismo de despedimento fácil. A banca e o estado não são capazes em conjunto ou de forma isolada de criar soluções que ponham em marcha uma nova redistribuição do capital que possa fomentar a criação empresarial, o investimento privado e o aumento produtivo com vista a uma necessidade que a economia portuguesa atravessa e é que clara como a água que reside na necessidade de produzir mais, de alimentar mais o consumo interno e de alimentar mais a exportação entre as empresas portuguesas.

A economia portuguesa não crescerá a meu ver com a baixa de salários (será uma medida ruinosa ao nível de coesão social), não crescerá com eurobonds e não crescerá com outros mecanismos que andam a ser associados a muitas analogias que se andam a fazer aí de acordo com parábolas respeitantes a falsos exercícios que visam estender uma ponte entre a economia doméstica e a macroeconomia. A economia portuguesa só crescerá quando existir liquidez para investir, liquidez para arriscar e liquidez para conseguir chegar onde os outros actualmente não chegam.

A liquidez é inclusive um dos problemas que a troika menciona no seu relatório publicado hoje, tanto ao nível estatal como ao nível da banca. Nada de estranhar visto que a remessa que nos foi enviada de Washington e Bruxelas para pouco mais serviu do que pagar umas contas atrasadas de vários governos e tentar manter as contas públicas minimamente em dia.

A troika também aproveitou a ocasião para mostrar o seu descontentamento pela venda ao desbarato do maior activo do estado aos Chineses: a EDP. Mais uma medida que em Dr. Frankenstein apenas pensou a curto prazo, numa tentativa declarada de amenizar o excessivo défice na balança de pagamentos do estado português, vendendo um enorme activo ao desbarato.

Só que em Bretton Woods a venda da EDP aos Chineses contrariou uma das principais regras das reformas estruturais praticadas pelos livre fundamentalistas de mercado: liberalizar sim, mas desde que a liberalização seja sempre em prol de uma empresa amiga como vencedora dos concursos.

Tanto é que depois da venda da EDP às três gargantas, a Goldman Sachs (bem representada pelo nosso amigo António Borges, recentemente entachado com o cargo de consultor no que toca à analise das criminosas parcerias público-privados que o governo herdou de outros governos e quer reduzir) anda por aqui a cheirar a ver o que é lhes pode caber da fatia do bolo que a troika ordena à venda por parte do Estado Português.

Goldman Sachs rules the world, já dizia o outro.

Ate porque uma eventual baixa dos salários não irá resolver a nossa crassa pequenez ao nível de competitividade nos mercados internacionais. O nosso produto é caro (tendo em conta o preço dos produtos dos países do Sudeste Asiático, da América Latina e dos países emergentes), é mal produzido, é produzido em séries minúsculas tendo em conta a produção de países industrializados e emergentes, e ainda por cima carece de aplicação nos mercados dos outros porque nos vários mercados mundiais, antes do Português conseguir negociar a venda do seu produto já os Chineses (por exemplo) estão a entafulhar o mercado desse país com o seu produto. Daí que outra das coisas que considere inúteis são aquelas faustosas viagens governamentais com empresários de algibeira a toque de caixa (sim, aqueles empresários que tiveram tudo para se modernizar nos tempos dos fundos comunitários) ao estrangeiro, cujo resultado final da visita redunda sempre no empresário x ou y a dizer que “até correu bem a viagem, beberam-se umas caipirinhas com os empresários locais e até se estabeleceram umas portas de entrada no país ao nosso material” mas “não temos capacidade para aumentar a produção” ou porque “não existe capital para investir” ou porque “as linhas concedidas pelo estado para a exportação ou para as PME´s não chegam para que possamos aumentar a produção e exportar mais daquilo que actualmente exportamos” – a conversa termina quase sempre onde começou…

Outro dos pontos que é visado no relatório da troika e que eu acho muita piada é a necessidade que eles vêem de nós efectivarmos uma reforma que eles há muito pedem que é a reforma no sistema judicial. Mexer na justiça para quê meus senhores? Para prenderem de vez gente honesta e trabalhadora como o José Eduardo Simões?

Ao oposto do que Vitor Hugo afirmava, este governo português não consegue vislumbrar a decisão do futuro no presente porque está condicionado por terceiros a dar um passo de cada vez… como dizia o ronaldo para o queiroz “ó carlos, assim não vamos lá”…

Assim não vamos lá…

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Favores pagam-se com favores

Sobre as nomeações:

Eduardo Catroga – Funcionou como o cérebro macroeconómico nas negociações com o governo de José Sócrates do Orçamento de Estado de 2011, momento chave em que Pedro Passos Coelho conseguiu granjear o protagonismo suficiente para destruir por completo os restos do malfadado governo socialista e trilhar o caminho para o poder.

Foi o mestre da economia neoliberal do governo de Cavaco Silva e foi o responsável pelo primeiro megaplano nacional de privatizações de empresas públicas.

Celeste Cardona – Não existiu um único “negócio” assinado por Cardona que tivesse sido executado nos trâmites que se exige a um governante. A sua passagem pelo Ministério da Justiça no governo de Durão Barroso foi o claro exemplo de como alguém sem qualquer tipo de capacidades consegue chegar ao poder. No entanto, ser um dos braços direitos de Paulo Portas no CDS\PP vale ouro.

Paulo Teixeira Pinto – Advogado e consultor jurídico, foi chamado a integrar o XII Governo Constitucional, primeiro como subsecretário, até 1992, depois secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, até 1995, acumulando essas funções com as de porta-voz do mesmo Governo. É natural que Eduardo Catroga queira pessoas da sua estrita confiança a seu lado.

Acresce também que é divorciado da Ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz desde 2008, ou seja, as ligações causídicas a este governo levam a que as cunhas se façam sentir nesta nomeação apesar das declarações do primeiro-ministro o negarem.

Várias críticas tem sido feitas. A única que me ocorre neste momento para designar o lobby que se está a formar na EDP é: se Pedro Passos Coelho propôs-se a acabar com o “amiguismo” à volta do Estado, porque é que as nomeações foram precisamente para pessoas cujo amiguismo ao Estado é um dado mais que assente?

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abre a goela e mama

A privatização da EDP deverá ter sido fechada para um consórcio Chinês chamado “Três Gargantas”.

A factura por estimativa continuará a ser uma realidade, o preço da electricidade irá aumentar e a garganta dos Chineses irá aumentar para o dobro de diâmetro com o fluxo de capital que irão mamar.

Quem não deve ter gostado da decisão foi a nossa amiga Angela Merkel. Toda a gente pensava que as reformas estruturais no estado português e consequentes privatizações impostas pelo memorando de entendimento (leia-se FMI) iriam levar a uma onda de concessões a preço da uva mijona para grandes elites do poderio económico norte-americano e alemão. Na primeira batalha ganharam os chineses. E não me importo que os chineses e angolanos e brasileiros vençam todas as privatizações que o estado português vier a consumar. Não podemos é dar o que é nosso a quem nos estrangula e a quem julga ter o direito de ingerir-se constantemente na resolução dos nossos problemas internos.

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A explicação de Vitor Gaspar

Tento compreender mas não consigo.

Vitor Gaspar, o primeiro-ministro de Portugal, perdão, o Ministro das Finanças, ou será Paul Rasmussen o primeiro-ministro de Portugal e o ministro das finanças em simultâneo sabe perfeitamente o alcance destas medidas, não fosse ele um mestre da economia.

O que o estado irá arrecadar com a sobretaxa especial incidente sobre o subsídio de natal mais a passagem do IVA da electricidade e gás (11 euros de aumento em média para cada Português, já contando com aqueles que irão beneficiar das tarifas sociais anunciadas pelo Ministro da Economia Alberto dos Santos Pereira) apenas irão garantir 1000 milhões de euros aos cofres do tesouro público. Tal valor, segundo o mesmo, apenas servirá para cobrir o desvio (para  não criar mensagens subliminares foi dito apenas como desvio, não-colossal) das contas públicas.

Se estas receitas apenas servirão para cobrir metade do desvio, prefiro nem imaginar o que vem por aí. Culpa do memorando da troika. A culpa de qualquer medida será sempre exigida pelo rigor do memorando assinado pela troika. Qualquer dia, o governo irá querer que os portugueses deixem todo o seu salário para pagar a dívida contraída pela classe política. Só falta anunciar uma medida tirânica desse género.

Como referi, Vitor Gaspar sabe muito bem qual o alcance destas medidas, não fosse o próprio um entendido das leis com que se rege o mercado.

Imaginemos a situação em que o preço da gasolina aumenta abruptamente.

Por norma, a elasticidade da procura diz-nos que se um bem como a gasolina aumentar de preço, dado o facto de ser um bem complementar a outro (um carro não anda sem gasolina) e como existe uma extrema dependência do uso de automóveis por parte das pessoas para os mais variados usos resultantes dos hábitos ou necessidades do seu quotidiano, a procura de gasolina irá manter-se ao mesmo nível, indiferentemente do aumento do seu preço. A gasolina é portanto um bem rígido.

Existem excepções comprovadas a esta regra. Se o preço da gasolina aumentar abruptamente num país onde a população vive com baixos rendimentos e mal consegue fazer face a despesas mais essenciais à sobrevivência do que a gasolina para fazer o seu carro andar e a população (principalmente a população urbana) conseguir encontrar outras formas de transporte capazes de não criar alterações a esses hábitos ou necessidades, tendencialmente procurarão diminuir a dependência do seu automóvel e a procura de gasolina irá diminuir. Se a procura de gasolina diminuir (um bem por norma rígido) dar-se-à uma mudança de atitude por parte dos revendedores do produto:

1. Como a procura do seu produto desceu, as planificações empresariais previstas para as mais variadas ondas de procura em relação aos preços poderão falhar. Logo, para se atingirem os lucros desejados, os revendedores poderão optar por despedir pessoal ou reduzir os custos de produção (manobra que é impossível a curto-prazo).

2. Como a procura do seu produto desceu devido ao aumento do preço, o mercado poderá obrigá-los a ter que reajustar em baixo o preço do produto para que a empresa continue a dar os lucros mínimos esperados pela planificação.

3. A empresa pode até ter que se retirar do mercado em último caso.

No caso em concreto das duas novas tributações propostas pelo Ministro das Finanças podem dar-se os seguintes cenários. Ambos são obviamente catastróficos para a economia portuguesa:

1. Com o imposto extraordinário sobre o subsídio de natal, as pessoas que utilizavam o mesmo para o gastar em prendas de Natal (nas grandes superfícies, nas pequenas superfícies de comércio tradicional) não irão gastar tanto dinheiro como gastavam nos anos anteriores.

2. As pessoas que usavam o subsídio de natal (com o valor gastos nas festividades) e usavam o restante para fazer face às suas despesas de médio e longo-prazo como o pagamento de empréstimos, deverão ter mais dificuldade em consolidar os seus processos nessas instituições.

1.1 Se as grandes superfícies, pelo seu privilégio em serem as principais vendedoras nas festividades ou pelo seu cariz universal, onde as compras de natal apenas representam uma pequena percentagem do bolo que é transacionado durante o ano poderão sobreviver a uma crise de consumismo nessa altura do ano, o pobre comércio tradicional que se queixa ano após ano que os natais estão cada vez menos rentáveis pela falta de poder de compra da população portuguesa, tenderão a fechar portas. Menos produtos serão transacionados, menos riqueza será criada pelo comércio.

1.2 Se as grandes superfícies e o comércio tradicional entrarem em recessão no Natal, os seus fornecedores de produtos irão ver os seus produtos pouco escoados e os contratos de fornecimento diminuídos ou até mesmo cancelados. Logo, também entrarão em crise e terão que despedir.

2. No caso das pessoas que utilizam parcialmente o subsídio de natal para fazer face a despesas (principalmente com a banca) a banca irá defender-se com a procura de mais receita em novos empréstimos feitos pela sua clientela. Levará a que a banca perca os seus lucros e precise de encontrar receitas extraordinárias noutros pontos. Logo, tal atitude resultará em investimentos mais caros e em dificuldade ao crédito por parte das famílias. Resultará também na diminuição na procura desses produtos financeiros por falta de liquidezpoder de compra da população, diminuição do fomento industrial agrícola e comercial através do crédito e consequentemente numa retracção da economia portuguesa grave.

São as consequências menos graves desta medida.

Passando para o aumento do IVA no gás e na electricidade.

Previamente, temos que ver que as empresas de fornecimento destes serviços são empresas das que mais lucro dão em portugal e as que pagam melhor aos seus gestores. Gestores públicos, ressalve-se. Gestores públicos que levam prémios anuis na ordem dos milhões de euros. Talvez fosse melhor começar a cortar por aí.

Juntando ao facto da diminuição clara da procura e gasto desses serviços por falta clara de dinheiro nas carteiras das pessoas, estas tendencialmente irão poupar mais no uso destes serviços ou procurar alternativas a este tipo de consumos. No caso da electricidade, as energias renováveis não são uma alternativa credivel para as carteiras dos cidadãos pelo simples facto de serem pouco acessíveis, dependerem muito do crédito (menos acessível) e dos parcos incentivos dados pelo estado à compra dos equipamentos.

Por outro lado, haverão muitas suspensões de serviço por esse país fora por falta de dinheiro para o seu pagamento.

Irá resultar claramente numa diminuição dos lucros dessas empresas, consequentemente em falhas na planificação empresarial quanto aos lucros a obter e consequentemente numa mudança de postura por parte dessas empresas em situações onde a economia portuguesa sai sempre em retracção.

Vale a pena colocar o povo a pagar esses sacríficios ou vamos aumentar ainda mais?

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