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revisionismos históricos importantes

a ler o artigo de Sérgio Aníbal no Público Online.

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A chanceler que brinca com o fogo

Por Joshkua Fischer, líder do partido Verde Alemão, ex vice-chanceler da Alemanha e ex Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha

“A chanceler Angela Merkel deve andar feliz hoje em dia: os índices de aprovação do seu partido não são maus e os que a ela dizem respeito são muito bons. Já não tem adversários relevantes no centro direita da União Democrata-Cristã (CDU) e à esquerda, a oposição está fragmentada em quatro partidos. A sua resposta à crise europeia prevaleceu – ou pelo menos é a impressão que ela deixa transparecer, e aquela em que a maioria dos alemães acredita. Portanto, tudo corre bem no reino alemão, certo?

Não vamos pôr o carro à frente dos bois. Existem dois assuntos que poderão complicar a candidatura de Merkel às próximas eleições, no Outono de 2013. A nível interno, o seu parceiro de coligação, o Partido Democrático Liberal (FDP), está a desintegrar-se. Mesmo que o FDP sobreviva às próximas eleições (o que não é, de modo algum, certo), é muito pouco provável que a actual coligação mantenha a sua maioria parlamentar, o que deixaria Merkel cada vez mais dependente do Partido Social Democrata (SPD). Embora talvez este facto não a preocupe muito enquanto mantiver o cargo de chanceler, Merkel vai enfrentar – pela primeira vez – um adversário, Sigmar Gabriel, o líder do SPD, que constituirá um risco para ela se o subestimar.

Mas o verdadeiro perigo para Merkel vem do exterior: a crise europeia. Se tiver pouca sorte, a crise atingirá o auge logo no início do ano eleitoral alemão e todas as previsões anteriores poderão ser contestáveis, porque, apesar da frustração alemã relativamente à Europa, o eleitorado poderá castigar severamente aqueles que deixaram a Europa cair.

A economia da União Europeia está a amergulhar numa recessão grave e, muito provavelmente, duradoura, em grande parte auto-infligida. Enquanto a Alemanha ainda está a tentar dissipar o fantasma da hiperinflação, através de medidas rigorosas de austeridade, os países críticos da UE enfrentam uma séria ameaça de deflação, com consequências potencialmente desastrosas. É apenas uma questão de tempo – e já não falta muito – para que a instabilidade económica dê origem à instabilidade política.

A Hungria, onde a regressão democrática parece ganhar terreno, oferece uma antevisão de uma Europa onde a crise e a deflação da zona euro persistem. O ambiente nos Estados-membros mediterrânicos da UE e também na Irlanda começa a aquecer, devido não só ao aperto da austeridade, mas também – e talvez mais importante – à ausência de políticas capazes de oferecer às pessoas a esperança de um futuro melhor. A natureza explosiva das tendências actuais, que apontam para uma renacionalização da soberania da base para o topo, é largamente subestimada em Berlim.

A crise atingiu agora a Itália e ameaça estender-se à França. Ao eleger Mario Monti para o cargo de primeiro-ministro, a Itália mobilizou os seus melhores, e nem a Itália nem a Europa irão obter um melhor governo num futuro previsível. Se a administração de Monti for derrubada – quer no Parlamento quer nas ruas – a quarta maior economia da UE poderá desmoronar. Monti pede ajuda com urgência. Onde é que está essa ajuda?

Também não devem ser ignorados os desenvolvimentos em França (a segunda maior economia da zona euro) neste ano de eleições presidenciais. Se a maioria dos franceses começar a acreditar que lhes está a ser imposta do exterior uma linha de acção – e logo pela Alemanha! – irá responder com forma tradicional de teimosia gaulesa.

O que está em risco não é tanto o resultado das eleições, mas sim a margem entre o Presidente Nicolas Sarkozy e a líder de extrema-direita da Frente Nacional, Marine Le Pen – e se ela o vai ultrapassar de forma a ficar garantida para a segunda volta das eleições contra o candidato socialista. Apesar de ser pouco provável que ela ganhe a presidência, poderia restruturar e realinhar a direita francesa. Por esta razão, um fracasso de Sarkozy iria reduzir drasticamente o espaço de manobra do seu sucessor socialista na política europeia, alterando fundamentalmente a posição da França na Europa.

Mas, enquanto o desfecho das eleições francesas depende de forma crucial das políticas de crise europeias, o governo alemão age como se isto não lhe dissesse respeito. Em vez disso, o assunto principal – e quase exclusivo em Berlim – são as eleições que se aproximam. E a questão central não é “O que deve ser feito de imediato no interesse da Europa?” mas sim “Quanto é que se pode esperar que as pessoas na Alemanha aceitem – em particular, quanta honestidade?”. Ninguém irá agir de forma a comprometer as suas perspectivas eleitorais, pelo menos enquanto ainda houver alternativas. Logo, é admissível que a Alemanha não esteja realmente interessada num esforço sério para resolver a crise europeia, porque isso implicaria correr grandes riscos e investir muito dinheiro.

A coligação CDU-FDP prefere disfarçar a situação convencendo-se da existência de uma conspiração anglo-saxónica, incentivada pelos países europeus em crise que se mostram pouco disponíveis para produzir e aplicar reformas e cujo único objectivo é fazer com que os alemães paguem. Até à data, a coligação de Merkel pode comparar-se a um condutor que conduz em contramão, convencido de que todos os outros é que vão no sentido errado.

A desintegração europeia já avançou muito mais do que pode parecer. A desconfiança e o egoísmo nacionais estão a propagar-se rapidamente, devorando a solidariedade europeia e o objectivo comum.

A nível institucional, a Europa tem-se mantido no caminho certo desde a última cimeira, mas ameaça desintegrar-se, da base para o topo. Para salvar o euro – o que é fundamental, pois o destino do projecto europeu depende do sucesso da união monetária – a Europa precisa de intervenção imediata: para além de medidas indispensáveis de austeridade e de reformas estruturais, só é possível ter êxito com um programa económico viável que assegure o crescimento.

E isso não vai ser barato. Se o governo de Merkel acredita que defender apenas verbalmente o crescimento é suficiente, então está a brincar com o fogo: um colapso do euro, cujas graves queimaduras não seriam apenas sofridas pelos alemães.”

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