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dossier armstrong

Parece que a verdade veio ao de cima.

Confesso que tirei alguns dias de meditação (e também algumas notas) para me poder pronunciar devidamente neste caso. Perante muitos comentários que recebi aos posts (ver aqui, aqui, aqui e aqui) que escrevi neste blog sobre o “esquema armstrong” (penso que não há problema em catalogar toda esta problemática como um esquema dadas as peças que foram postas no terro e a confissão do Texano) parece que eu é que tinha razão.

Segundo os mesmos comentários (fazendo um sumário breve), esta questão era tudo fruto da minha cabeça. Era o ódio que sentia a Armstrong. Era o facto de não perceber de ciclismo. Era o facto de não perceber os meandros do doping. Era o facto de não reconhecer que Armstrong era o melhor de sempre. Era o facto de não perceber que o ciclismo, pela extensão e dureza das etapas, era um esforço desumano que só poderia resultar em dopagem dos atletas. Era o trauma de ter sido adepto de Ullrich, Indurain e Mayo. Era a casmurrice de acreditar que a rede era internacional e que existiam subornos à União Ciclista Internacional, às agências anti-dopagem e à organização do Tour para que fechassem os olhos ao doping da US Postal\Discovery Channel. Era portanto, fruto da minha cabeça, uma portentosa teoria da conspiração por ter sido um adolescente “recalcado” (adoptando a linguagem de um dos comentários que poderão ver nesses posts) por ter visto Armstrong ganhar tantas vezes…

Vi e revi a entrevista. Parei várias vezes a meio para tirar notas. Concluo.

Considero que Armstrong foi um ser humano gigante em duas ocasiões. A primeira, quando venceu um cancro que lhe dava 6 meses de vida e cujas metastases chegaram ao cérebro. A segunda, quando finalmente, envolto numa tremenda mentira, decidiu sentar-se ao pé de Oprah Winfrey (desde já muito bem escolhida pelo dito para efectuar a entrevista visto que Oprah mesmo com um traste como Armstrong tem um mediatismo tal que pode transformar o maior escândalo em ouro e como tal permitir que talvez suavisem o castigo aplicado ao ex-ciclista) e confessar a verdade. Foi bom para Armstrong admitir a culpa, contar a verdade e contar todos os processos que envolveram esta problemática, sendo que foi uma atitude sensata contar inclusive o episódio onde pediu ao filho para não o defender mais das acusações que sobre si pendiam. Foi muito cavalheiro da sua parte e repõe tudo aquilo que suspeitava: as 7 edições do Tour que ganhou são falsas, não existem por completo.

Todavia, estas confissões não abrilhantam aquilo que foi uma fraude sem precedentes na história do desporto e não limpam outros problemas na modalidade que derivaram deste problema.

Armstrong não quis acusar ninguém. Não acusou os colegas de equipa, os responsáveis, o staff clínico. Tampouco acusou Michelle Ferrari, aquele que estará por trás de muitos casos de doping no desporto mundial. Estivemos perante uma confissão que se irá arrastar ad-eternum para a vida do homem Armstrong. Mas o homem Armstrong só poderá realmente devolver a verdade quando começar a confessar quem é que está por trás destas redes internacionais de doping. Não o deve fazer para seu bem ou para sua salvação, visto que o seu caso não tem salvação. Deve-o fazer sim para bem da modalidade e para bem da verdade desportiva.

A confissão de Armstrong reforça a minha opinião: Miguel Induráin foi o melhor de sempre. Sem doping.

A confissão de Armstrong não limpa nem resolve um dos principais celeumas na modalidade (em particular) e no desporto em geral: poderá no futuro autorizar-se as transfusões de sangue e considerá-las legais para atletas de alta competição? É assim: antes de haver anfetaminas, EPO, diuréticos e todas as drogas que se utilizam regularmente por atletas de alta competição para aumentar o metabolismo e a performance em altas competições internacionais, já existia a transfusão de sangue como “substância dopante” – aliás, se atendermos a esta questão particular, as transfusões de sangue são autorizadas em várias modalidades. No futebol são autorizadas e já causaram problemas quando, entre 2004 e 2007, aquando da sua passagem pelo Chelsea, Arjen Robben negava-se (por ser de uma religião fundamentada na doutrina calvinista) a dar sangue na pré-temporada da equipa (a pré-temporada feita em sítios a alta altitude, devido ao efeito de eritopoetina elevada e consequente aumento de hemoglobinas disponíveis, aumenta a capacidade de ligação do oxigénio aos tecidos musculares quando injectado numa fase de temporada em que o ciclo de oxigenação é mais lento e o atleta se sente mais cansado). No ciclismo, a UCI não permite transfusões de sangue e cataloga-as como substâncias dopantes. Se por um lado, o atleta que as usa está a jogar de forma suja perante aqueles que se negam a usar, e os que usam apresentam-se em condições metabólicas diferentes dos que se negam a usar, por outro lado, é considerável que as transfusões de sangue não são um método não-natural de dopagem e cabe ao atleta dar consentimento ou não para as receber.

Mas continuo a dizer que este problema não “lava outros problemas” que surgiram na modalidade.

Não lava o alpe d´huez onde Armstrong venceu Pantani, o melhor trepador de sempre com um ritmo avassalador, impróprio para qualquer dos grandes trepadores da história da modalidade. Falando em Pantani. Enquanto Armstrong negava sistematicamente (em forma de ataque, como confessou a Oprah) o uso de substâncias dopantes ou recurso a transfusões sanguíneas, as autoridades desportivas perseguiam Pantani com suspeitas, processos e castigos, impedindo o atleta de competir, até, ao dia 14 de Fevereiro de 2004, dia em que o “Pirata”, depois de vários internamentos por depressões profundas por não poder competir, decidiu por término à vida. Enquanto Armstrong negava aos sete ventos o recurso a métodos dopantes, o seu maior rival no Tour, Jan Ullrich, passou anos em depressões, esgotamentos, e chegou mesmo a tentar o suicídio, que, seria impedido por um dos seus colegas de equipa na Deutsche Telecom\T-Mobile Andreas Kloden. No caso de Pantani, e como isto não deixa de ser delicioso, o primeiro processo movido pela justiça italiana aconteceu precisamente 2 meses antes da primeira Volta à França ganha pelo americano. Curiosidade: no Giro de Itália Pantani era expulso pelo uso (não taxativo) de EPO depois de um controlo anti-doping quando, 2 meses depois, como veio a provar a investigação movida pela USADA, tal teste não se fazia na Volta à França. Isto remete-me para a inevitável pergunta: o escândalo Festina já tinha abalado a prova organizada por Jean-Marie LeBlanc nos anos anteriores. Sabendo que a US Postal usava métodos dopantes, não quis o antigo director do Tour encobrir esse mesmo uso para que a prova não perdesse espectacularidade nos anos das vitórias de Armstrong, ou de facto, houve movimentações por parte da equipa Norte-Americana para encobrir esse uso junto da organização francesa?

A investigação da USADA decorreu com base no depoimento de vários companheiros de Armstrong. Hincapie, Landis, Leipheimer, Hamilton, Franky Andreu, Beltran e Rubiera foram os primeiros a chegar-se à frente para denunciar o esquema da equipa e Armstrong. A justiça norte-americana, funcionando à base dos terríveis acordos como moeda de troca para os chibos, não queria mostrar serviço com a raia miúda da equipa e aproveitou-se de testemunhos de gente que se dopou tanto como Armstrong para apanhar exclusivamente o texano. Os que denunciaram não tiveram problemas com a justiça mas no entanto voltou-se a verificar que a justiça norte-americana foi cega e apenas quis mostrar serviço com alguém cujo mediatismo indicaria que a justiça norte-americana pode ter uma bela face quando não a tem.

Por cada situação de doping que é apanhada, 2 outras passam despercebidas.

O ciclistas Riccardo Riccó, vencedor de algumas etapas do Tour em 2008 foi expulso da prova a meio depois de ter sido detectado num controlo a presença de EPO de 3ª geração (CERA, Continuous Erythropoiesis Receptor Activator, uma variante da Erythopoeitina, hormona que controla a produção de glóbulos vermelhos e que aumenta de forma significativa a performance de atletas) enfrentou um processo na justiça italiana onde afirmou a dualidade antagónica dos testes anti-doping que se fazem em Espanha e em Itália. Ricco disse: “sei de fonte segura em que em Itália 8 a cada 10 testes de atletas dopados dão positivo e esses atletas sofrem consequências da prática. Em Espanha, não só não se fazem testes com o referido rigor, como os atletas não avisam onde estão a treinar como ainda apenas 1 em 10 são apanhados nas malhas do doping” – mais claro não poderia ser o antigo atleta da Saunier Duval. A Operación Puerto, movida em 2006 pelas autoridades espanholas à rede  do Dr. Eufemiano Fuentes não poderia ser mais conclusiva quanto à rede de clientes que o médico da antiga equipa ONCE movia em várias modalidades. Ironia das ironias, pensava-se na altura que Jan Ullrich seria um dos clientes do médico espanhol, facto que até hoje nunca se veio a provar. Armstrong atacava em vários lados para se defender do seu próprio erro?

Recentemente, o tenista Belga Christopher Rochus acusava na Austrália que no Ténis “haviam lesões muito estranhas” que indiciavam o uso de substâncias dopantes, acusando os nomes do Sueco Robin Soderling e o Espanhol Rafa Nadal. Não seria portanto proveitoso para a verdade desportiva que Armstrong abrisse a arca de pandora às autoridades sobre os nomes que controlam a rede internacional de fornecimento de substâncias dopantes?Lanço a pergunta.

Lanço uma outra: e havia uma rede de transporte de sangue e uma data de payrolls envolvidos, não seria suposto a UCI “devido às regras de acompanhamento da luta antidoping” saber onde armstrong estava e efectuar controlos surpresas? Porque não o fez?

Com todas estas afirmações, não é só Lance Armstrong que sai derrotado. É toda a modalidade que sai derrota. Isto acontece precisamente na antecâmara de decisões por parte do Comité Olímpico Internacional para as modalidades que serão cartaz nos próximos jogos olímpicos, havendo uma especulação de que o COI não será brando com a modalidade e poderá avançar com a exclusão das provas de ciclismo nos Jogos do Rio de Janeiro. O que de facto, pela espectacularidade que as provas trazem aos amantes da modalidade, será uma profunda desilusão.

Para finalizar, a decisão da LiveStrong. Armstrong ficou sem nada. Os patrocínios sumiram. A competição também. A fundação movimenta algo como 65 milhões de dólares por ano, podendo-se dizer que é das fundações mais profícuas ao nível mundial na luta contra o cancro. A direcção da fundação temeu (aceito de forma compreensível) que a nota de culpa do seu fundador pudesse ter influência na recepção de donativos e decidiu arredá-lo das operações. Lance Armstrong tornou-se o pior exemplo ao nível de práticas desportivas que a história conhece. Mas como foi focado na entrevista, existe algo que jamais lhe poderão retirar: a incrível luta pela sobrevivência a um cancro mortal.

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Extinção da HTC-Highroad

Nem as 5 vitórias em etapas de Mark Cavendish no Tour, a vitória de Tony Martin no contra-relógio em Grenoble e a vitória na classificação dos pontos no Tour do Britânico fizeram demover os patrocinadores da equipa que apanhou os restos da T-MobileDeutsche Telekom a terminar com a equipa.

A direcção da HTC-Highroad decidiu ontem por fim à sua equipa profissional de ciclismo. Uma decisão que há muito vinha sido veículada na comunicação social.

Assim sendo, corredores como Mark Cavendish (deverá assinar pelo projecto Britânico da Team Sky) Mark Renshaw (deverá rumar também à Sky) Matthew Goss, Tony Martin, Lars Bak, Alex Rasmussen, Bernard Eisel, Michael Albasini, Danny Pate, Marco Pinotti, Tejay Van Garderen, Peter Velits, Martin Velits estão livres para procurar uma nova equipa.

Se o Britânicos deverão trilhar o seu caminho pela Sky, Tony Martin já foi apontado a várias equipas como a BMC, GarminCérveloQuickstep (na próxima época) e Team Radioshack. Tejay Van Garderen também é apontado à equipa de Sérgio Paulinho.

Incógnita ainda é o futuro de Matthew Goss (excelente lançador de sprints, bom corredor de clássicas) Lars Bak e Bernard Eisel (excelentes gregários para sprinters) Michael Albasini (um bom contra-relogista) Pate, Pinotti e os irmãos Velits, que como se sabe, apesar da sua juventude são excelentes corredores de colinas e média montanha.

Segundo o que vi no ranking da UCI e como as regras do protour fazem com que quem se transfira possa transferir os pontos ganhos para o ranking para a equipa contratante, existem corredores muito apetecíveis para que as equipas que os contratem reforcem a sua posição no ranking Protour e como tal, obtenham mais facilmente as suas licenças.

São os casos de Tony Martin (11º do Ranking UCI com 227 pontos esta época) Matthew Goss (12º com 217 pontos) Mark Cavendish (19º com 152 pontos) e Marco Pinotti (30º com 110 pontos).

Esta época até estava a correr de feição à equipa ao nível de vitórias:

– A equipa do Giro venceu colectivamente o contra-relógio por equipas do Giro.
– Michael Albasini venceu o prémio da montanha da Volta ao País Basco.
– Mark Cavendish venceu 5 etapas do Tour, a camisola dos pontos da mesma prova e 2 etapas do Giro.
– O Alemão Jakob Degenkolb venceu 2 etapas do Critério Dauphinè-Libèrè.
– O Australiano Matthew Goss venceu o Milão-São Remo, 1 etapa do Paris-Nice, 1 etapa no Tour da Califórnia.
– O Alemão Bert Grabsch foi campeão nacional Alemão de contra-relógio e venceu uma etapa da Volta à Àustria.
– Tony Martin venceu uma etapa no Dauphinè-Libère, outra no Paris-Nice onde venceu a geral da prova, uma etapa na Volta ao País Basco e outra no Tour de France.
– O Checo Frantisek Rabon sagrou-se campeão de contra-relógio da República Checa assim como venceu na geral e uma etapa da Volta a Murcia.
– Mark Renshaw venceu a geral e uma etapa da Volta ao Qatar.
– O Neo-Zelandês Hayden Roulston tornou-se campeão nacional de estrada do seu país.
– O Bielorrusso Sivtsov foi campeão nacional de contra-relógio e 10º na geral do Giro.

Vitórias simples que somadas deram uma noção de competitividade à equipa. Talvez a competitividade da equipa seja mesmo o motivo que levou os seus patrocinadores a cancelar o patrocínio para a próxima época. Se é certo que a HTC foi até agora uma potência em bruto no que toca a discussão de vitórias em etapas em plano e em contra-relógios, sempre lhes faltou um homem que pudesse discutir grandes voltas. Não é portanto o caso de Tony Martin ou de Peter Velits. Martin terá que melhor em muito nas montanhas, assim como Velits para poderem um dia ousar discutir as grandes provas por etapas.

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Memórias do Tour de France (Jan Ullrich)

Quando ele era gordo mas era o único capaz de ameaçar a hegemonia de Lance Armstrong.

Jan Ullrich ficará para sempre na minha memória, pelas emocionantes Voltas a França que fez. Desfavorecido pelo handicap de ser ligeiramente mais pesado que os trepadores normais e pelas diversas vezes em que teve problemas de índole psicológica (o seu melhor amigo e ainda em actividade Andreas Kloden teve que ir bastantes vezes a casa de Ullrich convencê-lo a voltar aos treinos nos anos da Deutsch TelekomT-Mobile) chegava a Julho motivado para bater o Norte-Americano. Tal nunca aconteceu, mas esteve definitivamente muito perto de acontecer numa edição (penso que a de 2003)  em que no contra-relógio final Ullrich estava muito perto de retirar a amarela a Armstrong, acabando por ter uma infelicidade nos quilómetros finais com uma queda numa rotunda devido ao piso molhado que era consequência de um dia muito chuvoso.

Lembro-me também (creio que foi na edição do mesmo ano do Tour) que Ullrich teve um comportamento digno de fair-play numa etapa de montanha que Armstrong jamais teve com os adversários: o Norte-Americano e o Alemão iam na companhia de Mayo, Vinokourov e Tyler Hamilton pelo Mont Ventoux a cima (a etapa seria ganha por Mayo se não estou em dúvida) quando um espectador espetou o pau de uma bandeira na roda de Armstrong fazendo-o cair. O grupo seguiu mas o Alemão (apercebendo-se do infortúnio não-forçado do seu colega de profissão)  mandou o grupo retardar a marcha e esperar pelo Norte-Americano para que a discussão da etapa fosse leal para todos. Armstrong não foi em conversas e haveria de atacar, levando Mayo consigo. Ullrich perdeu tempo, o gesto foi bonito mas toda a comunicação social desportiva Alemã apelidou Ullrich de “parvo” por ter esperado pelo Norte-Americano.

Era interessante ver o comportamento de Ullrich na alta montanha. O seu handicap em relação aos trepadores puros era uma delícia de ver: Ullrich subia sempre sentado e com uma cara de esforço tremenda. Creio que nunca vi o Alemão descolar o rabo do selim da bicicleta em todas as suas participações na prova. Nos contra-relógios era um às: voava por completo, sendo bastante superior a Lance Armstrong.

Outro momento que também não me escapa da memória foi a prova dos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000 quando Ullrich e Kloden (a representar a Alemanha) urdiram um ataque na penúltima volta com o seu então colega de equipa Vinokourov (em representação do Cazaquistão) acabando os 3 por vencer as medalhas olímpicas desse ano. Tal atitude foi uma estratégia de mestre para mim, estratégia bastante questionável para muitos especialistas da modalidade.

(este post mantem-se até ao dia em que se inicia a prova – todos os dias)

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