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dossier armstrong

Parece que a verdade veio ao de cima.

Confesso que tirei alguns dias de meditação (e também algumas notas) para me poder pronunciar devidamente neste caso. Perante muitos comentários que recebi aos posts (ver aqui, aqui, aqui e aqui) que escrevi neste blog sobre o “esquema armstrong” (penso que não há problema em catalogar toda esta problemática como um esquema dadas as peças que foram postas no terro e a confissão do Texano) parece que eu é que tinha razão.

Segundo os mesmos comentários (fazendo um sumário breve), esta questão era tudo fruto da minha cabeça. Era o ódio que sentia a Armstrong. Era o facto de não perceber de ciclismo. Era o facto de não perceber os meandros do doping. Era o facto de não reconhecer que Armstrong era o melhor de sempre. Era o facto de não perceber que o ciclismo, pela extensão e dureza das etapas, era um esforço desumano que só poderia resultar em dopagem dos atletas. Era o trauma de ter sido adepto de Ullrich, Indurain e Mayo. Era a casmurrice de acreditar que a rede era internacional e que existiam subornos à União Ciclista Internacional, às agências anti-dopagem e à organização do Tour para que fechassem os olhos ao doping da US Postal\Discovery Channel. Era portanto, fruto da minha cabeça, uma portentosa teoria da conspiração por ter sido um adolescente “recalcado” (adoptando a linguagem de um dos comentários que poderão ver nesses posts) por ter visto Armstrong ganhar tantas vezes…

Vi e revi a entrevista. Parei várias vezes a meio para tirar notas. Concluo.

Considero que Armstrong foi um ser humano gigante em duas ocasiões. A primeira, quando venceu um cancro que lhe dava 6 meses de vida e cujas metastases chegaram ao cérebro. A segunda, quando finalmente, envolto numa tremenda mentira, decidiu sentar-se ao pé de Oprah Winfrey (desde já muito bem escolhida pelo dito para efectuar a entrevista visto que Oprah mesmo com um traste como Armstrong tem um mediatismo tal que pode transformar o maior escândalo em ouro e como tal permitir que talvez suavisem o castigo aplicado ao ex-ciclista) e confessar a verdade. Foi bom para Armstrong admitir a culpa, contar a verdade e contar todos os processos que envolveram esta problemática, sendo que foi uma atitude sensata contar inclusive o episódio onde pediu ao filho para não o defender mais das acusações que sobre si pendiam. Foi muito cavalheiro da sua parte e repõe tudo aquilo que suspeitava: as 7 edições do Tour que ganhou são falsas, não existem por completo.

Todavia, estas confissões não abrilhantam aquilo que foi uma fraude sem precedentes na história do desporto e não limpam outros problemas na modalidade que derivaram deste problema.

Armstrong não quis acusar ninguém. Não acusou os colegas de equipa, os responsáveis, o staff clínico. Tampouco acusou Michelle Ferrari, aquele que estará por trás de muitos casos de doping no desporto mundial. Estivemos perante uma confissão que se irá arrastar ad-eternum para a vida do homem Armstrong. Mas o homem Armstrong só poderá realmente devolver a verdade quando começar a confessar quem é que está por trás destas redes internacionais de doping. Não o deve fazer para seu bem ou para sua salvação, visto que o seu caso não tem salvação. Deve-o fazer sim para bem da modalidade e para bem da verdade desportiva.

A confissão de Armstrong reforça a minha opinião: Miguel Induráin foi o melhor de sempre. Sem doping.

A confissão de Armstrong não limpa nem resolve um dos principais celeumas na modalidade (em particular) e no desporto em geral: poderá no futuro autorizar-se as transfusões de sangue e considerá-las legais para atletas de alta competição? É assim: antes de haver anfetaminas, EPO, diuréticos e todas as drogas que se utilizam regularmente por atletas de alta competição para aumentar o metabolismo e a performance em altas competições internacionais, já existia a transfusão de sangue como “substância dopante” – aliás, se atendermos a esta questão particular, as transfusões de sangue são autorizadas em várias modalidades. No futebol são autorizadas e já causaram problemas quando, entre 2004 e 2007, aquando da sua passagem pelo Chelsea, Arjen Robben negava-se (por ser de uma religião fundamentada na doutrina calvinista) a dar sangue na pré-temporada da equipa (a pré-temporada feita em sítios a alta altitude, devido ao efeito de eritopoetina elevada e consequente aumento de hemoglobinas disponíveis, aumenta a capacidade de ligação do oxigénio aos tecidos musculares quando injectado numa fase de temporada em que o ciclo de oxigenação é mais lento e o atleta se sente mais cansado). No ciclismo, a UCI não permite transfusões de sangue e cataloga-as como substâncias dopantes. Se por um lado, o atleta que as usa está a jogar de forma suja perante aqueles que se negam a usar, e os que usam apresentam-se em condições metabólicas diferentes dos que se negam a usar, por outro lado, é considerável que as transfusões de sangue não são um método não-natural de dopagem e cabe ao atleta dar consentimento ou não para as receber.

Mas continuo a dizer que este problema não “lava outros problemas” que surgiram na modalidade.

Não lava o alpe d´huez onde Armstrong venceu Pantani, o melhor trepador de sempre com um ritmo avassalador, impróprio para qualquer dos grandes trepadores da história da modalidade. Falando em Pantani. Enquanto Armstrong negava sistematicamente (em forma de ataque, como confessou a Oprah) o uso de substâncias dopantes ou recurso a transfusões sanguíneas, as autoridades desportivas perseguiam Pantani com suspeitas, processos e castigos, impedindo o atleta de competir, até, ao dia 14 de Fevereiro de 2004, dia em que o “Pirata”, depois de vários internamentos por depressões profundas por não poder competir, decidiu por término à vida. Enquanto Armstrong negava aos sete ventos o recurso a métodos dopantes, o seu maior rival no Tour, Jan Ullrich, passou anos em depressões, esgotamentos, e chegou mesmo a tentar o suicídio, que, seria impedido por um dos seus colegas de equipa na Deutsche Telecom\T-Mobile Andreas Kloden. No caso de Pantani, e como isto não deixa de ser delicioso, o primeiro processo movido pela justiça italiana aconteceu precisamente 2 meses antes da primeira Volta à França ganha pelo americano. Curiosidade: no Giro de Itália Pantani era expulso pelo uso (não taxativo) de EPO depois de um controlo anti-doping quando, 2 meses depois, como veio a provar a investigação movida pela USADA, tal teste não se fazia na Volta à França. Isto remete-me para a inevitável pergunta: o escândalo Festina já tinha abalado a prova organizada por Jean-Marie LeBlanc nos anos anteriores. Sabendo que a US Postal usava métodos dopantes, não quis o antigo director do Tour encobrir esse mesmo uso para que a prova não perdesse espectacularidade nos anos das vitórias de Armstrong, ou de facto, houve movimentações por parte da equipa Norte-Americana para encobrir esse uso junto da organização francesa?

A investigação da USADA decorreu com base no depoimento de vários companheiros de Armstrong. Hincapie, Landis, Leipheimer, Hamilton, Franky Andreu, Beltran e Rubiera foram os primeiros a chegar-se à frente para denunciar o esquema da equipa e Armstrong. A justiça norte-americana, funcionando à base dos terríveis acordos como moeda de troca para os chibos, não queria mostrar serviço com a raia miúda da equipa e aproveitou-se de testemunhos de gente que se dopou tanto como Armstrong para apanhar exclusivamente o texano. Os que denunciaram não tiveram problemas com a justiça mas no entanto voltou-se a verificar que a justiça norte-americana foi cega e apenas quis mostrar serviço com alguém cujo mediatismo indicaria que a justiça norte-americana pode ter uma bela face quando não a tem.

Por cada situação de doping que é apanhada, 2 outras passam despercebidas.

O ciclistas Riccardo Riccó, vencedor de algumas etapas do Tour em 2008 foi expulso da prova a meio depois de ter sido detectado num controlo a presença de EPO de 3ª geração (CERA, Continuous Erythropoiesis Receptor Activator, uma variante da Erythopoeitina, hormona que controla a produção de glóbulos vermelhos e que aumenta de forma significativa a performance de atletas) enfrentou um processo na justiça italiana onde afirmou a dualidade antagónica dos testes anti-doping que se fazem em Espanha e em Itália. Ricco disse: “sei de fonte segura em que em Itália 8 a cada 10 testes de atletas dopados dão positivo e esses atletas sofrem consequências da prática. Em Espanha, não só não se fazem testes com o referido rigor, como os atletas não avisam onde estão a treinar como ainda apenas 1 em 10 são apanhados nas malhas do doping” – mais claro não poderia ser o antigo atleta da Saunier Duval. A Operación Puerto, movida em 2006 pelas autoridades espanholas à rede  do Dr. Eufemiano Fuentes não poderia ser mais conclusiva quanto à rede de clientes que o médico da antiga equipa ONCE movia em várias modalidades. Ironia das ironias, pensava-se na altura que Jan Ullrich seria um dos clientes do médico espanhol, facto que até hoje nunca se veio a provar. Armstrong atacava em vários lados para se defender do seu próprio erro?

Recentemente, o tenista Belga Christopher Rochus acusava na Austrália que no Ténis “haviam lesões muito estranhas” que indiciavam o uso de substâncias dopantes, acusando os nomes do Sueco Robin Soderling e o Espanhol Rafa Nadal. Não seria portanto proveitoso para a verdade desportiva que Armstrong abrisse a arca de pandora às autoridades sobre os nomes que controlam a rede internacional de fornecimento de substâncias dopantes?Lanço a pergunta.

Lanço uma outra: e havia uma rede de transporte de sangue e uma data de payrolls envolvidos, não seria suposto a UCI “devido às regras de acompanhamento da luta antidoping” saber onde armstrong estava e efectuar controlos surpresas? Porque não o fez?

Com todas estas afirmações, não é só Lance Armstrong que sai derrotado. É toda a modalidade que sai derrota. Isto acontece precisamente na antecâmara de decisões por parte do Comité Olímpico Internacional para as modalidades que serão cartaz nos próximos jogos olímpicos, havendo uma especulação de que o COI não será brando com a modalidade e poderá avançar com a exclusão das provas de ciclismo nos Jogos do Rio de Janeiro. O que de facto, pela espectacularidade que as provas trazem aos amantes da modalidade, será uma profunda desilusão.

Para finalizar, a decisão da LiveStrong. Armstrong ficou sem nada. Os patrocínios sumiram. A competição também. A fundação movimenta algo como 65 milhões de dólares por ano, podendo-se dizer que é das fundações mais profícuas ao nível mundial na luta contra o cancro. A direcção da fundação temeu (aceito de forma compreensível) que a nota de culpa do seu fundador pudesse ter influência na recepção de donativos e decidiu arredá-lo das operações. Lance Armstrong tornou-se o pior exemplo ao nível de práticas desportivas que a história conhece. Mas como foi focado na entrevista, existe algo que jamais lhe poderão retirar: a incrível luta pela sobrevivência a um cancro mortal.

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De Londres #23 – dos portugueses

Ouvi hoje o chefe da missão olímpica Mário Santos fazer o balanço da participação dos Portugueses nos jogos olímpicos ontem encerrados e alinhar baterias para o início da próxima missão olímpica.

Há alguns dias atrás, ouvi o presidente do Comité Olímpico Português Vicente de Moura fazer vários statements que vão na mesma onda do que ontem foi dito por Mário Santos.

Santos reclama mais apoio, reclama uma mudança na programação da próxima missão olímpica e afirma que “alguns atletas voltam sem saber as regras do jogo” – é certo que esta última frase indica um mau-estar que se sentiu na aldeia olímpica londrina entre a comitiva portuguesa e indicia obviamente uma boca declarada para alguns atletas como Carolina Borges.

Já o presidente do Comité Olímpico afirmou que vai falar com o Governo para que juntos, a tutela e o organismo que preside (ad-eternum, diga-se) possam dialogar com vista a uma mudança de paradigma nos apoios que a tutela dá ao desporto português.

O que é que será preciso para que Portugal comece a ter rendimento desporto internacional de topo?

Depois do balanço da comezinha participação portuguesa em Londres, salva do grau de catástrofe por 2 guerreiros na canoagem, existe vários aspectos que devem ser realçados.

Desportivamente, existiram alguns atletas in e outros out:

Dos in, destaco Emanuel Silva e Fernando Pimenta (em particular) e a delegação da canoagem em geral no topo de pirâmide da participação lusa nos Jogos.
Heróis. Fernando Pimenta, Emanuel Silva, Teresa Portela, Beatriz Gomes, Joana Vasconcelos e Helena Rodrigues. Cada tiro cada melro. Uma medalha espectacular que por poucos centésimos não deu em ouro olímpico e várias finais. Temos que ter em pano de fundo o contexto da evolução da canoagem em Portugal.

A Federação Portuguesa de Canoagem tinha em 2010 2270 atletas federados, espalhados por vários clubes do norte para o sul, números equiparáveis a um número mais ou menos idêntico em 1996. Apesar de ser uma estável federação, há 20 anos atrás quem dissesse que um canoísta português conseguiria atingir uma medalha em 1992 seria acusado de louco. Lentamente todo este cenário viria a mudar. No inicio de século, a federação que um dia viu-lhe ser retirada o regime jurídico de instituição de utilidade pública (regime que só lhe seria devolvido em 2004 depois de um 7º lugar de Emanuel Silva nos Jogos de Atenas em k1) avançou-se para a construção de infra-estruturas que permitissem criar uma fábrica de campeões. Falo do centro de alto rendimento de Montemor-o-Velho no Mondego e para a contratação de um técnico de elite, o polaco Ryzhard Hoppe. Os títulos começaram a chegar lentamente: Emanuel Silva nos juniores e seniores, uma final olímpica, títulos e medalhas mundiais por intermédio de Emanuel, Fernando, Teresa Portela, Beatriz Gomes e Joana Vasconcelos nos mundiais séniores e sub-23. Estou certo que a canoagem portuguesa não ficará por aqui ao nível de evolução visto que as bases do sucesso para o futuro estão construídas.

A minha segunda nota positiva continua na água. A dupla Fraga\Mendes quase fez história no Remo. Sem apoios nem ajudas, esta dupla teve inclusive que mudar de clube do Sport Club do Porto para o Sporting para poder competir a alto-nível. Da final B de Pequim saltaram para um honroso 5º lugar em Atenas. Devidamente apoiados poderão saltar do 5º lugar de Londres para uma medalha olímpica daqui a 4 anos.

A terceira nota positiva vai para o Ténis de Mesa portugues. Marcos Freitas foi longe no torneio individual e por equipas, conjuntamente com João Pedro Monteiro e Tiago Apolónia, protagonizou outro dos momentos altos da participação nacional em Londres ao bater o pé nos quartos-de-final à selecção Sul-Coreana (2ª no ranking mundial, medalha de bronze em Pequim e medalha de Prata nos jogos) e colocando um pavilhão inteiro onde só se ouvia a palavra Portugal. Os três portugueses deram o que puderam e o que não puderam contra asiáticos, todos eles bem melhor colocados no ranking mundial (o melhor português é Marcos Freitas; ocupa a 24ª posição do ranking mundial) – estes três atletas, pela sua juventude, também poderão evoluir muito para os Jogos de 2016.
No ténis de mesa podemos constatar como a partida dos nossos melhores atletas para o estrangeiro trouxe mudanças significativas na sua evolução. Marcos Freitas tem 23 anos e joga num clube da 1ª divisão francesa (Pontoise Cergy) depois de 5 anos a representar um clube Alemão e galgou 7 posições no ranking mundial com a participação olímpica, sendo um dos melhores europeus nesse mesmo ranking). Tiago Apolónia e João Pedro Monteiro jogam na Bundesliga Alemã e já ganharam títulos pelos seus clubes.

A quarta nota positiva vai para o triatleta João Silva. Um honroso 9º lugar numa prova difícil para a qual o Português não se preparou devidamente, fruto de várias lesões que teve nos últimos 2 anos. Com uma preparação séria poderá lutar por mais daqui a 4 anos.

A quinta nota positiva vai para o Badminton Português. Telma Santos conquistou para a modalidade a primeira vitória portuguesa em 20 anos de participação. É mais uma modalidade que carece de apoios e que acima de tudo carece de clubes onde os atletas que começam principalmente no desporto escolar possam dar seguimento ao trabalho de iniciação que é feito nas escolas. Nos masculinos, Pedro Martins foi eliminado por um dinamarquês, 5º do ranking mundial mas fez um jogo bastante agradável.

A sexta nota positiva vai para a Vela. As duplas de 49er e 470 fizeram uma participação bastante interessante, discutindo os lugares do pódio em várias regatas e chegando à respectiva medal race onde não puderam competir pelas medalhas devido ao facto da prova ser por pontos e de nem a vitória na medal race garantir possibilidades aos portugueses de alcançar as medalhas. Creio que este sistema olímpico está mal formulado. Não pelas regras classificativas mas pelo formato da medal race. Deveria efectivamente fazer-se uma qualificatória para a medal race no regime vigente mas a medal race deveria ser aberta aos 10 melhores da qualificatória não importando para tal os pontos acumulados.

A última nota positiva vai para a Equitação e Hipismo. Gonçalo Carvalho e o cavalo lusitano mostraram o que de melhor se faz em Portugal na modalidade. O atleta mostrou um discurso humilde e sempre afirmou que não estava em Londres para lutar pelas medalhas mas sim para aprender, ganhar experiência e mostrar o lindo cavalo de raça portuguesa ao mundo. Já a luso-brasileira Luciana Diniz também se exibiu ao mais alto nível com o seu cavalo Lenox no concurso de saltos. Teve azar na última prova. No entanto as duas finais também demonstram que é necessário investir mais na modalidade num país com recursos (o cavalo lusitano é uma das mais prestigiadas raças do mundo) para se fazer mais e melhor nas grandes competições mundiais.

Completamente out:

Telma Monteiro – a desilusão de alguém que era a nossa principal favorita a uma medalha. Para uma atleta tão experiente, é inexplicável o facto de ter caído logo na primeira ronda contra uma atleta menos cotada no ranking mundial e cuja atleta lusa já tinha vencido todos os combates em que tinha lutado contra a atleta norte-americana. Os grandes campeões vêem-se nos Jogos. Os grandes campeões são aqueles que não vacilam no momento da decisão. Telma vacilou no primeiro combate e acabou fora de um lugar de prestigio. Que lhe sirva de lição para o futuro.

João Pina – idem. Apesar de não ser candidato às medalhas, esperava-se que fosse pelo menos até ao combate de repiscagem para as meias-finais.

Atletismo – a pior participação de sempre. É certo que os três últimos medalhados não participaram por lesão. Nélson Évora cumpriu um autêntico marasmo no seu ciclo olímpico enquanto campeão de Pequim. Várias lesões impediram o atleta do Benfica de competir ao mais alto nível. Naide Gomes foi mais um exemplo de lesões. Rui Silva tentou mudar de variante e saltou dos 1500 metros para os 10 mil e dos 10 mil para a maratona. O atleta do Sporting não se deu bem com as mudanças e não viajou para Londres.

Das participações portuguesas no atletismo, a maratona foi satisfatória. O 7º lugar de Jéssica Augusto na prova máxima do evento feminino abre boas sensações para o futuro. Jéssica cumpriu a sua primeira grande maratona e ainda é algo inexperiente na prova. Daqui a 4 anos poderá fazer muito mais. O mesmo acontece com Ana Dulce Félix. Fugiu do favoritismo das africanas nos 10 mil metros onde se sagrou campeã europeia recentemente e cumpriu a sua primeira maratona da carreira em Londres. Não tenho dúvidas em afirmar que a vimaranense tem a fibra suficiente para daqui a 4 anos lutar pelas medalhas com as africanas.

Marco Fortes, o da “caminha”, voltou a desiludir, falhando a final do lançamento do peso num ano onde estava a demonstrar uma excelente forma e bons resultados em meetings internacionais.

Natação – Nenhum atleta passou da primeira fase ou constituiu recordes nacionais. Uma lástima. Com tantos clubes de natação, tantos praticantes e tantas piscinas em Portugal são incompreensíveis os resultados dos portugueses. Creio que a melhor solução para a modalidade passa realmente pela formação de parcerias com grandes universidades norte-americanas para que atletas portugueses possam conseguir scolarships para estudar e treinar nos EUA e assim evoluírem entre os melhores.

Sobre Vicente de Moura:

Vicente de Moura interrogou o que era preciso fazer para que o desporto português começasse a resultados nos Jogos tendo em conta aquilo que tem sido feito pelas missões olímpicas nas últimas edições do jogo. Parece-me bastante simples que a primeira acção que se deve fazer para que o desporto português comece a “arrumar-se” é a demissão do próprio Vicente de Moura. Está mais que visto que o presidente do COP está gasto no lugar. Necessita-se portanto de uma evolução no COP e da entrada de novas ideias para o desporto português.

Sobre Carolina Borges:

Tudo envolto em polémica. A troca de acusações nos últimos dias foi imensa e não estou aqui para julgar quem tem razão ou não no celeuma. Ambas as partes agiram de forma amadora. A comitiva autorizou que a velejadora dormisse fora da aldeia de Weymouth e a velejadora errou no acto de comunicação à missão que não ia para a água. Numa missão séria, Carolina Borges teria que ficar na aldeia olímpica visto que esta existe para que os atletas lá pernoitem. Uma missão que não consegue controlar o paradeiro de uma atleta é uma missão que trabalhou de forma amadora quando os jogos obrigam-na a trabalhar no top do profissionalismo.

Infra-estruturas, condições de treino, bolsas olímpicas, projecto olímpico e investimento no desporto:

É cada vez mais notório que o desporto português passa por gravissimas deficiências.

É importante que os portugueses tenham a noção disto e não tentem cobrar em demasia a sua ansia de vitórias neste tipo de eventos a atletas que fazem o que podem com o pouco que tem e com o pouco que tem em relação a adversários que tem muito mais condições para poder evoluir.

Em algumas modalidades parece-me difícil que Portugal se faça representar nos Jogos. Falo do basquetebol, do andebol, do voleibol, do hoquei em campo, do tiro ao arco, do halterofilismo e do ténis. Por quezílias abertas nas federações num passado recente (andebol; voleibol), pela evolução do basquetebol estar a ser gradual mas insuficiente para colocar a nossa selecção nas grandes provas internacionais (só recentemente é que pusemos a nossa selecção a participar num Eurobasket) e pela inexistência de clubes\infra-estruturas no nosso país, outras como o hóquei em campo e o halterofilismo acabam por ser modalidades com poucos praticantes em Portugal. No Ténis, apesar do Jamor possuir um complexo desportivo interessante, não existe qualificação abundante ao nível de treinadores e os atletas portugueses raramente conseguem arranjar condições financeiras que lhes permitam

Noutras modalidades, o investimento em infra-estruturas é claramente insuficiente. No atletismo, na vela, no Remo, no Triatlo. Necessita-se portanto de se criar nessas modalidades aquilo que por exemplo foi criado na canoagem com a construção do centro de alto rendimento e com a contratação de profissionais estrangeiros ou nacionais que possam monitorizar e dar experiência à formação de atletas. O exemplo espanhol, aqui bem ao lado do nosso país, é o exemplo mais concreto de um país que se reforçou ao nível de infra-estruturas de topo e conseguiu lentamente colocar quase todas as modalidades existentes no país nos píncaros do desporto mundial. Basta só observar a quantidade de títulos europeus que a espanha ganhou desde o futebol, passando pelo basquetebol, andebol, futsal e hoquei até aos grandes resultados das nadadoras espanholas nos jogos olímpicos e da selecção espanhola de hóquei em campo.

Noutras modalidades, existe carência de clubes. O exemplo do Badminton é o mais paradigmático.

Certos atletas privam-se de muita coisa nas suas vidas para tentar melhorar a sua condição. Mas no entanto, até a própria formulação do projecto olímpico não é feita de acordo com critérios adequados. As bolsas olímpicas são escassas e não são pagas a horas. Tendo em conta exemplos de outros países onde os atletas são profissionais com as bolsas e condições que os governos e organismos lhes dão para focar a sua actividade no desporto de alto rendimento, em Portugal, o atleta que falhe no projecto olímpico poderá não receber nem mais um cêntimo no novo ciclo. Obviamente que desistirá. Além do mais, o projecto olímpico acompanha na maior parte atletas que já estão consolidados na sua posição nacional e internacional quando realmente deveria começar em atletas em formação, para que estes pudessem começar a competir lá fora desde cedo para ganhar experiência internacional.

O investimento no desporto em Portugal é nulo. Aliás, vivemos num país onde a tutela da saúde e do desporto apresentam inclusive várias carências na criação de políticas que incentivem à prática de desporto entre a população. Não podemos exigir mais dos nossos atletas. Desportos como o Hipismo, como o ténis ou a vela estão vedados a 95% da população por serem desportos que exigem forte investimento em equipamentos, alugueres de barcos\espaços, despesas altíssimas ao nível de manutenção de equipamentos e ao nível de participação em competições nacionais e internacionais.

Estou em crer que se for feito um esforço piramidal de construção de infra-estruturas, sediação de clubes, sediação de competições regulares, apoios aos atletas promissores com cabeça tronco e membros e contratação de profissionais experientes ao nível de metodologia de treino para competição, poderemos ter mais e melhor desporto em Portugal. Os resultados aparecerão com o tempo. Basta olhar para o exemplo espanhol.

Quando assim o é, qualquer participação portuguesa a alto nível está condenada à mediocridade…

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