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Ninguém quer saber

É um número deveras preocupante: 10 idosos foram encontrados mortos em suas casas desde o início do ano na Grande Lisboa.

Lembro-me de uma vez já ter escrito sobre este assunto neste blog. Continuo a reflectir na seguinte medida: se verificarem uma a uma as casas deste país, talvez encontrem centenas de surpresas iguais a estas. No entanto, o dispositivo montado pelas autoridades estatais já melhorou em certa medida: em Trás-os-Montes foi criado um dispositivo que prevê que a polícia visite diariamente aldeias afastadas das cidades onde habitam menos de 10 idosos.

Todavia, estes casos deixam-me a pensar no bem-estar que o estado português está em falta perante os seus cidadãos, quer pela sua acção directa quer pela descentralização de responsabilidades para as autarquias.

Em Portugal não são raros os casos de idosos encontrados sem vida nas suas casas, alguns com o cadáver decomposto pelo tempo que medeia o óbito e a descoberta do óbito. Em Portugal são banais os casos em que filhos\sobrinhos\netos abandonam os pais, tios e avós à porta dos lares das misericórdias, dos lares privados, na própria rua ou nos hospitais. Em Portugal, existe uma considerável percentagem da população que trata o idoso como se fosse um animal de estimação: se dá problemas, abandona-se. Se está doente, deixa-se no hospital que eles tratam dele. Se morre, vamos buscar a herança pois isso é o que importa.

No meio desta roda-viva, o Estado Português (quer pela sua acção directa, quer pelas autarquias ou IPSS´s) é incapaz de promover uma aferição do número de idosos em Portugal que vivem na mais crua solidão e criar programas que obriguem as autarquias e IPSS´s a fazer o trabalho para a qual existem: visitar os idosos diariamente e acercar-se de eventuais necessidades que estes possam ter\dificuldades.

Vou dar o exemplo dos regimes de Estado Providência continentais (Alemanha\França) – São regimes assistencialistas. Enquanto que em Portugal, o Estado não incentiva as famílias a tomarem conta dos seus idosos e tão pouco se esforça para que os grupos de risco sejam vigiados, na Alemanha e na França, os sucessivos aparelhos governativos crêem e incentivam monetariamente um conjunto leque de soluções para os idosos que tire ao Estado a responsabilidade de os inserir em lares para a 3ª idade. Dou um exemplo: se um idoso na Alemanha ou em França tem 2 filhos vivos, o Estado tentará (através do pagamento de um valor extra anualmente) que os filhos tomem conta dos pais. Se estes não quiserem, e se o idoso em causa tiver 2 sobrinhos, a obrigação passa directamente para os sobrinhos. Se tiver dois netos, passa para os netos. E funciona, dado que nesses países existe um respeito pela velhice que o português claramente não tem.

Nesses regimes, só em último caso (nenhum familiar vivo, nenhum familiar quer tomar conta do idoso, não existem vagas em IPSS´s locais ou regionais) é que o idoso fica sob tutela de entidades criadas pelo poder central.

Aqui, pelo contrário assistimos a uma banalização do estatuto do idoso. Dezenas são abandonados nos hospitais como se tralha se tratassem. E por lá ficam, lamentando-se com enfermeiros e médicos à espera que a sua família se volte a lembrar da sua existência. Outros, ficam sozinhos em casa sem que ninguém queira saber do seu quotidiano. Depois acontecem casos como os que podemos ler na reportagem do Jornal Público.

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