Category Archives: Sociedade

portugal sur(real)

pelos vistos “andar sem capacete” numa motorizada em Portugal já é motivo para a polícia montar uma caça ao homem digna do GTA San Andreas. pelo menos assim diz a polícia de segurança pública, pelo homicídio de um jovem do Bairro da Bela Vista em Setúbal. eram apenas balas de borracha. que mataram. o que se seguiu foi um motim. justificado. na memória de alguns países europeus, nos últimos anos, conservam-se frescas as imagens dos motins juvenis de Paris e Londres. com a frustração que existe na cabeça de muita gente, principalmente dos jovens (o gaspar está chocado, terrivelmente chocado com o numero abismal de desemprego jovem no nosso país) fruto do desemprego, da miséria, da fome, da desgraça e da necessidade que muitos tem de praticar o crime para sobreviverem nesta sociedade crua, hipócrita e nojenta (já agora ler um artigo brilhante publicado ontem no Diário As Beiras pelo Dr. Salvador Massano Cardoso para quem ainda tenha acesso ao jornal na sua edição física) não tardará muito a que este fenómeno se transforme num ritual quotidiano do país e até da própria europa.

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portugal (sur)real

o mais cadavérico que a merda da crise pode fazer neste país. sem palavras para semelhante acto de desespero.

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choca-me

claro que me choca. e muito.

Não tem dinheiro para ir às consultas e fazer a medicação? A solução é deixar morrer: lentamente e em silêncio.

A peça escalpeliza todo o problema em torno da questão excepto um. Como é sabido, o Ministério da Saúde quer fechar com alguns hospitais psiquiátricos no país para reduzir custos e em alternativa, apresentou uma proposta que visa a passagem de algumas unidades de acompanhamento permanente para as unidades de saúde familiar, proposta essa que implica o encerramento de unidades como o Lorvão (talvez o “meu amigo” Horácio Firmino já me saiba explicar em português decente a medida).

Essa medida implica que muitos dos doentes que já se encontram internados nessas unidades há muitos anos sejam novamente “entregues” aos cuidados das famílias, sem que se saiba sequer se as famílias os querem receber em sua casa, sem que se saiba sequer se as famílias tem condições de habilitabilidade para receber esses doentes, sem que se saiba sequer se as famílias tem possibilidade para receber esses doentes. Posso estar errado, mas estou em crer que muitos desses doentes foram forçados ao internamento nessas unidades pelo simples facto das famílias não terem possibilidades ou não quererem suportar os seus problemas. A criação de unidades comunitárias de saúde psiquiátria irão abrir novos celeumas na questão: quem é que irá receber o doente em sua casa? quem é que irá com o doente às consultas visto que são pessoas que não tem mobilidade? quem é que irá suportar os custos das consultas e da medicação intensiva ao qual esses doentes estão sujeitos? até que ponto é que certas famílias estão preparadas para lidar com alguém que necessita de um tratamento especializado? até que ponto é que as instáveis famílias portuguesas estão aptas a receber mais instabilidade dentro dos seus lares? a mim parece-me que esta medida visa abandonar ainda mais quem já não é útil para a sociedade em prol da tão ambicionada redução de custos no Serviço Nacional de Saúde.

É efectivamente essa redução de custos por parte do Estado, é efectivamente essa retirada de papel do Estado nas suas responsabilidades enquanto provedor de bens e serviços que está a desregular por completo o funcionamento farmácias (ainda hoje presenciei um exemplo numa farmácia de Coimbra de um casal de Leiria que se deslocou a Coimbra para comprar um medicamento que as farmácias de serviço de Leiria não tinham em stock; não preciso de explicar porque é que não tinham stock desse medicamento; logo a seguir presenciei outro de um idoso que não tinha 5 euros para comprar um medicamento do qual necessitava para a doença de Alzheimer) que está a destruir com o Serviço Nacional de Saúde e que consequentemente está a encaminhar o ramo da saúde para as mãos de entidades privadas. Pior que isso é o facto de sabermos que somos o povo com a 3ª carga tributária mais alta da europa e os nossos impostos não estarem a servir para nada. Uma das questões que pululava a mente de muitos opinion-makers deste país há uns meses atrás era precisamente a questão que interrogava quanto é que os portugueses estavam dispostos a pagar pela manutenção do Estado Social? Se o Estado Social é isto, então é melhor que nada tenhamos de pagar para o manter porque ele não existe. Temos escalões tributários ao nível dos nórdicos, recebemos menos que os trabalhadores dos países nórdicos, e quando vamos a um hospital pagamos uma taxa moderadora enquanto os nórdicos nada pagam. Vamos à Farmácia e vemos a comparticipação dos medicamentos subir diariamente a um ritmo impossível de pagar a um doente enquanto os nórdicos vão às farmácias e obtém o mesmo medicamento com uma comparticipação quase total do preço do medicamento por parte do Estado. Estas são apenas as dicotomias que podem ser encontradas no ramo da saúde. Mais poderão ser encontradas nos sectores da segurança social e da educação. Vale a pena pagar por algo onde o estado está a retirar as suas responsabilidades?

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frase do dia

“Pela primeira vez, os portugueses estão a entrar numa mudança da sua mentalidade profunda(…) Eles já não se vão contentar com (…) o viver em círculo sempre, fugir sempre à realidade, numa irresponsabilidade. Não. Pela primeira vez o português encontrou a realidade. Como? Quando lhe tiraram tudo, todas as possibilidades. Ele agora já não tem que sonhar porque não pode sonhar (…) Isto, para mim, é uma fase de um processo que pode ser gravíssimo, que pode dar violência. (…) O que mete medo ao Governo não são as manifestações dos sindicatos, dos partidos. Tudo isso está ordenado, está codificado, já se sabe para onde vai. Agora aquilo que é solto, que é imprevisível , (…) que não tem ideologia, pode ser impossível de captar e de domar e é disso que o poder tem medo.”

José Gil, Filósofo.

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chávez

ao contrário de muitos, não irei tecer muitas considerações sobre Hugo Chávez. já li algures que se teme uma espécie de primavera árabe no continente sul-americano. não consigo perceber o que vai na mente de quem profere tal asneira. se há altura em que os povos dos estados sul-americanos estão a ter prosperidade, esta é definitivamente a altura. prefiro aguardar pelo futuro para poder ter uma perspectiva melhor do que foi o efeito Chavez na Venezuela. como qualquer líder bolivariano, interessado em defender o interesse público e a soberania dos países sul-americanos contra a ingerência e tentativa de hegemonia das superpotências mundiais, desde sempre senti um enorme carinho pela figura de Hugo Chávez. pela defesa dos interesses públicos do povo Venezuelano na questão das plataformas petrolíferas controladas por empresas americanas (nacionalizadas em 2005 pelo estado venezuelano em prol do produto social) pela luta contra a pobreza na venezuela, pela expansão económica verificada no país nos seus mandatos e pelo acordo comercial celebrado com o nosso país. no entanto, nenhum destes items apaga o que tenho como certo: Chávez era autoritário. um ditador? não sei. não consigo descortinar se o era ou não. antigamente, bastava proibir a formação de partidos políticos para se construir um ditador. actualmente, o conceito de ditadura tem fronteiras muito ténues. a própria democracia é considerada por muitas correntes de opinião à esquerda como a ditadura da maioria sobre as minorias. recentemente, até o Nobel da Paz Lech Walesa, aquele que é tido como o maior democrata do leste proferiu algo que manchou o prémio que lhe foi dado e a própria democracia ao defender que os homossexuais deveriam estar fora do parlamento porque são uma minoria. (pre) conceitos trocados, portanto.

as duas ultimas medidas da administração chávez causam-me alguma preocupação em relação ao futuro do povo venezuelano. no ano 2012 chávez aumentou o salário dos venezuelanos em cerca de 133% e desvalorizou a moeda para tornar o produto venezuelano mais competitivo nos mercados. os venezuelanos nunca tiveram tanto poder de compra e tanto poder de crédito como hoje. pode-se mesmo dizer que só agora em pleno século XXI, contrariando a tendência que se está a manifestar desde o Consenso de Washington nos países ocidentais, os países sul-americanos estão a criar aquilo a que se chama de classe média. no entanto, estas duas medidas poderão ser nocivas e muito para o futuro do país. agregado ao aumento do poder de compra do povo venezuelano vem a necessidade de criar hábitos consumistas, muitos deles vindos do estrangeiro. e isso poderá trazer consequências para as balanças do país e para o crescimento de uma dívida externa desmesurável. um pouco à semelhança da armadilha na qual caíram os governos argentinos e brasileiros na década de 80, contudo, com características de crise diferenciadas. se os argentinos não conseguiram suportar uma factura energética elevadíssima vinda dos choques petrolíferos que causou desiquilíbrios gravíssimos na sua balança de pagamentos, aliada a um jogo de valorizações e desvalorizações cambiais da moeda argentina com base no dólar (completamente impensável para um país como a Argentina) o que levou à criação de uma dívida externa que ainda hoje é paga (e bem paga) pelo povo argentino. o caso brasileiro demonstrou um crescimento salarial desmesurado na década de 80 (Plano Cruzado) aliado também a um jogo cambial e ao crescimento do desemprego, factores que fizeram disparar a inflacção do país para níveis insuportáveis durante a presidência de José Sarney (atingiu um valor acumulado de 1076,5%). no caso venezuelano, ou muito me engano, ou a história argentina e brasileira poderá voltar a repetir-se (noutros moldes e noutro contexto sócio-económico é certo) até porque assistimos a uma premissa comum: nunca antes na venezuela se distribuíram tantas rendas como hoje, à semelhança dos primeiros anos da presidência Sarney no Brasil.

a morte de Chávez abre muitos cenários: sucessão, reforma estatal, renovação, golpe militar instituído à conta dos interesses de uma superpotência, declínio e queda do sistema socialista por via de eleições. são conjecturas que se fazem actualmente, se bem que como o próprio termo significa no léxico português, são ideias sobre algo que ainda não se veio a verificar. resta portanto aguardar pelo desenlace dos acontecimentos em Caracas. uma coisa tenho como certa: a grandeza da liderança de chávez deixa um hiato no país que vai demorar muito tempo a preencher. pelo meio, tudo pode acontecer.

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coisas do futebol do médio oriente

História e Intolerância narram-se em linhas simples. Jerusalem. Teddy Stadium, 21600 pessoas nas bancadas. Clássico da liga israelita contra o Maccabi Netanya. O Beitar de Jerusalém é uma equipa grande em Israel devido ao facto de ser o clube mais representativo da cidade santa,  apesar de só agora se estar a levantar de um hiato desportivo (sem se qualificar sequer para as competições europeias) que dura desde a época 1997\1998. Tem 3 títulos nacionais. O primeiro conquistado em 1991\1992. Os restantes nas épocas 1996\1997 e 1997\1998 onde foi eliminado precisamente pelo Sporting e pelo Benfica n0 playoff de acesso à Liga dos Campeões. Na liga deste ano, o Beitar ocupa a 7ª posição com 33 pontos, a 1 do 6º lugar que lhe permite passar a uma 2ª fase e assim lutar pelo título ou por um dos 4 lugares que Israel dispõe nas competições europeias para a época de 2013\2014. A vitória contra o Netanya poderia colocar o Beitar no top-6 da liga, o que não se verificou visto que o jogo terminou empatado. Detido por um multimilionário Russo-Israelita (Arcadi Gaydamak; fortuna estimada em 3 mil milhões de dólares, valor que o coloca na lista dos 500 mais ricos do mundo) tem, pelo que pude apurar, um novo projecto que visa colocar o clube a lutar novamente pelo título. É nessa estratégia que se enquadra a contratação de Zaur Sadayev, avançado russo de 23 anos de origem tchechena, no passado mês de Janeiro. Sadayev já actuou duas partidas por uma selecção Russa B e aparece em Jerusalém vindo de uma equipa que tem vindo a crescer muito: o Terek Grozny, equipa que disputa o principal escalão da liga russa e que tem a particularidade de pertencer a Grozny, a capital da tchechénia. Ao 4º pela sua nova equipa, Sadayev (muçulmano) decidiu dar um ar da sua graça e apontar o primeiro golo na liga Israelita. O resultado foi o que se viu no vídeo. Milhares de adeptos do Beitar abandonar o estádio depois do golo do seu avançado.

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2 de Março

Por favor, saiam de casa, vão para as ruas exercer o vosso direito de manifestação e larguem com civismo todo o vosso descontentamento em relação à insensibilidade social deste governo, todo o vosso descontentamento em relação à má experiência macroeconómica que as instituições europeias e mundiais estão a promover no nosso país e acima de tudo, por favor, vamos mostrar que somos um povo que não se cala nem se resigna perante a injustiça, perante as adversidades e perante a desgraça social que certos agentes teimam em aplicar nas nossas vidas.

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infeliz, infelicidades

Parece que estamos a voltar ao tempo dos ‘catadores de lixo’, uma situação própria de países do Terceiro Mundo. É preciso tomar medidas para travar este roubo, que nos prejudica a todos. As coimas podem funcionar como um factor fortemente dissuasor” – Pedro Machado, administrador da BRAVAL, empresa intermunicipal de Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde.

Tem bom remédio seu pulha. Vá a São Bento e a Bélem pedir aos órgãos de soberania que acabem com a pobreza, com a fome, com o desemprego e com o desespero das pessoas que procuram comida no seu lixo devido às suas políticas terceiro mundistas. Aliás, como rei do lixo que é, fique com o seu lixo, ou seja, com as suas palavras. E já agora, à lá Viegas, vá tomar no cú com as suas coimas. Ou acha que quem vasculha lixo à procura de comida irá pagá-las? É triste perceber que existem estes cenários dantescos no nosso país, mas ainda é mais triste ver funcionários públicos “armados ao pingarelho” a tratá-los de crime. Francamente…

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dá que pensar

arrepio-me quando leio que 28,6 % das crianças nestes país estão em risco de pobreza severa. quando tais números saiem e mostram o quão agressiva é a desumanidade deste país, algo me ocorre na mente: estamos a criar\educar jovens e adolescentes em situação limite, no meio de pobreza, no meio da fome, no meio de violência, no meio do crime e isso terá repercussões severas na sociedade portuguesa no futuro. creio que o primeiro exercício de ensino da cidadania aos mais novos passa exactamente por aqui: o ensino de valores éticos e morais coadunantes com uma boa prática civil, não entram na cabeça quando a barriga não tem alimento. estamos portanto a criar\educar jovens à lei da bala, com desiquilíbrios psiquícos terríveis, prevendo que no futuro se façam agir de acordo com os ensinamentos vindos da lei da bala.

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expressionismo europeu e miséria social no seu estado puro

gréciagrécia 2

Grécia 3

Imagens que estão a correr mundo. Na sexta-feira, em Atenas, centenas de agricultores decidiram protestar junto ao Ministério da Agricultura por causa do aumento exponencial dos custos de produção do sector, oferecendo fruta e legumes aos cidadãos. Em pouco tempo juntaram-se milhares de pessoas no local, havendo centenas de pessoas a empurrar-se e a suplicar por comida junto dos agricultores.

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Missão Sorriso

“Associação de Defesa e Apoio da Vida de Coimbra

Envelhe (S)er pretende incidir em duas principais problemáticas que se verificam na sociedade atual e nomeadamente em Coimbra: a elevada taxa de desemprego e o envelhecimento demográfico acentuado da população, que acarreta muitas vezes situações de isolamento social, carência económica e desproteção social. A ADAV- Coimbra tem vindo a constatar um crescente aumento das situações de desemprego nos agregados familiares que apoia. Os pais e mães acompanhados/as têm formação e competências a vários níveis (Cabeleireiro e estética, Construção civil, Animação Sociocultural, Geriatria, Serviços Domésticos), pelo que o presente projeto visa criar uma bolsa de pessoas que estão desempregadas ou em situação de emprego precário, com o intuito de as inserir no mercado de trabalho através da prestação de serviços nas suas áreas. Assim pretende-se criar uma resposta alternativa e inovadora, no concelho de Coimbra, às situações de isolamento em que vivem muitos idosos e/ou às famílias que têm idosos a seu cargo.”

Votar aqui.

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mais transparente que a água é impossível

pontos auge de toda esta aldrabice:

1. quando o taxista em Washington encaminha o realizador para a sede do Banco Mundial e afirma que não faz a mínima ideia do que é que eles lá fazem.

2. O negócio do Algodão no Burkina Faso e a explicação de que o algodão produzido no continente dava para alimentar todos os cidadãos africanos.

3. A conversa do empresário austríaco na Índia, a distorcida realidade do sistema político e social indiano e os irreais valores dos salários nominais dos seus trabalhadores apontados na conversa que tem com o engenheiro de produção.

4. O sistema de privatização e posterior locação financeira aos investidores americanos, criado pelas Câmaras de Insbruck e Viena quanto ao Metro da cidade.

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greve geral e afins

A leitura do ponto actual do país está difícil.

Dada a dificuldade da leitura decidi meditar um pouco sobre os incidentes de ontem na escadaria da Assembleia da República.

Sociologicamente tenho como certo o velho ditado que diz que em “casa onde não há pão toda a gente ralha sem razão” – esse foi o mote do que se passou ontem, e bem, para bem da própria democracia portuguesa. Se bem que considerar democracia ao actual regime imposto no país pode-se caracterizar como um conceito muito perigoso. Deveras perigoso.

A realidade do país, como tenho escrito neste blog desde Junho de 2010 até hoje, está muito difícil e pode resvalar por caminhos perigosos. Se há alguns meses atrás reclamavamos que o povo português assistia com modos pacíficos (tendo em conta aquilo que assistimos na Grécia, em Itália e em Espanha) a um corte generalizado do estado na sua despesa (cortes esses que irão tirar eficiência e qualidade a alguns serviços e bens providos pelo Estado) temo, repito, temo, que com os cortes alargados ao rendimento dos cidadãos por via do aumento da carga fiscal façam com que assistamos num futuro muito próximo ao aumento da escalada da violência. Tenho como certo também que este governo matou o dito Estado Social. Sim, porque caracterizar o modelo português como Estado Social é outra ideia que só existe na cabeça dos governantes e políticos portugueses. A esses, aconselho-os a estudar os modelos nórdicos, esses si Estados Sociais.

A realidade do nosso país é uma realidade marcada pela miséria e pela pobreza. Os dados económicos assim o mostram: mais de 850 mil desempregados, sendo que a taxa de desemprego não para de subir, fruto da falta de investimento em vários sectores produtivos (por falta de liquidez, falta de liquidez essa que é provocada pela falta de concessão de ajuda ao investimento por parte do Estado e de uma banca que ainda está a contas com a rectificação dos seus rácios de capital) e da previsão em baixa da produção de certos sectores produtivos, em virtude da diminuição do nosso consumo interno. Estagnação no consumo interno que também se reflecte na óptica das receitas do Estado. Receitas do Estado que se reflectem obviamente, por via orçamental, na diminuição de verbas consignadas ao provimento de bens e serviços essenciais dos quais esmagadora maioria do povo português dependia. De forma excessivamente clientelista, diga-se a abono da verdade. Se o que ontem era provido pelo Estado de forma tendencialmente gratuita, assistimos a uma evolução onde a casa de partida não será o pagamento dos cidadãos ao estado pelo valor real dos serviços providos mas sim a própria privatização do poder provedor desses mesmos bens e serviços. A mercadorização total em Portugal quando noutros países onde a mercadorização é intensa (nos modelos de estado liberal do Reino Unido e Estados Unidos; exemplo mais crasso é o próprio Obamacare) se está a assistir a uma tendência desmercadorização. Os Estados estão a desmercadorizar-se, ou seja, a tirar o papel de protagonista principal aos mercados e a corrigir por via do provimento estatal os desiquílibrios sociais que advém da desregulação desses mesmos mercados. No caso do Obamacare, e da constituição de um sistema de saúde que possa englobar em si 25% dos cidadãos Norte-Americanos que não tem acesso aos mais básicos cuidados de saúde pelo facto de não terem rendimentos que lhes dêem o acesso a um seguro de saúde privado, tal medida só poderá resultar, caso seja alargada numa evolução generalista (a criação de um sistema nacional de saúde no país sob o domínio estatal, dando-se obviamente a liberdade ao cidadão de optar entre o público e o privado) no aumento de rendimento disponível dos cidadãos por exemplo para consumo. E aqui Obama joga de forma inteligente pois sabe que o único factor que poderá gerar uma onda expansiva na economia norte-americana, também ela afectada por uma alta taxa de desemprego, é um novo crescimento do mercado interno por via do consumo.

Em Portugal assiste-se ao contrário. Com o aumento dos impostos assistimos a uma tendência exagerada para embarcar numa nova onda de privatizações. A própria política instaurada pelo Ministro da Saúde Paulo Macedo visa privatizar o que é público. Para dar mais vencimentos aos amigos que outrora o empregavam. Já todos sabíamos disto. No Ensino Superior, os cortes feitos não chegam para as Universidades fazerem face às suas despesas estruturais. Como tal, existem Universidades a ultrapassar por completo o limite do que é suportável. Daqui a uns meses poderemos assistir ao fecho de par em par de várias instituições entre as quais a UC. Diz-se por aí que é em tempos de crise que surgem as melhores ideias. As melhores ideias empreendedoristas por norma saem de nichos de formação de profissionais altamente qualificados. Os profissionais altamente qualificados estão a sair do país a olhos vistos por via do elevado desemprego. E a formação de profissionais altamente qualificados que se podem tornar novos empreendedores está a ser completamente estrangulada. E o desemprego não só não cria novo empreendorismo (quem é que consegue ser empreendedor sem boas linhas de financiamento? quem é que está para arriscar quando o mercado interno está em queda? quem é que tem condições para investir tudo o que tem vivendo no risco do infortúnio no dia seguinte?). Tudo me leva a crer que a estratégia deste governo está a ser uma estratégia que visa estrangular por completo as soluções que o país necessita.

Jovens desesperam por emprego. O país está a envelhecer. A segurança social está falida e sobrecarregada de apoios sociais por via do aumento de beneficiários que não tem emprego. Jovens estão a emigrar. Jovens não estão a contribuir para que a segurança social se possa manter sustentável e possa ter capitais para pagar as reformas no futuro daqueles que contribuem hoje. Os fundos de pensões que o estado precaveu em bom tempo para pagar essas mesmas reformas estão a desvalorizar em virtude da própria recessão nos mercados. Só neste ano 2012, os investimentos feito pela Segurança Social nesses mesmos fundos viram as carteiras de investimento desvalorizar cerca de 1500 milhões de euros. Que futuro terão os nossos pais?

São esses pais, esses contribuíntes que desesperam com a situação. As contas caem em casa com enorme velocidade e voracidade. O endividamento das famílias é maior e abrange mais famílias. Levam todo o rendimento disponível. São centenas os casos de famílias que estão a ficar sem tecto para morar. São milhares os casos de famílias que já não conseguem fazer mais que uma refeição diária. São milhares os pais que já não conseguem suportar os gastos dos seus filhos no ensino Superior. Já são centenas os casos de atrasos de pagamento das refeições por parte de encarregados de educação em crianças do ensino básico e do ensino pré-escolar. Já são centenas os casos onde essas próprias crianças apenas tem uma refeição diária, servida exclusivamente na escola. São milhares aqueles a quem o futuro é negado por falta de condições económicas que lhes permitam continuar a estudar. Que futuro teremos?

O pior neste país é que toda esta austeridade é feita numa clara violação a princípios Constitucionais e tem a ajuda de um Presidente da República que está manifestamente doente e como tal incapaz de por cobro a toda esta situação.

A Europa, liderada pela senhora Merkel, num tabuleiro onde a chanceler alemã põe e dispõe, actuando sob uma lógica muito própria e viciada na austeridade é seguida pelo governo português de forma fiel. Empobrecer o país não é solução. Não seremos mais competitivos com desfelexibilização das leis laborais. Não seremos mais competitivos com desvalorização salarial. Não seremos tão competitivos como países com o México ou como a Turquia porque jamais nos poderemos comparar a países da sua dimensão e jamais poderemos comparar as nossas estruturas laborais às suas estruturas laborais. Não podemos jogar o jogo das potências emergentes. Jamais. É errado pensar que a desvalorização salarial dos nossos trabalhadores poderá trazer competitividade aos nossos produtos nos mercados internacionais. Porque a jogar esse mesmo jogo arrastaremos todo o Portugal para uma época de miséria profunda. Se o trabalhador que aufere o salário mínimo já não apresenta condições para subsistir, imaginem que esse mesmo trabalhador num futuro próximo terá 400 euros de salário. Caos. Teremos sim que modificar as nossas estruturas de forma a existir fomento. Daí que a ideia de criar um banco de fomento, exclusivamente criado para fomentar a actividade económica é uma das soluções que já deveria ter sido feita aquando da assinatura do memorando de entendimento. Gerar dívida é fácil. Cortar despesa é fácil. Mas há que atentar a um pormenor: quem e como se irá pagar essa dívida? A resposta é simples: criando riqueza. Será ao desinvestir que se cria riqueza que possa pagar essa mesma dívida e fazer o país crescer novamente? A resposta é simples: não. Será pelo crescimento do mercado interno que poderemos ter a capacidade de fazer face ao desemprego e alinhar uma política económica expansiva que nos permita activar um ciclo económico positivo que recupere o consumo interno, que nos devolva um mercado interno forte e que possa incentivar à produção para consumir internamente e posteriormente exportar? Sim.

Para finalizar. O mote principal. A democracia. É esta a democracia que precisamos para Portugal? A democracia que não sai do gabinete em São Bento para oscultar as dificuldades de um povo? A democracia que escuta as directivas de uma instituição fracassada como é de facto o Fundo Monetário Internacional? A democracia que serve fielmente as imposições estrangeiras em Portugal? A democracia que ontem bateu indiscriminadamente em manifestantes e grevistas numa clara violação a princípios constitucionais? A democracia que bateu indiscriminadamente em idosos e crianças? A democracia que no mesmo dia anunciou por via do seu Ministro da Administração Interna um extraordinário aumento na remuneração das forças policiais de 10% quando assistimos a cortes cegos noutros sectores bem mais essenciais como a saúde ou a educação? Enganem-se os polícias, enganem-se os governantes. Enganem-se os polícias pois estão a ser comprados para defender quem arrasta para a pobreza todo um país. Enganem-se os governantes. Não são aumentos remuneratórios que compram a consciência das forças policiais. A continuar assim, duvido que um único polícia neste país defenda um governo que castiga de forma dura e ímpia o seu povo. Um povo que não consegue satisfazer as suas necessidades básicas é um povo revoltado. E eu cada vez mais acredito que este país irá acabar muito mal.

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vamos cá esclarecer umas coisitas

dados revelam que se fez “história” na economia portuguesa: pelo primeiro ano em 16 (se não estou em erro), a nossa balança comercial (dizem) é favorável. 315 milhões de superavit no período considerado na peça da rádio renascença, segundo os dados apresentados pela AICEP.

1. falsa ilusão: não são as exportações que estão a crescer desmesuradamente, são as importações que estão a decrescer. porquê? a perda de poder de compra dos portugueses. crescem porque o mercado interno já não satisfaz a oferta das empresas.

2. crescimento de 6,9% nas exportações em relação ao período considerado no ano anterior. justificação? simples. as exportações estão a crescer em virtude dos acordos comerciais que foram feitos no mandato de José Sócrates. Quais são os mercados? simples. Venezuela, Líbia, África do Sul, Angola, Moçambique, Brasil, Argentina, ou seja, tudo países, onde Sócrates conseguiu mercados para produtos portugueses. Imputar a este governo este tipo de vitórias é do ponto de vista prático errado.

3. falsa ilusão, parte 2: uma balança comercial favorável, apesar de ser um indicador económico interessante e positivo, no nosso caso, não revela as contas do país. continuamos a ter uma balança de pagamentos desfavorável, em virtude dos elevados juos que o país está a pagar aos credores internacionais e, precisamente à troika. Os 315 milhões de euros obtidos não chegam sequer para pagar os juros anuais que estamos a pagar ao Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, que, como se sabe, são de 34,4 mil milhões de euros (quase metade do resgate financeiro a que fomos submetidos). Bastará portanto fazer as contas aos 5% que teremos que pagar ao Fundo Monetário Internacional, calculando as 5 tranches que já nos foram atribuídas e a verba pertencente ao Fundo dentro dessas tranches(por exemplo) mais o spread diferencial, Dá qualquer coisa como 750 milhões de euros de juros por ano a 45 anos.

outros dados revelam-se assustadores: a política de Gaspar a dar frutos. 4,9% de queda na receita fiscal. Apesar do corte na despesa de 14,5%, o aumento de 22,9% com ajudas sociais mostram que a política de empobrecimento do país não só está a reduzir o poder de compra como está a tirar dinheiro ao estado por via de impostos indirectos, como ainda está a levar o estado a aumentar os seus encargos com situações de desemprego, que, tenderão a aumentar visto que a perda de poder de compra só trará mais ruína ao tecido económico português. Medidas ruinosas que se tendem a aliar com os valores dos novos escalões tributários deste país.

a espiral negativa. a armadilha do consumo. em tempos de recessão, a súbida de preços dos produtos, aliada à perda de rendimentos para consumo por parte das famílias levará a uma racionalização do consumo. perde o consumidor (que fica claramente insatisfeito visto que não consegue prover todas as suas necessidades), perde o empresário (não escoa stocks e como tal terá que rever as planificações da sua empresa e cotá-las novamente em baixa; o que levará ao desemprego, favorecido pelo novo código laboral), perde o trabalhador (despedido e catapultado para um subsídio de desemprego mais baixo que o salário que auferia) e perde o estado, pela diminuição de receitas e pelo aumento de prestações sociais.

mas

Gaspar e Mota Soares ainda querem atacar mais.

se seguir em frente, esta é a proposta que irá colocar meio portugal nas ruas para derrubar o governo. menos 42 euros para quem já faz das tripas coração para sobreviver. seria uma medida excelente caso os 150 mil beneficiários desta medida tivessem emprego. mas não tem. e mais uma vez, a estratégia de empobrecimento do país trará consequências ruinosas.

para finalizar e indo de encontro ao meu pensamento, é bonito ver as últimas estatísticas da Comissão Europeia sobre o desemprego jovem e os custos que esse mesmo desemprego incidem sobre o Estado Português.

não me venham com isto dizer que este governo peca por estar, com estas políticas, a agradar às pretensões dos seus parceiros europeus e dos mercacados, menosprezando ou tendo dificuldades de comunicação com o povo português. o povo português é imberbe mas não é estúpido. sente na pele a falta de dinheiro nos bolsos, a falta de comida na mesa e a falta de dinheiro para satisfazer as necessidades básicas.

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ontem

fui a um simpósio na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, inserido nas comemorações do Dia do Farmacêutico, com o epíteto de “A ética e o farmacêutico”

Ironia das ironias, e como às vezes são os pequenos pormenores que dão delícia à vida, ouvi o secretário de estado da saúde, o Dr. Manuel Teixeira a dizer frases como:

“o SNS está em crise porque houve um consumo excessivo. o país tinha níveis de consumo alto”

“as medidas que tomamos não foram medidas avulsas, foram medidas estruturadas e naturalmente pensadas”

“não está tudo feito”

“impusemos desequilíbrios mas vamos corrigi-los”

“a despesa hospitalar está a decrescer”

“aumentámos o rendimento médio das farmácias que tinham níveis de rendimento mais baixos”

dito isto:

se não foram medidas avulsas e foram naturalmente pensadas, quais são essas medidas e qual é o caminho que se quer trilhar para a saúde em Portugal? se não está tudo feito, o que é que falta fazer? Se existem desequilíbrios porque é que as medidas que se estão a trilhar no sector tendem para mais desequilíbrios, principalmente para o bolso dos cidadãos, principalmente para o bolso daqueles que tributam para haver um sector público de qualidade? Se se aumentou o rendimento médio das farmácias que tinham níveis de rendimento mais baixos, porque é que o sector se está a manifestar e porque é que existem, segundo os novos dados, 600 farmácias neste país em risco de insolvência?

Ditas estas frases tirei algumas notas pessoais:

1. As justificações são sempre as mesmas. Herdámos as dívidas dos anteriores governos e a crise pela qual o país passa. Para vincar o argumento, o secretário de estado atira o valor total de dívidas do Serviço Nacional de Saúde, para que o número macroeconomico sirva de lavagem cerebral às políticas de privatização do mesmo que estão a ser levadas a cabo pelo Ministério.

2. A necessidade de reformas estruturais por parte do secretário de estado não é errónea. A saúde em Portugal precisa de reformas que consigam tocar no ponto essencial da questão: promover uma saúde de qualidade gratuita ou tendencialmente gratuita e eficiente com os meios que o estado dispõe. A questão é que o senhor secretário de estado talvez deve desconhecer que um plano de reformas estruturais para o sector demorará uns 7 anos até atingir um grau aceitável de eficiência. Mais uma vez, vigora no meu pensamento a ideia de que já vamos tarde para a aplicação de certas reformas.

3. A hipótese de competição das farmácias num mercado de concorrência perfeita é uma ideia muito bonita mas levará a que algumas tenham que ficar para trás, até porque se verificar um acentuado decréscimo na compra de medicamentos. Se existe insolvência, gera-se mais desemprego e mais dívida, dívida essa que naturalmente provém de farmácias que não conseguiram em tempo pagar aos seus fornecedores. Se não conseguem pagar aos seus fornecedores, é naturalíssimo que os seus fornecedores tenham que despedir.

4. Se a despesa hospitalar está a decrescer. Se a qualidade dos serviços também está a decrescer. Se se opta por uma racionalização dos mesmos, é a morte declarada do Estado Social e a vitória da tecnocracia.

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