Category Archives: Literatura

Em directo da Rua Larga!

O vosso repórter predilecto da Academia, está neste momento sentado a menos de 15 metros do Magnífico Reitor, o Dr. Fernando Jorge Rama Seabra Santos, na apresentação da nova versão Revista da UC Rua Larga.

Apesar do extenso mandato à frente da UC, o nosso querido Reitor está com um aspecto jovial! E continua a deter duas das suas maiores qualidades: a sua extrema cortesia (um verdadeiro cavalheiro) e o seu dom de oratória magnífico!

Para além da Revista, o Magnífico Reitor está a apresentar oficialmente a abertura do canal UCV – o novo canal da UC, projecto que demorou 8 anos a ser construído e sobre a oficialização da candidatura a Património Mundial Humanidade da Universidade de Coimbra!



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Deturpação linguística?

” Twittar, Googlar, ebook, biocombustivel, parentalidade, audiolivro” entre outros 6 mil termos do “brasileirismo” e das culturas lusófonas como “lanchonete, café-da-manhã, brabeza ou morabeza, canimambo e palmeira-de-andim” são hoje palavras que fazem parte do Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Aquele dicionário que venderá em toda a lusofonia, excepto no seio do povo que originou a língua Portuguesa.

Como se não bastasse o facto de nos obrigarem a escrever como os Brasileiros, ainda temos que dar de caras nos dicionários com termos que nunca disseram respeito à língua Portuguesa, como os termos vindos por exemplo do Crioulo Cabo-Verdiano que ainda não tem a sua escrita totalmente padronizada.

Quanto aos neologismos inseridos no Grande Dicionário, estes não passam de termos inventados pelas novas gerações, graças à evolução da World Wide Web e das novas invenções ao nível científico. Muito embora estes termos já sejam utilizados com alguma frequência nas conversas entre as pessoas das novas gerações, creio que no fim de contas, a Língua Portuguesa (como a conhecemos) sai completamente “enrabada” da situação.

Um povo teve a inteligência de criar uma língua que perdura durante séculos. Actualmente, esse povo parece estar completamente submetido “à linguagem utilizada” por aqueles que outrora foram educados segundo o nosso padrão linguístico.

O Novo Acordo Ortográfico – Uma ainda se tolera. Considero-me livre de escrever em Português da maneira que melhor sei, da maneira pela qual fui ensinado. Agora duas (inserção de novos neologismos bacocos) é algo ridículo que cada vez mais me cria surpresa…

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Peixe:Avião

Peixe:Avião – “Jogo da Quimera” – Álbum:  Madrugada (2010)

“No seu jogo
Sem vontade, sou mero pião
Preso pelo olhar movediço
Que me afunda inteiro pelo chão”

Vale bem a pena, pelo poema e voz do vocalista Ronaldo Fonseca.

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Um dia vou ganhar o Nobel…

– Um dia vou ganhar o Prémio Nobel ou o Pullitzer.
(Silêncio vago)
– Tu nunca vais ganhar nada. Nem o teu respeito. Não és nada de especial, nunca serás nada de especial. Pensas que és alguma coisa, mas isso não passa de uma ilusão na tua cabeça. No fundo, és zero, és um grão de poeira no universo.
– Vou ganhar o Prémio Nobel sim. É preciso ter-se colhões para ganhar o prémio Nobel. É preciso ter-se colhões para não fazer nada. É preciso ter-se colhões para fazer aquilo que nunca foi feito porque nunca ninguém teve colhões para o fazer.
– Nada vais ganhar nesta vida, meu cabrão…
(Silêncio vago. Acendem-se dois cigarros em simultâneo)
– Vou sim. Porque acredito na minha escrita. Acredito que o mundo é capaz de nos surpreender todos os dias com mais podridão e o facto de a interpretar e de andar aí pelas ruas todo melancólico faz por mim um artista de gabarito.
– Não faz de ti mais do que um tolo que acredita que pode mudar o mundo sozinho.
– Merda, não me compreendes. Ninguém me compreende. Não fazes o mínimo esforço para me compreender. Sou diferente, mas tu não vês isso. Tenho pose de grande intelectual, mas tu não o consegues ver. É essa pose que me faz crer que um dia vou ganhar o Nobel.
– Continuo a dizer que nada vais ganhar a não ser um frigorífico num desses programas baratos de televisão. Nem os teus 15 minutos de fama terás, visto que apenas irás dizer diante das câmaras que te sentes feliz antes do apresentador te cortar a palavra porque não tem mais tempo disponível para que sorrias com esses dentes feios da tua própria pose popularucha.
– Vou, vou ganhar porque escrevo bem. E as pessoas vêm ter comigo porque escrevo bem. As gajas vem ter comigo porque escrevo bem, fumo umas ganzas e tenho a mania do melodrama. Batem-me todos palmadinhas nas costas, mas  no meu íntimo não acredito que as pessoas todas tenham boas intenções.
(Risos)
– Essas gajas vem ter contigo porque lhes fazes todos os favores que os ricalhaços que as fodem se recusam a fazer. No fundo, és o tanso, o parvinho que acredita que elas vêm ter contigo porque te acham engraçado e inteligente. Mal tu viras costas, os betinhos de meia tigela aparecem ao volante de uma bruta bomba desportiva para te levarem as donzelas a passear. Tu ficas a ver barquinhos.
– Mas eu… eu tenho a pose que elas curtem. Ando por aí nesta cidade e revelo toda a hipocrisia com  que me deparo.
– Tu, tu nada tens. Julgas-te diferente e realmente és… és um anormal que toda a gente enxota. És fraco, és frágil e cedes facilmente quando os interesses dos outros se intrometem nos teus.
– Mas qualquer dia vou ganhar o Nobel e vou calá-los para sempre
(Silêncio vago)

– Nesta cidade recheada de hipocrisia, tudo parou no tempo. As pessoas pararam no tempo, o trânsito parou no tempo, os autocarros estão sempre atrasados porque houve um dia em que se atrasaram nos tempos, as lojas pararam no tempo, a música parou no tempo, a moral parou no tempo e só a poesia não parou no tempo porque é intemporal.
(Silêncio. Apagam-se dois cigarros em simultâneo e do término da sua luz, volta o escuro da noite)
– Lá estás tu com esse teu pensamento de velho… Não tarda muito estás na reforma e nada ganhaste… Nem Nobel, nem gajas, nem o caralho que te foda.
– Estou-me a cagar. Afinal de contas só disse que queria ganhar o Nobel ou o Pullitzer. Estou-me a cagar para essas gajas que andam aí pelas discotecas a dar o corpo aos tipos do capital. São todas umas galdérias.
– Incluis portanto todas aquelas que te venderam o amor como quem vende um sabonete num supermercado?
– Não. Essas são especiais mas pertencem à categoria de ex-namoradas. Gajas de merda. Merda de gajas.
– Estou a ver… (Esboça uma resposta mas acaba por se remeter ao silêncio de quem observa uma resposta que não é mais que uma desculpa estúpida de quem acabou de levar com os pés de uma gaja)
– Por isso vês que é sobre mim que descai o cosmos de toda a sapiência humana…
– De toda a atitude de convencido, afirmo…
– Sim, porque eu uma vez irei calar-te porque vou ganhar o Nobel. Se não for o Nobel, vencerei o Pullitzer.
– Mas tu só escrever merda. Afinal de contas, andas por aí abandonado nessa cidade para escreveres merdas que ninguém quer ler?
– Toda a gente quer ler…
– O quê? Essas merdas que tu escreves? Deves estar é doido. Se quisessem ler, pagavam-te para ler. Ajoelhavam-se para ler. Algumas gajas, faziam-te um broche para ler uma única linha.
– Estás a ser precipitado. Estás a ser radical. Eu sou um génio.
– Se o fosses, toda a gente te convidava, toda a gente sorria para ti e te pedia inúmeras coisas.
(Cala-te Saramago, cala-te Lobo Antunes, cala-se o outro que existe dentro de mim que não pede autorização para se transformar num mau, num bicho, num idiota)
– Não pedem porque tem medo de mim. Tenho a vontade de espancar alguém a qualquer momento.
– Ainda não percebeste que não és um génio. És só um maníaco-depressivo que anda por aí aos caídos, à espera da inspiração para escrever um amontoado de palavras que no fundo só expressam a merda que és…
– Mas. Mas eu só disse que ia ganhar o Nobel. Se calhar, o Pullitzer.

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Eis o Inverno do nosso descontentamento

Fleet Foxes — “White Winter Hymnal” — Álbum: Fleet Foxes (2008) – Videoclip realizado por Sean Pecknold

“Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lour’d upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.
Now are our brows bound with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings,
Our dreadful marches to delightful measures.
Grim-visaged war hath smooth’d his wrinkled front;
And now, instead of mounting barded steeds
To fright the souls of fearful adversaries,
He capers nimbly in a lady’s chamber
To the lascivious pleasing of a lute.
But I, that am not shaped for sportive tricks,
Nor made to court an amorous looking-glass;
I, that am rudely stamp’d, and want love’s majesty
To strut before a wanton ambling nymph;
I, that am curtail’d of this fair proportion,
Cheated of feature by dissembling nature,
Deformed, unfinish’d, sent before my time
Into this breathing world, scarce half made up,
And that so lamely and unfashionable
That dogs bark at me as I halt by them;
Why, I, in this weak piping time of peace,
Have no delight to pass away the time,
Unless to spy my shadow in the sun
And descant on mine own deformity:
And therefore, since I cannot prove a lover,
To entertain these fair well-spoken days,
I am determined to prove a villain
And hate the idle pleasures of these days.
Plots have I laid, inductions dangerous,
By drunken prophecies, libels and dreams,
To set my brother Clarence and the king
In deadly hate the one against the other:
And if King Edward be as true and just
As I am subtle, false and treacherous,
This day should Clarence closely be mew’d up,
About a prophecy, which says that ‘G’
Of Edward’s heirs the murderer shall be.
Dive, thoughts, down to my soul: here
Clarence comes.”

(William Shakespeare)

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Nunca mais irei escrever sobre o amor

“ Olhá-la nos olhos é como descobrir um conjunto de coisas, de sensações, um todo de valores, de bons valores , de simpatia, de amizade, de carinho, de ternura. É descobrir aquilo que roça o perfeito. É descobrir aquilo que nos interessa para sermos felizes.
Olhá-la nos olhos é olhar o infinito e esquecer que possa existir mundo, que possam existir outras realidades para além do seu ser e do seu modo de estar.
Olhar nos olhos como a olhei, é sinal de um amor nato que por ela tenho. É sinal que não só a amo, como desejo puramente toda a sua amizade e tudo aquilo que ela sabe que me pode dar.
É sinal que é ela que quero mais do que tudo nesta vida(…)

(…) aquele sorriso fascinante, aquela boca que procurava a minha língua, aquela simplicidade no andar, aquele ombro que ampara as minhas quedas e  onde me dá conforto chorar sem medo que os homens me descartem da sua realidade, aqueles olhos cerrados naquele primeiro beijo que conto repetir mais vezes durante toda a minha pequena existência”


Introdução ao Capítulo II by João Branco (copyrights reserved)

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“O Anticristo”

6

Há um espectáculo doloroso, horrível que se me ofereceu: corri a cortina que ocultava a perversão do ser humano. Esta palavra, na minha boca, está pelo menos a salvo de uma suspeita: a de inclua uma acusação moral do homem. Ela vai ser entendida – gostava de sublinhar isso mais uma vez – como isenta de moralina; e isto até ao ponto em que essa perversão é por mim sentida, precisamente, com mais força, ou seja, onde até agora se aspirava mais conscientemente à “virtude”, à “divindade”. Entendo a perversão isso já se adivinha no sentido de decadência: a minha asserção é que todos os valores, em que, hoje em dia, a humanidade condensa tudo quanto se lhe afigura superiormente desejável, são valores de decadência.

Chamo pervertido a um animal, a um género, a um indivíduo, quando este perde os seus instintos, quando escolhe, quando prefere o que lhe é mais prejudicial. Uma história “dos sentimentos mais elevados, dos “ideais da humanidade” – e é possível que tenha de narrá-la, quase seria também a explicação dos motivos pelos quais o homem está tão pervertido. A própria vida, considero-a eu como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de energias,  de poder: onde faltar vontade de poder há decadência. A minha asserção é que a todos os valores supremos da humanidade falta essa vontade – que são valores de decadência, valores niilistas, que reinam, sobre os nomes mais sagrados.

(…)                                                                                                                      ”


Friederich Nietzsche in “O Anticristo” – 6 –  Edições Relógio de Água.


Sem mais palavras, despeço-me por hoje.

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A Tourada

Fernando Tordo – A Tourada – 1973 – Festival da Eurovisão
(poema de José Carlos Ary dos Santos)

Ataque directo, resposta directa.

A todos aqueles que se escondem de forma cobarde por detrás de um pseudónimo. A todos os George Orwell deste mundo.

Com todo o afecto daquele que assina as suas opiniões e como tal se torna responsável pelas consequências das mesmas.

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Howl

Allen Ginsberg – Howl

“For Carl Solomon

I

I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,

dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,

angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,

who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in the supernatural darkness of cold-water flats floating across the tops of cities contemplating jazz,

who bared their brains to Heaven under the El and saw Mohammedan angels staggering on tenement roofs illuminated,

who passed through universities with radiant eyes hallucinating Arkansas and Blake-light tragedy among the scholars of war,

who were expelled from the academies for crazy & publishing obscene odes on the windows of the skull,

who cowered in unshaven rooms in underwear, burning their money in wastebaskets and listening to the Terror through the wall,

who got busted in their pubic beards returning through Laredo with a belt of marijuana for New York,

who ate fire in paint hotels or drank turpentine in Paradise Alley, death, or purgatoried their torsos night after night

with dreams, with drugs, with waking nightmares, alcohol and cock and endless balls,

incomparable blind streets of shuddering cloud and lightning in the mind leaping towards poles of Canada & Paterson, illuminating all the motionless world of Time between,

Peyote solidities of halls, backyard green tree cemetery dawns, wine drunkenness over the rooftops, storefront boroughs of teahead joyride neon blinking traffic light, sun and moon and tree vibrations in the roaring winter dusks of Brooklyn, ashcan rantings and kind king light of mind,

who chained themselves to subways for the endless ride from Battery to holy Bronx on benzedrine until the noise of wheels and children brought them down shuddering mouth-wracked and battered bleak of brain all drained of brilliance in the drear light of Zoo,

who sank all night in submarine light of Bickford’s floated out and sat through the stale beer afternoon in desolate Fugazzi’s, listening to the crack of doom on the hydrogen jukebox,

who talked continuously seventy hours from park to pad to bar to Bellevue to museum to the Brooklyn Bridge,

a lost batallion of platonic conversationalists jumping down the stoops off fire escapes off windowsills off Empire State out of the moon

yacketayakking screaming vomiting whispering facts and memories and anecdotes and eyeball kicks and shocks of hospitals and jails and wars,

whole intellects disgorged in total recall for seven days and nights with brilliant eyes, meat for the Synagogue cast on the pavement,

who vanished into nowhere Zen New Jersey leaving a trail of ambiguous picture postcards of Atlantic City Hall,

suffering Eastern sweats and Tangerian bone-grindings and migraines of China under junk-withdrawal in Newark’s bleak furnished room,

who wandered around and around at midnight in the railway yard wondering where to go, and went, leaving no broken hearts,

who lit cigarettes in boxcars boxcars boxcars racketing through snow toward lonesome farms in grandfather night,

who studied Plotinus Poe St John of the Cross telepathy and bop kabbalah because the universe instinctively vibrated at their feet in Kansas,

who loned it through the streets of Idaho seeking visionary indian angels who were visionary indian angels,

who thought they were only mad when Baltimore gleamed in supernatural ecstasy,

who jumped in limousines with the Chinaman of Oklahoma on the impulse of winter midnight streetlight smalltown rain,

who lounged hungry and lonesome through Houston seeking jazz or sex or soup, and followed the brilliant Spaniard to converse about America and Eternity, a hopeless task, and so took ship to Africa,

who disappeared into the volcanoes of Mexico leaving nothing behind but the shadow of dungarees and the larva and ash of poetry scattered in fireplace Chicago,

who reappeared on the West Coast investigating the FBI in beards and shorts with big pacifist eyes sexy in their dark skin passing out incomprehensible leaflets,

who burned cigarette holes in their arms protesting the narcotic tobacco haze of Capitalism, who distributed Supercommunist pamphlets in Union Square weeping and undressing while the sirens of Los Alamos wailed them down, and wailed down Wall, and the Staten Island ferry also wailed,

who broke down crying in white gymnasiums naked and trembling before the machinery of other skeletons,

who bit detectives in the neck and shrieked with delight in policecars for committing no crime but their own wild cooking pederasty and intoxication,

who howled on their knees in the subway and were dragged off the roof waving genitals and manuscripts,

who let themselves be fucked in the ass by saintly motorcyclists, and screamed with joy,

who blew and were blown by those human seraphim, the sailors, caresses of Atlantic and Caribbean love,

who balled in the morning in the evenings in rosegardens and the grass of public parks and cemeteries scattering their semen freely to whomever come who may,

who hiccuped endlessly trying to giggle but wound up with a sob behind a partition in a Turkish Bath when the blond & naked angel came to pierce them with a sword,

who lost their loveboys to the three old shrews of fate the one eyed shrew of the heterosexual dollar the one eyed shrew that winks out of the womb and the one eyed shrew that does nothing but sit on her ass and snip the intellectual golden threads of the craftsman’s loom,

who copulated ecstatic and insatiate and fell off the bed, and continued along the floor and down the hall and ended fainting on the wall with a vision of ultimate cunt and come eluding the last gyzym of consciousness,

who sweetened the snatches of a million girls trembling in the sunset, and were red eyed in the morning but were prepared to sweeten the snatch of the sunrise, flashing buttocks under barns and naked in the lake,

who went out whoring through Colorado in myriad stolen night-cars, N.C., secret hero of these poems, cocksman and Adonis of Denver—joy to the memory of his innumerable lays of girls in empty lots & diner backyards, moviehouses’ rickety rows, on mountaintops in caves or with gaunt waitresses in familiar roadside lonely petticoat upliftings & especially secret gas-station solipsisms of johns, & hometown alleys too,

who faded out in vast sordid movies, were shifted in dreams, woke on a sudden Manhattan, and picked themselves up out of basements hungover with heartless Tokay and horrors of Third Avenue iron dreams & stumbled to unemployment offices,

who walked all night with their shoes full of blood on the snowbank docks waiting for a door in the East River to open full of steamheat and opium,

who created great suicidal dramas on the appartment cliff-banks of the Hudson under the wartime blue floodlight of the moon & their heads shall be crowned with laurel in oblivion,

who ate the lamb stew of the imagination or digested the crab at the muddy bottom of the rivers of the Bowery,

who wept at the romance of the streets with their pushcarts full of onions and bad music,

who sat in boxes breathing in the darkness under the bridge, and rose up to build harpsichords in their lofts, who coughed on the sixth floor of Harlem crowned with flame under the tubercular sky surrounded by orange crates of theology,

who scribbled all night rocking and rolling over lofty incantations which in the yellow morning were stanzas of gibberish,

who cooked rotten animals lung heart feet tail borsht & tortillas dreaming of the pure vegetable kingdom,

who plunged themselves under meat trucks looking for an egg,

who threw their watches off the roof to cast their ballot for an Eternity outside of Time, & alarm clocks fell on their heads every day for the next decade,

who cut their wrists three times successively unsuccessfully, gave up and were forced to open antique stores where they thought they were growing old and cried,

who were burned alive in their innocent flannel suits on Madison Avenue amid blasts of leaden verse & the tanked-up clatter of the iron regiments of fashion & the nitroglycerine shrieks of the fairies of advertising & the mustard gas of sinister intelligent editors, or were run down by the drunken taxicabs of Absolute Reality,

who jumped off the Brooklyn Bridge this actually happened and walked away unknown and forgotten into the ghostly daze of Chinatown soup alleyways & firetrucks, not even one free beer,

who sang out of their windows in despair, fell out of the subway window, jumped in the filthy Passaic, leaped on negroes, cried all over the street, danced on broken wineglasses barefoot smashed phonograph records of nostalgic European 1930s German jazz finished the whiskey and threw up groaning into the bloody toilet, moans in their ears and the blast of colossal steamwhistles,

who barreled down the highways of the past journeying to each other’s hotrod-Golgotha jail-solitude watch Birmingham jazz incarnation,

who drove crosscountry seventytwo hours to find out if I had a vision or you had a vision or he had a vision to find out Eternity,

who journeyed to Denver, who died in Denver, who came back to Denver & waited in vain, who watched over Denver & brooded & loned in Denver and finally went away to find out the Time, & now Denver is lonesome for her heroes,

who fell on their knees in hopeless cathedrals praying for each other’s salvation and light and breasts, until the soul illuminated its hair for a second,

who crashed through their minds in jail waiting for impossible criminals with golden heads and the charm of reality in their hearts who sang sweet blues to Alcatraz,

who retired to Mexico to cultivate a habit, or Rocky Mount to tender Buddha or Tangiers to boys or Southern Pacific to the black locomotive or Harvard to Narcissus to Woodlawn to the daisychain or grave,

who demanded sanity trials accusing the radio of hypnotism & were left with their insanity & their hands & a hung jury,

who threw potato salad at CCNY lecturerson Dadaism and subsequently presented themselves on the granite steps of the madhouse with the shaven heads and harlequin speech of suicide, demanding instantaneous lobotomy,

and who were given instead the concrete void of insulin Metrazol electricity hydrotherapy psychotherapy occupational therapy pingpong & amnesia,

who in humorless protest overturned only one symbolic pingpong table, resting briefly in catatonia,

returning years later truly bald except for a wig of blood, and tears and fingers, to the visible madman doom of the wards of the madtowns of the East,

Pilgrim State’s Rockland’s and Greystone’s foetid halls, bickering with the echoes of the soul, rocking and rolling in the midnight solitude-bench dolmen-realms of love, dream of life a nightmare, bodies turned to stone as heavy as the moon,

with mother finally *****, and the last fantastic book flung out of the tenement window, and the last door closed at 4 A.M. and the last telephone slammed at the wall in reply and the last furnished room emptied down to the last piece of mental furniture, a yellow paper rose twisted on a wire hanger on the closet, and even that imaginary, nothing but a hopeful little bit of hallucination—

ah, Carl, while you are not safe I am not safe, and now you’re really in the total animal soup of time—

and who therefore ran through the icy streets obsessed with a sudden flash of the alchemy of the use of the ellipse the catalog the meter & the vibrating plane,

who dreamt and made incarnate gaps in Time & Space through images juxtaposed, and trapped the archangel of the soulbetween 2 visual images and joined the elemental verbs and set the noun and dash of consciousness together jumping with sensation of Pater Omnipotens Aeterna Deus

to recreate the syntax and measure of poor human prose and stand before you speechless and intelligent and shaking with shame, rejected yet confessing out the soul to conform to the rhythm of thought in his naked and endless head,

the madman bum and angel beat in Time, unknown, yet putting down here what might be left to say in time come after death,

and rose incarnate in the ghostly clothes of jazz in the goldhorn shadow of the band and blew the suffering of America’s naked mind for love into an eli eli lamma lamma sabacthani saxophone cry that shivered the cities down to the last radio

with the absolute heart of the poem butchered out of their own bodies good to eat a thousand years.

II

What sphinx of cement and aluminium bashed open their skulls and ate up their brains and imagination?

Moloch! Solitude! Filth! Ugliness! Ashcans and unobtainable dollars! Children screaming under the stairways! Boys sobbing in armies! Old men weeping in the parks!

Moloch! Moloch! Nightmare of Moloch! Moloch the loveless! Mental Moloch! Moloch the heavy judger of men!

Moloch the incomprehensible prison! Moloch the crossbone soulless jailhouse and Congress of sorrows! Moloch whose buildings are judgement! Moloch the vast stone of war! Moloch the stunned governments!

Moloch whose mind is pure machinery! Moloch whose blood is running money! Moloch whose fingers are ten armies! Moloch whose breast is a cannibal dynamo! Moloch whose ear is a smoking tomb!

Moloch whose eyes are a thousand blind windows! Moloch whose skyscrapers stand in the long streets like endless Jehovas! Moloch whose factories dream and choke in the fog! Moloch whose smokestacks and antennae crown the cities!

Moloch whose love is endless oil and stone! Moloch whose soul is electricity and banks! Moloch whose poverty is the specter of genius! Moloch whose fate is a cloud of sexless hydrogen! Moloch whose name is the Mind!

Moloch in whom I sit lonely! Moloch in whom I dream angels! Crazy in Moloch! Cocksucker in Moloch! Lacklove and manless in Moloch!

Moloch who entered my soul early! Moloch in whom I am a consciousness without a body! Moloch who frightened me out of my natural ecstasy! Moloch whom I abandon! Wake up in Moloch! Light streaming out of the sky!

Moloch! Moloch! Robot apartments! invisable suburbs! skeleton treasuries! blind capitals! demonic industries! spectral nations! invincible madhouses! granite cocks! monstrous bombs!

They broke their backs lifting Moloch to Heaven! Pavements, trees, radios, tons! lifting the city to Heaven which exists and is everywhere about us!

Visions! omens! hallucinations! miracles! ecstacies! gone down the American river!

Dreams! adorations! illuminations! religions! the whole boatload of sensitive bullshit!

Breakthroughs! over the river! flips and crucifixions! gone down the flood! Highs! Epiphanies! Despairs! Ten years’ animal screams and suicides! Minds! New loves! Mad generation! down on the rocks of Time!

Real holy laughter in the river! They saw it all! the wild eyes! the holy yells! They bade farewell! They jumped off the roof! to solitude! waving! carrying flowers! Down to the river! into the street!

III

Carl Solomon! I’m with you in Rockland

where you’re madder than I am

I’m with you in Rockland

where you must feel strange

I’m with you in Rockland

where you imitate the shade of my mother

I’m with you in Rockland

where you’ve murdered your twelve secretaries

I’m with you in Rockland

where you laugh at this invisible humour

I’m with you in Rockland

where we are great writers on the same dreadful typewriter

I’m with you in Rockland

where your condition has become serious and is reported on the radio

I’m with you in Rockland

where the faculties of the skull no longer admit the worms of the senses

I’m with you in Rockland

where you drink the tea of the breasts of the spinsters of Utica

I’m with you in Rockland

where you pun on the bodies of your nurses the harpies of the Bronx

I’m with you in Rockland

where you scream in a straightjacket that you’re losing the game of actual pingpong of the abyss

I’m with you in Rockland

where you bang on the catatonic piano the soul is innocent and immortal it should never die ungodly in an armed madhouse

I’m with you in Rockland

where fifty more shocks will never return your soul to its body again from its pilgrimage to a cross in the void

I’m with you in Rockland

where you accuse your doctors of insanity and plot the Hebrew socialist revolution against the fascist national Golgotha

I’m with you in Rockland

where you will split the heavens of Long Island and resurrect your living human Jesus from the superhuman tomb

I’m with you in Rockland

where there are twentyfive thousand mad comrades all together singing the final stanzas of the Internationale

I’m with you in Rockland

where we hug and kiss the United States under our bedsheets the United States that coughs all night and won’t let us sleep

I’m with you in Rockland

where we wake up electrified out of the coma by our own souls’ airplanes roaring over the roof they’ve come to drop angelic bombs the hospital illuminates itself imaginary walls collapse O skinny legions run outside O starry-spangled shock of mercy the eternal war is here O victory forget your underwear we’re free

I’m with you in Rockland

in my dreams you walk dripping from a sea-journey on the highway across America in tears to the door of my cottage in the Western night”

O meu poema favorito. É nisto que ando a meditar nos últimos dias.

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Homenagem póstuma

Partiste do nosso mundo, deixando a literatura mais pobre.

Confesso que não era um fã rendido da tua escrita. Odiava-me sobretudo o facto de não teres qualquer pontuação e de nunca pores um travão nessas longuíssimas frases que escrevias. No entanto, não era a formalidade que fez de ti um escritor consagrado, mas a inteligência com que nos brindavas obra após obra. Eras irónico, eras mordaz e nessa mordacidade conseguias provar que eras um exímio observador do mundo, da mutação dos tempos e dos valores tomados como vigentes, válidos e aceites pela sociedade. Com o teu estilo acutilante também provavas que eras extremamente conhecedor da Doutrina Católica, ao contrário do estado de estupidez e loucura que te foi vaticinado pelo Vaticano.

Gostavas do teu país. Daquele país que sempre te odiou porque nunca se esforçou por te compreender. Daí que tenhas optado por estabelecer o resto da tua vida numa ilha Espanhola, onde conseguiste ter o sossego suficiente para levar a cabo as tuas melhores obras. Aí a culpa foi nossa. A culpa foi de um povo tacanho que nunca tentou compreender a tua racionalidade e sempre se agarrou em velhos dogmas para te criticar. Muito por culpa desses Padres e desses Bispos, gente que não ensina senão um enorme conjunto de mentiras. E é triste como Português ver que foi a Academia Sueca que te deu o teu maior prémio de excelência, prémio esse que fizeste reverter a favor do Partido Comunista, partido que nunca renegaste, causa que nunca rejeitaste visto que acreditavas mesmo numa sociedade mais justa e equalitária.

Não fizeram justiça ao teu trabalho neste país. Pelo contrário, sempre sentiste a repulsa do teu povo, um povo ignorante que não consegue raciocinar antes de falar. Um povo mesquinho, atrasado, fútil.

Bem sei que as homenagens devem ser feitas em vida. À boa moda Portuguesa só se lembraram de ti quando souberam que tinhas falecido.
Infelizmente, o panorama literário Português denota actualmente que não teremos ninguém tão brilhante como tu. Quantos séculos irão passar até que algum escritor Português volte a Estocolmo para receber aquele prémio tão honroso? Quantas décadas passarão até que alguém chegue perto da qualidade que tu exibias nas tuas obras?

Bem sei que é triste fazer homenagens póstumas. Mesmo não gostando da tua forma, esta é a minha singela homenagem a ti, que foste o melhor escritor Português dos últimos 40 anos. A ti José Saramago, uma mente que será para sempre recordada como brilhante.

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