Category Archives: Homem

choca-me

claro que me choca. e muito.

Não tem dinheiro para ir às consultas e fazer a medicação? A solução é deixar morrer: lentamente e em silêncio.

A peça escalpeliza todo o problema em torno da questão excepto um. Como é sabido, o Ministério da Saúde quer fechar com alguns hospitais psiquiátricos no país para reduzir custos e em alternativa, apresentou uma proposta que visa a passagem de algumas unidades de acompanhamento permanente para as unidades de saúde familiar, proposta essa que implica o encerramento de unidades como o Lorvão (talvez o “meu amigo” Horácio Firmino já me saiba explicar em português decente a medida).

Essa medida implica que muitos dos doentes que já se encontram internados nessas unidades há muitos anos sejam novamente “entregues” aos cuidados das famílias, sem que se saiba sequer se as famílias os querem receber em sua casa, sem que se saiba sequer se as famílias tem condições de habilitabilidade para receber esses doentes, sem que se saiba sequer se as famílias tem possibilidade para receber esses doentes. Posso estar errado, mas estou em crer que muitos desses doentes foram forçados ao internamento nessas unidades pelo simples facto das famílias não terem possibilidades ou não quererem suportar os seus problemas. A criação de unidades comunitárias de saúde psiquiátria irão abrir novos celeumas na questão: quem é que irá receber o doente em sua casa? quem é que irá com o doente às consultas visto que são pessoas que não tem mobilidade? quem é que irá suportar os custos das consultas e da medicação intensiva ao qual esses doentes estão sujeitos? até que ponto é que certas famílias estão preparadas para lidar com alguém que necessita de um tratamento especializado? até que ponto é que as instáveis famílias portuguesas estão aptas a receber mais instabilidade dentro dos seus lares? a mim parece-me que esta medida visa abandonar ainda mais quem já não é útil para a sociedade em prol da tão ambicionada redução de custos no Serviço Nacional de Saúde.

É efectivamente essa redução de custos por parte do Estado, é efectivamente essa retirada de papel do Estado nas suas responsabilidades enquanto provedor de bens e serviços que está a desregular por completo o funcionamento farmácias (ainda hoje presenciei um exemplo numa farmácia de Coimbra de um casal de Leiria que se deslocou a Coimbra para comprar um medicamento que as farmácias de serviço de Leiria não tinham em stock; não preciso de explicar porque é que não tinham stock desse medicamento; logo a seguir presenciei outro de um idoso que não tinha 5 euros para comprar um medicamento do qual necessitava para a doença de Alzheimer) que está a destruir com o Serviço Nacional de Saúde e que consequentemente está a encaminhar o ramo da saúde para as mãos de entidades privadas. Pior que isso é o facto de sabermos que somos o povo com a 3ª carga tributária mais alta da europa e os nossos impostos não estarem a servir para nada. Uma das questões que pululava a mente de muitos opinion-makers deste país há uns meses atrás era precisamente a questão que interrogava quanto é que os portugueses estavam dispostos a pagar pela manutenção do Estado Social? Se o Estado Social é isto, então é melhor que nada tenhamos de pagar para o manter porque ele não existe. Temos escalões tributários ao nível dos nórdicos, recebemos menos que os trabalhadores dos países nórdicos, e quando vamos a um hospital pagamos uma taxa moderadora enquanto os nórdicos nada pagam. Vamos à Farmácia e vemos a comparticipação dos medicamentos subir diariamente a um ritmo impossível de pagar a um doente enquanto os nórdicos vão às farmácias e obtém o mesmo medicamento com uma comparticipação quase total do preço do medicamento por parte do Estado. Estas são apenas as dicotomias que podem ser encontradas no ramo da saúde. Mais poderão ser encontradas nos sectores da segurança social e da educação. Vale a pena pagar por algo onde o estado está a retirar as suas responsabilidades?

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infeliz, infelicidades

Parece que estamos a voltar ao tempo dos ‘catadores de lixo’, uma situação própria de países do Terceiro Mundo. É preciso tomar medidas para travar este roubo, que nos prejudica a todos. As coimas podem funcionar como um factor fortemente dissuasor” – Pedro Machado, administrador da BRAVAL, empresa intermunicipal de Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde.

Tem bom remédio seu pulha. Vá a São Bento e a Bélem pedir aos órgãos de soberania que acabem com a pobreza, com a fome, com o desemprego e com o desespero das pessoas que procuram comida no seu lixo devido às suas políticas terceiro mundistas. Aliás, como rei do lixo que é, fique com o seu lixo, ou seja, com as suas palavras. E já agora, à lá Viegas, vá tomar no cú com as suas coimas. Ou acha que quem vasculha lixo à procura de comida irá pagá-las? É triste perceber que existem estes cenários dantescos no nosso país, mas ainda é mais triste ver funcionários públicos “armados ao pingarelho” a tratá-los de crime. Francamente…

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margarida marante

era uma direitolas dos diabos e a cocaína arruinou com a sua vida profissional e pessoal. mas quanto a mim, Margarida Marante era muito mais que isso. era uma jornalista a sério. e desses, existem muito poucos em portugal infelizmente.

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Por quem a memória não faz esquecer

Exortação

“Em nome do teu nome,
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade
— Homem, lembra-te bem!
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;
Leva, dourado,
O sol da consciência
As íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar”

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Sim, eu estou a publicar isto

Sim, eu estou a publicar isto.

Não quero de modo algum criticar a campanha que foi feita em prol do filho de Carlos Martins. Não porque a campanha não só já salvou a vida de uma pobre criança e porque poderá salvar muitas outras vidas através das milhares de recolhas de medula óssea que foram realizadas pelo país e pelo mundo.

O povo português, para além de minado com defeitos terríveis como a hipocrisia, a pequenez, a mesquinhice e a inveja social, também se encontra completamente minado por um outro defeito de carácter que é horrível: só liga às aparências.

“Quando és rico ou famoso e tens um problema, ganhas uma série de amigos. Quando és pobre, feio ou deficiente ninguém te liga nenhuma porque de ti não podem retirar qualquer vantagem” – esta é uma frase que resume a solidariedade de pantufinha praticada pelos Portugueses. No problema do filho de Carlos Martins, milhares dirigiram-se a postos de recolha de medula óssea. Porque era o filho de uma figura pública. Acredito até que muitos o tenham feito na esperança de serem compatíveis e de receberem uma recompensa. Porque em Portugal, existe perversão em milhões de mentes que chegam a esse nível.

O caso do Francisco é mais um caso de efectiva carência. Extrema. Severa. Urgente. O cartaz está desactualizado. A página de apoio à ajuda ao Francisco já não tem 217 fans mas sim 10 mil. Mas poderia ter mais e as ajudas poderiam ser tão grandes como a ajuda prestada pelo povo ao filho do Carlos Martins. Não o é porque o Francisco é pobre e nasceu deficiente. Fica-se portanto pelas 10 mil. E a “esgazeada”, cadelita que empurra a cadeira de rodas do Francisco continua a cumprir uma missão que nenhum Português parece ser capaz de fazer.

Faz-me lembrar um bocado o meu caso no secundário com o Zé António, caso que aqui escrevi no passado dia 23 de Março.

Infelizmente, conheço bem o sentimento de um cidadão normal quando vê na rua seres humanos como o Francisco. Vira a cara para o lado e pensa para sí próprio “coitado deste infeliz”. Outros nem olham porque sentem nojo da imperfeição de um próximo. Outros, saudáveis, até são capazes de fazer troça da pobre condição do homem. E esquecem-se que devem agradecer todos os dias o facto de terem mãos para tactear, de terem pernas para andar, de terem ajuda do Estado nos momentos difíceis, de serem saudáveis para trabalhar.

Tenho em crença que são este tipo de coisas que marcam a diferença entre mentalidades de primeiro e de terceiro mundo. E os portugueses são terceiro mundistas.

P.S (informações adicionais) – Segundo as palavras da pessoa que criou a página de facebook criada para ajudar o Francisco: “Quem quiser ajudar, dando o seu donativo, pode fazê-lo para o NIB: 0007 0206 00129090001 15, conta em nome de Maria Helena Oliveira Amaro, no BES, enviem os comprovativos para o e-mail: marlenefonseca@iol.pt.
A rampa é para ser feita na …seguinte morada: Rua Teresa Borges, n.º 6, 2830-106 Barreiro. Será o Sr Quim, que trabalha no clube desportivo e cultural Estrela Negra, mesmo ao lado no n.º 6-A a fazer a rampa.
Quem preferir e viver perto, por favor entreguem os vossos donativos no Estrela Negra, fica mesmo ao lado do prédio do Francisco onde será feita a rampa. Está lá uma caixinha para os receber. Também podem aproveitar e pedir informações por exemplo. Contactos 210 892 563 .212 165 430.
Podem também entregar os vossos donativos, na papelaria aqui do Alto do Seixalinho, Av. do Bocage, Barreiro que serve também de posto dos correios, ao lado de uma agência de viagens. Obrigada.”

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estou um bocado desapontado, são 5 da manhã e a saúde em Coimbra está a morrer lentamente com este tipo de artistas

“Além da transcendência social e económica, a saúde mental é uma das principais dimensões da saúde e bem-estar(OMS), em sentido inverso os mais recentes dados epidemiológicos mostram serem os problemas de saúde mental a principal causa de incapacidades.

A OMS baseando-se em estudos de efectividade e custos dos serviços de saúde mental (SSM), defende que estes devem garantir a acessibilidade a todas as pessoas, assegurando estes cuidados sem que as pessoas se tenham de afastar significativamente do seu local de residência, e integrando um conjunto diversificado de unidades e programas, incluindo o internamento em hospital geral.

Nesta resposta devem ser respeitados os Direitos Humanos: pessoas com perturbações mentais devem ver respeitados todos os seus direitos, incluindo o direito a cuidados adequados… assim como protecção contra todos os tipos de discriminação.

Há quem procure minorar a importância da Psiquiatria, tentando afastá-la da estrutura próxima do Hospital, e existem sectores que olham para cada Hospital como tradutor apenas de virtudes, esquecendo as limitações.

A manutenção do internamento de doentes com patologia psiquiátrica aguda no Hospital Geral já é hoje uma realidade e constituiria um acto de discriminação a sua retirada da estrutura física, não aceite por nenhum profissional de saúde mental e muito menos pela população.

Urge incrementar as unidades de saúde mental comunitária, permitindo uma melhoria da acessibilidade e qualidade dos cuidados, com respostas mais próximas das populações, numa maior articulação com centros de saúde e outras estruturas da comunidade, reduzindo riscos de descompensação dos casos de patologia mais severa, por um melhor e regular seguimento desses utentes e evitando o recurso à Urgência e diminuindo substancialmente, a necessidade de camas hospitalares de agudos.

Estas estruturas devem ser constituídas por equipas multidisciplinares: psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social e outros profissionais não médicos.

Numa senda de progresso é importante desenvolver projectos que granjearam prestígio: Gerontopsiquiatria, Psicoterapia, Stress, Distúrbios Alimentares, Violência Doméstica, Prevenção de Suicídio, Sexologia, Estimulação Cerebral… a manutenção do serviço regional de internamento para doentes inimputáveis e a criação de unidades de internamento para os casos de patologia mental grave.

Depois de se terem dado passos importantes na reorganização prévia dos Hospitais Psiquiátricos (Sobral Cid, Lorvão e Arnes), a grande maioria dos psiquiatras está de acordo que é agora a altura de promover a transferência progressiva dos cuidados dos utentes, ainda internados no Lorvão e Arnes, para unidades que possam prestar cuidados continuados de Psiquiatria (Dec-lei n.º 8/2010).

Dado as características dos utentes que ainda aí se encontram, numa larga maioria terão de se enquadrar em residências de apoio máximo, localizadas na comunidade, destinada a pessoas clinicamente estabilizadas com elevado grau de incapacidade psicossocial, impossibilitadas de serem tratadas no domicílio por ausência de suporte familiar ou social adequado.

Todos os que conhecem as instalações do Lorvão terão de reconhecer que se tratam de hospitais obsoletos sem condições adequadas, pois grades nas janelas, más condições climática… numa acumulação de pessoas sem as tentarem reabilitar, não possam ser consideradas como o pressuposto de atendimento médico com condições humanas adequadas.

Esta inserção em unidades mais pequenas, apoiados por técnicos diferenciados numa procura de reabilitação e integração no meio social contribuirá para a solidificação dos princípios dos Direitos Humanos a que anteriormente aludíamos.

Aos profissionais das diversas unidades espera-se: manutenção da qualidade assistencial; melhoria respostas integradas aos doentes e famílias; continuação do ensino aos estudantes e colegas mais novos; incremento da investigação numa contínua manifestação de se quererem (re)afirmar, não só no país, como internacionalmente como centro de excelência.”

Publicado pelo Diário As Beiras no dia 12 de Maio de 2012

Eu João Branco me confesso:

1. Sempre tive aversão a hospitais. Desde pequeno que morro de medo sempre que entro num e fico meio hipocondríaco sempre que me vêm às narinas aquele cheiro a líxivia tão característico dos hospitais.

2. Dado o primeiro ponto, assumo humildemente que nada percebo de psiquiatria e nada quero perceber. Muito menos depois da leitura deste curioso texto publicado nesse pasquinzeco desta cidade.

3. Vamos por partes:

3.1 Horácio Firmino, o brilhante autor deste churro à espanhola em língua dita portuguesa, é antes de mais um médico psiquiatra licenciado pela Universidade de Coimbra, actual coordenador da Unidade de Gerontopsiquiatria do Serviço de Psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra (que não é unidade nenhuma graças às explicações que me foram dadas por uma fonte no serviço mas antes uma Consulta Externa na área de psiquiatria para idosos) e presidente de uma Associação que também me foi dita como inexistente (ou como quem diz para inglês ver) chamada Associação Europeia de Psiquiatria Geriátrica. 

3.2 Como podemos depreender do texto, existem partes do mesmo em que qualquer leitor leigo na matéria se pode regozijar por nada ter aprendido com o mesmo.

Começamos pela frase inicial: “Além da transcendência social e económica, a saúde mental é uma das principais dimensões da saúde e bem-estar.”

Afinal de contas o que é que é transcendente para a saude e bem-estar? A palavra transcendência significa “estar acima de”; “ir para além de um limite”, “ir para além de”;  a religião considera Deus transcendente aos homens. A primeira frase aparece-nos desde logo algo confusa e contraditória: à transcendência social e económica, expressão que é utilizada de forma vaga, supera a saúde mental como uma das principais dimensões. Se o social e o económico é transcendente, não existem outras dimensões nem principais nem secundárias, digo eu…

“A OMS baseando-se em estudos de efectividade e custos dos serviços de saúde menta” – Sr. Doutor, não deveria escrever que a “OMS” baseando-se em estudos custo\efectividade…”

MUST or MUST SEE:

“Há quem procure minorar a importância da Psiquiatria, tentando afastá-la da estrutura próxima do Hospital, e existem sectores que olham para cada Hospital como tradutor apenas de virtudes, esquecendo as limitações.

A manutenção do internamento de doentes com patologia psiquiátrica aguda no Hospital Geral já é hoje uma realidade e constituiria um acto de discriminação a sua retirada da estrutura física, não aceite por nenhum profissional de saúde mental e muito menos pela população.

Urge incrementar as unidades de saúde mental comunitária, permitindo uma melhoria da acessibilidade e qualidade dos cuidados, com respostas mais próximas das populações, numa maior articulação com centros de saúde e outras estruturas da comunidade, reduzindo riscos de descompensação dos casos de patologia mais severa, por um melhor e regular seguimento desses utentes e evitando o recurso à Urgência e diminuindo substancialmente, a necessidade de camas hospitalares de agudos.”

Primeiro afirma como prejudiciais aqueles que tentam afastar a Psiquiatria dos Hospitais e assim acentuar discriminações e depois afirma que é necessário incrementar unidades de saúde mental comunitária com a implantação de psiquiatras nos centros de saúde, ou seja, promovendo uma maior descentralização das unidades de psiquiatria. Mais uma vez, o Sr. Dr. contradiz-se com uma profundidade no mínimo “severa”.

para depois nos brindar com mais uma pérola…

“Estas estruturas devem ser constituídas por equipas multidisciplinares: psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social e outros profissionais não médicos.”

Os psicólogos formam-se na faculdade de medicina ou na faculdade de psicologia? E os técnicos de serviço social? Que outro tipo de pessoal não-médico incluiria? Palhaços, canalizadores, pedintes profissionais?

“Numa senda de progresso é importante desenvolver projectos que granjearam prestígio: Gerontopsiquiatria, Psicoterapia, Stress, Distúrbios Alimentares, Violência Doméstica, Prevenção de Suicídio, Sexologia, Estimulação Cerebral… a manutenção do serviço regional de internamento para doentes inimputáveis e a criação de unidades de internamento para os casos de patologia mental grave.”

Haja dinheiro no Ministério da Saúde para tanto projecto caramba!!! Gerontopsiquiatria, 1 projecto. Psicoterapia, 2 projectos. Stress, 3 projectos, Violência Doméstica, 4 projectos….

Soma e Segue

“Depois de se terem dado passos importantes na reorganização prévia dos Hospitais Psiquiátricos (Sobral Cid, Lorvão e Arnes), a grande maioria dos psiquiatras está de acordo que é agora a altura de promover a transferência progressiva dos cuidados dos utentes, ainda internados no Lorvão e Arnes, para unidades que possam prestar cuidados continuados de Psiquiatria (Dec-lei n.º 8/2010).

Dado as características dos utentes que ainda aí se encontram, numa larga maioria terão de se enquadrar em residências de apoio máximo, localizadas na comunidade, destinada a pessoas clinicamente estabilizadas com elevado grau de incapacidade psicossocial, impossibilitadas de serem tratadas no domicílio por ausência de suporte familiar ou social adequado.”

O que são maioria dos casos!!! Vai entregá-los a quem? À Santa Casa da Misericórdia? Ao clube dos Unidos do Barreiro? À CP? À Refer? Como irão prover ao seu sustento se praticamente todos estarão incapacitados de gozo de direitos pela lei ou impedidos à recepção de ajudas sociais por parte do Estado? Quem é que irá sustentar esses doentes? Quantas são as famílias neste momento pré-dispostas (ao nível de formação; ao nível material; ao nível pessoal) para receber nos seus lares aqueles que muitas vezes acabaram por depositar no Hospital Psiquiátrico?

“Todos os que conhecem as instalações do Lorvão terão de reconhecer que se tratam de hospitais obsoletos sem condições adequadas”

Mentira.

” numa acumulação de pessoas sem as tentarem reabilitar, não possam ser consideradas como o pressuposto de atendimento médico com condições humanas adequadas.”

Mentira. Agora se me falasse que algum do pessoal auxiliar não respeita a ética e a deontologia da profissão no tratamento destes doentes até acreditava em si…

“Esta inserção em unidades mais pequenas, apoiados por técnicos diferenciados numa procura de reabilitação e integração no meio social contribuirá para a solidificação dos princípios dos Direitos Humanos a que anteriormente aludíamos.”

“Aludia” Sr. Dr., diz-se “aludia” – primeira pessoa. Sem acento. Do verbo “aludir”. 

4. Como puderam ler, o tratamento da língua de camões por parte deste Dr, é uma coisa que roça a excelência. No início deste texto fui bem expresso ao ponto de admitir que nada percebo de psiquiatria e nada fiquei a perceber depois da leitura deste texto. Depois da leitura deste texto alicercei ainda mais a crença de que a Universidade de Coimbra dá canudos a quem não domina os assuntos da linguística, da semiótica e da sintaxe. Passam-me pela cabeça outros termos, uns ligeiramente ácidos, outros a roçar a linguagem de imberbe, algo que não me apetece escarrapachar aqui sob pena de me encontrar com este dito senhor numa situação desconfortável… no banco da psiquiatria está claro…

5. A página online onde se encontra este testemunho clínico de craveira tyranossaurica tem algumas respostas que são bastantes interessantes e que passo a transcrever:

RIP – “com certeza este senhor só foi visitar o lorvão uma vez, pois se tivesse por lá permanecido mais dias, teria a oportunidade de verificar que as equipas multidisciplinares nesta instituição, há muito que são uma realidade!!
ao tentarem deslocar estas pessoas que vivem aqui há mais de trinta anos, é retirá-las de sua casa e das pessoas que sempre conviveram com eles, os funcionários e os habitantes da vila, estes sim a sua verdadeira família!!!”

Joana Seco: “Sem as tentarem reabilitar??????? Sr dr Horácio…..nota-se, pelo seu discurso…..que de facto não conhece o Hospital do Lorvão……Enfermeira Joana Seco”

José Cunha-Oliveira: “Tenho muita dificuldade em compreender em que diferiam as condições de alojamento, de clima, de reabilitação e dignidade humana do hospital de Lorvão, relativamente às condições do hospital de Sobral Cid ou do Centro de Arnes ou, até, de certos Departamentos de Psiquiatria e Saúde Mental, designadamente da Zona Centro e, mesmo, das existentes nas impecáveis e amplas instalações do HUC.
Tenho também muita dificuldade em compreender em que diferem as respetivas equipas multidisciplinares, e as coisas que fazem, das que são feitas em setting universitário.
Pois, mas a questão não é essa, obviamente. A questão é de hegemonia, de toma dos lugares de direção e de fuga às filas de excedentários e da mobilidade anunciada. Tudo o mais são sofismas e coisas que se dizem por dizer.
É claro que o futuro será dirigido por quem tem mais estatuto e títulos do que propriamente diferenças de fazer. E está certo, sempre assim foi e há de ser. Pelo menos, têm mais entrada nos centros decisórios.
Porém, do muito que se tem dito sobre o tema, não houve ainda uma única referência ao que se fará de diferente. Apenas se promete, vagamente, que se fará melhor, ou se calha com mais “ciência”, o que sempre se tem feito.
Unidades de Cuidados Continuados de Psiquiatria, isso é o quê: asilos velhos com nome novo? Aonde vai o tempo em que se falava de residências comunitárias, reabilitação cívica (“empowerment”), formação profissional, emprego protegido, enfim, essas coisas diferentes. E, é claro, aonde vai a Psiquiatria Comunitária, agora transformada em Consultas de psiquiatria nos Centros de Saúde…
Acabar com os velhos hospitais psiquiátricos, sim, concerteza. Mas se apenas mudamos os doentes, internados ou ambulatórios, de serviços velhos, onde estão adaptados, para serviços novos, onde terão de se adaptar, e transferi-los de uns sítios para os outros, muito pouco mudará efetivamente no modelo de abordagem da doença mental e menos ainda na dignidade humana dos doentes.
Acrescentarei, para terminar, que mais do que o genuíno interesse pelo bem estar dos doentes nesta transferência dos hospitais psiquiátricos públicos para instituições privadas, estão prioritariamente em causa interesses de natureza orçamental, já que sai muito mais barato tê-los internados em instituições privadas. E que, por sua vez, sai muito mais barato manter o mesmo modelo de intervenção, agora dirigido pelo hospital universitário, do que por em marcha uma reforma profunda dos serviços de psiquiatria e saúde mental.”

6. Para finalizar, cumpre-me escrever Directamente para o Doutor:

6.1 Sr. Doutor, com todo o respeito, uma professora primária decente fazia-lhe jeito. Sei que é de outros tempos assim como de outros tempos são os meus pais por exemplo. O meu pai fala-me que nos vossos tempos, as professoras primárias usavam as ditas “meninas de 5 olhos” para castigar os meninos que não escreviam bem os ditados… Essa tal menina não deverá ter feito milagres na sua escrita.

6.2 Para o pessoal do pasquim: Se o artigo de opinião não vem bem escrito, ao menos, que cumpra aos redactores ou aos editores a função de lhe dar um toque de português com conta, peso e medida. Até nestes pequenos pormenores se denota um mau profissionalismo do jornal para quem os sustenta: os seus clientes.

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Isto sim é uma grande declaração

“This afternoon I signed legislation that will, effective today, replace the death penalty with life in prison without the possibility of release as the highest form of legal punishment in Connecticut. Although it is an historic moment – Connecticut joins 16 other states and the rest of the industrialized world by taking this action – it is a moment for sober reflection, not celebration.

“Many of us who have advocated for this position over the years have said there is a moral component to our opposition to the death penalty. For me, that is certainly the case. But that does not mean – nor should it mean – that we question the morality of those who favor capital punishment. I certainly don’t. I know many people whom I deeply respect, including friends and family, that believe the death penalty is just. In fact, the issue knows no boundaries: not political party, not gender, age, race, or any other demographic. It is, at once, one of the most compelling and vexing issues of our time.

“My position on the appropriateness of the death penalty in our criminal justice system evolved over a long period of time. As a young man, I was a death penalty supporter. Then I spent years as a prosecutor and pursued dangerous felons in court, including murderers. In the trenches of a criminal courtroom, I learned firsthand that our system of justice is very imperfect. While it’s a good system designed with the highest ideals of our democratic society in mind, like most of human experience, it is subject to the fallibility of those who participate in it. I saw people who were poorly served by their counsel. I saw people wrongly accused or mistakenly identified. I saw discrimination. In bearing witness to those things, I came to believe that doing away with the death penalty was the only way to ensure it would not be unfairly imposed.

“Another factor that led me to today is the ‘unworkability’ of Connecticut’s death penalty law. In the last 52 years, only 2 people have been put to death in Connecticut – and both of them volunteered for it. Instead, the people of this state pay for appeal after appeal, and then watch time and again as defendants are marched in front of the cameras, giving them a platform of public attention they don’t deserve. It is sordid attention that rips open never-quite-healed wounds. The 11 men currently on death row in Connecticut are far more likely to die of old age than they are to be put to death.

“As in past years, the campaign to abolish the death penalty in Connecticut has been led by dozens of family members of murder victims, and some of them were present as I signed this legislation today. In the words of one such survivor: ‘Now is the time to start the process of healing, a process that could have been started decades earlier with the finality of a life sentence. We cannot afford to put on hold the lives of these secondary victims. We need to allow them to find a way as early as possible to begin to live again.’ Perhaps that is the most compelling message of all.

“As our state moves beyond this divisive debate, I hope we can all redouble our efforts and common work to improve the fairness and integrity of our criminal justice system, and to minimize its fallibility.”

Dannel P. Malloy, Governador do Conneticut.

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Paz à sua alma

Um dia triste para toda a esquerda portuguesa.

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mesmo no anûs

Activistas em todo o mundo defendem a abolição da pena de morte nos países em que o código penal ainda a contempla.

Anders Breivik ceifou a vida a 86 jovens. No Texas, já teria sido electrocutado ou já estaria no chamado corredor da morte.

Em Oslo, Breivik pediu ou para ser absolvido ou para morrer à moda do Alabama.

E depois estendeu o braço melhor que o McCain, nesta pose que deve ser considerada como “power rangers, chamem o mega zord”

foto: Odd Andersen

Todo o “caso Breivik” é recheado de pormenores macabros. Os vídeos na internet em que Breivik explicava os passos para o horror. A defesa, a insistir o internamento numa ala psiquiátria e o réu a contrariar a defesa na medida em que não queria ir para a ala psiquiátrica, preferindo antes morrer. A observação dos métodos de ataques terroristas executados pela Al-Qaeda e as motivações relacionadas com o movimento nacionalista sérvio, sem esquecer o elogio ao Nazismo Alemão: “Os Nazis eram expansionistas, eu sou isolacionista” – a cada sessão de julgamento, Breivik e a sua defesa, para além de constantemente proferirem afirmações contrárias, trazem uma nova para contar.

A institucionalização é um termo criado nas prisões americanas para criminosos que, ou já não querem sair da cadeia depois de cumpridas longas penas porque já não se conseguem adaptar à vida em sociedade ou que saem da cadeia completamente reabilitados para a sociedade. A institucionalização é portanto um dos objectivos pretendidos pela justiça norte-americana, sendo que o principal é e sempre será a prevenção do crime por via de sanções duras que dêem o aviso à sociedade que a prática de certos comportamentos terão certas consequências.

No caso de Breivik, dúvido que a sua loucura seja o impedimento para se reabilitar, para se institucionalizar. Mantenho portanto o meu cepticismo quanto a este sujeito.

Não sou nem posso ser defensor da pena de morte. Ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém visto que esse é o direito mais primário do ser humano. No entanto, o castigo para Breivik deverá ser exemplar. Um sujeito deste calíbre é um perigo para a sociedade e deveria ser obrigado a cumprir aquela que acho a mais dura das penas para um ser humano: ajudar o próximo, sem limites, sem precedentes. Quero com isto dizer que caso fosse o juiz do caso Breivik, obrigaria Breivik a ajudar o próximo e a prestar serviço à comunidade até ao fim dos seus dias em troca da sua própria alimentação. Creio que não haverá um castigo duro tão humano para uma criatura tão feia como Anders Breivik.

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Que gesto de Di Natale

Sempre adorei António Di Natale. As suas cavalgadas pela ala esquerda valeram-lhe o título de melhor marcador da Serie A por duas vezes e o título de campeão do mundo pela Itália no Mundial de 2006.

É uma felicidade vê-lo ainda hoje, aos 34 anos, a ziguezaguear nas alas e a finalizar como ninguém. É sem sem dúvida um dos jogadores mais mortíferos que conheço em contra-ataque.

Em 2004 estacionou na Udinese vindo do Empoli e de Udine nunca mais saiu. Foram muitas as propostas que o extremo recebeu para continuar a sua carreira noutro patamar. Di Natale preferiu continuar a jogar num clube sem pressão onde é idolatrado pelos adeptos.

Sempre adorei Antonio Di Natale. Hoje, ficará eternamente gravado no meu coração.

Antonio Di Natale é um Homem com H grande. Decidiu requerer a custódia da irmã de Piermario Morosini, jogador falecido no sábado, para que esta possa viver consigo até ao resto dos seus dias. Isto porque Morosini era o representante legal da irmã (pessoa com deficiências físicas) depois de falecidos os pais e o irmão.

“Foi um excelente companheiro. Apesar de todos os problemas que tinha, estava sempre à disposição da equipa e dava todas as suas forças por ela. Ele queria viver e encontrar o êxito, para ele, para a família e para a irmã”afirmou o internacional Italiano.

A Udinese, clube que emprestou Morosini ao Livorno também já criou um projecto para ajudar Maria Carla, irmã do malogrado.

Está decidido. A cada ano que este blog dure, a cada 17 de Abril, ficarão apenas as imagens de Morosini e Di Natale. A Udinese também ganhou um especial carinho no meu coração!

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mentira (nunca confies numa mulher; ou num homem)

“-Talvez, Ann, talvez você tenha razão. Já não falta muito para fazer um ano que aqui cheguei: foi um ano muito duro, uma vida diferente de tudo aquilo a que estava habituado. E sem ninguém, ninguém rigorosamente, em quem confiar, com quem falar, com quem estar assim, como nós estamos agora, descontraidamente à conversa. A visita do João veio interromper isso, mas eu sei que é apenas um breve devaneio: dentro de alguns dias ele vai-se embora e tudo regressa ao normal. E o normal, Ann, é às vezes difícil de suportar.

– Eu sei, Luís, eu calculo que sim. Mas você sabe, ao menos, que pode contar sempre comigo e com o David. Nós gostamos sinceramente de si e temos falado várias vezes sobre a sua situação. Nós, ao menos, temo-nos um ao outro, mas você não tem ninguém. Estas noites, este terraço, devem ser muitas vezes duros de aguentar.

Luís Bernardo olhou-a: estava linda, quase irreal. Teve medo de que, se estendesse a mão para lhe tocar, ela desaparecesse. Resolveu experimentar:

– Ann, eu não duvido, por um instante que seja, da vossa amizade. Mas, como sabe, o David e eu temos missões diferentes e, se calhar, opostas. Talvez tenha de chegar o dia em que as nossas missões respectivas afastem a amizade que construímos de formaespontânea. Talvez me desse mais jeito, ou a cada um de nós, que afinal não nos tivéssemos tornado amigos: em caso de crise, tornaria as coisas mais fáceis.

– Pois é, vocês homens têm esse lado de conflito interior, que veneram. Por dever de consciência, suportam inimigos e abandonam amigos. Eu já vivi isso na pele, noutros tempos… Mas oiça, Luís, eu sou mulher, sou sua amiga e não vivo conflitos desses: no que depender de mim, eu não o abandonarei.

Ele quedou-se mudo, sem saber o que dizer. Nem sequer percebia bem o que ela lhe tinha querido dizer. Sentiu-se à toa, talvez do vinho e do cognac, da lua cheia, da devastadora beleza da sua pele, do seu peito, do seu cabelo, do seu olhar. Sentiu-se tonto e levantou-se para se encostar à balaustrada do terraço e respirar um pouco da brisa que vinha do mar e que o calor da noite não sufocava na passagem.”

Miguel Sousa Tavares in Equador, páginas 201 e 202.

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Homicídio em nome individual

Por Ian Buruma, especialista em política e religião e professor no Bard College em Nova Iorque

“O que terá levado o jovem muçulmano de nacionalidade francesa, Mohammed Merah, a assassinar três estudantes judeus, um rabino, e três soldados, sendo dois deles seus correligionários? O que terá levado outro homem, Anders Breivik, a abater a tiro mais de 60 adolescentes num acampamento de verão da Noruega no ano passado? Esta vaga de assassinatos é tão incomum que as pessoas exigem explicações.

Qualificar estes assassinos como “monstros”, como alguns se apressaram a fazer, pouco esclarece o problema. Eles não eram monstros, eram jovens. E descartá-los como loucos é igualmente evasivo. Se o seu estado fosse de insanidade mental, nada mais precisaria ser explicado.

Destacam-se duas explicações, ambas de carácter amplamente sociopolítico. Uma foi apresentada pelo polémico activista muçulmano Tariq Ramadan. Ele responsabiliza a sociedade francesa. Mais especificamente culpa o facto dos jovens franceses de origem muçulmana serem marginalizados por causa da sua fé e da cor da sua pele.

Mesmo tendo passaportes franceses, são tratados como estrangeiros indesejáveis. Quando o presidente francês, Nicolas Sarkozy, ele próprio filho de imigrantes, afirma que há demasiados estrangeiros em França, coloca os jovens como Merah num impasse ainda maAior. Uma pequena minoria de homens nesta situação poderia atacar movida pelo desespero.

A outra explicação, apresentada por Sarkozy, toma à letra as palavras de Merah. Afirmou que estava a protestar contra as operações militares francesas em países muçulmanos e a vingar a morte de crianças palestinas. Queria deitar a baixo o estado francês como um guerreiro sagrado islâmico. Foi inspirado pela Al-Qaeda. Então por que não acreditar nele? Daí a decisão de Sarkozy prender outros muçulmanos suspeitos de actos de extremismo islâmico e impedir alguns imãs de assistir a uma conferência religiosa em França.

Aqueles que consideram o extremismo islâmico como sendo o problema também têm tendência a apontar jovens assassinos como Merah como exemplos de integração falhada. Eles nunca se tornaram suficientemente franceses. Os imigrantes devem ser forçados a partilhar os “valores ocidentais”.

Embora ninguém negasse que Anders Breivik não é suficientemente norueguês, também se poderia ter acreditado na sua palavra. O discurso dos demagogos xenófobos parece tê-lo convencido de que tinha que matar os filhos das elites social-democratas, a fim de proteger a civilização ocidental contra os perigos do multiculturalismo e do Islão. Os seus crimes foram o resultado extremo de ideias perigosas.

Nenhuma das explicações está totalmente errada. Muitos jovens muçulmanos sentem-se indesejados nos seus países de nascimento e a linguagem extrema, quer seja utilizada por islamitas ou pelos seus opositores, ajuda a criar um ambiente propício à violência.

Mas tanto Ramadan como Sarkozy são demasiado simplistas, pois reduzem assassinatos invulgares a explicações simples. Mesmo quando são confrontados com a rejeição, a maioria dos jovens muçulmanos não se tornam assassinos em massa. Merah é demasiado anómalo para servir como um exemplo típico do que quer que seja, incluindo a discriminação racial ou religiosa.

Longe de ser um fanático religioso, Merah cresceu como um pequeno delinquente, sem qualquer interesse na religião. O apelo do extremismo islâmico pode ter constituído a sua glorificação da violência mais do que qualquer conteúdo religioso. Ele gostava de ver vídeos jihadistas de decapitações. Também tentou entrar para o exército francês e para a Legião Estrangeira. O exército recusou-o devido aos seus antecedentes criminais. Se os franceses não o quisessem, iria juntar-se aos guerreiros santos: qualquer coisa que lhe desse uma sensação de poder e um pretexto para saciar os seus impulsos violentos.

Muitos jovens são atraídos para a fantasia de violência; muito menos são aqueles que sentem a necessidade de a colocar em prática. A ideologia pode servir como uma desculpa ou justificação, mas raramente é a principal fonte de actos individuais de brutalidade. Na maioria das vezes as vagas de homicídios são uma forma de vingança pessoal – indivíduos falhados que pretendem fazer explodir o mundo que os rodeia, porque se sentem humilhados ou rejeitados, quer seja a nível social, profissional, ou sexual.

Por vezes, os assassinos parecem não ter qualquer desculpa, como no caso de Eric Harris e Dylan Klebold, que em 1999 dispararam sobre 12 colegas e um professor na sua escola em Columbine, no Colorado. Neste caso, as pessoas culparam os jogos de vídeo e filmes sádicos que os assassinos tinham estado a ver. Ainda assim, a maioria dos entusiastas deste tipo de entretenimento não sai por aí a matar pessoas.Breivik tinha fantasias de ser um cavaleiro em luta contra os inimigos do Ocidente. Merah imaginava que era um jihadista. Quem sabe o que os assassinos de Columbine pensavam que estavam a fazer. Mas as razões pelas quais cometeram os crimes só eles as sabem e não podem ser atribuídas principalmente ao entretenimento ou a outros materiais que eles tenham consumido.

Proibir esses materiais tem um apelo estético, com certeza, e as figuras públicas que pregam a violência devem ser sempre condenadas. O discurso do ódio e a ideologia violenta não são irrelevantes. Mas atribuir-lhes uma grande importância em casos como os de Merah ou Breivik pode ser erróneo.

É pouco provável que a censura resolva o problema. Proibir o Mein Kamp de Hitler ou proibir a exibição de símbolos nazis não impediu os neonazis na Alemanha de assassinar os imigrantes. Suprimir a pornografia violenta não nos livrará dos violadores ou dos homicídios cometidos por jovens adolescentes. Impedir os demagogos de fazer discursos inflamados sobre os muçulmanos ou multiculturalistas não irá impedir um futuro Anders Breivik. E bloquear a entrada de imãs na França não vai impedir outro Merah de entrar em fúria assassina.

De facto, comparar os actos selváticos de Merah aos assassinatos do 11 de Setembro de 2001, como Sarkozy fez, é dar demasiado crédito ao assassino. Não existem provas de que ele faça parte de algum grupo organizado, ou que esteja na vanguarda de um movimento revolucionário. Utilizar este caso para instigar o medo de uma ameaça islâmica para a sociedade pode fazer sentido a nível eleitoral para Sarkozy. Mas provocar o medo raramente é a melhor receita para evitar mais violência. Pelo contrário, é mais provável que a alimente.”

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Quem tem medo do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos?

Por James A. Goldston, Director Executivo da Open Society Justice Initiative, e Yonko Grozev, da firma búlgara de advogados Grozev & Dobreva

Numa altura em que a crise da dívida Europeia fractura a crença pública nas instituições políticas e económicas do continente, esperar-se-ia que os líderes da Europa fortalecessem tantos símbolos unificadores quantos pudessem. Em vez disso, permitiram que uma das jóias da integração Europeia posterior à II Guerra Mundial – o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) – também fosse ameaçada.

Ao contrário da União Europeia, sedeada em Bruxelas, e desde há muito atacada pelo seu défice democrático, o TEDH, sedeado em Estrasburgo é, se algo, demasiado bem amado. Em 2011, mais de 60.000 pessoas procuraram a sua ajuda – muito mais do que as que podem esperar uma decisão fundamentada. (Em contraste, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos recebe cerca de 10.000 petições por ano.)

Para salvar o TEDH deste fardo esmagador, alguns estados membros propuseram mudanças que poderiam enfraquecê-lo, mesmo que não intencionalmente. Aqueles de nós que apaixonadamente acreditam no Tribunal e nas suas conquistas devem pronunciar-se agora para persuadir os protagonistas de reformas mal orientadas a reverter o rumo. Em vez disso, os 47 estados membros do TEDH – com 800 milhões de pessoas – precisam de arcar com mais responsabilidade para fazer funcionar o sistema existente.

Fundado no rescaldo do Holocausto, o TEDH tornou-se um símbolo potente do compromisso da Europa ao governo pela lei, e não pela força, por fazer vingar os direitos à vida, ao tratamento humanitário, à liberdade de expressão, e ao acesso a um advogado. Por exemplo, o Tribunal decidiu que as infames “cinco técnicas” – uma forma prévia de “interrogatório melhorado” empregue pelos Britânicos na Irlanda do Norte na década de 1970 – constituíam um tratamento inumano, e condenou a segregação racial para as crianças Roma nas escolas Checas.

Por causa da sua qualidade, as opiniões do TEDH têm um impacto profundo para além da Europa. Quando Estrasburgo fala, os juízes e os advogados do mundo ouvem. Até o Supremo Tribunal dos Estados Unidos citou as suas conclusões quando rebateu as leis anti-homossexualidade no Texas em 2003.

Não obstante, o futuro do TEDH está em sério risco. Como único verificador imparcial do abuso de poder em alguns países, o Tribunal está atolado em queixas – mais de 60% vêm da Rússia, Turquia, Itália, Roménia e Ucrânia.

Alguns argumentam que a resposta à enchente de casos está na limitação dos poderes do Tribunal. Mas essa abordagem parece insensata.

O Primeiro-Ministro Britânico David Cameron, por exemplo, disse à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa que as decisões nacionais “deveriam ser tratadas com respeito” – outro modo de se referir a uma menor vigilância judicial. De modo similar, outros altos funcionários pediram novas restrições em casos levados ao TEDH, incluindo o diferimento para aqueles tribunais nacionais que supostamente tomaram plenamente em conta a legislação Europeia sobre direitos humanos.

No Reino Unido, a decisão de 2005 do Tribunal contra a retirada generalizada de direitos de voto para os prisioneiros, com o pretexto de que essa usurpação de direitos pode ser desproporcional à ofensa, provocou a ira oficial. E, no princípio deste ano, o governo Cameron indignou-se por uma decisão que impediu a deportação de um pregador Islâmico para a Jordânia por acusações de terrorismo, porque o seu julgamento aí poderia ser viciado por provas obtidas sob tortura.

Mesmo sob novas regras, tais casos podem ainda ser levados ao Tribunal, porque levantam questões fundamentais que requerem interpretação da Convenção Europeia. Na verdade, não há provas que as alterações propostas dirigidas à limitação da autoridade do tribunal reduziriam o volume de casos. Mas enviam uma perigosa mensagem de que alguns governos deveriam ser isentos dos padrões que se aplicam aos restantes.

A redução do fluxo de queixas depende, acima de tudo, dos esforços dos governos para salvaguardar domesticamente as normas legais de conduta – mesmo que tenham que ser forçados e humilhados para que tal ocorra. Decisões judiciais inequívocas e vinculativas do Tribunal, muitas das quais requerem que os governos compensem as vítimas, estão entre as mais eficazes ferramentas para pressão construtiva – e podem bem conseguir um melhor valor na promoção das normas legais de conduta do que os milhões de euros investidos anualmente em assistência técnica e formação nos estados faltosos.Adicionalmente, as reformas legislativas implementadas em 2010 precisam de tempo e de recursos para funcionar. Todos concordam que o TEDH está a fazer progressos na redução do conjunto acumulado de pedidos pendentes.

Pode ser feito mais. O Tribunal pode aumentar o número de “julgamentos piloto” respeitantes às ofensas sistémicas, receitar medidas mais específicas de recurso, e endurecer os prémios monetários quando violações repetidas reflectirem falhanços persistentes no respeito a julgamentos anteriores. O Comité Ministerial, que orienta a implementação, deveria emitir sanções públicas quando fosse apropriado. E os estados devem levar mais a sério as suas obrigações para remediar violações antes de os casos chegarem a Estrasburgo.

Na verdade, nenhum tribunal acerta em todas as decisões, ou agrada a todas as partes. Mas mesmo os governos democráticos por vezes fazem grandes erros. Alguns líderes políticos parecem demasiado preocupados com os seus próprios desacordos com decisões individuais para verem o interesse maior em preservar uma instituição Europeia que desperta a admiração generalizada.

Os próximos dois meses serão decisivos. O Reino Unido, que detém actualmente a Presidência rotativa do Conselho da Europa, anunciou que procurará a adopção em Abril de uma declaração ministerial sobre a reforma do Tribunal. Embora uma versão preliminar esteja a circular nas capitais nacionais, o papel dos grupos da sociedade civil permanece pouco claro. É crucial que aqueles que têm maior interesse no ECHR – o povo da Europa – participem significativamente nestas discussões.

Numa época de restrição financeira, os juízos do Tribunal emitem mais de 1.000 sentenças por ano, muitas de grande importância, por menos do custo do orçamento de publicações da UE. Meio século depois do seu nascimento, o TEDH fornece um bem público inestimável, não apenas para os Europeus, mas para todas as pessoas preocupadas com os direitos humanos em qualquer parte. Nas próximas semanas, os governos da Europa serão medidos pelo seu compromisso na preservação deste recurso global vital.

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Mato, logo existo

Por Dominique Moisi, autor do livro Geopolitics of Emotion

“É preciso lutar contra os terroristas e contra as causas do terrorismo com a mesma determinação”. Essa fórmula, inventada há dez anos, no rescaldo dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, por líderes tão diversos como Javier Solana, então secretário-geral da NATO, e o então presidente dos EUA, George W. Bush, continua da mesma forma válida no rescaldo do recente massacre em França.

O Estado francês conseguiu identificar e “neutralizar” o terrorista em pouco tempo, apesar de persistirem duas questões cruciais: Ele deveria ter sido preso muito antes? Poderia ter sido capturado vivo? Agora, o Estado francês precisa de ir mais longe. O presidente francês, Nicolas Sarkozy estava certo ao chamar Mohammed Merah um “monstro”. Mas Merah foi o nosso monstro. Ele nasceu, foi criado e foi distorcido em França, tal como os terroristas que atacaram o metro de Londres, em Julho de 2005, foram produtos da sociedade britânica.

É imperativo, não só para a França mas para o mundo inteiro, entender como é que um único e solitário homem foi capaz de ter um país inteiro como refém, durante quase uma semana. A única forma que Merah encontrou para dar sentido à sua vida parece ter sido assassinar soldados e crianças judias. Matar – e da maneira mais fria que se possa imaginar – era para existir.

Muitos franceses inicialmente, e no seu íntimo, esperavam que o que tinha acontecido em Toulouse fosse provar ser uma repetição dos ataques em Oslo, em 2011 – que o terrorista se revelasse ser o produto da extrema-direita. Merah alegou estar a agir em nome do fundamentalismo islâmico; na realidade, ele era o produto de uma seita sangrenta e pervertida. Como pode um insignificante delinquente, uma criança perdida da nação francesa, cair nas mãos do ódio terrorista de qualquer tipo?

Os assassinatos no sudoeste de França reflectem três factores principais. Primeiro, há o campo de batalha do Médio Oriente, alargado de modo a incluir o Afeganistão e o Paquistão. Esses problemas não foram a causa directa dos ataques, mas também não eram um mero pretexto. Os problemas dessa região incivilizada agem como uma caixa-de-ressonância particularmente perigosa, para a juventude muçulmana alienada em França.

Segundo, a alienação é a realidade para muitos franceses muçulmanos, agravada por uma crise económica que resultou na elevada taxa de desemprego entre os jovens – e que atinge a juventude muçulmana de forma particularmente intensa, retardando a sua integração na República francesa.

Finalmente, um desvio de identidade em França pode atingir uma dimensão mais séria. É pura coincidência o facto de Merah, que era de ascendência argelina, ter optado agir no preciso momento em que a França e a Argélia estavam a comemorar os 50 anos da independência argelina?

Merah provavelmente não se sentiu nem francês nem argelino. Escolheu o que para ele seria uma identidade muçulmana. Mas foi uma versão perversa, extrema e sectária do islamismo. Questões pessoais – a ausência de um pai ou uma estrutura familiar coesa – provavelmente precipitaram o seu desvio de identidade. Ele estava à procura de um modelo que pudesse impor algumas regras na sua vida e não conseguiu descobri-lo até encontrar o terrorismo.

Confrontada com o horror das acções de Merah, a nação francesa tem demonstrado a sua união. Ao escolher como seus alvos soldados muçulmanos e cristãos, bem como crianças judias, Merah reforçou a solidariedade de um país que queria dividir. Mas esta união é instável. A República francesa tem que recapturar seus territórios perdidos mais importantes: jovens alienados e frágeis de origem imigrante.

A tragédia favoreceu, inegavelmente, a campanha de Sarkozy para vencer o segundo mandato das eleições presidenciais em Abril. Ele estava no comando e agiu de forma decisiva e responsável. A agenda política, pelo menos a curto prazo, desviou-se para a segurança, onde Sarkozy tem uma vantagem estrutural comparado com o seu rival socialista, François Hollande. Mas, tal como o ex-primeiro-ministro britânico Harold Wilson disse a famosa frase: “Uma semana é muito tempo na política”.

Muita coisa pode mudar antes da primeira volta das eleições. O que preocupará mais os eleitores franceses quando votarem? Será que os receios económicos voltarão a prevalecer sobre a agenda de segurança? Ou será que os factores pessoais dominarão, com o reflexo de um “mais ninguém para além de Sarkozy”, de um lado, e uma falta de confiança no não carismático – e, possivelmente, não preparado – Hollande?Os ataques selvagens de Merah são um lembrete amargo de que o terrorismo ainda assombra muitas sociedades. A segurança deve ser reforçada, enquanto as suas causas precisam de ser abordadas. E descobriremos brevemente se este espasmo de terror foi apenas um trágico parêntese ou um ponto de viragem.

anotamento meu: o autor, apesar do texto brilhante, podia ter acrescentado à sua lista de argumentos (não deixa de ser uma teia argumentativa muito boa) que Merah foi a voz de uma imigração “francesa” cada vez mais apertada pelas declarações dos candidatos presidenciais e que também poderá ter sido o espelho do recrudescimento das tensões diplomáticas entre os países do Magreb e o Estado Israelita, assim como da própria França com o referido estado.

Tanto Marine Le Pen como Nicolás Sarkozy tem pautado as suas intervenções de campanha com um ataque declarado à imigração em França. Estas intervenções, como é de esperar num país multicultural como a França, têm causado muita inquietação em todas as comunidades imigrantes radicadas em França.

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Reinventando o banco mundial

Por Ana Palácio Ex-ministra dos Negócios Estrangeiros de Espanha e antiga Vice-Presidente do Banco Mundial

Anotação minha: Interessante para alunos de Relações Internacionais, Sociologia e Estudos Europeus.

“O comunicado de Robert Zoellick de que não se vai recandidatar a Presidente do Banco Mundial centrou as atenções na questão da continuidade da tradição de haver um norte-americano na presidência. Mas, apesar de ser uma questão legítima, trata-se apenas de um aspecto menor do debate necessário sobre o papel do Banco Mundial no século XXI.

Durante os seus 67 anos de existência, o Banco ultrapassou o seu conceito original com a criação de um tribunal arbitral e três instituições financeiras especializadas: uma para o sector privado, Sociedade Financeira Internacional (SFI), outra que garante seguros contra riscos políticos, a Agência Multilateral de Garantia dos Investimentos (MIGA) e a Associação Internacional de Desenvolvimento (AID), que financia os países mais pobres. O Banco Mundial tornou-se no Grupo do Banco Mundial, embora o seu pilar de fundação, o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), permaneça no seu centro. E esse é o problema.

O BIRD foi concebido em 1944, em Bretton Woods, como um instrumento através do qual os activos físicos de um mundo devastado pela guerra seriam reconstruidos, o enfoque do BIRD estava na reconstrução, ficando o desenvolvimento para reflexão posterior, com os primeiros empréstimos dirigidos exclusivamente à Europa. O foco de desenvolvimento do Banco surgiu quando a tarefa de reconstrução diminuiu e o seu âmbito e amplitude actuais foram consolidados sob a presidência de Robert McNamara, de 1968 a 1981.

Com a descolonização a impulsionar um “baby boom” de países independentes na década de 1950 e 1960, McNamara reinventou o Banco Mundial como uma pedra basilar do modelo económico do mundo livre e das relações internacionais. A União Soviética, embora signatária do Acordo de Bretton Woods, nunca aderiu ao Banco. Somente em 1992 a Federação Russa se tornou membro, juntamente com outras 13 ex-repúblicas soviéticas.

Em finais de 1990, o Banco alcançou uma adesão quase universal e, confrontado com o desaparecimento do comunismo, iniciou um intenso processo de autorreflexão, que abriu caminho para novos campos interessantes de operações, tais como a governança e anticorrupção. Mas as mudanças foram graduais e as questões mais profundas sobre a organização e a sua raison d’être nunca foram abordadas. Além disso, o imediatismo das necessidades criadas pela crise financeira de 2008 em termos de falta de segurança alimentar e escassez de crédito limitou esses debates.

O mais significativo dos muitos desafios enfrentados pelo Banco Mundial diz respeito à lógica da sua estrutura e funcionamento interno. Com dois terços do seu pessoal localizado em Washington DC, o Banco precisa, para superar a consequente rigidez, reorganizar a sua equipa de trabalhadores, composta por especialistas com cargos permanentes e uma infinidade de consultores, com poucos elementos entre estes. Além disso, a organização, concebida em primeiro lugar como um banco, ainda é o palco de economistas e especialistas em finanças, embora as operações de crédito estejam progressivamente a abdicar da sua preponderância. Em termos práticos, uma equipa de trabalho diversificada, descentralizada e, acima de tudo, flexível deve estar entre as principais prioridades do Banco.

Além disso, as reformas em matéria de governação têm ficado muito aquém do que é necessário e pecam na identificação das fontes de inércia que são obstáculos para a organização. A China, um interveniente chave do desenvolvimento e a segunda maior economia do mundo, ainda representa menos de 5% das acções do Banco com direito a voto, enquanto a União Europeia controla cerca de 37% e os Estados Unidos detêm 16%. Com oito europeus no seu Conselho de Administração, que é composto por 25 membros, o Banco continua a ser uma fraca imagem do mundo de hoje.

Mas o principal desafio do Banco Mundial consiste na definição da sua missão e actividades principais. O próximo presidente do Banco deve traduzir em política a distinção turva entre países “desenvolvidos” e “em desenvolvimento” e conduzir um ambiente caracterizado por um número significativo de actores do desenvolvimento, muitos deles privados e com objectivos restritos, embora muitas vezes com orçamentos superiores aos das agências tradicionais.

O Banco Mundial precisa de um líder que considere que o empréstimo já não é um argumento organizacional válido: Os bancos chineses concederam mais empréstimos à América Latina durante os últimos cinco anos do que o Banco Mundial e o Banco Interamericano juntos e África conta uma história semelhante. Da mesma forma que a reconstrução das finanças abriu caminho para o empréstimo de desenvolvimento ao longo da história do Banco, o seu foco actual em operações bancárias deve ser reconsiderado, uma vez que a principal fonte de valor acrescentado da organização reside no seu enorme potencial como centro de conhecimento e como coordenador de políticas internacionais.Por exemplo, enquanto as microfinanças, favoritas de muitas organizações de desenvolvimento, recebem muita publicidade e atraem numerosos doadores, as questões críticas, como a necessidade de construir um quadro regulamentar e institucional que garanta a segurança jurídica e permita que as microempresas floresçam, são tidas como menos apelativas. Abordar estas questões deve fazer parte do papel do Banco Mundial.

Ou considerando a ajuda internacional na área da saúde. Muitos países de África são testemunhas das quantias desproporcionais destinadas (principalmente por entidades privadas) à luta contra a SIDA, à malária e à tuberculose, enquanto os serviços gerais de saúde recebem apenas quantias simbólicas. Além disso, as condições prévias para iniciativas mais tangíveis – e portanto, mais apelativas – continuam a ser ignoradas. O fornecimento de vacinas, por exemplo, requer infraestruturas, coordenação logística e pessoal devidamente formado. O Banco Mundial é muitas vezes o único interveniente capaz e disposto a resolver todas estas questões de forma eficaz.

Actualmente, a comunidade internacional deve procurar um presidente do Banco Mundial que esteja em sintonia com a recusa crescente dos cidadãos comuns em tolerar desigualdades globais gritantes e que entenda que o desenvolvimento é mais do que o crescimento do PIB. Um líder com essas características, independentemente do seu país de origem, irá reinventar o Banco Mundial para o próximo século.”

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Nem mais

Luis Fernandes é um atento comerciante da baixa e acima de tudo um bom cidadão que não tem medo de denunciar as injustiças que vislumbra no seu dia-a-dia.

No seu blog, escreve-nos sobre a insensatez do homem contra o seu semelhante no estranho caso do Cortez, o músico cego e amputado que todos os dias costuma tocar pela baixa.

Confesso que neste minuto constroem-se muitas palavras no meu pensamento. Apetece-me escrever algo acerca de saúde, racionalidade, deontologia do socorrismo, humanidade, abismo de valores. Mas não consigo apelidar de homem aquele que é irracional. Ficamo-nos por aqui. Penso que cada um levará desta vida o mal que semeou.

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