Category Archives: História

chávez

ao contrário de muitos, não irei tecer muitas considerações sobre Hugo Chávez. já li algures que se teme uma espécie de primavera árabe no continente sul-americano. não consigo perceber o que vai na mente de quem profere tal asneira. se há altura em que os povos dos estados sul-americanos estão a ter prosperidade, esta é definitivamente a altura. prefiro aguardar pelo futuro para poder ter uma perspectiva melhor do que foi o efeito Chavez na Venezuela. como qualquer líder bolivariano, interessado em defender o interesse público e a soberania dos países sul-americanos contra a ingerência e tentativa de hegemonia das superpotências mundiais, desde sempre senti um enorme carinho pela figura de Hugo Chávez. pela defesa dos interesses públicos do povo Venezuelano na questão das plataformas petrolíferas controladas por empresas americanas (nacionalizadas em 2005 pelo estado venezuelano em prol do produto social) pela luta contra a pobreza na venezuela, pela expansão económica verificada no país nos seus mandatos e pelo acordo comercial celebrado com o nosso país. no entanto, nenhum destes items apaga o que tenho como certo: Chávez era autoritário. um ditador? não sei. não consigo descortinar se o era ou não. antigamente, bastava proibir a formação de partidos políticos para se construir um ditador. actualmente, o conceito de ditadura tem fronteiras muito ténues. a própria democracia é considerada por muitas correntes de opinião à esquerda como a ditadura da maioria sobre as minorias. recentemente, até o Nobel da Paz Lech Walesa, aquele que é tido como o maior democrata do leste proferiu algo que manchou o prémio que lhe foi dado e a própria democracia ao defender que os homossexuais deveriam estar fora do parlamento porque são uma minoria. (pre) conceitos trocados, portanto.

as duas ultimas medidas da administração chávez causam-me alguma preocupação em relação ao futuro do povo venezuelano. no ano 2012 chávez aumentou o salário dos venezuelanos em cerca de 133% e desvalorizou a moeda para tornar o produto venezuelano mais competitivo nos mercados. os venezuelanos nunca tiveram tanto poder de compra e tanto poder de crédito como hoje. pode-se mesmo dizer que só agora em pleno século XXI, contrariando a tendência que se está a manifestar desde o Consenso de Washington nos países ocidentais, os países sul-americanos estão a criar aquilo a que se chama de classe média. no entanto, estas duas medidas poderão ser nocivas e muito para o futuro do país. agregado ao aumento do poder de compra do povo venezuelano vem a necessidade de criar hábitos consumistas, muitos deles vindos do estrangeiro. e isso poderá trazer consequências para as balanças do país e para o crescimento de uma dívida externa desmesurável. um pouco à semelhança da armadilha na qual caíram os governos argentinos e brasileiros na década de 80, contudo, com características de crise diferenciadas. se os argentinos não conseguiram suportar uma factura energética elevadíssima vinda dos choques petrolíferos que causou desiquilíbrios gravíssimos na sua balança de pagamentos, aliada a um jogo de valorizações e desvalorizações cambiais da moeda argentina com base no dólar (completamente impensável para um país como a Argentina) o que levou à criação de uma dívida externa que ainda hoje é paga (e bem paga) pelo povo argentino. o caso brasileiro demonstrou um crescimento salarial desmesurado na década de 80 (Plano Cruzado) aliado também a um jogo cambial e ao crescimento do desemprego, factores que fizeram disparar a inflacção do país para níveis insuportáveis durante a presidência de José Sarney (atingiu um valor acumulado de 1076,5%). no caso venezuelano, ou muito me engano, ou a história argentina e brasileira poderá voltar a repetir-se (noutros moldes e noutro contexto sócio-económico é certo) até porque assistimos a uma premissa comum: nunca antes na venezuela se distribuíram tantas rendas como hoje, à semelhança dos primeiros anos da presidência Sarney no Brasil.

a morte de Chávez abre muitos cenários: sucessão, reforma estatal, renovação, golpe militar instituído à conta dos interesses de uma superpotência, declínio e queda do sistema socialista por via de eleições. são conjecturas que se fazem actualmente, se bem que como o próprio termo significa no léxico português, são ideias sobre algo que ainda não se veio a verificar. resta portanto aguardar pelo desenlace dos acontecimentos em Caracas. uma coisa tenho como certa: a grandeza da liderança de chávez deixa um hiato no país que vai demorar muito tempo a preencher. pelo meio, tudo pode acontecer.

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revisionismos históricos importantes

a ler o artigo de Sérgio Aníbal no Público Online.

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angolanices

Há uns meses atrás, se bem me lembro, num programa Prós e Contras transmitido na RTP, o Ministro Relvas dirigiu-se ao séquito real do presidente José Eduardo dos Santos com tamanha gentileza, repito, tamanha gentileza, convidando os Angolanos a investir em Portugal. O jogo de charme foi de tal maneira galanteador e já agora, cínico, hipócrita e pedante, que as investidas do Ministro Português nas arcadas de sua alteza, o Rei de Angola, levaram a que a balança de investimentos entre os dois países fosse favorável aos investidores africanos. Relvas, o eixo-do-mal, foi mais fundo na questão: houve quem narrasse que tamanha bajulação ao reino do deus-dará, perdão, ao reino de José Eduardo dos Santos era um dos actos mais pedantes da história deste país. Pedro Rosa Mendes, Raquel Freire e seus pares, tinham, repito, tinham um programa na Antena 1 que foi cancelado a pedido do eixo-do-mal. Ainda hoje, nenhuma entidade reguladora para a comunicação social deste país se interessou minimamente pelo jogo de bastidores e pelo jogo de pressões que foi feito nos bastidores da administração da rádio difusora pública portuguesa.

O jogo de sedução do eixo-do-mal, leia-se acrónimo de Relvas, foi tão longe que hoje o Jornal de Angola, órgão de comunicação social do regime angolano e único diário que é permitido em território angolano sem censura estatal, publicou, a respeito das investigações que estão a ser movidas pelo DCIAP a uma alegada transferência bancária detectada pelo Banco de Portugal feita por uma empresa offshore para uma das contas do Procurador Geral da República de Angola no valor de 70 mil euros, uma missiva ao governo Português.

O director do referido jornal, no editorial, José Ribeiro, como podemos ler no link supra citado, revelou para além de uma falta de enquadramento histórico em relação à pequena e inenarrável história do seu país, um profundo caos de conhecimento em relação à ética e deontologia jornalistica. Para além do mais, este dito jornal consegue ser tão fraco que nem os objectivos para o qual foi criado (propaganda pura e dura do regime angolano) consegue cumprir dada a fraqueza de espírito de quem escreve. Para além de revisionismo histórico mal fundado, erróneo e partido de meras especulações que tem como pano de fundo a necessidade que o regime angolano tem de elevar as hastes das bandeiras nacionais do povo angolano a partir de um bode expiatório para os seus males (neste caso os portugueses, o imperialismo, o colonialismo e a sua mal fundada relação com a UNITA que desde já não compreendo) por parte do regime angolano, na pele de José Ribeiro, existe uma clara demonstração de falta de gratidão em relação ao que Portugal tem dado às elites angolanas.

Nós, o povo português, não temos culpa das nossas “elites políticas corruptas”, não temos culpa da UNITA e tão pouco temos culpa da forma como se celebram contratos em Angola. Não temos culpa que os Angolanos continuem a insistir na ideia que a celebração de um contrato público entre uma determinada empresa e o estado angolano contemple para a mesma obra ou encargo 5 orçamentos, sendo eles divididos nos louros pela empresa a cargo, pelo líder do país, pelo estado representado pelo líder do país, pelo líder do país e pela empresa chinesa que deixa passar o negócio. Não temos culpa pelo facto do General Spínola sempre se ter demonstrado contra a auto-determinação das nossas colónias e muito menos temos culpa do tosco processo de descolonização levado a cabo pelos sucessivos governos portuguesas da era do PREC e pós PREC. Mas isso, como afirmei anteriormente, nem vale a pena comentar porque as premissas que José Ribeiro apresenta não são factos historicamente provados mas sim frutos de uma memória colectiva angolana que revela um certo complexo de inferioridade. Recalcamentos.

Vamos ao que realmente que me interessa em toda esta questão: como bom conhecedor da lei que é, o Procurador Geral da República de Angola, João Maria Sousa, deverá saber que uma das funções do banco de portugal é efectivamente executar a supervisão económica de todas as transferências bancárias efectuadas em território português, em particular, de todas aquelas que possam levantar suspeitas de ilegalidade, fraude ou fuga aos impostos. Como de facto se trata, alegadamente, de uma transferência bancária realizada por uma entidade offshore, vulgo, por uma entidade que por norma anda de mãos dadas com a feitura de investimentos que derivam de capitais que por defeito deveriam ser entregues ao tesouro português, e como a tal transferência não aparece declarada nos rendimentos do PGR Angolano, não será de estranhar que o Banco de Portugal, depois de escândalos no seio de entidades bancárias cujos negócios deram para o torto por falta de supervisão, tenha aprendido algumas lições. É de estranhar portanto que tal procedimento não seja tido como comum nas entidades de supervisão económica e nas entidades judiciais angolanas. Se calhar a culpa é da globalização. Perante a necessidade que os países de terceiro mundo tiveram de construir as suas economias de forma a poderem entrar nos mercados, “esqueceram-se” de consolidar a democracia e o institucionalismo democrático. Em terras de cegos, quem tem olho é rei.

Estranho também, pelo facto da balança de investimentos feitos entre investidores dos dois países estar favorável ao capital angolano, que José Ribeiro considere que o investimento vindo desse país não é bem vindo em Portugal. A 29 de Agosto de 2012, publicava o Diário Económico (felizmente que não é um órgão de comunicação detido pelo tio Balsemão nem pelos Angolanos ao contrário do Jornal de Negócios) que até à data, durante o ano 2012, a filha do líder da macacada, tinha investido 137 milhões de euros no tecido económico português, capital esse que vá-se lá saber fazem de Isabel dos Santos uma das mulheres mais ricas do mundo e em particular, uma das maiores investidoras estrangeiras no nosso país. Factos. E contra factos não existem argumentos, nem os vindos de gente que quer propagandear de forma barata, inútil e mal feita. A mesma Isabel dos Santos, segundo outra revelação vinda do Económico, já tem 2,5 mil milhões de euros investidos em empresas cotadas na bolsa portuguesa, sendo grossa fatia está investida na Sonangol que por sua vez é a principal mandatária dos trabalhos da petrolífera portuguesa, a Galp, em Angola. Convém também explicar a um público menos atento, que em Portugal, ao contrário de Angola, o investimento estrangeiro, por lei, não necessita obrigatoriamente de ter o compadrio de alguém ligado ao regime para ser feito. E mais uma vez, parto de factos. E nós é que somos, aos olhos de José Ribeiro, imperialistas. Talvez, creio, que esta seja uma manobra tosca que tente explicar que o regime angolano fartou-se de tanta ingerência estrangeira dentro do seu território e sobre questões de soberania que agora está a querer experimentar um pouco desse veneno junto da soberania de outros estados.

O José Ribeiro age de acordo com o que lhe dizem. Se lhe dizem que os portugueses são maus, ele escreve que são maus. Se lhe dizem que o Benfica perdeu e o Benfica ganhou, ele escreve que perdeu. O José Ribeiro é pior que um papagaio. Ou melhor, o José Ribeiro é pior que o papagaio dos programas da Ana Maria Braga na Globo. O José Ribeiro não é propagandista porque nem sabe sequer o que é propaganda. Não quero com isto fazer alusões aos tempos da velha senhora, mas talvez lhe desse jeito ver ou conhecer alguns dos métodos de António Ferro. A SPN foi uma instituição que durante muitas décadas deverá ter ecoado em Angola.

Bem, o assunto já vai longo. O processo de investigação está em curso. O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Português está interessadíssimo em manter as boas relações diplomáticas entre os dois países. Nem que para isso tenha que dar novamente o seu recto ao governo angolano. O eixo-do-mal Relvas, aquele que um dia já ousou tentar vender a RTP a um grupo angolano chamado Newshold que era angolano mas não era angolano porque tinha a sua sede no Panmá, deve estar em pulgas em São Bento. Don´t mess with the Boys.

Para finalizar, ainda bem que estou a escrever este post em Portugal. Em Angola, já estaria censurado.

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A Dança

1985. Programa de Chico Buarque e Caetano Veloso na Globo. Uma das primeiras aparições nacionais dos Legião Urbana de Renato Russo, o novo rock de Brasilia, pela porta da geração mpb. Chico e Caetano ficaram maravilhados com a dança ao estilo Ian Curtis (Joy Division) Morrissey (Smiths) feita por Russo. Cedo, os dois perceberam que ali estava a ser gravado um momento histórico da viragem da música brasileira: a geração mpb que tanto tinha ajudado a mudar o paradigma social da sociedade brasileira durante o período da ditadura militar estava a presenciar uma nova maneira de fazer música no Brasil. Em 1985, muito influenciados pela onda de Madchester, bandas como os Legião, os Capital Inicial, os Plebe Rude (Brasília) em conjunto com os colegas de São Paulo (Paralamas do Sucesso) e do Rio (Titãs) acabaram por “derrotar” a mpb e instituir uma nova fase de culto na música brasileira.

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the busby boys

man utd

O 54º aniversário da tragédia de Munique, uma das maiores tragédias de sempre do futebol.

Na foto, a equipa do United de Sir Matt Busby, no último jogo realizado antes do acidente no aeroporto de Munique, em Belgrado, num jogo contra o Estrela Vermelha a contar para a Taça dos Campeões Europeus.

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clássicos (de fim de noite)

Um hino ao futebol! Camp Nou, quartos-de-final da Copa do Rei 1996\1997. Eu vi este jogo em directo na TVI. Graças à minha mãe que me deixou ficar acordado até às 11 da noite para poder ver até ao fim. E ainda bem que deixou visto que foi um daqueles jogos que era capaz de alegrar uma criança de 9 anos num tempo em que o futebol que vinha de fora era escasso no país.

Barça de sonho com jogadores como Vitor Baía, Busquets (2º guarda-redes; pai de Sérgio Busquets), Albert Ferrer, Pep Guardiola, Fernando Couto, Luis Figo, Giovanni (que pés magníficos tinha este brasileiro) Sergi (o melhor defesa esquerdo que alguma vez vi jogar; era uma locomotiva a fazer todo o flanco e tinha uma capacidade de cruzamento que só vi anos depois, no lado direito no Paraguaio Arce), Zubizarreta (3º guarda-redes, anos mais tarde titular da selecção espanhola quando já actuava no Valência), Robert Prosinecki (outro dotado com uns pés do outro mundo; no entanto as lesões haveriam de lhe estragar a carreira), Hagi (outro daqueles que colocava a bola onde queria), Hristo Stoichkovic, Luis Enrique, Guillermo Amor, Miguel Angel Nadal (tio do tenista Rafa Nadal), Albert Celades, Abelardo, Pizzi e Jordi Cruyjff (que não deu nada), Ivan De La Peña e a estrela da companhia, Ronaldo O Fenómeno. Indiscutivelmente um dos melhores planteis de sempre da história do futebol.

Atlético de Madrid na ressaca do furacão futre mas no expoente da era Gil y Gil. Uma equipa que lutava pelo título e ombreava taco-a-taco com as duas superpotências do futebol espanhol. Jogadores como José Molina, Santi (um defesa central que passou praticamente despercebido aquela geração mas que ainda chegou a ser convocado para a Roja), Geli (um central muito forte fisicamente), Vizcaíno, Pantic, Diego Simeone (que saudades de o ver jogar!!) Aguilera e Caminero (a dupla de médios ofensivos da selecção espanhola de então), Bejbl, Quinton Fortune (antes de Manchester), Biagini, Ezquerro (extremo da selecção espanhola), Esnaider (anos depois seria contratado pelo Porto não tendo grande sucesso na sua passagem pelo clube da Invicta) e Kiko, anos a fio o colega de ataque de Raúl ou Morientes na Roja. No banco, Radomir Antic.

Meia-hora de terror para Couto e Baía. O Barça perdia por 4-0 e sofria uma humilhação frente ao Atlético. Baía tinha sido contratado por 5 milhões de euros (1 milhão de contos!!) ao Porto, sendo na altura o guarda-redes mais caro da história do futebol. Metia água por todos os lados a cada vez que a bola cercava a sua área. Dá-me uma nostalgia ao ver estas imagens. Nessa meia hora, Kiko e Pantic fizeram o que quiseram de Couto e Nadal. Na 2ª parte, foi o que foi. Não tenho palavras para descrever o rolo compressor da equipa orientada por Sir Bobby Robson (com Mourinho como adjunto) com De La Pena, Sergi, Figo e Ronaldo a encetar a reviravolta. Para ver e rever. Ainda bem que o youtube ainda tem destas reliquias. São património da humanidade.

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clássicos (de final de tarde)

Uma desbunda de futebol! O voo de Santillana no prolongamento a dar a passagem à final ao Real! Provavelmente a meia final de UEFA com mais vedetas da história do futebol: Santillana, Manuel Sanchis, Chendo, Butragueño, José António Camacho, Gordillo, Hugo Sanchez e Michel no lado do Madrid. Destes todos só vi jogar Sanchis. Era um líbero à moda antiga. Não era muito rápido, contrastando por exemplo com o colega de “zaga” no final da sua carreira (Fernando Hierro, a locomotiva) mas era um central muito inteligente no posicionamento e muito forte no desarme.
No lado do Inter: Zenga, Bergomi, Tardelli, Altobello e Karl Heinz-Rummenigge. De todos estes também só vi actuar Bergomi, já no final da sua carreira nos anos 90, não como defesa esquerdo mas como líbero. Em conjunto com Franco Baresi (Milan), Danny Blind (Ajax) e Marcel Desailly, foram os melhores centrais da década. De Rummenigge tenho o testemunho do meu pai que o viu actuar na Suiça ao serviço do Servette de Genebra, numa fase muito adiantada da sua carreira, ironicamente já como líbero à moda Beckenbaueriana.

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Democracia Corinthiana

Corinthians

Corinthians, São Paulo, 1981.

No ano de 1981, enquanto muitos estudantes, artistas e intelectuais participavam das campanhas pelo fim da ditadura militar no Brasil, um clube de futebol brasileiro teve uma experiência inédita de gestão compartilhada e democrática.

A Democracia Corithiana – movimento liderado pela direcção e por alguns jogadores do clube como Sócrates, Wladimir e Casagrande teve efeito renovador na estrutura autoritária que caracterizava e caracteriza a direcção de clubes de futebol. A Democracia Corinthiana ultrapassou as quatro linhas e também só foi permitida porque Sócrates era uma grande figura do futebol Brasileiro e o Corinthians era e (é) o clube com mais adeptos no Brasil (actualmente estima-se que sejam mais de 16 milhões em todo o território brasileiro).
A Democracia Corinthiana procurou a participação de atletas e funcionários do Corinthians nas decisões  que diziam respeito ao clube. Entre os itens que se pretendiam decidir estavam a abolição da concentração para alguns jogos, a definição dos horários das viagens e hora de partida, a contratação de novos jogadores e as mudanças na equipa técnica. O movimento durou de 1981 a 1985. A Democracia Corinthiana não foi uma tentativa de revolução ou uma proposta concebida pelos jogadores do Corinthians.
Em 1981, o sociólogo Adilson Monteiro Alves foi convidado pelo então presidente do clube Waldemar Pires para ser o director de futebol. Alves nunca tinha sido dirigente de um clube de futebol. Logo, entrou com novas ideias (vindas da sociologia) que nunca tinham sido experimentadas no futebol até então: um processo colectivo de tomada de decisões que envolvia a participação de jogadores, funcionários e equipa técnica num modelo de gestão democrática.
A proposta de Alves acabou por ser um sucesso. Além de unir o balneário da equipa, ajudou o clube a ultrapassar uma das fases mais difíceis da sua história quando em 1981 o clube desceu à 2ª divisão brasileira. Com o consequente movimento dos jogadores e equipa técnica no processo de tomada de decisões, em 1982 e 1983, o Corinthians foi bicampeão paulista e subiu novamente à 1ª divisão. Como herança deste período, os jogadores que constituíam o elenco destes 4 anos de vida do clube são hoje os ex-jogadores com voz activa junto das direcções do clube.
Que contexto histórico favoreceu essa mudança de postura?
De acordo com os estatutos do Corinthians em 1981, o então presidente do clube Vicente Matheus não podia recandidatar-se para a re-eleição. Por isso lançou Waldemar Pires como candidato e incorporou-se nessa candidatura como vice-presidente convicto de que continuaria a mandar no clube. Porém, ao ser eleito presidente do Timão (alcunha carinhosa pela qual é conhecido o Corinthians) Pires rompeu com Matheus e foi nesse momento que decidiu que a gestão do Corinthians seria outra daí em diante. Convidou então Adilson Alves para ser director do futebol profissional e juntos haveriam de arquitectar a Democracia Corinthiana. A gestão de Pires durou até Março de 1985, aquando da eleição para a presidência do clube de Roberto Pasqua (membro da ARENA; Aliança Renovadora Nacional; partido criado em 1965 para apoiar o regime militar) que, como partilhava das ideias do regime, encerrou o projecto da Democracia Corinthiana.
A Democracia Corinthiana contribuiu para a re-democratização do Brasil na medida em que era uma equipa popular com milhões de adeptos no Brasil. O apelo do clube junto às massas foi fundamental para divulgar a necessidade da democracia no Brasil, principalmente entre as classes sociais mais jovens. O movimento foi portanto um sucesso nesse campo e no campo desportivo pois deu títulos e estabilidade organizativa ao clube. A nível social e política, encetou uma evolução muito interessante ao nível da cidadania, ao instruir civicamente milhões de brasileiros (corinthianos ou não) que não tinham quaisquer noções políticas. O que apareceu como uma proposta de relações profissionais tornou-se um marco político da história contemporânea do Brasil.
Campeonato do Mundo de 1982 em Espanha – O último presidente da ditadura militar brasileira João Baptista Figueiredo, tentou utilizar a estratégia de 1970. Tentou usar o futebol e a presença do “escrete” em Espanha para espalhar a ideia de um Brasil em pleno desenvolvimento, com a construção de grandes obras ao nível de infraestruturas e a selecção vitoriosa como a personificação do sonho de desenvolvimento. O Brasil, ou melhor, a selecção brasileira, era favorita à vitória em Espanha e ostentava nas suas fileiras jogadores como Zico, Junior, Luisinho, Socrates ou Falcão. Acabaram eliminados pela Itália de Paolo Rossi nos quartos-de-final e essa eliminação abalou ainda mais o regime.
Qual foi o papel de Sócrates na Democracia Corinthiana?
Sócrates era o líder da Democracia Corinthiana na medida em que era o “braço operário do movimento”. Ele foi o grande ideólogo do movimento e do processo colectivo de tomadas de decisão. Foi o principal entusiasta da ideia, chegando inclusive a levar a inscrição Democracia Corinthiana para o relvado. Foi o principal entusiasta de um projecto de cidadania e gestão partilhada que se estava a implementar podia-se tornar uma acção maior à escala brasileira.
Médico de formação, “o doutor”, alcunha pela qual ficou eternizado no mundo do futebol, tinha interesses na política na tentativa de disseminação da ideia de democracia no Brasil ditatorial. Já nos anos 80, como ídolo de todo um país, participou na campanha das DIRECTAS (movimento popular que reinvindicava eleições directas para a presidência do Brasil em 1983 e 1984). Sócrates acreditava que o futebol poderia ser veículo de canalização de informação a favor da democracia. Participou nos campeonatos do mundo de 1982 e 1986 e foi um dos maiores jogadores da história do Corinthians e do futebol brasileiro. Depois do Corinthians, haveria de jogar uma época (1984\1985) na minha Fiorentina onde em 25 jogos apontou 6 golos.

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curioso

este fetiche de Frau Merkel pelo 80º aniversário chegada de Hitler ao poder… escolas básicas e secundárias interromperam a lição habitual para conhecer os primeiros 6 meses de governação do Fuhrer. Dúbias afirmações como “os Direitos Humanos não se impõem por si próprios. A liberdade não chega só por si e a democracia também não” e “Tudo o que torna uma sociedade viva e humana precisa de homens que manifestem respeito e cuidados uns para com os outros, que assumam as responsabilidades por si e pelos outros” e “Em seis Meses, Hitler conseguiu destruir a diversidade Alemã”.

é caso para lembrar que Hitler chegou ao poder como uma alternativa aos fracassos da República de Weimar acentuados pela Grande Depressão e pela humilhação imposta pelos aliados à Alemanha pelo Tratado de Versalhes. Hitler chegou ao poder a partir da aceitação por parte da classe média alemã dos pressupostos basilares da sua doutrina: antisemitismo, culpa dos Judeus por todos os males da Alemanha de então, ataque ao comunismo, criação de uma raça superior que jamais se deveria relacionar com raças inferiores, vontade de criação de uma alemanha unificada que pusesse por em marcha um plano de força que possibilitasse a instauração da sua hegemonia no mundo. A transformação da doutrina económica fascista que já era experienciada com exito na Itália de Mussolini ao modelo do Nacional-Socialismo Alemão veio por atacado por ser um bom modelo de controlo do estado sobre o território, sobre os trabalhadores (que na Alemanha de então começavam a nutrir alguma simpatia pelas ideias marxistas) e sobre os recursos económicos.

foi nesses pressupostos que Hitler chegou ao poder. Hitler queria cuidar dos interesses alemães e cuidar dos alemães enquanto povo, elevando-os a uma raça superior divina. foi nesses pressupostos que Hitler chegou ao poder: assumir a responsabilidades dos outros. delegar a responsabilidades de todos no estado. unificar os interesses de todos num só, alienar as responsabilidades de todos na égide estatal. o problema de um é o problema de todos, o problema de todos é um problema de estado.

a nível político e económico consigo encontrar algumas semelhanças entre o III Reich e o governo de Frau Merkel. As políticas anti-imigração, a tentativa de controlo das instâncias europeias, a tentativa de influência no seio destas mesmas instâncias para a adopção de políticas para a europa criadas pelo governo Alemão, a imposição de regras (pensadas pelos Alemães) aos restantes países europeus, a restrição e contracção económica que é imposta aos designados “PIIGS” (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) como pedra basilar de empobrecimento económico desses mesmos países e ponto de partida para um fácil controlo Alemão baseado na “subserviência” e no pressuposto “quem depende de nós financeiramente não está em condições de exigir nada, devendo portanto só obedecer às nossas ordens”, o jogo alianças com a China que se assemelha ao jogo de alianças que Hitler fez com a Itália e com a Rússia, a falsa aliança com a França, o abandono da França nos últimos meses da Presidência Hollande e a analogia aos falsos tratados de não-agressão do Fuhrer com Estaline. Dá no mínimo que pensar.

enquanto Hitler pretendia, até porque a Sociedade das Nações não tinha meios para controlar as suas pretensões, dominar os restantes países da europa pela força e pela coacção, Merkel opta por um domínio assente na estrangulação económica dos países europeus, num primeiro plano, para num segundo plano, vendo os outros asfixiados, possa calmamente desenhar a arquitectura europeia como bem aprouver aos interesses nacionalistas alemães.

merkel sabe perfeitamente que países votados a um regime de subserviência económica junto de outro jamais poderão exercer a liberdade e a democracia. merkel sabe perfeitamente que para a Alemanha crescer economicamente, necessitará de queimar países para o efeito, aplicando-lhes duras medidas de austeridade, que não só permitam os reembolsos do capital alemão disseminado pela europa como permitam que a economia alemã se torne competitiva à custa da aplicação dos seus capitais em países empobrecidos e com mão-de-obra barata. tudo isto tem portanto uma explicação e não é toa que vemos a chanceler alemã e os seus ministros da economia e finanças (Roeseler e Schauble) a afirmar constantemente que a austeridade na europa ainda está longe de acabar, que a recessão na europa ainda está longe de acabar, que países como portugal deverão manter-se em recessão (a tal estratégia de empobrecimento) e pior que isso, não é à toa que vemos com sistematicidade as tentativas de ingerência nas questões soberanas dos países europeus por parte do governo alemão. se em 6 meses Hitler conseguiu destruir a diversidade alemã, em poucos anos Merkel está a conseguir destruir a europa e a construção europeia. pela retirada de identidade aos povos, pela retirada do poder de decisão aos estados, pela subserviência e pela construção europeia narcisisticamente dependente do poder e das imposições alemãs.

não deixa portanto de ser no mínimo curioso este fetiche pelo 80º aniversário da chegada ao poder de Hitler, curiosamente, o único totalitário europeu de então que chegou ao poder pela via democrática.

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Para toda a minha geração, ou quase toda vá, este trojan na nossa cabeça dificilmente irá sair pela ruptura que causou com o que era feito ao nível de rock até então. Dizem outros, mais entendidos, que este foi o álbum que salvou o rock. Os nossos ouvidos cresceram e descobriram outras coisas, umas mais apelativas, outras menos. Há quem tenha ficado marcado para sempre na batida dos Strokes e da vaga nova iorquina e britânica que os strokes criaram. Há quem procure coisas novas e descarte as antigas, com muito mais qualidade na construção e evolução da própria história musical, há quem agora afirme o alternativo como mainstream e o mainstream banal como alternativo. Eu continuo a pensar que os Strokes não salvaram coisa nenhuma. Antes dos Strokes já existiam os New York Dolls, os Television, os Velvet Underground, tudo saído da bela fonte musical que é Nova Iorque. Bastará para tal ouvir os Is This It em comparação ao Marquee Moon e constatar que Casablancas é apenas um Verlain refinado e Hammond Jr. (cujo pai é um guitarrista de respeito, diga-se) uma versão artificial construída por pedaleiras de Jimmy Rip.

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daquelas parvoíces de sexta ao almoço

Quando em 2007 Bernd Schuster tomou conta do destino do Real Madrid, uma das primeiras perguntas que fiz a mim mesmo foi precisamente: não me lembro de ter visto Schuster jogar. Até que por ironia do sorteio da Liga Europa, Bayer Leverkusen e Benfica irão defrontar-se e, como não podia deixar de ser, a imprensa deu destaque a este magnífico jogo que remonta à época 1993\1994. Afinal vi Schuster jogar.

Lembro-me deste jogão com alguma clareza até porque estava a torcer pela equipa dos farmacêuticos. A equipa do Benfica, com Schwarz, Kulkov, Yuran, Valdo, Ailton, Abel Xavier, Rui Costa, João Vieira Pinto entre outros, comandada por Toni (o que é que tu queres caralho? Não é falta do Assam caralho?) era uma super equipa e acabou de resto por vencer o campeonato nesse ano. Do outro lado Paulo Sérgio (veio a protagonizar um dos melhores ataques da história do futebol no Bayern de Munique anos mais tarde com Neuville, Jancker, Zickler e Giovanne Elber) Schuster e aquela máquina de golos que a minha memória já me tinha varrido: o panzer Ulf Kirsten.

Ver de novo estas imagens causa-me uma enorme dicotomia: se é certo que actualmente presencio a uma das épocas de ouro do futebol (já começa a ser inquantificável a panóplia de jogadores habilidosos no futebol actual), também é certo que recordo com saudades estes tempos em que o futebol (nacional e internacional) chegava a conta gotas a nossa casa por via das transmissões da RTP 1 e 2 (liga, competições europeias e um joguito da Premier na 1 e na 2 ao sábado à tarde) e posteriormente (já no final da década de 90) pela SIC (alguns jogos da Taça, do campeonato e de ligas estrangeiras nas tardes de semana) e TVI (as habituais noites de domingo em que a estação de Queluz nos brindava com um jogo em diferido da Liga Espanhola e da Serie A). Ainda num destes dias comentei isso com o João Borba: com a revolução das telecomunicações, é raro um dia em que não tenhamos um bom jogo de futebol para ver e temos todas as ferramentas de informação para seguir as incidências do futebol ao minuto. Naqueles tempos, chegávamos até a ver o Sporting para as competições europeias no café pois quando jogava fora apenas conseguíamos apanhar o directo numa televisão estrangeira (lembro-me que em 1994\1995 vi no café do Ti Eduardo o Sporting a jogar em Santiago Bernabéu contra o Real Madrid de Laudrup e Zamorano) e conheciamos os jogadores praticamente por cromos e para sabermos o andamento da coisa tínhamos que chatear o nosso avô a comprar o desportivo. De vez em quando lá os víamos jogar numa competição internacional de clubes ou selecções. A informação contudo não nos agradava porque era escassa. Mas agradavam-nos outros factores: os dias de competições europeias do nosso clube eram vividos desde o acordar até à hora do jogo com muita ansiedade assim como os derbys. Em dia de Benfica vs Sporting ou Sporting vs Porto, acordava louco porque aquele era o dia. Depois, eram as transmissões do Tovar, do Gabriel Alves, do Perestrelo, as suas expressões típicas, as suas calinadas, no caso do Tovar, a sua sabedoria de futebol, sabedoria à qual o Luis Freitas Lobo ainda terá que comer muita sopa para alcançar.

Fica a nota. Assim como fica a memória do jogo em que Rui Costa, no seu estilo elegante, fez 3 assistências.

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eles afinal ainda andam aí (os fantasmas)

estar no café e descontraidamente ouvir alguém proferir “a culpa disto também é daquele coronel Vasco Lourenço que incitou logo a uma guerra civil”

roça quase aquele mito que os “comunistas comiam criancinhas ao pequeno almoço” quando são de facto os sociais-democratas e democratas-cristãos falsos, altamente penetrados pelo fervor neoliberal, tal como Friederich Von Hayek previa nos seus escritos, com tinta carregada de negro, que roubam o pequeno almoço às criancinhas.

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Oh Caroline

Beach Boys — “Caroline, No” — Álbum: Pet Sounds (1996)

Corria o ano de 1966. Eusébio era fotografado em Liverpool a chorar aquando da saída do campo, depois dos Magriços terem sido injustamente eliminados nas meias-finais do campeonato do mundo desse ano pela Inglaterra dos irmãos Charlton do Manchester United. Muitas histórias se podem contar. A de que Portugal tinha eliminado a Coreia do Norte por 5-3 dias antes, num jogo onde o Pantera Negra virou de 3-0 para 5-3 em 45 minutos com um formidável Poker. Essa era a mesma Coreia que dias antes tinha chutado para fora da competição a Itália de Giacinto Fachetti, um dos maiores ícones de sempre do futebol mundial, orgulhoso capitão do Inter de Milão vencedor de duas Ligas dos Campeões em 1963\1964 e 1964\1965 e posteriormente vencedor do Europeu de 68. A de que o tal fotógrafo que tinha tirado a  imagem mítica que retratava o choro compulsivo do King era conimbricense e tinha como apelido precisamente “Formidável”. Ainda a história da mudança desse mesmo jogo entre Portugueses e Ingleses de Wembley (Londres) para Merseyside (actual Anfield Road; o mítico palco onde actua o Liverpool) no dia antes do jogo, obrigando os Magriços a uma viagem de comboio de 500 km, o que no fundo, desiquilibrou a balança para o lado Inglês.

As Histórias cruzam-se. Existem dois sítios em Liverpool que são de paragem obrigatória para qualquer turista: Anfield Road e o mítico Cavern. Futebol e música misturam-se numa sincronia única. Em Anfield, a velha guarda do Liverpool canta o You´ll Never Walk Alone, bandeira mítica de um clube cujos jogadores nunca andarão sozinhos. Bandeira mítica de um clube que apesar das 5 Ligas dos Campeões conquistadas (a mítica bandeira que diz Paisley won it 3 times, Fagan did it, Rafa make us dream) já sofreu duas tragédias terríveis: a do Heysel e a de Hillsborough. Duas tragédias onde morreram algumas centenas dos seus adeptos e que inclusive, levaram a que a UEFA, a banir equipas inglesas das competições europeias durante algumas temporadas, e, o governo inglês a proibir claques de futebol. Já Sir Bobby Charlton, o capitão da Inglaterra campeã do mundo em 1966 tinha pertencido também ele a um trágico momento do futebol Inglês: em 1958, depois de uma partida a contar para a Taça dos Campeões europeus em Belgrado frente ao Estrela Vermelha, a geração fantástica de 50 do Manchester United (designados Busby Boys pelo facto de serem orientados por Sir Matt Busby), o avião onde vinha a equipa acabaria por se despenhar numa escala no aeroporto de Munique. Sir Matt Busby e Sir Bobby Charlton foram alguns dos sobreviventes. O original do tema “You´ll Never Walk Alone” pertence a Elvis Presley. Já o mítico Cavern foi a “caverna” (digamos assim) onde os Beatles actuaram pela primeira vez em Liverpool, constituíndo-se como um sítio impar no mundo da pop britânica.

Na fase psicadélica dos Beatles, John e Paul (ou como quem diz, Leibner e Stoller; era assim que a dupla assinava as suas primeiras canções na fase de Hamburgo; para quem não sabe, os Beatles ficaram conhecidos por actuarem para marinheiros nessa cidade Alemã) criavam Sgt Pepper´s Lonely hearts club band (quem já não entoou Lucy in the Sky with Diamonds?), álbum gravado de 6 de Dezembro a 1 de Abril de 1967 no estúdio 1 da Parlophone na Abbey Road de Londres (actual EMI) por Sir George Martin, considerado muitas vezes o “5º Beatle”. A resposta a este preciso álbum dos Beach Boys (Pet Sounds), resposta tão exímia que Brian Wilson desde aí nunca mais quis competir musicalmente com a dupla acima citada. Em entrevista recente à New Musical Express Wilson disse simplesmente que quando ouviu Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band teve tanta raiva do álbum que “era impossível bater os beatles”.

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lendas

Lendas vivas do futebol.

Ronaldo faz hoje o seu centésimo jogo ao serviço da selecção portuguesa, tornando-se de longe o jogador mais jovem a atingir esse registo. Faltam 29 jogos para Ronaldo ser o jogador mais internacional de sempre pela selecção portuguesa. O recorde pertence a Luis Figo.

Sentado na imagem, la seta rubia Alfredo Di Stéfano. O melhor extremo da história do futebol. Com uma particularidade deliciosa. Apesar de ter nascido na Argentina, como era permitido pela FIFA na altura, Di Stéfano foi internacional pela equipa das pampas por 6 vezes, 4 pela Colombia (amigáveis é certo: Di Stéfano jogou pelos Milionários de Bogotá entre 1949 e 1953) e 31 pela selecção Espanhola entre 1957 e 1961 na era em que pertencia ao glorioso Real Madrid que ganhou 5 taças dos campeões europeus consecutivas.

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sobre os 125 anos da AAC

A Briosa está a morrer lentamente. Do trigo dourado que outrora foi vanguarda na luta por um Portugal mais evoluído, o 125º aniversário da AAC traz-me o axiológico pressentimento que não tardará muito até que só possamos colher o seu restolho.

A Associação Académica de Coimbra faz 125 anos a 3 de Novembro de 2012. Ao contrário daquele que tem sido o seu recente percurso, a instituição poderá orgulhar-se desta data olhando pela vitrine da história o seu percurso do passado. Costuma-se dizer que nem sempre de passado vive o homem e nem sempre de passado se vai construíndo a base que a sociedade necessita para encarar positivamente o futuro. Jamais puderei adequar esta máxima do senso comum à vida recente desta instituição. A sociedade é ela própria um conceito dinâmico, assente num determinado contexto histórico-social-cultural, contexto esse que é pautado por valores éticos e morais que estão susceptíveis ao desuso imediato, ou à troca por outros na regulação das relações humanas em virtude da inserção de novos valores vindos do pensamento multidiversificado e quasi caótico do homem. A instituição, como muleta de suporte da actividade humana (considere-se cultura tudo aquilo que é feito pelo homem) e como agremiação onde o homem deposita (na praxis) todo o conhecimento e skills que vai adquirindo ao longo da vida, para perecer no tempo, necessita também ela de refrescar valores que são partilhados e considerados vigentes por todos os seus membros e misturá-los com novos conhecimentos, valores e aptidões que vão emergindo no pensamento e na técnica destes.

125 anos é muito tempo. Tempo suficiente para caracterizar um sonho que nasceu pela vontade e pelo brio dos estudantes da Academia em terem uma instituição que se considerasse sua (estudantes cujo expoente máximo foi António Luiz Gomes, primeiro presidente da AAC), que perdurou no Estado Novo na vanguarda da luta intransigente por um país pautado por valores democráticos (em geral) e por um ensino superior universalista onde as condições de acesso pudessem ser iguais para todos os cidadãos (indiferentemente do seu estatuto social ou dos seus recursos financeiros), que alinhou na linha da frente pela defesa dos direitos dos estudantes da Universidade de Coimbra, e que, para orgulho de uns e desgosto de outros, participou de forma activa e incisiva na melhoria das condições existentes na Universidade de Coimbra, na cidade de Coimbra, na cultura e no desporto deste país.

No entanto, como referi no primeiro parágrafo deste humilde artigo de opinião, nem sempre de passado vive o homem. Aquele que olhar para o passado e não conseguir aceitar o seu presente será acusado de saudosista. Que me acusem de saudosismo: a AAC precisa de mergulhar no passado para se reencontrar com o seu objecto. A AAC precisa de voltar a ser o que foi.

Faço uma analepse na narrativa até ao ano de 1969.
“Mas a universidade é velha…”. O delicioso trocadinho que os estudantes faziam de um Estado que era tudo menos Novo lia-se num dos cartazes estacionados à frente das Matemáticas no dia 17 de Abril de 1969, dia em que Alberto Martins (então presidente da instituição) e alguns estudantes de Coimbra irrompiam pela sala Pedro Nunes, sita no referido departamento, para pedir a palavra ao Presidente da República Américo Tomás e ao então Ministro da Educação José Hermano Saraiva, em plena crise académica.
“Os estudantes de Coimbra pediam a palavra” quando a palavra lhes tinha sido negada e quando alguns dos seus colegas eram expulsos da universidade, detidos nos calaboços da prisão académica ou enviados para a morte na guerra em África por defenderem a ideia da construção de um ensino superior universal e a construção de um estado democrático, justo, moderno e solidário em contraposição à posição conservadora, servilista e teimosamente imperial que o Estado (que não era Novo) impunha pela coacção e pelo terror no nosso Portugal.

43 anos passaram desde esse dia. O país haveria de ver a luz do modernismo 5 anos mais tarde. Doce ilusão. Dos Cravos nasceriam espinhos minados pelos partidos políticos, pela alta finança e por uma mascarada elite que já reinava no período da ditadura, pela corrupção praticada nas mais altas esferas públicas e privadas pelos pseudo-barões da sociedade portuguesa. Os Mellos, os Somners, os Champalimauds e toda essa escória que um dia haverá de ficar com o país só para si quando nenhum recém-licenciado se predispuser a trabalhar para as suas empresas a troco de uma tigela de caldo verde e de um prato de sardinhas e batata a murro. Do feudalismo, cresceu uma democracia tosca no nosso país que não nos presentou muito mais do que escândalos, má-governação dos recursos e bens públicos, ignorância, mesquinhez, provincianismo bacoco, inveja social, cacique e banditismo de colarinho branco.

A própria AAC também ficou afectada com a revolução. Não tardou que também ela fosse minada pelas lutas entre juventudes partidárias, desejosas em fazer da AAC um “braço politizado” e uma via para o aumento de hegemonia dos seus partidos junto do eleitorado universitário. Chegar à Direcção-Geral da AAC não significou apenas para alguns dos seus presidentes o aumento do número de militantes do seu partido nesse ano mas também o uso da instituição como tubo de ensaio para a sua formação enquanto “político” e o trampolim ideal para que estes dessem o salto para as mais altas esferas políticas da Nação, não obstante do facto de estatutariamente estar bem implícito o pressuposto basilar de uma instituição que se pretende aversa a actividades e interesses político-partidários.

Do estudante para o estudante.

Deverá na minha opinião ser este o lema de uma Associação Académica de Coimbra limpa, transparente, séria e criteriosa na sua abordagem aos problemas que surjem da vida universitária coimbrã.

Sem cacique.

É sem dúvida um dos flagelos da instituição. Falando deste ano lectivo que passou, não posso deixar de mencionar (e salutar) as concorridas eleições que tivemos nos passados meses de Novembro e Dezembro. As listas comandadas por Ricardo Morgado e André Costa ombrearam até ao último segundo na defesa dos seus ideais para a instituição. Pena tenho que em ambos os lados, alguns ideais apenas surgissem como manobras populistas de caça ao voto exclusivas dos dias eleitorais Pena me faz o facto que tenho vindo a constatar ao longo do mandato desta Direcção-Geral: alguns dos ideais da lista vencedora caíram em saco roto a partir do dia em que esta tomou posse enquanto Direcção-Geral. Lamento que em ambos os lados, houvesse gente sem ideais. Lamento faço, que em ambos os lados, os ideais tivessem sido suplantados pela necessidade de um cacique que pudesse garantir votos quando o factor decisivo que deve garanti-los deverá ser exclusivamente a competência e idoneidade das pessoas que se candidatam e as ideias que são transportadas por estas para a instituição.
Não são as ideias que fazem as direcções-gerais mas o cacique. A imposição de estudantes vindos de juventudes político-partidárias nas listas. A imposição de outros nas mesmas de acordo com critérios de selecção que não primam pela competência, pela inteligência e pela responsabilidade, mas sim (desculpem-me os meus leitores por este termo pejurativo mas realístico) pelo cheiro a “teta do poder” e de outros tais pelo simples facto de ser considerarem os comandantes dos destinos da praxe coimbrã nos diversos cursos e por consequentemente os donos dos votos na faculdade. Ó colega, já votaste? – lá andam eles de caderninhos, tablets e telemóveis recheados de números telefónicos e contactos electrónicos de toda a malta do departamento, com o simples objectivo de maximizar o sacrosanto voto entre os seus em prol de objectivos individuais. Será que o altruísmo termina enquanto valor no nº1 da Padre António Vieira? A resposta, essa, dou-a de borla a quem pessoalmente me quiser perguntar.

Costumo dizer aos meus amigos que as pessoas importantes são importantes porque vivem do alimento da força que as menos importantes lhes dão de forma gratuita visto que não conseguem por a mão à consciência e raciocinar que se calhar tem mais argumentos teóricos, técnicos e pessoais que essas mesmas pessoas. Costumo também dizer que jamais compactuarei com este modus operandis porque sou um idealista e um idealista leva a sua ideia até ao fim, vença ou perca. A vida traz-nos muitas batalhas. A minha trouxe-me a batalha pela mudança. E pela mudança lutarei sempre de espinha direita, quando muitas vezes ao lado vejo outros ajoelharem-se perante alguém para obterem certos benefícios.
Tenho defendido que a AAC necessita, necessita muito, de alguém que tenha o carisma suficiente para não só terminar com a irresponsabilidade que tem pautado o seu dirigismo como para a devolver aos mais altos patamares de decisão dos assuntos que nos dizem respeito a nós estudantes da Universidade de Coimbra.
Manuel Alegre escrevia que “em tempos de servidão havia sempre alguém que resistia e dizia não” – é hora de termos um colectivo forte na AAC que diga não ao cacique, que diga não ao despesismo que é feito em telecomunicações, em viagens e e em manifestações que granjearam vitórias morais muito dúbias ao mesmo tempo que Lisboa faz cortes orçamentais que colocam em risco a sustentabilidade financeira do ensino superior e da universidade de coimbra em particular e limitam o acesso à universidade e a um futuro risonho a todos os jovens deste país. É preciso um líder e uma equipa que finalmente consiga fazer um levantamento digno do que falhou na transição para a Declaração de Bolonha e que sejam capazes de afirmar que Bolonha apenas deu uma nova roupa a maior parte dos Cursos da instituição. É preciso um colectivo que se consiga afirmar nos órgãos da tutela com vista à obtenção do verbo e do direito de escolha no que respeita a decisões acerca do ensino superior. É preciso um colectivo que trabalhe arduamente pela obtenção de uma acção social escolar justa e de qualidade. É preciso continuar a lutar pela cultura e pelo desporto da AAC que tanto prazer de execução dá a uns e tantas alegrias nos dá a todos.

No 125º aniversário da AAC temos uma Direcção-Geral cujo presidente Ricardo Morgado é esforçado e cuja equipa tem altos e baixos. Porém, na minha modesta opinião de representado, o trabalho do colectivo comandado por Ricardo Morgado não passa mesmo do grau de “esforçado”.
A ladaínha de campanha tornou-se decrépita no acto de chegada ao poder. As cantinas fecharam ao fim-de-semana e os estudante ocuparam simbolica e pacificamente as mesmas como forma de protesto em Março. Em Maio, as cantinas reabriram ao fim-de-semana mas em Junho, a nova Administradora dos SASUC decidiu fechar duas, sendo que uma delas não irá reabrir (Verdes) e outra corre o risco de obter o mesmo desfecho trágico (Grelhados).O número de bolsas diminuiu drasticamente com a entrada da lei 15\2011. O Presidente pavoneia-se à frente de camaras de televisão de cadeias televisivas generalistas nacionais como alguém que arranja emprego e estágios profissionais aos seus colegas, argumento deveras falacioso. O presidente responde à mesma televisão acerca dos casos de estudantes carenciados que tem que abandonar o ensino superior por falta de recursos tendo como pano de fundo a esplanada de um estabelecimento comercial que se colou à AAC com supercola 3 e cujos detalhes da sua relação com a Associação tem sido marcados por pontos algo dúbios. Em certos pelouros como a Política Educativa, a Intervenção Cívica, a Cultura, a Ligação aos Órgãos, as Relações Internacionais e as Relações Externas, o trabalho desenvolvido pelos seus super coordenadores e respectivas equipas é pior que nulo, equiparando-se na verdade a uma noite de Halloween: vêem-se muitos fantasmas vindos do passado que assombram e instalam o pânico. Pior que isso: a casa continua despesista e a cada ano que passa, aumentam as despesas e diminuem as reservas do tesouro, reservas essas que continuam muito dependentes daquilo que as festas académicas dão, reservas essas que só tenderão a diminuir caso a crise económica que se vive faça diminuir a aderência dos estudantes nessas mesmas festas.

Dito isto, quero que todos aqueles que leiam este artigo coloquem a mão na consciência e raciocinem a bem da instituição. Caso contrário, a AAC daqui a 25 anos poderá não estar “viva” para comemorar o seu 150º aniversário.

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A democracia na América do Tea Party

Por Bradford DeLong, antigo subsecretário do Tesouro Norte-Americano e actual professor universitário em Berkeley

“Quando Alexis de Tocqueville, político e filósofo moral francês, publicou em 1835 o primeiro volume do seu Democracia na América, fê-lo porque pensava que a França estava em grandes apuros e que poderia aprender muito com a América. Por isso só podemos perguntar-nos o que teria pensado da Convenção Nacional Republicana em Tampa, Florida.

Para Tocqueville, o apetite pelo poder centralizado demonstrado pelos monarcas Bourbon absolutistas, seguidos pela Revolução Francesa e pelo Império de Napoleão, destruíra tanto o bem como o mal existentes na ordem neo-feudal Francesa. Décadas mais tarde, a nova ordem ainda não tinha estabilizado.

Na imaginação de Tocqueville, pelo menos, os intervenientes na ordem antiga eram resolutos na protecção das suas liberdades individuais e zelosos das suas esferas de independência. Compreendiam que estavam imersos numa teia de obrigações, poderes, responsabilidades, e privilégios que era tão grande como a própria França. Entre os Franceses de 1835, contudo, “a doutrina do interesse próprio” produzira “egotismo… não menos cego.” Tendo “destruído uma aristocracia,” os Franceses “dedicavam-se a vistoriar as suas ruínas com complacência.”

À França “doente” de 1835, Tocqueville contrapunha a América saudável, onde o apego à ideia de que as pessoas deviam perseguir os seus interesses individuais não era menos forte, mas era diferente. A diferença, pensava, era que os Americanos entendiam que não poderiam florescer sem que os seus vizinhos também prosperassem. Assim, os Americanos perseguiam os seus interesses individuais, mas de um modo que era “justamente entendido.”

Tocqueville notou que “os Americanos gostam de explicar… [como o] cuidado com eles próprios os impele constantemente a ajudar os outros, e os inclina a sacrificar voluntariamente uma porção do seu tempo e da sua propriedade ao bem comum.” Os Franceses, pelo contrário, enfrentavam um futuro em que “é difícil prever até que ponto de excessos estúpidos o seu egotismo os pode levar,” e “em que desgraça e misérias se mergulhariam, antes de terem de sacrificar alguma parte do seu próprio bem-estar pela prosperidade dos seus semelhantes.”

Para Tocqueville, a doença da França de 1835 provinha do seu património Bourbon de um governo do topo para a base, de comando e controlo, enquanto a saúde de América consistia no seu governo da base para o topo, na sua democracia participativa. Dê-se à comunidade local controlo suficiente sobre os seus próprios assuntos, defendia Tocqueville, e “veremos imediatamente… a estreita ligação que une o interesse privado ao geral.” Foi a “liberdade local que levou um grande número de cidadãos a valorizar a afeição dos seus vizinhos e dos seus iguais, que perpetuamente une os homens, e que os força a ajudarem-se, apesar das inclinações que os separam.”

Passaram quase dois séculos desde que Tocqueville escreveu a sua obra magistral. A ligação entre o interesse geral e o interesse privado dos cidadãos Americanos tornou-se, no mínimo, muito mais forte, mesmo que o seu interesse privado esteja ligado a uma caixa postal nas Ilhas Caimão. Na verdade, na última geração não foram feitas fortunas a partir de capital privado, sem investimentos ou transacções no próspero núcleo industrial Norte-Atlântico da economia mundial.

Mas os mecanismos de que os cidadãos dispõem para se unir aos seus vizinhos imediatos, numa acção política que faça alguma diferença nas suas vidas, tornaram-se muito mais fracos. Se, digamos, 25% das 1.000 residências nos 30 quarteirões do “bairro digital” de Brookside em Kansas City, Missouri, fizerem pré-assinaturas, a Google dará a todos os 1.000 a oportunidade de usufruir muito depressa de um serviço de Internet muito barato e muito rápido. Mas essa é a proverbial excepção que confirma a regra.

E os Republicanos reuniram-se em Tampa para celebrar a regra – para dizer que a América que Tocqueville viu já não existe: os Americanos já não acreditam que a fortuna dos ricos dependa da prosperidade dos outros. Ao invés, os ricos devem a sua fortuna apenas à sua própria sorte e esforço. Os ricos – e só os ricos – “construíram” o que têm. A disponibilidade para sacrificar alguma parte do seu interesse privado pelo apoio ao interesse público fere as almas e as carteiras do 1%.

Talvez a maré moral e intelectual mude, e a América permaneça excepcional pelas razões que Tocqueville identificou há dois séculos. De outro modo, Tocqueville certamente diria hoje dos Americanos aquilo que disse então dos Franceses. A diferença principal é que se tornou demasiado fácil “prever a que ponto de excessos estúpidos o seu egotismo os pode levar” e “em que desgraça e misérias se mergulhariam.”

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Desemprego Irremediável

Por Bradford DeLong, Professor na Universidade da Califórnia em Berkeley e antigo subsecretário do Tesouro dos EUA

“Por pior que se possa pensar da actual situação da economia mundial, esta é apenas uma das formas de ver o mundo.

No que diz respeito à esperança de vida global, à riqueza mundial total, ao nível global de tecnologia, às perspectivas de crescimento nas economias emergentes e à distribuição do rendimento global, a situação parece bastante positiva.

Contudo, ainda em relação a outras áreas – por exemplo, o aquecimento global ou a desigualdade do rendimento nacional e os seus efeitos na solidariedade social dos países –, a situação parece ser negativa.

Até mesmo no que diz respeito ao ciclo económico, as condições já foram bem piores do que são hoje. Considere-se a Grande Depressão e as implicações da incapacidade das economias de mercado de se conseguirem recuperar por si mesmas, devido ao ónus do desemprego de longa duração.

Mas, apesar de não nos encontrarmos actualmente nessa situação, a Grande Depressão não é menos relevante para nós, porque é cada vez mais provável que o desemprego de longa duração venha novamente a tornar-se um obstáculo à recuperação, nos próximos dois anos.

Tendo atingido o seu auge no Inverno de 1933, a Grande Depressão foi uma forma de loucura colectiva. Os trabalhadores estavam inactivos porque as empresas não os contratavam; as empresas não os contratavam porque não viam qualquer mercado para a sua produção e não havia mercado para a produção porque os trabalhadores não tinham rendimentos para gastar.

Naquela altura, grande parte do desemprego existente veio a tornar-se desemprego de longa duração, tendo duas consequências. A primeira: o ónus das transformações económicas foi suportado de forma desigual. Devido ao facto de os preços ao consumidor terem diminuído a um ritmo mais rápido do que os salários, o bem-estar daqueles que continuavam empregados cresceu durante a Grande Depressão. Na esmagadora maioria, aqueles que ficaram desempregados e permaneceram nessa condição foram os mais prejudicados.

A segunda: a reintegração dos desempregados, mesmo numa economia de mercado funcional, revelar-se-ia muito difícil. Afinal, quantos empregadores não prefeririam um recém-chegado ao mercado de trabalho a alguém que estivesse há vários anos desempregado? O simples facto de a economia ter sofrido recentemente um período de desemprego em massa dificultou a recuperação dos níveis de crescimento e de emprego que na maioria das vezes se obtêm de forma natural.

As taxas de câmbio desvalorizadas, os défices orçamentais moderados do governo e a passagem do tempo pareciam ser soluções igualmente ineficazes. Os mercados de trabalho altamente centralizados e sindicalizados, como era o caso na Austrália, foram tão ineficazes na sua abordagem ao desemprego de longa duração como os mercados de trabalho descentralizados e de modelo laissez faire, como era o caso dos Estados Unidos. As soluções fascistas também não tiveram êxito, como foi o caso da Itália, a menos que fossem acompanhadas de um rápido rearmamento, como aconteceu na Alemanha.

No final, nos EUA, foi a aproximação da Segunda Guerra Mundial e a procura associada de material militar que levaram os empregadores do sector privado a contratar desempregados de longa duração, mediante remunerações que estes estavam dispostos a aceitar. Mas, ainda hoje, os economistas não conseguem fornecer uma explicação clara para que o sector privado não encontrasse forma de contratar desempregados de longa duração no período entre o Inverno de 1933 e a mobilização total para a guerra. A dimensão do desemprego persistente sugere que as teorias que identificam um factor-chave para o insucesso devem ser encaradas com alguma reserva.

No início, os desempregados de longa duração durante a Grande Depressão procuravam fontes alternativas de trabalho de forma ansiosa e diligente. Mas, após um período de mais ou menos seis meses sem sucesso, ficavam desanimados e desesperados. Após 12 meses de desemprego contínuo, o típico trabalhador desempregado ainda procurava emprego, mas de um modo esporádico, sem muita esperança. E, após dois anos de desemprego, o trabalhador, na certeza de ser colocado no final de cada fila de contratação, tinha perdido a esperança e, para todos os efeitos práticos, abandonava o mercado de trabalho. Foi este também o padrão dos desempregados de longa duração na Europa ocidental no final da década de 1980. E, daqui por um ano ou dois, será novamente o padrão dos desempregados de longa duração no Atlântico Norte.Desde há quatro anos que defendo que os nossos problemas relacionados com o ciclo económico exigem políticas expansionistas, monetárias e fiscais mais agressivas e que os nossos maiores problemas desapareceriam rapidamente se essas políticas fossem adoptadas. Esta verdade ainda hoje se mantém. Mas, durante os próximos dois anos, salvo uma interrupção súbita e inesperada das tendências actuais, essa verdade será menos certa.

O saldo actual de probabilidades indica que, daqui a dois anos, as principais falhas do mercado de trabalho do Atlântico Norte não serão falências de mercado ao nível da procura que poderiam ser facilmente corrigidas através de políticas mais agressivas para impulsionar a actividade económica e o emprego. Em vez disso, serão falhas de participação estruturais do mercado que não serão passíveis de uma qualquer cura simples e facilmente implementada.”

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Cromos da bola #7 – A despedida do animal

O animal despediu-se de São Januário.

O futebol tem destas coisas. Em 2008, depois de passagens por Vasco da Gama (4), Palmeiras (3), Flamengo, Corinthians, Fiorentina, Napoli, Santos, Cruzeiro, Tokyo Verdi, Urawa Red Diamonds, Fluminense, Nova Iguaçu e Figueirense e depois de 14 títulos, 39 internacionalizações pelo escrete e muita vida boémia, Edmundo Alves de Sousa Neto tinha uma dívida a pagar ao Vasco da Gama, clube do seu coração.

Se repararem, de todos os clubes históricos brasileiros, Edmundo só não actuou no São Paulo, Internacional de Porto Alegre e Grémio.

Em 2008, na última passagem de Edmundo pelo Vasco, o último jogo daquele que tinha o cognome de “o animal” ficou marcado por um dos períodos mais tristes da história do histórico emblema carioca gerido por portugueses: Edmundo despedia-se dos “gramados” com o seu clube do coração a descer pela 1ª vez na sua história à série B do Brasileirão.

“O Animal” viveu segundo palavras próprias com um sentimento de amargura durante 4 anos e não descansou enquanto não convenceu os responsáveis de São Januário a montar um jogo de despedida no emblemático estádio carioca. O mítico presidente Vascaíno Robert Dinamite (antigo internacional pela canarinha) fez-lhe o favor e convidou os equatorianos do Barcelona de Guayaquil para a despedida do atleta aos 41 anos numa re-edição da final da Libertadores de 1998 onde o Vasco se iria sagrar campeão sul-americano.

A história de Edmundo no futebol brasileiro é uma história de altos e baixos. “O Animal” não era feroz apenas dentro das 4 linhas. O seu estilo de jogo não se coadunava com a de um típico avançado da canarinha. Edmundo não era um goleador nato, apesar dos 180 golos que marcou em 17 temporadas a altíssimo nível. No entanto, Edmundo fazia do ponto forte uma imensa garra.

Quando as emoções sobressaiem à racionalidade:

Pontapés voadores na cara de adversários, envolvência nos escândalos de jogo do bicho, socos em adversários na libertadores que acabariam em autênticas batalhas campais entre brasileiros e argentinos, alcoolismo e vários acidentes de carro – eis uma panóplia do que foi a vida extra futebolistica de Edmundo.

Depois a Europa:

Edmundo passou pela Fiorentina onde fez uma grande tripla de ataque com Gabriel Omar Batistuta e Rui Costa na época 1998\1999, a época em que a equipa viola esteve muito próxima do título, acabando por conseguir o 3º lugar. Em 1999, após desentendimento com Batistuta num treino da equipa, Edmundo foi autorizado pela direcção da ACF a ir ao carnaval do Rio e só regressaria meses depois para jogar por empréstimo no Nápoles.

Para quem estiver interessado, a página da Wikipédia do Atleta é recheada destas polémicas.

Para finalizar, a despedida do “animal”

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A Síria, Ban Ki-Moon e as eleições russas

Voltamos ao tempo dos senhores da guerra.

Na viragem do século XIX para o século XX, Kofi Annan, apercebendo-se do monstro burocrático que se tinha tornado a organização que dirigia e apercebendo-se da óbvia perda de influência da dita organização entre as nações e no controlo da estabilidade e da paz do cenário internacional, fez publicar no seu relatório enquanto secretário-geral da ONU uma tentativa de mudança do paradigma de actuação das Nações Unidas.

De entre os vários items da agenda criada por Annan, tomando em conta os lapsos presentes na orgânica do Conselho de Segurança e a sua clara ineficácia (também provocada pelo facto da ONU não ter meios capazes de executar actos militares) na actuação rápida perante problemas, nomeadamente, perante tensões armadas ou conflitos bélicos emergentes, efectivou-se a necessidade de reforma do próprio Conselho, tendo em vista uma actuação mais rápida e mais eficaz perante os dados problemas.

A revolução que Annan pretendia para o Conselho (assim como para quase toda a instituição) acabou por redundar num enorme fracasso. O Conselho de Segurança cresceu para 15 países-membros, mantendo-se a tomada de resoluções pelos 5 gigantes, aumentando-se apenas a esfera de influência no órgão pelo acréscimo de um secretariado não-permanente composto por 10 países, entre os quais actualmente Portugal.

Ban Ki-Moon, sapiente que a alteração produzida voltou a não ter resultados no nível que se esperava, veio ontem mais uma vez a público denunciar aquilo que se sabe sobre a repressão e clima de terror que o regime Sírio de Bashar Al-Assad está a por em marcha em Damasco e em Homs e pedir para que se tomem decisões urgentes capazes de por fim ao dito clima de terror.

É certo que o regime de Al-Assad, tem, como se diz na gíria popular, as costas quentes. Isto porque há algumas semanas atrás uma proposta de resolução para o problema do regime sírio esbarrou com o veto russo no Conselho de Segurança. Mais uma vez as Nações Unidas, reunidas democraticamente para a resolução de um conflito que já matou 7500 cidadãos sírios, sucumbiu de forma ineficaz e propositada aos interesses económicos de uma nação, neste caso a Russia.

Por falar em Russia, amanhã haverão eleições. Eleições? Eleições só se podem considerar como tal quando o povo se pronunciar nas urnas. Nas eleições de amanhã, já se sabe de antemão (como os mídia internacionais já anunciam faz mais de uma semana) que o Kremlin será de novo ocupado por Vladimir Putin, em mais uma das suas trocas pelo poder.

Vladimir Putin, para os mais atentos, mudou há alguns anos atrás a constituição russa de modo a permanecer no poder como Presidente da República. Para isso, fez alterar as competências do primeiro-ministro Dimitri Medvedev para subalternar novamente no poder executivo com o Presidente da República, Vladimir Putin, himself.

Expirado o mandato enquanto presidente da república, Vladimir Putin voltou a reordenar as regras do jogo para poder continuar a mandar. Toques de tirania?

Esses toques de tirania assim como o vício presente nestas eleições adquirem vida a partir do momento em que é a Duma Russa (Parlamento) e os partidos nela presentes que nomeiam os candidatos. Imediatamente surge-nos a ideia de um sufrágio pouco universal e uma violação clara dos direitos de 1ª geração.

Eleições à parte.

As modificações incutidas por Putin no plano interno estão a ter resultados. Vamos ao plano externo.

Da URSS fracturada pelo fim da era bipolar assistimos ao desmembramento nas novas repúblicas. No caso Russo, a Perestroika levou a uma onda de privatizações do outrora sistema de sovietes pelos chamados “novos oligarcas” num processo que a muitos se revelou feito às três pancadas. Nos anos 90, a nível militar, geopolítico e internacional, a Russia, no seu caso específico não só desmilitarizou-se como com Yeltsin se verificou uma aproximação gradual aos interesses das Nações Unidas e à NATO. A Russia, perdeu de facto a sua hegemonia mundial e está com Putin a tentar reconquistá-la.

Com Putin, apoiado pelo sucesso económico desta década dos BRIC, assistimos à tentativa (que decerto será concretizada) de reactivar um estado neoeslavo, apoiado pela tentativa de crescimento hegemónico na região, tanto a nível económico como geopolítico. Para isso Putin, apontou como bandeiras o apoio incondicional aos planos da BRIC, a monitorização dos planos nucleares do Irão, a tentativa de conquista da região através de acordos comerciais (como é o caso da Síria) e da hostilidade a antigas repúblicas (Geórgia; Ucrânia) em determinados casos desta década, a partir de um crescente rearmamento e a partir da  tentativa de com os países da BRIC instaurar um novo mercado de transacção de petroleo com sede em Moscovo.

Será que Ban Ki-Moon pretende que seja o regime russo a mudar amanhã de modo a que a Russia finalmente apoie um pacote de sanções ou uma intervenção ao regime de Bashar Al-Assad?

Creio que a primeira premissa será como veremos amanhã algo difícil. A 2ª dependerá de Putin. Exclusivamente.

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