inenarrável

Não sei sinceramente como comentar o plano do Secretário de Estado do Ensino Superior João Queiró para os estabelecimentos de ensino politécnico.

Num momento crítico em que a crise nos manda ser empreendedores, num momento crítico em que a crise empurra a necessidade de não investir no ensino superior público, num momento crítico do próprio ensino superior em que o MEC não só cortou nos financiamentos que vem de dotação orçamental às universidades, deixando-as a viver no limiar da pobreza (considere-se que maior parte das universidades portuguesas ficaram com orçamentos que não dão sequer para fazer face às suas despesas estruturais como foi o caso da UC), num momento crítico do ensino superior em que milhares de alunos voltam a casa e desistem de estudar por falta de condições económicas e por falta de uma rede de acção social escolar que possa abranger de forma digna todos aqueles que dela necessitam, num momento crítico em que a A3Es, agência estatal que tem o poder de acreditação dos cursos existentes no ensino superior, está em cima de vários cursos para os desacreditar e encerrar (para no fundo poupar mais uns milhões ao estado em financiamento) vem um secretário de estado com um plano que visa aumentar o número de especializações técnicas nos estabelecimentos de ensino politécnico.

Se as Licenciaturas, de acordo com a Declaração de Bolonha, elevaram de condição aquilo que anteriormente se designava de bacharelato, e se todos aqueles que se licenciaram num antigo bacharelato, chegam a outros países e são considerados como “bacharéis” e não licenciados, o plano de João Queiró visa banalizar ainda mais as licenciaturas e canalizar milhares e milhares de estudantes do ensino secundário para um mísero Curso de Especialização Tecnológico, dado às três pancadas, com a regalia de depois do CET o aluno poder, às três pancadas, concluir uma licenciatura. Não sei como é que o MEC pretende fazer evoluir esta proposta, mas uma coisa tenho certa: o MCTES quer efectivamente poupar mais uns milhões com financiamento no futuro e formar jovens às três pancadas para o mercado de trabalho a partir de cursos sem qualquer grau de rigor ou competência. É quase como dizer a milhares de jovens deste país: és demasiado caro para que o estado financie os teus estudos durante 3,4 ou 5 anos, por isso, financiamos-te dois e chegas ao mercado de trabalho como se fosses realmente especializado.

O pior nesta medida, considerando a nomenklatura da criação do ensino superior em portugal é desconhecer por completo o que de mal existe neste. As camadas burocráticas neste país são de ordem tal que cada sede de distrito tem que ter (contem as sedes de distrito que não tem) uma universidade e um politécnico, sendo que na maior parte dos exemplos, universidade e politécnico tocam-se na oferta formativa. Se a Universidade tem Economia e Gestão, o Instituto Politécnico tem Gestão, Gestão de Empresas, Solicitadoria e Administração, Administração ou o que seja. Se a Universidade tem Engenharia Civil, o politécnico também. A excessiva oferta de formação na mesma área e na mesma região, a excessiva oferta formativa em diversas áreas irá obviamente reproduzir-se em mercados de trabalho excessivamente saturados de profissionais (uns mais bem qualificados que outros) e irá traduzir-se em desemprego.

Visto o exemplo de Coimbra, não percebo porque é que a UC e o ISEC apresentam os mesmos cursos se tudo poderia ser unificado. Não percebo porque é que existem 3 escolas de enfermagem. Não consigo perceber porque é que a UC apresenta um Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas e o Politécnico apresenta licenciaturas em Análises Clínicas, não percebo porque é a FEUC tem um curso de Gestão se o ISCAC (agora Business School; outra mentira que o IPC vende) apresenta uma quantidade de licenciaturas secundárias derivadas da Gestão. Este meu argumento não vai de encontro ao encerramento dos cursos no politécnico, vai só de encontro a uma tentativa de unificação da oferta formativa nos estabelecimentos de ensino superior e uma tentativa de chamar os bois pelos is. Se um estudante de Gestão na FEUC, por exemplo, tem uma formação abrangente na área porque é que terá que concorrer a um lugar no mundo do trabalho com alguém que sai de uma licenciatura em Contabilidade no ISCAC? Porque é que o MEC em vez de racionalizar toda a oferta que tem ainda vai dissidi-la mais? Foi esse tipo de perguntas que fiz a mim mesmo quando soube da nova proposta do Ministério. A resposta a essas perguntas é uma, única e concisa: a ideia é no futuro canalizar alunos para cursos de especialização técnica e poupar ainda mais nos financiamentos às Universidades. Provavelmente, a ideia é deixá-las morrer, lentamente, numa asfixia financeira brutal.

nota posterior: afinal o MCTES já não é MCTES, mas sim MEC. paneleirices lá de lisboa.

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