De Londres #23 – dos portugueses

Ouvi hoje o chefe da missão olímpica Mário Santos fazer o balanço da participação dos Portugueses nos jogos olímpicos ontem encerrados e alinhar baterias para o início da próxima missão olímpica.

Há alguns dias atrás, ouvi o presidente do Comité Olímpico Português Vicente de Moura fazer vários statements que vão na mesma onda do que ontem foi dito por Mário Santos.

Santos reclama mais apoio, reclama uma mudança na programação da próxima missão olímpica e afirma que “alguns atletas voltam sem saber as regras do jogo” – é certo que esta última frase indica um mau-estar que se sentiu na aldeia olímpica londrina entre a comitiva portuguesa e indicia obviamente uma boca declarada para alguns atletas como Carolina Borges.

Já o presidente do Comité Olímpico afirmou que vai falar com o Governo para que juntos, a tutela e o organismo que preside (ad-eternum, diga-se) possam dialogar com vista a uma mudança de paradigma nos apoios que a tutela dá ao desporto português.

O que é que será preciso para que Portugal comece a ter rendimento desporto internacional de topo?

Depois do balanço da comezinha participação portuguesa em Londres, salva do grau de catástrofe por 2 guerreiros na canoagem, existe vários aspectos que devem ser realçados.

Desportivamente, existiram alguns atletas in e outros out:

Dos in, destaco Emanuel Silva e Fernando Pimenta (em particular) e a delegação da canoagem em geral no topo de pirâmide da participação lusa nos Jogos.
Heróis. Fernando Pimenta, Emanuel Silva, Teresa Portela, Beatriz Gomes, Joana Vasconcelos e Helena Rodrigues. Cada tiro cada melro. Uma medalha espectacular que por poucos centésimos não deu em ouro olímpico e várias finais. Temos que ter em pano de fundo o contexto da evolução da canoagem em Portugal.

A Federação Portuguesa de Canoagem tinha em 2010 2270 atletas federados, espalhados por vários clubes do norte para o sul, números equiparáveis a um número mais ou menos idêntico em 1996. Apesar de ser uma estável federação, há 20 anos atrás quem dissesse que um canoísta português conseguiria atingir uma medalha em 1992 seria acusado de louco. Lentamente todo este cenário viria a mudar. No inicio de século, a federação que um dia viu-lhe ser retirada o regime jurídico de instituição de utilidade pública (regime que só lhe seria devolvido em 2004 depois de um 7º lugar de Emanuel Silva nos Jogos de Atenas em k1) avançou-se para a construção de infra-estruturas que permitissem criar uma fábrica de campeões. Falo do centro de alto rendimento de Montemor-o-Velho no Mondego e para a contratação de um técnico de elite, o polaco Ryzhard Hoppe. Os títulos começaram a chegar lentamente: Emanuel Silva nos juniores e seniores, uma final olímpica, títulos e medalhas mundiais por intermédio de Emanuel, Fernando, Teresa Portela, Beatriz Gomes e Joana Vasconcelos nos mundiais séniores e sub-23. Estou certo que a canoagem portuguesa não ficará por aqui ao nível de evolução visto que as bases do sucesso para o futuro estão construídas.

A minha segunda nota positiva continua na água. A dupla Fraga\Mendes quase fez história no Remo. Sem apoios nem ajudas, esta dupla teve inclusive que mudar de clube do Sport Club do Porto para o Sporting para poder competir a alto-nível. Da final B de Pequim saltaram para um honroso 5º lugar em Atenas. Devidamente apoiados poderão saltar do 5º lugar de Londres para uma medalha olímpica daqui a 4 anos.

A terceira nota positiva vai para o Ténis de Mesa portugues. Marcos Freitas foi longe no torneio individual e por equipas, conjuntamente com João Pedro Monteiro e Tiago Apolónia, protagonizou outro dos momentos altos da participação nacional em Londres ao bater o pé nos quartos-de-final à selecção Sul-Coreana (2ª no ranking mundial, medalha de bronze em Pequim e medalha de Prata nos jogos) e colocando um pavilhão inteiro onde só se ouvia a palavra Portugal. Os três portugueses deram o que puderam e o que não puderam contra asiáticos, todos eles bem melhor colocados no ranking mundial (o melhor português é Marcos Freitas; ocupa a 24ª posição do ranking mundial) – estes três atletas, pela sua juventude, também poderão evoluir muito para os Jogos de 2016.
No ténis de mesa podemos constatar como a partida dos nossos melhores atletas para o estrangeiro trouxe mudanças significativas na sua evolução. Marcos Freitas tem 23 anos e joga num clube da 1ª divisão francesa (Pontoise Cergy) depois de 5 anos a representar um clube Alemão e galgou 7 posições no ranking mundial com a participação olímpica, sendo um dos melhores europeus nesse mesmo ranking). Tiago Apolónia e João Pedro Monteiro jogam na Bundesliga Alemã e já ganharam títulos pelos seus clubes.

A quarta nota positiva vai para o triatleta João Silva. Um honroso 9º lugar numa prova difícil para a qual o Português não se preparou devidamente, fruto de várias lesões que teve nos últimos 2 anos. Com uma preparação séria poderá lutar por mais daqui a 4 anos.

A quinta nota positiva vai para o Badminton Português. Telma Santos conquistou para a modalidade a primeira vitória portuguesa em 20 anos de participação. É mais uma modalidade que carece de apoios e que acima de tudo carece de clubes onde os atletas que começam principalmente no desporto escolar possam dar seguimento ao trabalho de iniciação que é feito nas escolas. Nos masculinos, Pedro Martins foi eliminado por um dinamarquês, 5º do ranking mundial mas fez um jogo bastante agradável.

A sexta nota positiva vai para a Vela. As duplas de 49er e 470 fizeram uma participação bastante interessante, discutindo os lugares do pódio em várias regatas e chegando à respectiva medal race onde não puderam competir pelas medalhas devido ao facto da prova ser por pontos e de nem a vitória na medal race garantir possibilidades aos portugueses de alcançar as medalhas. Creio que este sistema olímpico está mal formulado. Não pelas regras classificativas mas pelo formato da medal race. Deveria efectivamente fazer-se uma qualificatória para a medal race no regime vigente mas a medal race deveria ser aberta aos 10 melhores da qualificatória não importando para tal os pontos acumulados.

A última nota positiva vai para a Equitação e Hipismo. Gonçalo Carvalho e o cavalo lusitano mostraram o que de melhor se faz em Portugal na modalidade. O atleta mostrou um discurso humilde e sempre afirmou que não estava em Londres para lutar pelas medalhas mas sim para aprender, ganhar experiência e mostrar o lindo cavalo de raça portuguesa ao mundo. Já a luso-brasileira Luciana Diniz também se exibiu ao mais alto nível com o seu cavalo Lenox no concurso de saltos. Teve azar na última prova. No entanto as duas finais também demonstram que é necessário investir mais na modalidade num país com recursos (o cavalo lusitano é uma das mais prestigiadas raças do mundo) para se fazer mais e melhor nas grandes competições mundiais.

Completamente out:

Telma Monteiro – a desilusão de alguém que era a nossa principal favorita a uma medalha. Para uma atleta tão experiente, é inexplicável o facto de ter caído logo na primeira ronda contra uma atleta menos cotada no ranking mundial e cuja atleta lusa já tinha vencido todos os combates em que tinha lutado contra a atleta norte-americana. Os grandes campeões vêem-se nos Jogos. Os grandes campeões são aqueles que não vacilam no momento da decisão. Telma vacilou no primeiro combate e acabou fora de um lugar de prestigio. Que lhe sirva de lição para o futuro.

João Pina – idem. Apesar de não ser candidato às medalhas, esperava-se que fosse pelo menos até ao combate de repiscagem para as meias-finais.

Atletismo – a pior participação de sempre. É certo que os três últimos medalhados não participaram por lesão. Nélson Évora cumpriu um autêntico marasmo no seu ciclo olímpico enquanto campeão de Pequim. Várias lesões impediram o atleta do Benfica de competir ao mais alto nível. Naide Gomes foi mais um exemplo de lesões. Rui Silva tentou mudar de variante e saltou dos 1500 metros para os 10 mil e dos 10 mil para a maratona. O atleta do Sporting não se deu bem com as mudanças e não viajou para Londres.

Das participações portuguesas no atletismo, a maratona foi satisfatória. O 7º lugar de Jéssica Augusto na prova máxima do evento feminino abre boas sensações para o futuro. Jéssica cumpriu a sua primeira grande maratona e ainda é algo inexperiente na prova. Daqui a 4 anos poderá fazer muito mais. O mesmo acontece com Ana Dulce Félix. Fugiu do favoritismo das africanas nos 10 mil metros onde se sagrou campeã europeia recentemente e cumpriu a sua primeira maratona da carreira em Londres. Não tenho dúvidas em afirmar que a vimaranense tem a fibra suficiente para daqui a 4 anos lutar pelas medalhas com as africanas.

Marco Fortes, o da “caminha”, voltou a desiludir, falhando a final do lançamento do peso num ano onde estava a demonstrar uma excelente forma e bons resultados em meetings internacionais.

Natação – Nenhum atleta passou da primeira fase ou constituiu recordes nacionais. Uma lástima. Com tantos clubes de natação, tantos praticantes e tantas piscinas em Portugal são incompreensíveis os resultados dos portugueses. Creio que a melhor solução para a modalidade passa realmente pela formação de parcerias com grandes universidades norte-americanas para que atletas portugueses possam conseguir scolarships para estudar e treinar nos EUA e assim evoluírem entre os melhores.

Sobre Vicente de Moura:

Vicente de Moura interrogou o que era preciso fazer para que o desporto português começasse a resultados nos Jogos tendo em conta aquilo que tem sido feito pelas missões olímpicas nas últimas edições do jogo. Parece-me bastante simples que a primeira acção que se deve fazer para que o desporto português comece a “arrumar-se” é a demissão do próprio Vicente de Moura. Está mais que visto que o presidente do COP está gasto no lugar. Necessita-se portanto de uma evolução no COP e da entrada de novas ideias para o desporto português.

Sobre Carolina Borges:

Tudo envolto em polémica. A troca de acusações nos últimos dias foi imensa e não estou aqui para julgar quem tem razão ou não no celeuma. Ambas as partes agiram de forma amadora. A comitiva autorizou que a velejadora dormisse fora da aldeia de Weymouth e a velejadora errou no acto de comunicação à missão que não ia para a água. Numa missão séria, Carolina Borges teria que ficar na aldeia olímpica visto que esta existe para que os atletas lá pernoitem. Uma missão que não consegue controlar o paradeiro de uma atleta é uma missão que trabalhou de forma amadora quando os jogos obrigam-na a trabalhar no top do profissionalismo.

Infra-estruturas, condições de treino, bolsas olímpicas, projecto olímpico e investimento no desporto:

É cada vez mais notório que o desporto português passa por gravissimas deficiências.

É importante que os portugueses tenham a noção disto e não tentem cobrar em demasia a sua ansia de vitórias neste tipo de eventos a atletas que fazem o que podem com o pouco que tem e com o pouco que tem em relação a adversários que tem muito mais condições para poder evoluir.

Em algumas modalidades parece-me difícil que Portugal se faça representar nos Jogos. Falo do basquetebol, do andebol, do voleibol, do hoquei em campo, do tiro ao arco, do halterofilismo e do ténis. Por quezílias abertas nas federações num passado recente (andebol; voleibol), pela evolução do basquetebol estar a ser gradual mas insuficiente para colocar a nossa selecção nas grandes provas internacionais (só recentemente é que pusemos a nossa selecção a participar num Eurobasket) e pela inexistência de clubes\infra-estruturas no nosso país, outras como o hóquei em campo e o halterofilismo acabam por ser modalidades com poucos praticantes em Portugal. No Ténis, apesar do Jamor possuir um complexo desportivo interessante, não existe qualificação abundante ao nível de treinadores e os atletas portugueses raramente conseguem arranjar condições financeiras que lhes permitam

Noutras modalidades, o investimento em infra-estruturas é claramente insuficiente. No atletismo, na vela, no Remo, no Triatlo. Necessita-se portanto de se criar nessas modalidades aquilo que por exemplo foi criado na canoagem com a construção do centro de alto rendimento e com a contratação de profissionais estrangeiros ou nacionais que possam monitorizar e dar experiência à formação de atletas. O exemplo espanhol, aqui bem ao lado do nosso país, é o exemplo mais concreto de um país que se reforçou ao nível de infra-estruturas de topo e conseguiu lentamente colocar quase todas as modalidades existentes no país nos píncaros do desporto mundial. Basta só observar a quantidade de títulos europeus que a espanha ganhou desde o futebol, passando pelo basquetebol, andebol, futsal e hoquei até aos grandes resultados das nadadoras espanholas nos jogos olímpicos e da selecção espanhola de hóquei em campo.

Noutras modalidades, existe carência de clubes. O exemplo do Badminton é o mais paradigmático.

Certos atletas privam-se de muita coisa nas suas vidas para tentar melhorar a sua condição. Mas no entanto, até a própria formulação do projecto olímpico não é feita de acordo com critérios adequados. As bolsas olímpicas são escassas e não são pagas a horas. Tendo em conta exemplos de outros países onde os atletas são profissionais com as bolsas e condições que os governos e organismos lhes dão para focar a sua actividade no desporto de alto rendimento, em Portugal, o atleta que falhe no projecto olímpico poderá não receber nem mais um cêntimo no novo ciclo. Obviamente que desistirá. Além do mais, o projecto olímpico acompanha na maior parte atletas que já estão consolidados na sua posição nacional e internacional quando realmente deveria começar em atletas em formação, para que estes pudessem começar a competir lá fora desde cedo para ganhar experiência internacional.

O investimento no desporto em Portugal é nulo. Aliás, vivemos num país onde a tutela da saúde e do desporto apresentam inclusive várias carências na criação de políticas que incentivem à prática de desporto entre a população. Não podemos exigir mais dos nossos atletas. Desportos como o Hipismo, como o ténis ou a vela estão vedados a 95% da população por serem desportos que exigem forte investimento em equipamentos, alugueres de barcos\espaços, despesas altíssimas ao nível de manutenção de equipamentos e ao nível de participação em competições nacionais e internacionais.

Estou em crer que se for feito um esforço piramidal de construção de infra-estruturas, sediação de clubes, sediação de competições regulares, apoios aos atletas promissores com cabeça tronco e membros e contratação de profissionais experientes ao nível de metodologia de treino para competição, poderemos ter mais e melhor desporto em Portugal. Os resultados aparecerão com o tempo. Basta olhar para o exemplo espanhol.

Quando assim o é, qualquer participação portuguesa a alto nível está condenada à mediocridade…

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One thought on “De Londres #23 – dos portugueses

  1. jag diz:

    Artigo interessante. Faltou falar que o problema principal do desporto em Portugal é que realmente o único que interessa em geral é o futebol. Basta ver a quantidade astronómica de jogos mais do que desinteressantes que a RTP transmitiu quando havia muito mais coisas interessantes para dar (de qualidade inferior até a um Sporting – Beira Mar), pela exclusiva razão de serem de futebol. A existência de infraestruturas não chega. No caso da Natação há provavelmente mais que suficientes em Portugal, mas no entanto os EUA devem ter mais de 1000 atletas em cada disciplina melhores que os nossos recordistas. Falta é apoios principalmente ao nível das escolas aos atletas (pelo que me disse um treinador nem sequer existe a questão a nível escolar da existência de atletas), o que não admira já que o desporto na grande maioria das escolas é uma verdadeira anedota. Agora é realmente verdade que o racio de atletas / medalhas de Portugal é péssimo (este ano pior só da Austria). Haverá muito para fazer e a tutela de certeza não vai fazer nada. Daqui a quatro anos, mais do mesmo.

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