Porque é que o timing destas declarações me cheiram a esturro?

Posso afirmar que as mais recentes acusações proferidas por Zita Seabra fizeram rechear de comicidade o meu dia de ontem, dia que até estava a ser pautado por alguma melancolia e cansaço.

Deixa-me cá ver se entendo: ontem, tomando como cenário de fundo o final da guerra fria, quando já se sabia que Gorbatchev iria implodir a decadente União Soviética, Zita Seabra afirmou assumptivamente que o Partido Comunista Português punha escutas nos aparelhos de ar condicionado dos gabinetes ministeriais do governo português em conluio com o fabricante desses mesmos aparelhos Alexandre Alves (proprietário da antiga empresa designada por FNAC) com o intuito do partido poder ter informação privilegiada sobre a posição do governo de então acerca do que fazer caso a ordem bipolar fosse interrompida.

1. Não deixo de censurar o facto de Zita Seabra, antiga militante activa do PCP, antiga dirigente e deputada pela APU (antiga designação da coligação entre o PCP e o Partido Ecológico os Verdes), antiga militante que se ejectou do partido e o trocou posteriormente por um tacho na Assembleia da República no Partido Social Democrata, hippy que ao som da banda do tacho virou yuppie numa transferência política que é apenas comparável à de João Pinto do Benfica para o Sporting à luz da lei Bosman, ter a desmesurada ousadia de vir a público acusar de forma grave e infundada o partido onde outrora foi militante de espionagem.

Soa-me a ressabianço.

2. Censuro ainda mais o facto de Zita Seabra ter estado calada durante tantos anos (no que toca ao seu celeuma com o PCP em particular) e de um momento para o outro vir a público acusar o seu antigo partido de espionagem e mencionar a antiga empresa de um empresário que recentemente viu um contrato de 1000 milhões que tinha com o estado para a implementação de uma nova unidade de produção em Abrantes rescindido pelo governo do seu novo partido. Ainda mais quando esse empresário afirma que o estado não lhe deu um cêntimo do que estava previsto no contrato, ao contrário daquilo que lhe é pedido pelo estado (os incentivos iniciais + juros).

3. De comicidade extrema foi de facto a acusação de que a FNAC de Alexandre Alves era financiada directamente pelo governo da República Democrática Alemã. Para quem partilhou (partilhou?) do Marxismo, Zita Seabra perspectivou uma acusação que poderia bem ter saído da sua boca depois de ver o Goodbye Lenin numa sala de cinema perto de si. Revela um profundo desconhecimento sobre o que foi de facto a situação económica da RDA ao longo da sua existência.

O timing não deixa de ser oportuno por parte do PSD para praticar uma espécie de spin-doctoring contra o dito empresário. Onde há fumo, há fogo sempre ouvi dizer.

3. Censurável também foi a atitude do estado português em ter rescindido o dito contrato, deixando o grupo de empresários liderados por Alexandre Alves com a gaita na mão no arranque previsto para o inicio da actividade produtiva. Os critérios deste governo de direito em relação ao investimento empresarial e económico parecem ser bastante ambíguos: os amigos do partido tem direito a tudo e mais alguma coisa (o caso da venda do BPN ao BIC de Mira Amaral; a recapitalização do Millenium BCP onde o estado assumiu algum do crédito mal-parado do banco); os que não são amigos do partido, vêem os seus contratos rescindidos. Fantástica jogada do Ministério da Economia. Os números do desemprego aumentam. O número de unidades de produção em Portugal tem diminuído de mês para mês. Alvarinho, o tosco canadiano, afirmou nos seus primeiros dias de mandato que queria trabalhar com o objectivo de arranjar o maior número de investimentos para o nosso país com vista a relançar a competitividade económica portuguesa nos mercados e a criação de emprego. No espaço de 6 meses, o Ministério perdeu dois investimentos importantes (Rio Tinto nas minas de moncorvo e Renault-Nissan em Cacia; quase 600 empregos se perderam nesta imbecilidade do Ministério); no espaço de 2 dias, o governo cancelou todos os contratos de incentivo ao novo empreendedorismo nacional feitos pelo governo socialista só porque sim, só porque é bonito arruinar tudo aquilo de bom que José Sócrates tentou fazer pela economia nacional.

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