Quem não tem dinheiro não tem vícios

“Manifestámos a nossa disponibilidade para, juntamente com a Liga (de clubes) e Sindicato (de jogadores), reforçar ou renovar do fundo que já existiu para as provas profissionais. O anterior era de 300 mil euros. Provavelmente, terá o mesmo valor”

Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol

Mais uma vez, os organismos que dirigem o futebol português tentam passar um paninho limpo por cima da merda que emerge do futebol português.

Não quero com isto dizer que não aprove que os ditos organismos criem um fundo de apoio para ajudar os futebolistas que passem dificuldades económicas porque a solidariedade entre uma classe profissional começa exactamente com este tipo de gestos. É importante realçar o exemplo espanhol no que toca a estas matérias: sempre que existe um clube incumpridor nas competições profissionais ou amadoras, a coisa não se resolve apenas com declarações, abandonos ou rescisões por parte dos jogadores desses mesmos clubes. Mesmo que o clube incumpridor seja de 3ª divisão, são os grandes rostos do futebol espanhol que saiem em defesa dos direitos dos seus colegas de profissão mais fragilizados. Foi o que aconteceu no passado mês de Agosto quando os clubes profissionais espanhóis ameaçavam greve às primeiras jornadas dos campeonatos profissionais por incumprimento contratual de alguns clubes de 2ª liga. Não estavam em causa o pagamento dos salários nos planteis de Barcelona, Real Madrid ou Valência. Todavia, seriam Iker Casillas (Real Madrid) Carles Puyol (Barcelona) ou Frederic Kanouté (Sevilla) os rostos de proa que falavam à frente das televisões nacionais e internacionais pelas reinvindicações dos jogadores afectados pelo flagelo do incumprimento salarial.

Esta decisão por parte da FPF é portanto mais uma medida que visa incutir a irresponsabilidade aos dirigentes dos clubes de topo do futebol português pelos seus péssimos erros de gestão. ” Vamos gastar mais um bocadito daquilo que não temos. Se não pagarmos as nossas obrigações perante os nossos jogadores, alguém o fará, sem que a participação nos campeonatos profissionais esteja afectada” – João Bartolomeu e a União de Leiria foram o caso mais crasso de um clube que andou mais de uma década a gastar aquilo que não podia, sem que no entanto, a Liga tivesse mão no assunto e impedisse o clube Leiriense de participar nas provas profissionais. Foi preciso chegar ao ridículo de actuar com apenas 9 jogadores (4 dos quais juniores) para que finalmente a Liga pusesse o clube fora de uma escalão ao qual os Leirienses não tinham capacidades para participar desde 2002. E infelizmente, na 1ª liga, o Leiria não foi o único incumpridor (crasso) durante a temporada passada.

A solução, a meu ver, passa pela apresentação logo no início de época (por parte dos clubes) de garantias bancárias que confirmem que os ditos tem capacidade para fazer face às suas despesas ao longo da época. Se não tiverem essas mesmas garantias, a Liga deve actuar com a exclusão de participação na divisão correspondente ao dito clube. Não se trata apenas de um modo sancionatório para incumpridores ou possíveis incumprimentos mas preventivo para que se ganhe responsabilidade no mundo da gestão futebolística profissional.

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2 thoughts on “Quem não tem dinheiro não tem vícios

  1. João Oliveira diz:

    Sabes quais são os pressupostos financeiros que os clubes têm de apresentar no início de cada temporada para poder inscrever as equipas nas competições profissionais?

    • Sei. Pressupostos muito básicos. As receitas ordinárias da época passada devem cobrir as despesas ordinárias tidas no mesmo período, previsões sobre receitas a obter na época seguinte, não podem ter salários em atraso até ao último mês de competição (Maio) e as despesas anuais com funcionários e actividades desportivas não podem ultrapassar os 70% das despesas anuais, regularização com a Segurança Social e com o Fisco. Este ano inseriu-se também a obrigatoriedade dos clubes serem auditados anualmente por revisores oficiais de contas certificados e de mostrarem as demonstrações feitas à Liga.

      No entanto quem te diz que não é tudo aldrabado nas auditorias? A auditoria não é feita por uma entidade pública, logo, os auditores escrevem aquilo que o presidente ou o administrador da SAD quer que eles escrevam. Quem não te diz também que as receitas e despesas também não são aldrabadas? É por exemplo muito fácil injectar receitas num clube. Basta só que um presidente injecte dinheiro por via de uma doação num dia e o retire 1 mês depois.

      “não podem ter salários em atraso até ao último mês de competição (Maio)” – quantos é que já violaram este pressuposto e puderam-se inscrever à mesma? Ou será que estamos num país onde todos os agentes do futebol são pagos na hora?

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