mentira (nunca confies numa mulher; ou num homem)

“-Talvez, Ann, talvez você tenha razão. Já não falta muito para fazer um ano que aqui cheguei: foi um ano muito duro, uma vida diferente de tudo aquilo a que estava habituado. E sem ninguém, ninguém rigorosamente, em quem confiar, com quem falar, com quem estar assim, como nós estamos agora, descontraidamente à conversa. A visita do João veio interromper isso, mas eu sei que é apenas um breve devaneio: dentro de alguns dias ele vai-se embora e tudo regressa ao normal. E o normal, Ann, é às vezes difícil de suportar.

– Eu sei, Luís, eu calculo que sim. Mas você sabe, ao menos, que pode contar sempre comigo e com o David. Nós gostamos sinceramente de si e temos falado várias vezes sobre a sua situação. Nós, ao menos, temo-nos um ao outro, mas você não tem ninguém. Estas noites, este terraço, devem ser muitas vezes duros de aguentar.

Luís Bernardo olhou-a: estava linda, quase irreal. Teve medo de que, se estendesse a mão para lhe tocar, ela desaparecesse. Resolveu experimentar:

– Ann, eu não duvido, por um instante que seja, da vossa amizade. Mas, como sabe, o David e eu temos missões diferentes e, se calhar, opostas. Talvez tenha de chegar o dia em que as nossas missões respectivas afastem a amizade que construímos de formaespontânea. Talvez me desse mais jeito, ou a cada um de nós, que afinal não nos tivéssemos tornado amigos: em caso de crise, tornaria as coisas mais fáceis.

– Pois é, vocês homens têm esse lado de conflito interior, que veneram. Por dever de consciência, suportam inimigos e abandonam amigos. Eu já vivi isso na pele, noutros tempos… Mas oiça, Luís, eu sou mulher, sou sua amiga e não vivo conflitos desses: no que depender de mim, eu não o abandonarei.

Ele quedou-se mudo, sem saber o que dizer. Nem sequer percebia bem o que ela lhe tinha querido dizer. Sentiu-se à toa, talvez do vinho e do cognac, da lua cheia, da devastadora beleza da sua pele, do seu peito, do seu cabelo, do seu olhar. Sentiu-se tonto e levantou-se para se encostar à balaustrada do terraço e respirar um pouco da brisa que vinha do mar e que o calor da noite não sufocava na passagem.”

Miguel Sousa Tavares in Equador, páginas 201 e 202.

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