Insensibilidades (Escolares)

Na sequência da confirmação do Ministério da Educação que irá obrigar os estudantes portadores de deficiências ou atrasos mentais a fazer os mesmos exames nacionais que os alunos ditos normais.

Conto-vos o caso do Zé António.

O Zé António era um rapaz que frequentou algumas disciplinas comigo no 11º e 12º ano. O Zé António, por infelicidade da vida, era portador de uma doença neurológica degenerativa desde tenra idade e era desde aí (devido à pobre condição sócio-economica da família; a mãe já era na altura inválida e acompanhada devido a graves distúrbios psiquiátricos; o irmão, apesar de trabalhar na Junta de Freguesia de Águeda era paraplégico devido a um acidente com uma arma de pressão de ar) que já era acompanhado diariamente pela IPSS da sua freguesia e pela Segurança Social. O Zé António, entravado numa cadeira de rodas a motor, e apesar de tudo o que o rodeava, era um adolescente pacato que se punha no bar a falar de ficção científica com outros alunos e a apreciar o jogo de cartas magic que os mesmos faziam.

Toda a gente na minha turma sabia quem era o Zé António menos eu. Eu, como vinha transferido de outra escola da região, e como vivia no outro lado do concelho não conhecia o caso em específico. Outros colegas meus vindos da freguesia do Zé António, conhecendo o caso em específico, olhavam para o Zé António (infelizmente a família não lhe zelava pela higiéne diária) com uma certa cara de nojo derivada do seu cabelo ralo e casposo, dos seus dentes amarelíssimos e do cheiro nauseabundo do fato de treino que usava sem parar durante semanas a fio.

Confesso que a primeira vez que olhei para o Zé António senti um misto de perplexidade. Nos meus tenros 16 anos não compreendia como é que uma mãe e um pai deixavam um jovem com carências extremas ir assim para a escola. Não compreendia também que mal tinha feito aquela criatura para viver assim, para morrer assim.

Decidi tomar uma atitude de homenzinho. Fui durante várias disciplinas colega de carteira do Zé António. Eu e o Marcos, colega que já não vejo há anos. Eu e o Marcos eramos as mãos do Zé António, o cérebro do Zé António, os olhos e os ouvidos do Zé António. Eramos nós quem apontavamos a matéria nos seus livros, quem lhe virava as páginas dos manuais, quem explicava uma palavra ao Zé António quando ele não lhe percepcionava o léxico. Eramos nós que brincavamos com o Zé António. Eu, com a cara feia que Zeus me deu, fazia macacadas para ele se rir, fazia-lhe os resumos das vitórias do nosso Sporting, oferecia-lhe posters do Hugo Viana, do Carlos Martins, do Cristiano Ronaldo (em Manchester) do Niculae e do João Moutinho. Ofereci-lhe um dos meus cachecóis do Sporting quando me despedi dele pela última vez, já em Setembro, prontinho para iniciar a minha aventura pelo Ensino Superior. Eramos nós quem tiravamos o Zé António da carrinha da IPSS que o levava à escola e quem o metia dentro da mesma carrinha no final das aulas. Eramos nós que muitas vezes lhe dávamos a comida na boca na cantina. Fomos nós que estivemos tardes inteiras a falar com ele para ver se o carolo passava ao exame nacional de história, disciplina em que teve um fantástico 12 na prova final.

Nunca mais me esquecerei do Zé António. Sei que é vivo e sei que mora num lar de idosos. Mas nunca mais o vi desde então.

O Zé António deu-me a prova que somos homens de carne e osso e que somos todos iguais. O Zé António deu-me a prova viva que um homem não se mede pelo seu estatuto social. Não existem estatutos sociais. Existem Homens e homens.

Esta medida do Ministério é ridícula.

Se vamos neutralizar todas as incapacidades mais vale que o surdo comece a ser abandonado no ensino daqueles que ouvem. Que o cego aprenda a ler pelos livros normais e não pelos livros em braille. Que o disléxico continue a escrever da direita para a esquerda. Que o paraplégico e o tetraplégico leve falta de material nas aulas de Educação Física quando não puder correr. Que os miúdos portadores de trissomia 21 aprendam que D. Afonso Henriques criou esta nação através do gesto de uma espada. E por aí além.

No fim desta storyline, não sei quem é mais atrasado mental: se os pobres coitados cuja vida lhes ceifou uma vida normal, se os ditos pedagogos do Ministério.

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2 thoughts on “Insensibilidades (Escolares)

  1. lax meque diz:

    Estou a gostar de ver

  2. […] Faz-me lembrar um bocado o meu caso no secundário com o Zé António, caso que aqui escrevi no pass… […]

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