A difícil sobrevivência da UC

O Magnífico Reitor João Gabriel Silva é daquelas personalidades que primeiro se estranha e depois se entranha.

Aquando do processo eleitoral que opôs o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologias à Dra. Cristina Robalo Cordeiro, a imagem que passou para os estudantes do Dr. João Gabriel Silva foi a de um profissional severo e de um homem implacável (entendido negativamente) nas suas acções. Já a Dra. Cristina Robalo Cordeiro era efectivamente vista como a candidata da continuação, não tivesse feito parte da equipa reitoral do Dr. Fernando Seabra Santos. Negativamente, a Dra. Cristina Robalo Cordeiro era tida em conta como mais do mesmo daquilo que tinha sido o tónico da “governação” Seabra Santos: uma enorme passividade perante os cortes efectuados pela tutela no ensino superior; uma enorme passividade em relação às linhas mestras ao nível de políticas educativas na UC; um desprendimento enorme na relação com os estudantes e com as suas instituições;

De facto, o Dr. João Gabriel Silva mostrou-se implacável. Implacável contra aquilo que a tutela e a Direcção-Geral do Ensino Superior estão a fazer ao estabelecimento de ensino superior onde é reitor. Daí que a sua postura, comportamento, humildade e acções se tenham feito entranhar em mim, provocando a minha simpatia e admiração.

A primeira declaração pública que fez no cargo na sua tomada de posse avisava a comunidade docente e estudantil para as dificuldades que a Universidade de Coimbra deverá passar nos próximos anos. Perante tais dificuldades, o Magnífico Reitor sempre afirmou que se dependesse da sua figura institucional, a UC nunca iria desistir ou deixar-se abater pelas dificuldades. Ainda há alguns dias atrás, o Dr. João Gabriel Silva reiterou que não irá cair face ao estrangulamento que Lisboa está a levar a cabo na UC.

“Quintal de Nabiças ou não”, o Dr. João Gabriel Silva fez questão de lembrar há uns meses atrás que a UC está numa situação insustentável. O estado, com base na sua tecnocracia exacerbada, fez questão de opinar publicamente que a UC é uma instituição de ensino que dá lucro ao estado português. Sim, lucro. Isto porque segundo os cálculos da tutela, a Universidade de Coimbra paga mais de impostos anualmente do que aquilo que recebe em virtude do seu financiamento. Nessas declarações, o Dr. João Gabriel Silva chocou a comunidade coimbrã ao afirmar que nestes moldes de financiamento e nas limitações que a tutela impõe à gestão da UC (chegando inclusivamente a impossibilitar a utilização de uma percentagem do orçamento da instituição) a secular universidade corria um enorme risco de fechar portas em 2013 ou 2014. Nada mais assertivo se assim continuar o desinvestimento no financiamento da universidade.

O estrangulamento financeiro da UC não levou o reitor a afirmar que a subida das propinas pudesse estar em discussão. O Dr. João Gabriel Silva foi peremptório ao afirmar que no próximo ano lectivo, as propinas não irão subir por iniciativa interna. O Magnífico Reitor não quis porém dizer que as propinas de facto subam porque vão subir. A questão é que irão subir devido ao indexante à inflacção de 3,5% do ano civil 2011, aumento legal que será de 30 euros em relação ao actual valor praticado pela UC.

Tomando de encontro uma enorme necessidade de financiamento de novos instrumentos financeiros da UC, como é o caso do fundo de apoio social e do fundo de emergência da UC, o Magnífico Reitor participou numa reunião ao nível do Conselho de Reitores que decretou a possibilidade de um aumento das propinas em 30 euros em todos os estabelecimentos de ensino a nível nacional que vão de encontro a necessidade de  servir de apoio para a dotação em todos esses estabelecimentos de algo que neste momento só a UC é dotada: o tal fundo de emergência social.

Para que é que serve o  dito fundo? Serve essencialmente para acautelar que nenhum estudante abandone o ensino superior por  carência económica, mesmo que essas carências (devidamente comprovadas) se dêem a meio do ano lectivo. Comprovadamente, o estudante poderá receber 1 ou 2 tranches no valor de 396 euros para fazer face a despesas inadiáveis que necessite num curto espaço de tempo. Não é uma ajuda a meu ver que seja viável para resolver a permanência do estudante durante todo o ano lectivo (792 euros são uma infima migalha daquilo que um estudante gasta em média num ano lectivo no ensino superior) mas no entanto, esse fundo é melhor que nada para aqueles que a meio de um ano lectivo estão com a “corda ao pescoço” por falta de meios financeiros para fazer face às suas despesas.

No entanto, essa possibilidade de aumento em 30 euros foi de facto muito mal comunicada pelo Conselho de Reitores. Não se trata de um aumento extraordinário  aos 30 euros da indexação à inflacção legal mas sim da utilização desses mesmos 30 euros para a criação desse fundo de emergência social, fundo que na UC passaria dos actuais 200 mil euros anuais para os 600 mil euros anuais pelas minhas contas.

Propostas em cima da mesa que no futuro terão um desfecho positivo ou negativo.

Pelo meio de todas estas declarações e de toda esta realidade, acredito perfeitamente que o Magnífico Reitor ouse sonhar com um estabelecimento de ensino arejado do ponto de vista financeiro, onde nenhuma faculdade que apresente saldos anuais de balanço positivos tenha a necessidade de prestar auxílio económico com empréstimos a outras que acabem anos com saldos negativos. Acredito perfeitamente que o Magnífico Reitor ouse sonhar com uma UC dotada de um valor superior de financiamento daquele que actualmente é dotada. Acredito perfeitamente que o Magnífico Reitor, ao contrário do que é dito por muita gente (existe aí um boato pela comunidade estudantil que o acusa do fecho das cantinas ao fim-de-semana) gostasse que os serviços oferecidos pela Universidade funcionassem sem restriçoes orçamentais e de forma eficiente. Acredito perfeitamente que o Magnífico Reitor ouse imaginar um ano lectivo sem um único abandono na UC. A realidade promovida pelas sucessivas tutelas não têm acalentado esse sonho e tais imaginações.

Ainda por mais, ouvi rumores que na Acção Social o Magnífico Reitor está completamente descontente com a actuação promovida pelos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, serviços esses cuja remodelação já se está a processar e cujos resultados finais serão divulgados a tempo certo.

Segundo apurei junto de algumas pessoas, está em curso uma remodelação que irá determinar o despedimento do actual administrador Jorge Gouveia Monteiro e irá conduzir ao lugar uma nova profissional. Pessoalmente e com todo o respeito pelo Dr. Jorge Gouveia Monteiro, já não era sem tempo. Digo isto por uma simples razão: conhecendo os SASUC como tão bem conheço já é tempo de por fim a uma exacerbada burocratização, insensibilidade e até desumanidade daqueles serviços. Não digo que o Dr. Jorge Gouveia Monteiro seja o responsável exclusivo pelos 3 factores negativos que enuncio nas anteriores linhas porque não o é. Existem pessoas dentro dos referidos serviços que pautam por uma postura profissional e até pessoal que roça a insensibilidade social e a desumanidade.

Conhecendo os SASUC como bem conheço, alguns desses profissionais tornaram-se maus a partir do momento em que viram-se de rédea solta com o fim da era Luzio Vaz. Porque (desculpem-me as maiúsculas; emociono-me quando falo do Dr. Luzio Vaz) ANTÓNIO LUZIO VAZ PARA ALÉM UM GRANDE ADMINISTRADOR DOS SASUC E DE UM GRANDE AMIGO DOS ESTUDANTES ERA SEM MARGEM PARA DÚVIDAS UM GRANDE, GRANDE SER HUMANO.

SASUC à parte, o Dr. João Gabriel Silva causa-me profunda admiração. Primeiro porque está a lutar contra as imposições nefastas que Lisboa delibera contra a instituição que dirige. Segundo porque têm como elo de ligação à comunidade estudantil o facto de estar a lutar pela sobrevivência do ensino superior. Terceiro porque é capaz de publicamente expressar a sua indignação contra aquilo que estão a fazer à mesma instituição. O Dr. João Gabriel Silva está a jogar o jogo de acordo com as armas que lhe dão. E está a fazê-lo com determinação e com bravura.

Como tal, merece a minha óbvia admiração.

 

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One thought on “A difícil sobrevivência da UC

  1. […] Magnífico Reitor João Gabriel Silva, o meu reitor (explico o porquê aqui) voltou a soar o botão de alarme no que diz respeito à sobrevivência da instituição […]

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