confusões (do futebol português)

Em 1997, os grandes clubes do futebol português de então acharam por bem retirar os ditos campeonatos profissionais da mão da Federação e modernizar toda a linha do futebol português com vista à criação de uma liga de clubes, que visava, como vigorava nas modificações feitas em vários organismos de outras ligas com maior poderio no futebol europeu, gerir os ditos campeonatos.

Com a mudança dos tempos e acarretando uma maior necessidade de profissionalização, determinados clubes lançaram-se imediatamente na constituição de Sociedades Anónimas Desportivas. As dos 3 grandes foram imediatamente cotadas em bolsa, dada a necessidade crescente de entrada de novos capitais nas suas gestões de modo a alimentar as suas enormes máquinas burocráticas e reduzir possíveis passivos de caixa das suas tesourarias em determinados momentos, assim, como linearmente, executarem truques de transferências de passivos e activos do clube das sociedades para os clubes e vice-versa.

A Liga, em 1997, ainda era jogada a 18. Muitos consideravam que se deveria diminuir o número de clubes para 16 por uma questão de espectacularidade e competitividade. Outros, consideravam que os 18 até deveriam ser alargados a 20, para que determinados clubes menos favorecidos pudessem usufruir de mais receitas.

Dos 18, passamos a 16 na época 2006\2007.

Como a FIFA e a UEFA não reconhecem como afiliadas as ligas de clubes e apenas as federações, os grandes campeonatos europeus (exceptuando a Inglaterra onde a FA sempre mandou nas competições) regrediram nestas evoluções traçadas nos anos 90 com um recúo do domínio das ligas em prol de um novo domínio das federações.

Como a FPF passou por um intenso celeuma nos últimos anos com a aprovação dos seus estatutos e regime jurídico, em Portugal, esta regressão foi tardia até ao momento em que Fernando Gomes, anterior presidente da Liga, para continuar a mandar no futebol português, saiu da Liga (que será praticamente exonerada dentro de anos) para a FPF.

Pelo meio, criou-se uma competição sem pés nem cabeça e muito menos competitividade e cariz distributor de dinheiro entre os clubes: a Taça da Liga.

Voltaremos, segundo dizem, ao modelo de 18 clubes + 22 na Liga Orangina na próxima época. Isso indica que este ano poderão não existir despromoções na principal liga do nosso país. No entanto coloca-se um problema: o que fazer se o Boavista obtiver razão na relação e no supremo tribunal de justiça?

Depois de vários anos em lutas judiciais graças à injusta despromoção na época 2005\2006, o Boavista de Álvaro Braga Júnior obteve razão na 1ª instância, tendo sido encaminhado o processo para a relação. Dúvido, conhecendo o caso, que a relação se pronuncie desfavoravelmente quanto às pretensões do clube do Bessa: voltar automaticamente à 1ª liga com o pagamento de uma indeminização que poderá ser superior a 25 milhões de euros pelos danos financeiros causados no clube ao longo destes anos em que o Boavista esteve arredado do principal escalão do futebol português.

Nessa situação, o Boavista poderá fazer com que 1 equipa desça da 1ª para a 2ª liga ou poderá impedir a subida de um da 2ª liga para a 1ª.

O futebol português não consegue, ao nível de clubes, manter uma linearidade. Nem consegue o futebol português nem a justiça portuguesa. Volto a 2006: em Itália, Luciano Moggi (antigo dirigente da Juventus) assim como outros dirigentes da Juventus e outros dirigentes de clubes como o Milan, a Lazio e a Fiorentina apareceram envolvidos no escândalo do Calciocaos. Alegados subornos a arbitros, jogadores e pagamentos feitos por casas de apostas a jogadores dos ditos clubes para viciar partidas em prol de um resultado que garantisse um enorme lucro para as ditas casas foram provados em tribunal em processos que duraram meia dúzia de meses. Moggi foi preso e impedido de exercer uma profissão ligada ao futebol durante 4 anos. A Juve perdeu os títulos de 2005 e 2006. A Lazio perdeu 12 pontos, a Fiorentina 9, o Milan 6.

O processo do Boavista arrasta-se vão fazer 6 anos.

Antes do Boavista, já o Gil Vicente tinha sido despromovido por causa ainda mais estúpida, fazendo utilizar um jogador contra uma regra que impede que um jogador amador assine um contrato profissional a meio da época. Falamos do caso Mateus. O Gil perderia razão ao avançar para os tribunais civis, facto que tanto a Liga como a FPF punem arduamente nos seus estatutos e condições de participação nos campeonatos profissionais.

Em Itália, antes do Calciocaos assistiram-se a duas situações: a primeira, em que a Fiorentina, banhada num passivo que em 2002 rondava os 250 milhões de euros tornou-se insolvente. A Fiorentina não tinha condições para exercer o dever de pagar os impostos que vinha acumulando ao estado italiano e os descontos dos seus atletas. Como tal, acabou por pedir insolvência, caíndo para a 4ª divisão italiana. Os Della Valle (familia proprietária da equipa viola) optaram por outra solução, extinguindo o nome do clube e começando outro do zero com outro nome mas com o mesmo símbolo, estádio e até com alguns resistentes da extinta Fiorentina como Torricelli e Angelo Di Livio. Patranhas à parte, a Fiorentina voltaria 2 anos depois ao principal escalão italiano, visto que tinha subido à 3ª divisão e depois à 2ª, sendo convidado a participar nessa época na primeira em troca com o Torino por causa de dívidas fiscais.

Em Itália, apesar da rectidão de algumas decisões dos tribunais e até da própria administração da Serie A, outros factores complicaram a justiça no futebol.

O Torino é o segundo exemplo. Em 2004\2005, o clube de Turim foi impedido de subir de divisão pelas ditas dívidas ao fisco. Subiu a Fiorentina por sua vez a convite da Liga.

Inglaterra tem dois casos mais crassos de má intervenção jurídica no futebol: o Chelsea de Roman Abrahamovic e na altura de José Mourinho esteve envolvido em duas polémicas.

A primeira quando aliciaram o olheiro do Tottenham Frank Arnesen a assumir o controlo do scouting dos Blues, facto que motivou o milionário Russo a dispender 15 milhões de indeminização ao Tottenham num acordo de cavalheiros para que os Spurs não processassem os Blues na justiça. Foram 5 milhões por cada ponto que o Chelsea poderia perder com o acto.

O segundo quando John Obi Mikel, na altura jogador do Lyn Oslo, assinou primeiro com o Manchester United e depois com o Chelsea, comprometendo-se com as duas equipas formalmente. O dinheiro falou mais alto e o Chelsea deu 15 milhões ao United, 5 milhões por cada ponto que poderia perder na justiça desportiva da FA.

Já o Portsmouth, insolvente e com dívidas ao fisco, começou a Championship da época transacta com menos 15 pontos depois de ter sido despromovido (dentro das 4 linhas) da Premier. O Leeds levou semelhante pena quando foi despromovido pela FA para a 3ª divisão há uns anos atrás.

Quem não se lembra por exemplo aquilo que fizeram a Farense, Campomaiorense e Boavista? Quem não se lembra por exemplo que nos anos 90, Benfica, Sporting e Porto também acumulavam dívidas ao fisco, saíndo completamente impunes ao nível desportivo do acto? Quem não se lembra do Sporting de João Rocha e Sousa Cinta ou do Benfica da Operação Coração ou do Porto da retrete de catroga e das Antas penhoradas?

Para finalizar, ainda a propósito das SAD. O Benfica, estatutariamente, não permite que um estrangeiro possua mais do que 49% de acções da sua SAD. A lei de constituição e participação social das SAD mudou e já permite que uma entidade que não o clube possua mais que 50% das acções da sua SAD e que um estrangeiro possua mais do que 33,3% das participações sociais. Dá-se por exemplo o Beira-Mar, onde o iraniano Majid Pishyar é dono de 85% das SAD dos clubes. Não é um bom exemplo do ponto de vista financeiro para o clube de Aveiro (nos próximos dias perceberão porquê) mas é a prova viva de que o futebol português já se moldou à exigência de entrada de petrodolares nos seus cofres para sanear as perturbadas contas dos clubes de 1ª liga. Um pouco à tendência do que é praticado em Inglaterra, Itália, França, Russia e Espanha nos últimos anos.

Onde é que quero chegar com isto tudo?

À não criação de modelos competitivos uniformes. As trocas e baldrocas são mais que muitas.

À não adequação das necessidades do futebol em relação às necessidades de investimento.

À proibição dos tribunais civis serem intrometidos em lutas de bastidores que precisam de ser resolvidas rapidamente por questões de segurança e calendarização das competições.

À diferença barbara entre o futebol português e outras ligas da europa.

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5 thoughts on “confusões (do futebol português)

  1. Carlos Pires diz:

    Texto confuso;
    Ideias semeadas no meio dos textos;
    Sem conclusão – a favor do alargamento ? Contra ? E porquê ? (em qualquer dos casos).

  2. Respondendo às perguntas que lançou:

    Contra o alargamento. O futebol português deverá definitivamente uniformizar o seu calendário e a sua direcção a todos os níveis, ou seja, estabelecer quem decide, quantas competições existem, quantas equipas jogam e como se processam as competições.

    A meu ver, a Taça da Liga foi um erro e não beneficiou ninguém tanto do ponto de vista desportivo (era pensada para colmatar um gap competitivo na altura das festas e acabou a ser usada para rodagem de jogadores pelas equipas mais fortes; foi estruturada de acordo para que as equipas mais fortes estejam de caras nas meias-finais, o que não veio a acontecer este ano com o Sporting; não tem igualdade ao nível de oportunidades, senão vejamos o que tem que fazer uma equipa que seja promovida á Liga Orangina numa dada época para chegar às meias-finais por exemplo) como do ponto de vista financeiro, em que os prémios não se tornaram apelativos e em que as equipas mais pequenas ficam sempre com as migalhas dos finalistas.
    É uma competição oca, desfasada e que não arrasta pessoas aos estádios (exceptuando jogos grandes).

    Contra o alargamento a 18. Voltamos ao passado. Voltamos a um campeonato desfasado entre o 5º e o 15º lugar. Voltam a subir as ditas equipas de bairro com orçamentos muito superiores aqueles que podem na verdade ter para disputar a competição. Voltamos a desmembrar tudo o que foi construído no passado (a diminuição para 16) para daqui a 4 ou 5 anos talvez se voltar a apostar num modelo de 16 equipas. Voltam os campeonatos em que decidido o campeão à 28ª jornada, teremos 6 jornadas com pouco ou nenhum interesse.

    Contra o alargamento a 22 na Liga Orangina. As equipas B até podem beneficiar em muito os grandes. Com equipas na Oragina deixarão de ter que emprestar para fazerem rodar os elementos saídos das suas canteras. No entanto, as equipas que os costumam receber da 1ª e da 2ª Liga ficarão a perder e muito pois contam época após época com esses empréstimos. Se esses jogadores ficarem nas equipas B, creio que será maior o número de jogadores estrangeiros que as restantes equipas profissionais irão contratar. Com esta medida preserva-se no entanto uma necessidade do futebol português: a formação.

  3. Márcio Cabral diz:

    Sinceramente, às vezes, num dia mau, lembro daquelas linhas de filme americano:

    “Kill’em all – let God sort them out!”

    Para que #$%&/() precisamos nós de 10 estádios para fazer um europeu, quase todos sem sequer capacidade para ser usados para outra coisa?

    Para que &/()=#$”#$% precisamos nós de 2 clubes em aldeiazinhas de merda com menos de 2000 habitantes, ou, como às vezes acontece, quase duas dúzias de clubes por concelho?!?!?

    Para que “#$%(/& é que se deixa que os clubes portugueses tenham 80% de estrangeiros no plantes – senão para ganhar no curto prazo?!?

    E, já agora, se todos nós e o nosso Estado temos de pagar impostos com duras penalizações, porque $%&%$# é que os clubes podem ficar ANOS sem pagar o que devem!?!??!?!

    Desculpa o desabafo, mas esta situação irrita-me soberanamente, até porque, desde 2004, os maiores feitos de Portugal enquanto selecção NÃO foram no futebol.

    Há VÁRIOS campeões mundiais em Portugal que se não tivessem corrido meio Mundo para encontrar patrocínios não teriam dinheiro para participar nos primeiros torneios.

    Começo a estar farto de futebol. Farto de dizerem que o Barcelona é a melhor equipa do Mundo quando joga metade do jogo um anti-jogo e depois destrói COMPLETAMENTE o adversário com posse de bola, técnica, drible e remate, numa questão de minutos.

    Estou farto de acharem que o Messi é mais do que um jogador EXCEPCIONAL, sim, mas numa equipa de eleição que coloca tudo ao seu dispor para dar o máximo rendimento, com um orçamento que, atendendo à situação actual da UE, é criminoso (idem para o Real Madrid e muitas outras equipas inglesas e italianas aí). Se juntássemos todas as receitas publicitárias dos jogadores (nem falo de salários!) talvez desse para pagar alguns juros da troika…

    Aliás, estou farto de só se lembrarem de grandes futebolistas depois de eles pendurarem as chuteiras quando eles morrem, muitas vezes na miséria!!! Eles jogavam mais do que a maioria dos actuais sem ganharem nem um milésimo do que os de hoje ganham… e sem tantos discursos bacocos.

    Estou farto de treinadores palermas que se queixam do árbitro sempre que perdem e não têm o fair play de admitir “os outros estavam melhor hoje (por isto ou aquilo, vá; sabe-se que eles gostam de se justificar com lesões ou cansaço) – ganharam justamente!”. E quem diz treinadores diz dirigentes que acham que sabem alguma coisa de futebol sem nunca colocar o pé na relva…

    Também farto estou da “#$%& corrupção na arbitragem e Liga Portuguesa de Futebol, que me envergonha enquanto português!

    Estou farto, SOBRETUDO, de se achar que o amor à camisola é uma coisa do passado, que é anacrónico, que nós decidimos quando vamos à selecção e não o contrário como sempre foi em grande medida até há não muito tempo atrás, de jogadas de clubes que simulam lesões antes de treinos da selecção – aliás, nem de longe nem de perto os treinos suficientes – e de abandono da selecção de jogadores ESSENCIAIS para o balneário quando ainda podiam dar mais uma competição e fazer bases para algo novo.

    Finalmente, e talvez seja a isto que eu queria chegar mesmo sem me aperceber, estou farto, furioso, indignado, revoltado, frustrado, triste, desapontado por tudo o que eu disse acima contribuir para que eu nunca cumprisse um sonho de criança – ver Portugal como campeão, senão da Mundo, da Europa, e chorar, gritar pela vizinhança, celebrar e entoar, enquanto passa a altos berros no estádio, a “We are the Champions” dos Queen :’-(

    • Mais uma vez creio que fugiste ao tema central para discussão.

      No entanto passo a responder às tuas perguntas:

      Não precisamos de tantos estádios, nem precisamos de ter tanta desfragmentação ao nível de clubes de futebol. Os estádios como sabes ficam inutilizáveis e o facto de existirem dezenas de clubes e associações por concelhos acabam por fazer com que as câmaras municipais tenham que distribuir orçamentos à mingua por cada um deles, facto que a meu ver provoca que nenhum acabe por fazer alguma coisa de jeito e que poderia, com outra união numa única agremiação fazer do que é pequeno grande e do que faz pouco muito.

      Tocas aí no ponto formação. É claramente um ponto sensível do nosso futebol. Existem muitos talentos escondidos do futebol português nas divisões inferiores. O problema é quando os principais emblemas do nosso futebol optam por cair no engodo daqueles (empresários) que colocam mil e um estrangeiros no nosso país, pressupostamente a preços de saldos. Penso que cada vez mais, pertence a obrigação à Federação de legislar a favor da formação. Como? Criando regras que obriguem os clubesa utilizar um número mínimo de atletas da sua formação nas suas competições. Por outro lado, aparece-me a ideia de que o futebol, visto do prisma industrial e empresarial, dá aos clubes um poder discrionário de optar pelas melhores soluções no plano desportivo e económico. No meio disto tudo, aqueles que perdem são os bons jogadores de formação nacional que andam aí aos caídos pelas divisões inferiores quando até tinham talento para jogar nas equipas da 1ª liga e não jogam, porque essa equipa é maioritariamente composta por estrangeiros, por vezes estrangeiros de qualidade muito duvidosa.

      Tocas aí no financiamento desportivo de alta-competição. Infelizmente é o país que temos. Países como a Bélgica e como a Holanda, com menos território e com semelhantes números populacionais ao nosso país, conseguiram investir muito mais na prática desportiva de alta-competição que nós. Daí que a quantidade de medalhados europeus, mundiais e olímpicos sejam 100 vezes maior que a do nosso país. Volto a frisar que é o país que temos.

      “Começo a estar farto de futebol. Farto de dizerem que o Barcelona é a melhor equipa do Mundo quando joga metade do jogo um anti-jogo e depois destrói COMPLETAMENTE o adversário com posse de bola, técnica, drible e remate, numa questão de minutos.” – não digas isso porque o futebol é isso mesmo: uma questão de táctica e estratégia. E mérito. E o Barcelona tem esse mérito.

      “Estou farto de acharem que o Messi é mais do que um jogador EXCEPCIONAL, sim, mas numa equipa de eleição que coloca tudo ao seu dispor para dar o máximo rendimento, com um orçamento que, atendendo à situação actual da UE, é criminoso (idem para o Real Madrid e muitas outras equipas inglesas e italianas aí). Se juntássemos todas as receitas publicitárias dos jogadores (nem falo de salários!) talvez desse para pagar alguns juros da troika…” – concordo.

      De resto concordo quase totalmente.

  4. Márcio Cabral diz:

    Admito que a raiva que senti na altura não ajudou ao enfoque…

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